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Já cá tenho comigo a Mariana Chaves para mais uma edição do "Aprender a Comer" com os melhores conselhos de nutrição, sempre aqui na Rádio Observador. Olá, Mariana.

Olá, Nelson.

Hoje vamos falar de uma erva aromática que divide as famílias à mesa: os coentros. Há quem os adore, há quem os afaste com o garfo. Mariana, os coentros são só para dar sabor ou fazem alguma coisa de bom pela nossa saúde?

Fazem mais do que sabor, apesar de eu ser grande fã.

Eu já me habituei, já faz parte da minha dieta, mas houve um tempo em que não fazia.

E há bastantes pessoas.

É a prova de que se treina o paladar.

Exatamente, sem dúvida. E vale a pena. Vale a pena porque em relação às ervas aromáticas, há uma novidade neste tema. Durante anos, nós só tínhamos estudos científicos focados em quê? Em altas doses. Portanto, em extratos concentrados, em cápsulas e ninguém conseguia reproduzir isso em casa, obviamente. Era só um início de conversa sobre qual era o potencial daquela erva aromática. E em 2023, saiu numa revista científica que se chama "Nutrients", um estudo que vocês vão ver que faz mesmo sentido. Foram investigadores do King's College que finalmente fizeram a pergunta certa, que é: e as doses de cozinha, como é?

Pois, porque normalmente aquilo é um raminho, umas pétalas.

Pronto, aquilo que qualquer um de nós pode pôr na panela. Isto faz sentido. Juntaram 142 estudos clínicos com 15 ervas aromáticas e especiarias. E a conclusão foi boa. Ou seja, as quantidades que já usamos na cozinha para alguns destes, vão chegar para haver efeitos positivos na nossa saúde e não é preciso voltarmos a pensar que apenas conseguimos isso em cápsulas.

E os coentros entraram neste estudo também?

Entraram num destes estudos. O estudo que existe não é enorme, e eu tenho sempre que fazer este aparte, esta contextualização. Não é enorme, mas já nos dá uma indicação. Foi um estudo de 2018, numa revista científica do Paquistão, em que foram analisar um grupo de pessoas com colesterol elevado e deram-lhes 2 g por dia de coentros em pó, durante 40 dias. E esses 2 g, que é menos do que uma colher de chá, atenção. Ao fim de 40 dias, houve uma redução no colesterol total, no LDL e subiu um bocadinho o HDL.

Que é o bom, não é?

Que é o bom, exatamente. Também houve alguma descida na tensão arterial e no índice de massa corporal. Temos aqui alguma indicação de que poderia ser bom.

Na massa corporal, estava aqui a ler a tua nota, de 27,3 para 26,7.

Exatamente.

É qualquer coisa. O coentro, essencialmente, é para juntar na comida. Às vezes em cima da sopa ou num arroz. O estudo olha para esse uso do coentro na cozinha?

Sim. Este é só um estudo, eu quero ser rigorosa. É só um estudo. Por quê? Por que eu estou a dizer isto, Nelson? Porque só sobre a canela existem 41.

Pois.

E sobre o gengibre existem 24.

Bem mais estudado que o coentro.

Muito mais. Na prática, isto é uma pista boa, e nenhuma razão para nós não pormos os coentros na comida. Mas obviamente que nada disto tem a ver com medicações nem tratamentos. Isto tem só a ver com o facto de realmente parecer que foi relevante naquele grupo de pessoas. Mas a pergunta que fazes é interessante, porque os coentros, neste estudo, foi feito sobre a semente do coentro moída.

Pois, porque quando a gente vai ao supermercado, pensa sempre no molho de coentros.

É verdade, e sobre esse molho ainda não sabemos absolutamente nada relevante nestes estudos. Nestes estudos. O que sabemos é sobre a semente de coentro moída. Existe à venda no supermercado, os coentros em grão, na prateleira das especiarias. Muitas vezes nós associamos isso ao cheirinho do caril, mas também com pratos à coentrada. É a mesma planta, atenção, só que são partes diferentes. E se fores cheirar os coentros, toda a gente acho que consegue associar, se pensarem um bocadinho agora, lembram-se do cheiro a coentros. Mas se fores cheirar o grão de coentros, cheira completamente diferente.

A sério?

Completamente, porque a química é diferente. Ou seja, nós na folha temos um cheiro um bocadinho mais cítrico e na semente é mais adocicado e quase como se fosse um cheiro de casca de laranja. E o que nós sabemos aplica-se à semente, não à folha. Mas, o que eu quero dizer é que vale a pena ter um frasco de coentros em grão, porque, por exemplo, torra-se uns segundos numa frigideira e pode-se utilizar logo para cozinhar, mas também podemos moer. Tanto moer, imaginem, com um bocadinho de alho e esmagarmos, como podemos pôr num, dois, três e fica um pó. E usamos isso no arroz, usamos isso numas cenouras assadas, numa sopa de lentilhas. Vale a pena. Estávamos a falar, como vocês se calhar se lembraram, de 2 g, uma quantidade mínima. Podemos guardar isso em pó também para utilizar nos dias seguintes, não tem que ser na hora.

Há uma coisa engraçada sobre os coentros, que é: há muita gente que diz que sabe a sabão. Isto faz algum sentido?

