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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.
Bruno, conta-nos tudo. Como é que estamos ao nível do ranking do radicalismo?
Ora, com a última atualização, Carla, temos uma mudança no topo do ranking. As lideranças do Bloco de Esquerda e PCP andam um bocadinho em baixo e Pedro Nuno Santos, aparentemente, continuava a ser o superradical de esquerda, o papão que a direita temia ou que usava como espantalho para assustar o povo. Mas tudo indica que, segundo dados do PSD, revelados ontem pelo líder da bancada parlamentar, José Luís Carneiro fez do PS um partido mais radical do que quando era liderado por Pedro Nuno Santos. Este é um jogo habitual, há vozes no PS que acusam o PSD de se ter juntado ao Chega e a resposta do governo é que foi o PS que se radicalizou. Resumindo, o mais radical é sempre o adversário de turno, é aquele que está lá.
Paulo, sobre deputados e o mundial, tudo está bem quando acaba bem?
Parece mesmo que é um assunto encerrado. A Federação Portuguesa de Futebol tinha convidado os líderes partidários e os líderes das bancadas parlamentares para irem assistir a jogos da seleção no mundial. Alguns começaram até por demonstrar disponibilidade, outros não, logo à partida, mas a polêmica estalou. Estalou porque há um regulamento que tem meia dúzia de anos que proíbe os detentores de altos cargos públicos de aceitarem ofertas a que seja atribuído um valor de €150. Mas neste caso, argumentou-se, o convite era um convite institucional e não era dirigido à pessoa A ou B. Mas tudo, de facto, está bem ou acaba bem, porque a pesada agenda parlamentar e política, afinal, não permite que haja tempo para atravessar o Atlântico para ir ver a seleção. Portanto, parece que o assunto morre aqui e nem precisa de interpretações mais ou menos criativas da lei para detetar essas vírgulas. E já agora, depois do jogo de ontem, os deputados devem estar agradecidos à polêmica, porque fazer 10+10, 20 horas para ver aquilo, ainda bem que ficaram.
Olha, e até por isso não vais mais longe, não te vais embora, Paulo. O que pode separar a euforia do desalento?
Se estivermos, de facto, a falar de Portugal e de futebol, o que separa uma coisa da outra podem ser os 90 minutos de um jogo. Ontem, às 18h, éramos os maiores, uma equipa feita dos melhores do mundo, uma maravilhosa seleção, o símbolo da fibra de ser português, a alma de ser português. E nestes três últimos casos, estou a citar o presidente da República. As marcas entraram na onda, entram sempre na onda. Neste caso, pediam que se traga a taça, que alegadamente nos falta, e canta-se: "Vamos fazer o que ainda não foi feito".
Com ou sem direitos de autor.
Exatamente, com ou sem direitos de autor. Essa é uma questão depois a ver com o Pedro Brilhosa. Noventa minutos de um jogo que se por ifer depois, passamos para o: "Eles não jogam nada, temos um conjunto de craques, mas não temos uma equipa, assim não vamos lá, mudem o treinador, isto é uma vergonha, que desilusão". E o capitão é o primeiro até a sair do relvado sem agradecer aos adeptos. Portanto, uma coisa e outra são manifestamente exageradas. Isto mostra que, de facto, somos muito bons no circo e naquele folclore, que é muitas vezes postício. Agora já fazer passar disso a resultados com consistência, isso já é mais difícil. Portanto, não há que dar de novo. A seleção é, de facto, espelho do país.
Bruno, então e os lares de idosos são depósitos de idosos?
Há diferenças, porque nós temos, na verdade, dois segmentos, acabam por ser quase dois segmentos, os lares de luxo, por um lado, e depois os lares de lixo. No último ano, a Segurança Social encerrou vários lares por falta de condições para acolher idosos, a uma média de 10 lares encerrados por mês. Alguns funcionavam sem licenciamento, outros tinham problemas de segurança, higiene ou até havia indícios de maus-tratos. A verdade é que ninguém coloca um familiar num lar destes, às vezes lares clandestinos, ou mesmo que sejam legais, sem grandes condições, por achar que é uma excelente ideia. Na maioria dos casos, é a solução encontrada quando as famílias não conseguem garantir cuidados permanentes, quando a dependência dos idosos aumenta bastante ou quando simplesmente já não existe uma alternativa viável. E quando os recursos são escassos e os apoios também, abre-se espaço para negócios, no mínimo, com poucos escrúpulos. E não é um problema que vá desaparecer nos próximos anos. Sabemos o envelhecimento da população portuguesa sugere mesmo que a tendência é para que tudo isto acabe por piorar.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.