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Se só agora ligou o seu rádio, fez muito bem. Chegou horas. Conosco em estúdio já estão David Zacaria e João Afonso. São eles os nossos convidados do ao vivo desta quinta-feira. Muito obrigada por terem aceitado o convite.

Bom dia.

Obrigado. Bom dia.

No ano em que se comemora o 90º aniversário sobre o nascimento de Zeca Afonso, realiza-se dia 1 de outubro, no Capitólio, um concerto de homenagem ao artista, um espetáculo com o nome "Por Terras do Zeca". Este trabalho é um tributo à sua obra, quer como compositor, quer como poeta. João, sendo sobrinho do Zeca Afonso, torna-se mais fácil contribuir para esta homenagem ou a responsabilidade é ainda maior dada a ligação familiar?

É fácil, porque já tenho colaborado em inúmeros concertos, em projetos em torno da obra de José Afonso, desde o "Mai Maduremai", que fiz com Zé Mário Branco e com a Amália Rodrigues, passando por um trabalho que tenho com o João Lucas, a "Piano e Voz", que se chama "Um Redondo Vocábulo", etc. Tenho um projeto que se chama "Sul de José Afonso", com canções só do sul do José Afonso. Este projeto aconteceu o convite porque sou amigo do David, e penso que o David também não foi só por amizade que me convidou, ele estará aqui a responder por isso. Mas foi porque me agradou a ideia do projeto ser idealizado e os arranjos serem feitos por um estrangeiro, por um italiano, neste caso, apesar dele estar cá há muitos anos, ter um olhar, se calhar, diferente do nosso, do meu, certamente, do lado afetivo e o lado do conhecimento. Eu nasci a ouvir o meu tio em casa.

E o que esse olhar trouxe de novo?

Esse olhar do David trouxe uma leitura que se traduz nos arranjos. Eu tenho também trabalhado, esqueci-me de falar de um projeto, também gosto muito de trabalhar com uma orquestra, também é um olhar diferente. Este olhar do David teve a delicadeza de também ir dialogando, não só comigo, o projeto é cantado por mim, pela Filipa Pais, pela Mariana Al 东 e pelo Zé Camadeis. E teve a delicadeza de perguntar se eu sugeria algum tema. Alguns temas são bastante mais batidos, mais conhecidos.

E ainda assim é possível dar-lhes uma nova roupa.

E é possível tentar uma roupagem diferente. Isso é que é interessante, porque é bom revisitar e vestir as canções de outra forma e é bom porque abre o apetite à gente, à nova geração, à gente mais nova, ir ouvir os originais.

Mas temos conosco o David Zacaria, portanto, olá.

Bom dia.

Diretor musical, não é? Como é que tudo isto surge?

Na minha visão, preciso já de óculos. Surge há muito tempo atrás. Em 2007, comecei a trabalhar num outro projeto, que era "Terra do Zeca", que era com cinco cantoras. E em 2017, começaram a desafiar-me para fazer mais coisas. Essas mais coisas, tornou-se basicamente, com a amizade do João, com a amizade da Filipa, da Maria, etc. Num trabalho muito mais complicado.

Em que sentido complicado?

Porque nasceu para ser uma consequência do primeiro. Depois começou a ser muito maior, com 18 temas. Ligou-me um amigo meu na Itália, que é o oboísta, que depois está no CD, o Paolo Massimatis, dizendo: "Tu fizeste 17 músicas, tem que ser 18, porque 17 não porta bem, então tem que ser ainda mais". Já estava quase o master feito. Mas nasceu também porque comecei a aprofundar muito mais a obra do Zeca Afonso, não só na parte política, como disse o João, eu não sou português, mas também não sou fechado, ou seja, obviamente, no sentido de liberdade, etc.

Mas está em Portugal há quantos anos, David?

Eu estou há 20 anos. Aliás, sim, entre 19 a 20. Mas antes estava na Alemanha, ou seja, já não sou propriamente italiano. Neste momento, não quero também.

É um cidadão do mundo.

Ya, por certo.

Mas foi nessa altura, há 20 anos, que teve contacto com a música do Zeca?

Sim. Quando eu estava antes mostraram uma cassete de um amigo meu, quando soube que vinha a Portugal a tocar, na altura não oficialmente aqui, deu-me uma cassete da Dulce Pontes, que era "Brisa no Coração", ao vivo. E por acaso, em 2004, entrei no grupo da Dulce. Então comecei também a conhecer muito mais música do Zeca. "Redondo Vocábulo", e depois a Maria mostrou-me também "Quem Morre me Engano", "Índios da Minha Praia", e fiquei fascinado.

Como é que se reinterpreta uma partitura já por si tão especial?

