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Tudo a postos para mais uma edição de "Aprender a Comer" com a Mariana Chaves. Olá, Mariana.
Olá, João.
Olá, viva. E hoje vamos falar de um segundo cérebro que temos. Que segundo cérebro é este? É a primeira dúvida.
Em primeira dúvida, exatamente. Não é o cérebro que nós temos na nossa cabeça, no nosso crânio. O segundo cérebro é um conceito que já tem muitos anos, mas que eu acho que é importante falarmos agora, que é o nosso intestino. Houve um artigo publicado em julho ou junho passado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, exatamente a reiterar a importância deste segundo cérebro, a chamar a atenção. E eu acho que isso se enquadra completamente no tema que falámos na semana passada, da nossa saúde mental e como é que a alimentação e o intestino podem ter impacto na nossa saúde mental. Então, traduzindo aqui um pouco por miúdos. Basicamente, nós hoje em dia sabemos que temos o intestino ligado à cabeça, literalmente. E até é engraçado que este estudo faz uma imagem, que eu acho que fica na cabeça de qualquer um, que é: tem a imagem do cérebro e depois tem a imagem do intestino e ligados como se fosse por uma ficha elétrica. Que é exatamente o que acontece. Existem neurónios no nosso intestino e existe uma libertação de neurotransmissores, é como se fossem os mensageiros que passam a notícia, que passam a mensagem para o nosso cérebro. E por isso é que eles estão ligados. E hoje em dia nós sabemos, já é cientificamente comprovado, que a ligação tanto é do cérebro para o intestino, como do intestino para o cérebro. Como é que nós conseguimos ver isso no nosso dia a dia? Nós conseguimos ver claramente que o nosso estado de espírito, as nossas emoções conseguem afetar o nosso intestino. Há muita gente que, numa situação de estresse, por exemplo, de repente tem uma vontade enorme de ir à casa de banho.
É aquela ideia da volta à barriga, não é?
Exatamente.
Está a dar uma volta à barriga.
Exatamente.
E neste caso, como aquilo que somos é aquilo que comemos também. Daí essa importância daquilo que comemos e do intestino também em tudo isto, e por isso é que o consideramos um segundo cérebro e não o devemos subestimar.
Exatamente, não devemos subestimar. As bactérias intestinais que nós temos no nosso intestino, que damos o nome de microbiota, têm interação na química do nosso cérebro, portanto, da nossa capacidade de termos o cérebro mais ativo ou não. Falávamos da capacidade cognitiva, o fitness cognitivo, que nós podíamos estimular ou não. Nós temos que tratar bem o nosso intestino para conseguirmos ter também o nosso cérebro saudável. E tratar bem o intestino resume-se a tratar bem a nossa microbiota. E como é que nós fazemos isso? Basicamente, o ponto número um será sempre as fibras. As fibras que nós encontramos nas sementes, nos frutos secos, nas saladas, é importante o vegetal estar cru, na fruta também. E não é só a questão da fibra. É importante as pessoas entenderem também que há aqui uma importância nos vegetais, nas frutas, nas sementes e frutos secos, que se chama polifenóis. Nós hoje em dia sabemos que os polifenóis, que são de origem vegetal, portanto estão nesses alimentos que acabamos de falar, melhoram a nossa microbiota. Quando falamos em fibra, não é só buscar farelo de trigo, porque o farelo de trigo não vai ter os polifenóis. O único caminho é este, ir buscar mais vegetais, mais fruta. É pensar entre a bolacha ou a cenoura crua, o que é que faz mais sentido. Porque isto acaba por ser um pouquinho quem é que nasceu primeiro. Se o ovo ou se a galinha. Se eu quero estar bem disposto, eu tenho que tratar bem o meu intestino. Não posso encher de açúcar e não ir buscar os polifenóis, e não ir buscar a fibra e não ir buscar a água também, porque a água é importantíssima para a saúde intestinal, e mais outros pontos que eu vou acrescentar. Queria só fazer aqui um parêntese, porque há muita gente que não sabe se tem um microbioma saudável, ou seja, um intestino saudável. E eu acho graça, porque às vezes respondem a um inquérito, quando fazem o preenchimento para as consultas on-line, preenchem lá: como é o seu intestino? Regular, ou seja, vão uma ou duas vezes à casa de banho, ou irregular? Dia sim, dia não, mais do que dois dias. E muita gente nos escreve a dizer: "Que engraçado, eu achei que era regular, mas eu vou dia sim, dia não". E isso não é ser regular. Ou seja, quem é que tem que prestar mais atenção à sua saúde intestinal e ter estes cuidados? Quem não é regular, obviamente, quem sofre de síndrome do cólon irritável, que é um exemplo típico de como as nossas emoções conseguem afetar o intestino, porque é um síndrome que as pessoas quando estão em períodos de estresse, de ansiedade, têm uma alteração completa do seu intestino. E aí é a ligação do cérebro para o intestino, ligação que vai de cima para baixo, mas depois de baixo para cima também existe. Porque essa alteração do intestino faz com que as pessoas fiquem também com menos qualidade de vida. Mas existe outra coisa, João, que se fala pouco, mas eu acho que a gente tem vindo a falar um pouco mais, que é a dispepsia funcional. O que é isto? Isto são sinais e sintomas que vão aparecendo no intestino, ou seja, de dor, de desconforto, de flatulência, de distensão abdominal. Cada vez as pessoas falam mais disso, mas não sabem sequer que existe esta classificação. Chama-se dispepsia funcional. Ou seja, existem os sinais e os sintomas, mas quando vais fazer o exame físico, os médicos fazem o exame físico, endoscopia, colonoscopia, etc., não encontram nenhum fato para diagnosticar uma doença.
