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Começa agora o novo América Dividida, hoje com a análise do especialista em Direito Internacional, Francisco Pereira Coutinho. Bom dia, Francisco, bem-vindo.

Bom dia.

Bom dia. Já vamos ao debate entre os candidatos a vice-presidente, mas antes, a escalada do conflito no Médio Oriente. Israel já retaliou depois do ataque de ontem do Irão, o líder supremo ameaça com golpes mais fortes e dolorosos, e Joe Biden diz que os Estados Unidos apoiam Israel e vão ajudar a defender-se. Francisco, a posição de Biden não favorece Trump?

A posição de Biden, neste momento, é muito complicada. Ele é um presidente a que os americanos chamam de "lame duck" e, portanto, não procurou a reeleição e neste momento está completamente nas mãos de Netanyahu. Neste momento é até um pouco complicado perceber onde está a superpotência e onde está o Estado cliente, porque os Estados Unidos tinham definido uma linha vermelha, que era a de que não queriam que Israel fizesse uma incursão terrestre no Líbano. Israel fê-lo, e aquilo que ouvimos por parte da administração americana é que apoiavam. Portanto, a ideia que todo este verão os americanos procuraram transmitir que era necessário um cessar-fogo em Gaza, que depois levaria a um cessar-fogo no sul do Líbano, foi completamente abandonada por Benjamin Netanyahu, e isto colocou, neste momento, esta administração americana completamente a reboque daquilo que vai sendo decidido por um governo de Israel, que é um governo que se identifica muito mais com o Donald Trump, é um governo de extrema-direita, e isto obviamente é muito problemático para Joe Biden, cuja reputação internacional neste momento está muito abalada. Além de que, e ouvimos isto ontem no debate, começamos por aqui, Trump no fundo diz: "Quando eu estive no poder, durante aqueles quatro anos, não tivemos guerras". E aquilo que estamos neste momento a observar é um agravar do conflito no Médio Oriente, ao mesmo tempo que o conflito na Ucrânia não dá nenhum sinal de que venha a ter qualquer tipo de resolução a curto prazo. Portanto, de facto, Joe Biden, apesar da responsabilidade não ser dele propriamente, mas factualmente é que estamos numa situação, neste momento, nas relações internacionais, dramática. E isto obviamente não favorece os democratas neste momento concreto.

E Francisco, para a campanha, qual é a importância, o papel da grande comunidade judaica nos Estados Unidos face aos acontecimentos e à posição do atual governo?

A comunidade judaica tende a votar nos democratas. O principal líder judeu-americano é Schumer, que é o líder dos democratas no Senado. Agora, Donald Trump tem tentado instrumentalizar esta discussão dizendo que nem concebe como é que um judeu poderá votar nos democratas desta vez. E isto também é factual. De facto, Trump, no seu mandato, teve uma política que se aproximou muito dos interesses deste governo de Israel. Por exemplo, ele mudou a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, que foi uma coisa que nenhuma administração americana tinha feito no passado, e que Joe Biden não teve coragem de reverter. Uma vez feito, ficou feito. Por outro lado, numa típica decisão trumpiana, colocou o seu genro Kushner a tratar de encontrar um plano para o Médio Oriente que iria resolver os conflitos do Médio Oriente. Claro que era um plano ridículo, que os palestinos imediatamente recusaram, mas era um plano que favorecia as ideias expansionistas de Israel. Portanto, objetivamente, teve uma política externa muito alinhada com os interesses da extrema-direita israelita, e ele tenta vender muito essa ideia. Claro que ele depois zangou-se com Netanyahu, porque Netanyahu fez algo que ele considerou ofensivo, que foi reconhecer Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, como se Netanyahu não pudesse fazer outra coisa, porque estiveram sem falar durante algum tempo, mas vimos recentemente Netanyahu ir aos Estados Unidos para falar ao Congresso e foi visitar Mar-a-Lago, e aparentemente já restabeleceram relações. Portanto, tudo indica que se Trump for reeleito, voltaremos a ter uma ligação muito forte entre estes dois homens fortes, e percebe-se que Biden e Netanyahu não tinham a mesma ligação pessoal que Trump chegou a ter com Netanyahu. E nesse sentido, qual é o efeito de tudo isto? Vamos ver se aquilo que Trump diz, se haverá muitos judeus americanos muito nacionalistas que vão votar em Trump por causa disto. O problema para os democratas não é bem este. O problema para os democratas estará no Midwest, naquela comunidade de palestinos americanos. Os democratas têm este problema: podem sofrer por não darem um apoio, um respaldo total a Israel, e estão também a sofrer por não darem um apoio, um respaldo total à autodeterminação da Palestina. Kamala Harris tenta fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas acaba por ser presa por ter cão e por não ter cão. E de facto, vamos ver que tipo de efeitos é que isto vai ter, porque, na verdade, estamos a falar de duas comunidades que tendem a votar democratas. Portanto, os danos serão sempre dos democratas, não tanto dos republicanos, que podem ter aqui alguns ganhos marginais, vamos ver.

