Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E hoje, no ao vivo das manhãs 360, é nosso convidado o escritor e jornalista da revista Visão, Miguel Carvalho. Fala Miguel, bom dia e muito obrigada por estares conosco na Rádio Observador.

Muito bom dia, o prazer é meu.

No ano em que se assinala o centenário de Amália Rodrigues, Miguel Carvalho acaba de publicar o livro "Amália: Ditadura e Revolução, a História Secreta". É um trabalho de mais de 20 anos de investigação sobre a vida da fadista. Já muito se escreveu e cantou sobre a Amália, mas o maior nome do fado cruzou dois regimes e o título deste livro é bastante elucidativo, "Amália: Ditadura e Revolução". Miguel Carvalho, faltava explorar esta envolvência política?

Sim, faltava. Eu senti durante a minha investigação, e quando eu digo que isto durou 20 anos, é também porque o fascínio foi sendo maior a cada passo que eu dava a seguir à morte dela, nas diversas conversas e nos diversos documentos que fui recolhendo, até achar que havia condições para embarcar neste projeto. E uma das coisas que eu senti foi a falta de documentação, de biografias, de estudos que pudessem revelar um pouco mais sobre a complexidade da Amália, porque estas figuras normalmente têm tendência para serem divinizadas.

E conseguiu encontrar essa documentação toda e explicá-la neste livro, porque nós estamos a falar mais de 600 páginas nesta obra, sobre esta história, "Amália: Ditadura e Revolução".

Sim, ou seja, eu encontrei muito mais do que o que julgava possível, tendo em conta o que ocorreu, sobretudo antes do 25 de Abril. E, portanto, a dada altura, sei lá, no último ano e meio, já se tornou uma espécie de corrida contra o tempo e houve até três dos mais importantes entrevistados para este trabalho que faleceram já no decorrer da escrita do livro e não viram o livro, infelizmente. Mas eu senti a necessidade de retratar esta complexidade, porque acho espantoso que uma figura como a Amália, que ultrapassou as nossas fronteiras e que é hoje idolatrada em várias partes do mundo, acho espantoso que não seja tão biografada e tão estudada, até pela academia, como deveria. Houve algum avanço nos últimos 15, 20 anos, mas mesmo assim, uma figura como ela noutro país já teria certamente 20 biografias.

Já tínhamos estantes cheias de temáticas, quase para escolher nas livrarias. Miguel Carvalho, sobre de facto o envolvimento político da Amália, a que conclusão é que chegas? Que ela foi-se deixando instrumentalizar de uma forma consciente ou tinha ingenuidade nesta relação com a política? Estamos a falar do regime salazarista até o 25 de Abril.

Sim, ou seja, eu não lhe atribuo nenhuma fidelidade, nem uma moral heroica ou a fidelidade a uma ética política ou uma ideologia. A Amália só foi fiel a uma entidade colectiva em toda a sua vida, que é o povo português. Isso não há qualquer dúvida. Tentar colá-la à direita ou tentar colá-la à esquerda é um completo absurdo numa pessoa que, além de não ter formação política, além de não ter grande consciência política, tentou toda a vida que a sua lealdade e a sua fidelidade fosse apenas e só ao povo português. É óbvio que durante a ditadura, ela teve muitas vezes consciência de que estava a ser instrumentalizada. E a ingenuidade dela é muitas vezes-

Ficou com essa ligação.

Ou seja, ela pagou uma grande fatura por essa ligação e por essa instrumentalização. Ou seja, ela foi mais usada e namorada do que propriamente uma espécie de servente do regime. A seguir ao 25 de Abril, é acusada de colaborar com a PIDE e de ser, ela própria, voluntariamente, um instrumento de defesa daquele regime. Eu isso também considero completamente absurdo.

Miguel, e achas que as questões políticas foram um pretexto para trazer à tona invejas artísticas? Achas que a Amália era um alvo a abater?

Pois, eu acho que logo a seguir à revolução, há duas coisas que têm um impacto muito forte, que é o sectarismo político da época. Toda a gente era de esquerda e toda a gente andava com cravos.

E que meteu de alguma maneira, Miguel, o fado tradicional também numa gaveta.

Mais do que isso. Mais do que isso. O fado foi, naquele período, houve tentativas bastante consistentes até, e metódicas no sentido de atirar o fado para o caixote do lixo da história e levar a Amália junto, porque a Amália era a figura mais representativa dessa área. Mas eu acho que ela é vítima de duas coisas: é vítima desse sectarismo político e é vítima de uma coisa que todos nós conhecemos muito bem, que é a inveja nacional. Aqui centrada mais no mundo artístico. É um mito pensar que a Amália foi adorada desde sempre nos meios do fado. É completamente mentira. Aliás, mais do que eu, Rui Vieira Nery e David Ferreira sabem-no bem melhor e viveram isso e até estudaram isso. Portanto, quando hoje celebramos Amália e celebramos o seu centenário, é importante ter a consciência, ter os pés na terra e perceber que também algo disto, não digo tudo, e se calhar não é a maioria, de certeza absoluta, algo disto também tem Algo de plástico. É uma forma também de algumas pessoas reescreverem a sua ligação à Amália.