E a minha pergunta é: por que isso acontece? E depois também sublinhar aqui a importância de esclarecer tudo isso com o médico. Ou seja, se esses sinais não são captados por um exame, teremos que ser nós próprios, no fundo, a dizer muito bem a um médico o que estamos a sentir.
Sim, sem dúvida. Não são captados por um médico, porque não é doença Ou seja, são só sintomas. É só alguma coisa que está diferente em nós, que nos tira a qualidade de vida, mas, na realidade, está a alterar a nossa microbiota. Não são sinais agudos, não é sinal de doença grave, mas temos que dizer. Muitas vezes nós temos esse desconforto e essa dispepsia, às vezes é porque temos falta de magnésio, outras vezes é porque estamos a comer alimentos que não toleramos bem e que vão aumentando a inflamação do nosso corpo. Outras vezes é porque temos uma coisa chamada disbiose. É basicamente quando nós já estamos a estragar completamente a absorção intestinal, não estamos a fazer bem a digestão no estômago, os alimentos estão a ir mais inteiros para o intestino e nós no intestino temos uma malha onde os alimentos são transformados para o seu bolo alimentar, fica tudo microscópico, mas se a digestão não for bem feita em cima, no estômago, quando passa, passa em volumes maiores e isso força a malha do intestino a ficar cada vez maior e provoca a chamada disbiose. Isto assim muito rapidamente, o que interessa aqui é: quando existem estes sinais, quer dizer que a nossa microbiota não está bem. Nós temos que nos alimentar com mais fibra, com mais água, com mais polifenóis. Temos que nos alimentar com mais ômega 3, porque muitas vezes quer dizer que estamos inflamados. E o ômega 3 vem da linhaça, vem do peixe. E por que é importante o ômega 3? É que normalmente nós consumimos mais o ômega 6, que vem das carnes mais gordas, das bolachas, e nós temos que conseguir encontrar um equilíbrio e aumentar a ingestão deste ômega 3, se temos estes sinais de inflamação. E é importante eu falar disto, porque, por exemplo, eu já em tempos falei bastante da questão do sistema imunitário ter que estar mais forte nesta altura, e o sistema imunitário também consegue ficar mais forte.
E o nosso intestino revela-nos muito também sobre o nosso sistema imunitário?
Sem dúvida. Aliás, foi publicado, faz agora um ano, num jornal muito conhecido inglês, que é o "New England Journal of Medicine", exatamente casos estudados sobre doentes submetidos a transplante de medula óssea, portanto, um caso típico de doença, e a sobrevivência deles. A sobrevivência foi mais elevada naqueles que tinham maior diversidade do microbioma intestinal. Ou seja, as bactérias boas, que é aquilo que existe no nosso microbioma, as boas, estarem mais diversificadas em maior número. E normalmente é isso que nós queremos. Queremos uma redução das bactérias que têm que coexistir com as outras boas. As bactérias más têm que coexistir, mas queremos uma redução dessas e um aumento das boas. E para isso é que temos que ter estes estilos de vida saudáveis para conseguir mais diversidade. Claro que o probiótico às vezes ajuda também. Mas é importante estes estudos para realçar a importância de que, mesmo em doença, há coisas que nós podemos fazer antecipadamente pela nossa saúde. E não é indiferente o que comemos, já sabemos, mas também não é indiferente para a nossa saúde global. Nós temos que ter o intestino saudável para a nossa cabeça estar saudável, mas para a nossa saúde geral do corpo também estar saudável.
Portanto, muita atenção àquilo que comemos, muita atenção também à saúde do nosso intestino, que é afinal o nosso segundo cérebro e dele depende também muito daquilo que se passa em todo o nosso corpo. Foi mais uma edição do "Aprender a Comer" com a Mariana Chaves. Mariana, obrigado e até para a semana.
Até para a semana, João. Obrigada.
Adeus.
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