O conflito no Médio Oriente também foi tema no debate entre os candidatos a número dois dos Estados Unidos, o republicano J.D. Vance e o democrata Tim Walz. Francisco, o que destaca? Houve pelo menos mais cordialidade do que no debate entre Trump e Kamala, mas há vencedor e vencido?

Sim, houve muito mais cordialidade, porque houve um debate Houve um debate sobre questões substantivas, que é algo que é impossível com Donald Trump, porque ele não se prepara, porque as respostas que ele deu, e deu a Kamala Harris, não fazem qualquer sentido, porque começa a falar de imigrantes que comem animais, inventa histórias. Aquilo que faz nos seus comícios, fez também no debate. E do outro lado, estava Kamala Harris, que estava muito bem preparada para tudo aquilo que podia ser dito pelo outro lado. Agora, aquilo que nós vimos ontem foi exatamente o contrário. Eu sou professor de Rights e revi muito daquilo que eu vi ontem, que o J.D. Vance tem esta formação, está muito preparado para fazer debates, como Kamala Harris, que foi uma procuradora. E vimos ontem exatamente o contrário, ter alguém muito mais preparado para aquele tipo de debates, Vance, contra outra pessoa, Tim Waltz, que foi escolhido justamente para representar o americano médio, que não andou numa faculdade de Rights e que fala sobre a sua vida e sobre as políticas. Está tudo ótimo. Agora, para debates, e já tínhamos visto isto no debate Kamala contra Trump, Vance foi muito mais eficaz ontem e conseguiu mostrar. Eu acho que quem viu o debate ontem, vale a pena vê-lo, consegue perceber como é que, apesar de tudo, apesar de todas as barbaridades, apesar daquele debate, ainda assim Donald Trump não desce abaixo de 46% dos americanos a votarem nele. Isto já acontece há 10 anos. E Vance explicou muito bem por que isso é assim, porque ele, no fundo, todo o debate, desde o início, chamou a atenção para uma espécie de nostalgia sobre os tempos passados, que foram tempos ótimos sob Trump. Há bocado falávamos da política externa. Havia paz, agora há guerra. Os preços eram muito mais baixos, agora os preços são incomportáveis. Tínhamos uma fronteira com o México controlada, agora temos uma fronteira descontrolada. E quem é que esteve em funções nos últimos três anos e meio? Kamala Harris.

Pois, os pontos, claro. Exato.

E eu acho que esse foi um ponto. E depois, por outro lado, o Vance apresenta-se não como alguém que disse, há oito anos, que o trumpismo era heroína cultural, que estava a criar imensa toxicidade, a destruir os Estados Unidos, mas como alguém que compreende as pessoas da classe média, o blue-collar worker, que vem desses meios, que singrou na vida e que acredita nas soluções que Trump traz para os Estados Unidos. E eu creio que o Waltz foi absolutamente incapaz de explicar por que foi escolhido. Ele foi escolhido porque a certa altura apareceu a dizer que os republicanos eram weird, eram esquisitíssimos, não se conseguia sequer perceber o que queriam. Ontem não foi capaz de fazer nada disso, apesar de ter tido um debate razoável, só que realmente as expectativas para os republicanos, depois do que vimos com o Trump, é aparecer alguém como o Vance, que teve, de facto, uma prestação muito eficaz.

Francisco, como curiosidade e motivado pelo debate desta noite, trouxe algumas descrições bastante, podemos dizer, sugestivas do cargo feitas por antigos vice-presidentes.

Sim, são algumas frases que foram ditas por vice-presidentes. E que no fundo, são muito sugestivas sobre a forma como este cargo é interpretado pelos próprios. Aliás, no debate de ontem, eles falaram sobre os candidatos a presidentes, não falaram sobre aquilo que iam fazer enquanto vice-presidentes. E por quê? Vamos perceber isto destas frases que eles foram dizendo. São vários presidentes americanos, alguns deles do século XX. Por exemplo, o John Nance Garner, refletindo sobre o papel, disse que foi o pior erro que cometeu quando aceitou o cargo. O Adams, isto foi algo que o Bruno disse também ontem no programa, disse, e esta é uma frase muito conhecida, que é o cargo mais insignificante que o homem já inventou ou, espero, que sua imaginação concebeu. Portanto, os Founding Fathers tiveram ideias geniais para o estabelecimento dos Estados Unidos, mas no caso de vice-presidente, não foi o caso. O Harry Truman teve uma descrição também muito interessante. Enquanto vice-presidente, ele refletindo, disse o seguinte: "Este cargo é tão útil quanto a quinta teta de uma vaca".

Muito gráfico.

Completamente, mas para o americano médio, ele percebeu exatamente o que ele estava a dizer. E a última frase, que é também extraordinária, alegadamente ao receber o convite para ser vice-presidente, o Calvin Coolidge terá dito: "Bom, suponho que terei de aceitar".

Não tem outra alternativa, já que meti nisso.

E pronto, vai ter de ser, farei aqui o sacrifício de ser vice-presidente. Ainda tivemos aqui imensas discussões sobre a escolha dos VPs. Talvez seja interessante refletir sobre o que é que este cargo é.

Vamos ver o que dirá J.D. Vance ou Tim Walz em novembro. Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise. Foi um gosto. Obrigada, Francisco. Bom dia.

Muito obrigado.