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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Calma.

Bruno, és tu que me vais explicar isto.

Eu é que vou corrigir.

Tu é que vais corrigir. O que se passa com a correção dos exames?

Parece que os exames estão a dar muito trabalho, mas depois de terem sido realizados. Não foi muito trabalho aos alunos, parece que é agora que dá mais trabalho. Este ano, as provas de acesso ao ensino superior continuam a ser realizadas em papel, a correção é que passou a ser digital e com isso vieram alguns problemas ligeiros. Professores convocados para corrigir disciplinas erradas, não as deles, dificuldades de acesso à plataforma e até códigos QR que ficaram parcialmente tapados, porque algumas escolas agrafaram as folhas no sítio menos indicado. Acontece. O ministro da Educação, Fernando Alexandre, garante, ainda assim, que tudo continua dentro dos prazos, que nenhum aluno será prejudicado. Também anunciou uma nova auditoria ao processo, o que significa que se calhar não está mesmo a correr muito bem. Fernando Alexandre, que é talvez o ministro mais popular do governo, está a tropeçar claramente nas avaliações e até já José Luís Carneiro aproveitou para exigir explicações ao governo. Explicações políticas, não é daquelas explicações que servem para preparar os exames.

Muito bem. Paulo, como partir de uma solução e criar um problema?

Ainda estamos a falar dos exames? Não.

Parece que não, mas é uma coisa muito portuguesa, não é?

Isso é muito simples. Isto vai lá em dois passos. Passo um é pegar na organização do espaço nas praias que têm concessões, que era um assunto que estava devidamente definido e estava consolidado, não havia dúvidas sobre isso. Pega-se nisso e alerta-se todo o país: "Atenção, agora podem colocar o guarda-sol onde quiserem, incluindo nas zonas concessionadas." No passo dois, passamos a registar os pequenos conflitos nas praias, que passaram a ocorrer, obviamente, porque há sempre cidadãos que fazem mesmo questão de utilizar os seus direitos em toda a extensão do areal. E a partir daí temos uma pequena guerra civil montada nas praias aqui e ali. Nós tínhamos uma solução que funcionava e passámos a ter um problema à espera de uma nova solução. E essa solução chegou ontem. O ministro do Ambiente anunciou que as zonas de concessões e as faixas de segurança nas praias devem estar agora bem sinalizadas à entrada e pede aos autarcas que coloquem mapas com indicações dessas zonas o mais rapidamente possível. Lá vão todos ter que fazer mapas para cada praia, que no fundo vão ter as informações, esses mapas, que até agora eram dadas por aquelas placas a indicar as várias zonas, tipo vá para a direita se quer o guarda-sol, zona concessionada à esquerda e por aí fora. E assim andamos, a brincar aos guarda-sóis e aos mapas nas praias agora.

Muito bem. Podemos chamar-lhe a guerra da sombrinha.

Exato.

Olha, e Bruno, continua a saga dos utentes sem médico de família.

Continua, eu tenho trazido isto praticamente todos os meses e todos os meses há aumentos e todos os meses há novos recordes. Desta vez o aumento a nível nacional foi de 20 mil utentes, mais 20 mil utentes sem médico de família, isto segundo os dados do portal da transparência do SNS. E sem surpresa, a região com piores números é de Lisboa e Vale do Tejo, que bateu o seu próprio recorde. 29,7% da população desta região não tem médico de família. São 1.165.496 utentes para um total nacional de 1.666.823 utentes sem médicos de família. Noutras regiões as coisas também não estão muito melhor. No Alentejo também se bateu neste mês o recorde de utentes sem médico de família. E há aqui outro dado preocupante, é que se tem registado uma quebra nos utentes com médico de família. Ou seja, o aumento do número de inscritos no SNS não explica tudo, porque os números dizem que há portugueses que tinham médico de família e que agora não têm. Eu, se fosse de apostas, apostava já que no próximo mês os números ainda vão ser piores. Mas há um lado positivo nisto tudo, e eu devo sublinhá-lo, é que pelo menos temos acesso aos números. Todos os meses os números são publicados, são divulgados pelo portal da transparência, por isso é que estamos aqui a falar desses números. Ao menos isso, que haja transparência.

Sempre a ver o copo meio cheio, Bruno. Paulo, estamos preparados para o embate que a IA já está a ter nalgumas tarefas?

Não, não estamos. Pior ainda, eu acho que nem sabemos que não estamos preparados. A inteligência artificial aí está, é cada vez mais utilizada por cada vez mais pessoas, no dia a dia ou para tarefas mais complexas. E além dos riscos que tem, obviamente, também tem vantagens óbvias. E ontem o economista-chefe da OpenAI, que divulgou alguns dados, já agora a OpenAI foi a criadora ou é a criadora do ChatGPT, a plataforma que democratizou no fundo o acesso às ferramentas de inteligência artificial ali por alturas de 2022, 2023. E, portanto, ele sabe do que fala. O economista-chefe diz que a inteligência artificial já supera os humanos em 80% das tarefas cumpridas por trabalhadores, os chamados trabalhadores de colarinho branco. Isto é, tarefas de escritório, administrativas, tarefas rotineiras que têm a ver com tratamento de dados, texto por aí fora. Há dois anos, este número estava em 50%. Portanto, em dois anos passou de 50% para 80% as tais tarefas cumpridas melhor pela inteligência artificial. Portanto, muitos empregos e tarefas de escritório têm agora candidatos mais bem preparados do que os humanos e isto pode correr mal se não fizermos todos pela vida, de alguma maneira.

Isso. Paulo Ferreira e Bruno Vieira Amaral com o Ainda Bem Que Fazem Essa Pergunta.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.