Porque sabe mesmo.

É.

É impressionante.

No início não gostava nada por causa disso. É um sabor intenso, de facto.

É verdade. E não é birra, é genética, porque há um estudo grande feito nos Estados Unidos, em 2012, por uma empresa de genética que se chama 23andMe, que foi publicado numa revista que se chama "Flavors". Eu estou a dizer isto porque muita gente gosta depois de pesquisar um bocadinho sobre isto O que eles fizeram? Eles cruzaram o DNA de dezenas de milhares de pessoas com a opinião delas sobre os coentros.

Ok.

E encontraram uma variante genética junto a um recetor do olfato que associava exatamente a esta perceção. Portanto, quem tem essa variante é hipersensível a uns compostos nas folhas dos coentros, que são os chamados aldeídos. E estes aldeídos existem muito parecidos nos sabões e nos detergentes.

Ok.

Então, Nelson, o que acontece? O nosso cérebro, superinteligente, é que vai literalmente receber o sinal de sabão, ou seja, vai associar estes dois cheiros.

Isso quer dizer que nem toda a gente tem esta opinião. Se não tiver aquele marcador no ADN já não tem essa sensação.

Eu claramente não tenho, porque eu adoro coentros.

Eu se calhar devo ter um bocadinho. Mas para quem não gosta de coentros, há uma reconciliação possível, não é? Porque eu sou o exemplo disso.

É verdade. É aquele velho ditado "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". Mas eu vou tentar ajudar algumas famílias. Temos aqui três truques. Primeiros, picar muito fininho, porque estávamos a falar que este aldeído existe mais nas folhas. Já passámos dos grãos, que isso acho que todos nós conseguimos consumir. Aqui nas folhas, primeiro truque, picar bem fininho. Quanto mais inteira a folha estiver, mais intensa vai ser a libertação desse composto. Esse é o primeiro truque. Segundo, juntar acidez como limão, vinagre, lima, vai suavizar muito. E por último, os coentros cozinhados, em vez de crus, vão sentir menos o cheiro. O calor vai degradar parte desses aldeídos.

Por isso é que eu já gosto muito de coentros cozinhados e não tanto na salada.

Exatamente. Agora, mesmo assim, se não der, sirvam à parte, que é para poupar discussões à mesa.

Obrigado por essa dica. Já tentei, ainda não resultou, mas tenho esperança que venha a acontecer. Mas Mariana, vamos aqui a uma queixa muito prática. Quando a gente compra um molho de coentros no supermercado ou na frutaria, parece que ao fim de alguns dias já está assim todo murcho, já não está bom para utilizar. Porque é que isto acontece? E há truques para que não aconteça?

Há truques, há, claro. Eu vou dar. Isso tem a ver com gestão de frigorífico, de arrumação.

Mas espera lá. Frigorífico, então, é o sítio dele?

É o sítio dele. Exatamente. E mais aqui dois pormenores, que é um recipiente com água. Eu costumo usar aqueles recipientes onde vêm as azeitonas de vidro. O final com água, metes lá o ramo de coentros e depois pões um saco de plástico por cima. É como se fosse estufa. Usas aqueles elásticos de escritório só para prender. E está na tua porta do frigorífico. E é aí que devem estar as ervas aromáticas. Assim conservam-se muito mais.

Não naquela parte de baixo das prateleiras?

De todo. Aí vão estar todos a respirar os vegetais uns com os outros e uns começam a morrer muito mais rápido. Não. Eles vão para a prateleira.

Para a porta.

Sem dúvida, para a porta, exatamente. Agora, vou deixar aqui mais três truques que eu acho que fazem sentido. Isto de três truques é difícil de dizer. Primeiros, os coentros, quando cozinhamos, devem entrar sempre no fim da cozedura.

Boa.

Pronto. Nunca no início, ao contrário do louro e do alecrim, porque senão vão perder o aroma todo. Por exemplo, uma sopa que nós queremos que saiba a coentros é: desligamos o fogão, deixamos ali quase pronto para guardar, juntamos os coentros e passamos. Segundo truque: não deitem fora os talos.

Então o que fazemos com eles?

É aí que está o aroma mais concentrado. Vais picar bem fininhos e aí vais juntar à tua sopa para passar, ou ao teu refogado, ao teu estufado. Guardem. E guardem as folhas para o fim.

Ok. A terceira.

E a terceira. Piquem o molho inteirinho mal cheguem a casa, se quiserem, para guardar para mais dias. Isso que estavas a dizer que ele murcha logo.

Sim.

Então olha, picas logo, enches umas cuvetes de gelo com os coentros, um fio de azeite e um bocadinho de água e aquilo vai para o congelador e está para três meses.

E atiras logo um cubo para a panela, não é?

Exatamente.

Muito bem, falamos de coentros esta semana no "Aprender a Comer". É um tema tão interessante. Não falamos de salsa. Um dia deixo-te esse desafio, fazer aqui um team salsa versus team coentros. Mas já sabem, podem partilhar também este episódio com a família que não gosta tanto de coentros. Deixamos aqui alguns truques no "Aprender a Comer" desta semana com a Mariana Chaves. Obrigado e até para a semana.

Até para a semana, Nelson.