É com desafios. Devo ser sincero, nunca me ponho uma ideia fixa de como quero fazer. Vem espontaneamente ouvindo a música, etc. Obviamente, há um respeito absoluto, por isso que falamos muito eu e o João, e com os outros cantores também. Há um respeito absoluto da melodia. Para mim, a melodia, se foi escrita assim, é porque o compositor queria assim, como as palavras. Mudá-las, acho que não faz sentido. Se pode mudar o fato de uma pessoa, uma pessoa fica sempre igual. E a melodia é a pessoa. E esse respeito, acho que está lá. Agora, é reinterpretar a música do Zeca, não sei.

Não é fácil, não é?

Sou péssimo em explicar o que eu faço.

O João Afonso dizia que esta é uma oportunidade das gerações mais novas conhecerem o repertório e o trabalho de José Afonso. A obra de José Afonso tem esta coisa, ela ouve-se hoje como se ouvia quando ela foi produzida. E esse é o grande valor da obra do José Afonso.

É porque é intemporal, há músicas intemporais. O David falou do "Que Amor Não Me Engana", que é das mais belas canções de amor que existem em português, pelo menos. E há temas que fazem meditar, fazem pensar. E foram escritas num determinado período e continua-se a reinterpretar as suas dúvidas.

"A Verdade é Mentira", por exemplo.

Por exemplo, "A Verdade é Mentira" que eu canto, e outros temas. Um tema que eu costumo cantar, que é o "Já o Tempo Se Habitua". E vê-se um homem como um criador, um intérprete maravilhoso, que ele era, e que escrevia poemas onde se notava, ao contrário do que muita gente diz, com poucas certezas, ou seja, com muitas dúvidas. A certeza dele era as dúvidas que punha em relação à forma como via o mundo.

Vocês acham que com o peso que José Afonso tem, a importância que ele tem e que teve na música portuguesa, que o país de alguma forma lhe faz justiça. Isto é, vocês com este espetáculo vão novamente colocar as músicas dele à disposição do público. Eu, Tó Force, não deveria responder, é sempre a mesma coisa. Óbvio que há uma justiça na música do Zé Afonso, como o público interpreta a música do Zé Afonso. Mas também temos que ser sinceros. A nova geração tem dificuldade em aproximar-se da música do Zé Afonso, porque os tempos são assim, se liga a televisão e raramente se ouve música do Zé Afonso. Em concerto é melhor.

Que visam a música.

Mas os valores também são outros. Agora, com este concerto, há esta tentativa de aproximar os jovens através da Banda Filarmónica de Vagos, que são meninos entre os nove, 10, até os 20. Como já disse, às vezes, é uma coisa incrível voltar-se para olhar para a Banda Filarmónica, ver esses meninos cantarem "Grândola, Vila Morena", por exemplo. Com nove anos. É com entusiasmo.

E o simbolismo que a música tem.

Sim.

David, mas esta não é a estreia, o espetáculo já anda em digressão desde abril. Enquanto diretor musical, como é que tem sido a adesão e a receptividade?

Tem sido fantástico. Está um dos melhores anos da minha vida. A fazer a música que eu gosto, com as pessoas que eu gosto, na maneira que eu gosto. Até com banda filarmónica, com coro, com músicos fantásticos. São todos músicos de certo renome, como se diz. O Armindo Neves na guitarra, o Paolo Mazzamantino ao bom, que vem da Itália, o Ivo Martins na bateria, o Luís Pinto no baixo, o João Califórnia no teclado.

Quantas pessoas há em palco?

No Capitólio vão ser muitas. São quase 50 na banda filarmónica, que muda sempre. Mais nove cantores, que são o João, o Filipe Pais, a Mariana Don, o Zé Camedeiro, o Firmino Pascual, Ana Lins.

São os convidados.

O Carlos Alberto Muniz, o Pacian Dion e a Stefania Settirosa desde a Itália também, porque é uma pequena surpresa.

Uma pícola.

Há uma pequena surpresa no final, que não vou dizer, e que é o meu elo entre a música portuguesa e a música italiana.

E David, este projeto também tem um álbum editado.

Sim, o "Por Terras do Zé".

Não nos ficamos só pelos concertos, pelos espetáculos, não é?

Sim. Como estava a dizer, tivemos uns 30 concertos, mais ou menos, em todo o país e também fora, na Itália. Há ainda Óbidos, dia 19, é o Capitólio, e o CD é o ponto mais forte deste projeto, que é "Por Terras do Zé", que é através da tradição.

David Zacaria e João Afonso, dois dos nomes que dão vida ao espetáculo "Por Terras do Zé", que é o nome do concerto de homenagem a José Afonso. Marquem na agenda, dia 1 de outubro, no Capitólio, em Lisboa. Muito obrigada por terem aceitado o convite.

Obrigado pelo convite.

Obrigada. Agora estamos a um quarto para as 10. Carla Jorge Carvalho fazendo