Estamos a falar de uma protagonista que pode ter também tido uma dualidade de comportamentos, desde enviar versos a Salazar quando ele estava doente, até ajudar presos políticos da ditadura e respectivas famílias. No fundo, era tipo: "Deixem-me em paz, deixem-me cantar o meu fado"?

É um pouco isso. É uma bela frase. Ou seja, ela sempre esteve na linha que dividia esses dois mundos. Quando ela escreve a Salazar os versos, e agora também se descobriu uma carta, essa sim mais comprometedora, bastante elogiosa, que ela envia ao ditador logo a seguir à inauguração da Ponte Salazar, onde há ali traços de algum compromisso político que não tinha sido revelado até hoje. A verdade é que ela fá-lo por uma admiração pessoal que vem de longe. Não é uma admiração pelo regime, porque a Amália, até pelos ambientes que frequentava, até pelas pessoas que iam à sua casa, os poetas que cantava e o que cantou, que tem, em muitos casos, significado político, era tudo menos ingênua. Ela sabia perfeitamente que havia presos políticos, que havia perseguições, que havia censura. Ela sabia isso. E nem sempre terá ficado cômoda com isso. A verdade é que não lhe cabia a ela, cantora de fado, figura internacional, lutar contra isso, provavelmente porque não a movia qualquer interesse, nem qualquer convicção ideológica. Mas a verdade é que ao mesmo tempo que o regime a aproveitava, conviveu nela uma Amália clandestina.

Preocupava-se em cantar fado e não tanto em fazer intervenção na altura do regime. Mas depois, estávamos a falar da ligação pós-25 de Abril. Tentou-se quase ser silenciada a Amália e o fado, mas isto foi depois mudando ao longo do tempo. Anos mais tarde, começou-se a ter essa ligação quase histórica ao fado e ao fado português e à Amália também.

Sim, mas isso durou algum tempo. É preciso perceber que só em 1985 é que a Amália dá o seu primeiro recital em Portugal. E no início dos anos 80, estas questões ainda estavam muito presentes, estas perseguições, estes boatos, estas intrigas ainda estavam muito presentes e se eu tinha dúvidas de que este tema ainda era um tema a explorar, um tema importante para tentar esclarecer ou abrir caminho ao esclarecimento de algumas questões, lembro que ainda no ano passado, numa cidade do sul do Luxemburgo com forte comunidade portuguesa, o nome da Amália foi proposto para uma rua e a controvérsia que se gerou, a polêmica que se gerou, foi de tal ordem que essa ideia foi completamente abandonada. Voltaram algumas vozes a lembrar os seus alegados compromissos com a ditadura de Salazar e essa ideia foi completamente abandonada. Portanto, se eu tinha dúvidas de que esse ainda é um tema que merece ser discutido e que há um caminho a desbravar, dissiparam-se completamente no ano passado.

Miguel, estamos a chegar ao fim do nosso tempo, mas queria perguntar: a introdução do livro tem o título "Como a Amália me aconteceu". Foi antes do Miguel Carvalho jornalista, a profissão e a experiência deram depois pano pra mangas pra esta investigação de mais de 500 páginas?

Sim. Eu sou fruto de uma família do lado paterno, convictamente de esquerda, militante, e do lado materno, mais ligado, na altura, ao PSD de Sá Carneiro e ao PS de Mário Soares. E a Amália do lado paterno não entrava até o início dos anos 80. Eu chego à Amália-

Havia essa divisão.

Havia. Tudo isso conflituou, como nós sabemos. Não era uma questão meramente partidária, a questão artística também conflituou. E a Amália entrou na casa da família paterna, via Ranqueado, um disco absolutamente fabuloso, que ainda hoje considero uma das minhas maiores referências, que é o fado bailado. E é aí que eu chego à Amália. E a partir daí, ainda miúdo, começo a comprar discos e a querer conhecer mais e a tentar perceber: "Bem, afinal, quem é esta senhora?" Depois, com a investigação, digamos que me tornei quase obcecado por esta figura e aqui em casa já ninguém me atura.

O escritor e jornalista da revista Visão, Miguel Carvalho, nas manhãs 360, acaba de publicar o livro "Amália: Ditadura e Revolução. A História Secreta" é o resultado de mais de 20 anos de investigação sobre a vida da fadista. Miguel, muito obrigada por ter estado conosco na Rádio Observador. O livro está incrível. Parabéns.

Muito obrigado. Foi um prazer.

Agora ficamos a um quarto das 10. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.