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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

A voz de Marcelo Rebelo de Sousa está quase a deixar o cargo.

Vamos ter de mudar esta promo.

Pois temos. João, toma nota.

Isto é indicativo.

Toma nota. A presidência de Seguro tem pontos em comum com a de Soares, Bruno?

Eu estava ontem aqui a pensar no que António José Seguro tem em comum com outros presidentes, os presidentes que o antecederam, e a verdade é que tem alguns pontos em comum com as presidências de Mário Soares, a primeira presidência de Mário Soares. Falamos de antigos líderes do PS, claro, também Jorge Sampaio o foi, mas são os únicos que chegaram à presidência após uma segunda volta e que encontram no poder um governo minoritário do PSD. Em 1986, Mário Soares encontrou Cavaco e agora António José Seguro encontra Luís Montenegro. Também chegaram a Belém com idades semelhantes. Soares com 61, Seguro com 63, quase a fazer 64. Não são poucos os pontos em comum, mas também são muitas as diferenças, desde logo o trajeto político claramente definido pelas diferentes épocas em que viveram, mas também pelo facto de Mário Soares ter sido primeiro-ministro. Agora a grande questão é saber que papel será o de António José Seguro num quadro político, também ele com algumas semelhanças com o de 86, um PS combalido, uma terceira força política com peso nas contas parlamentares, apesar de agora o Chega ser a segunda força.

O outro era o PRD.

O outro era o PRD e era a terceira, mesmo assim não tinha ultrapassado o PS. Será Seguro o seguro de vida deste governo ou lançará o país para eleições à primeira oportunidade? Em 1987, a decisão de Mário Soares acabou por dar ao PSD a chance para a primeira de duas maiorias absolutas, mas os tempos também são outros, claro. Mesmo que algumas coincidências, como vimos, sugiram o contrário.

Então, Paulo, e vamos ter saudades de Marcelo?

Ainda é um bocadinho cedo para fazer o balanço, não é? Falta-nos o distanciamento, que muitas vezes é dado pelo tempo. Saudades de Marcelo estão, até certo ponto, também independentes daquilo que for António José Seguro como presidente. Pode nos fazer ter ou não mais saudades de Marcelo. De Marcelo, teremos certamente saudades de quê? Da informalidade, da proximidade, da popularidade, no fundo aquilo que fica representado simbolicamente pelas selfies. As selfies eram esse momento quase de partilha de popularidade com a população. Ainda gostava de saber qual é a percentagem de portugueses que tem uma selfie com o Marcelo, que aparece numa selfie com ele. Deve ser bastante. O que é que pode deixar menos saudades? E aqui depende já um bocadinho daquilo que é o julgamento político, daquilo que foi a ação política dele. Uma certa banalização do cargo, banalização das suas intervenções, porque falava sobre tudo e mais alguma coisa em qualquer momento. E com isto tudo, uma certa falta de autoridade e de sentido de ambição, da autoridade que deve estar inerente ao cargo e de sentido de ambição e de exigência para com os outros poderes. Daqui a 10 anos vamos voltar a olhar para trás para ver então se Marcelo Rebelo de Sousa nos deixou assim tantas saudades ou não.

Bruno, como é que se diz Ricardo Robles em linguagem do Chega?

Parece que é Mafalda Livermore. Parece que é assim que se diz. Em dezembro, Carlos Moedas nomeou esta militante do Chega para vogal do conselho de administração dos serviços sociais da autarquia, proposta pelo partido de André Ventura, mas uma reportagem da RTP revelou que Livermore é proprietária de vários imóveis com habitações clandestinas arrendadas a imigrantes e com as rendas a serem pagas a uma amiga, também ela militante do Chega, e o presidente da autarquia teve de a exonerar. André Ventura veio em socorro da militante, dizendo que foi ela a pedir a saída em nome da transparência e da integridade, dois valores que não foram lá muito respeitados aquando da entrada, sabendo-se que Mafalda Livermore mantém uma relação amorosa com o vereador eleito pelo Chega, Bruno Mascarenhas. Uns diriam que ninguém tem nada a ver com isso, mas a verdade é que quando se fala de transparência, é preciso ser transparente. Há uns anos, o bloquista Ricardo Robles, uma das grandes esperanças do partido, desapareceu do mapa depois de saber que tinha comprado um prédio na zona histórica de Lisboa e que o vendeu depois de poucos anos com uma mais-valia de cerca de € 4 milhões e cujos apartamentos teriam como finalidade o alojamento local. Robles era vereador, Livermore não é, mas de resto é mais um daqueles casos típicos de bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz.

Paulo, e precisamos de mais imigrantes para a construção?

Sim, precisamos claramente. São as empresas do setor que o dizem, pedem a vinda de mais trabalhadores de fora para as suas obras. O que nós temos na agenda neste momento? Temos a reconstrução dos danos provocados pelas tempestades, temos o esforço para construir mais casas, isto é esforço que já vem de trás, há muitos anos. São as obras públicas de grande dimensão que estão em curso ou que vão começar. Temos várias estradas em construção importantes, o TGV, o novo aeroporto, isto só para falar das maiores. De facto, nós podemos ter imigrantes a mais noutras áreas ou eventualmente até sem emprego, mas precisamos claramente de trabalhadores para a construção. Os que não gostam, que sejam frontais e que digam se as empresas devem parar e se as obras também devem ficar por fazer. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.