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Quem foi Rute, a imigrante que se juntou ao povo escolhido? Este é o quinto episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
Esta semana vamos falar de uma das mulheres mais importantes da Bíblia, uma das poucas mencionadas na ascendência do rei David e, portanto, do próprio Jesus Cristo. Também é notavelmente conhecida por representar a presença de sangue estrangeiro na linha familiar do povo israelita. É uma história de migrações e de lealdade familiar. Estamos a falar de Rute, a bisavó do rei David e protagonista do oitavo livro da Bíblia, um livro batizado com o próprio nome desta mulher. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos e, como sempre, antes de seguirmos para o tema deste episódio, quero lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt, já sabem, sem acentos: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Os nossos ouvintes também já sabem que agora nos encontramos duas vezes por semana. Já aconteceu na última quinta-feira, além do episódio semanal aos domingos, depois do noticiário das 09h da manhã na Rádio Observador e sempre em podcast, nós agora temos também um episódio extra todas as semanas, às quintas-feiras. Em 10 minutos, procuramos responder a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para o nosso e-mail, este que dizia agora: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Podem ser também perguntas deixadas, por exemplo, nos comentários do YouTube ou das plataformas de podcast em que nos ouçam. Esse episódio vai ficar apenas em podcast, não passa na Rádio Observador e, portanto, já sabe, para nos ouvir e para garantir que não lhe escapa nada, pode clicar em seguir o programa para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. Nesta quinta-feira que vem, vamos responder a uma pergunta difícil: há ou não um privilégio masculino na Bíblia? E, já agora, como é que isso muda a forma como a religião cristã olha para as mulheres? É para ouvir já na próxima quinta-feira. Agora, vamos falar do tema do dia de hoje, desta personagem. Talvez seja uma personagem que não é muito conhecida, mas até tem uma relevância muito significativa na Bíblia. Mas antes disso, se calhar, vale a pena olharmos aqui para um detalhe interessante. João, noutros episódios deste podcast, nós já falámos sobre a importância de árvores genealógicas na Bíblia. Elas aparecem muito frequentemente, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Na verdade, a Bíblia até tenta fazer uma espécie de ligação familiar ou de sangue desde o início, desde o primeiro humano, Adão, até Jesus, passando por Abraão, pelo rei David, por exemplo. Quem for ao início do Evangelho de Mateus e vai lá encontrar uma genealogia de Jesus, obviamente vai encontrar sobretudo homens, o pai do pai, do pai, do pai, mas também vai encontrar esta mulher, Rute. Por quê? Por que esta exceção? Que importância é que esta mulher teve para aparecer aqui?
Começaste bem aí nesse sentido de que a Bíblia tem uma espécie de grande linha de continuidade. A Bíblia parece que quer fazer uma grande narrativa genealógica, semelhante àquilo que acontece até na Idade Medieval com os livros de linhagens. Portanto, nós percebemos uma espécie de grande continuidade histórica, traça uma grande linha. Efetivamente, em Mateus existem quatro mulheres, mas que não são as mulheres evidentes, não são as grandes matriarcas como Sara, Rebeca, Lia ou Raquel. São Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias, isto é, Betsabé. São tudo mulheres que têm algo de irregular na sua história, para lá do fato de, num contexto extremamente patriarcal, serem pessoas do sexo feminino. E, portanto, talvez a grande mensagem da inclusão de Rute, como todas as outras, mas neste caso de Rute, é que a salvação não vem só de dentro do povo, vem de fora, por mulheres que muitas vezes não estão ligadas à letra da lei ou à lei no sentido amplo, como nós a entendemos.
Daniel, vamos então contar esta história de Rute. A história surge num livro muito pequeno, dizíamos aqui antes de começarmos a gravar, que se pode ler numa curtíssima viagem de metro ou de comboio. São quatro capítulos muito curtos, mas apesar de tudo é uma história muito intensa e começa com uma migração, não é?
Começa com uma migração no tempo dos juízes, é assim a primeira frase deste livro, situa neste tempo que falámos no episódio passado. Neste tempo há uma grande fome e, portanto, esta família, que está em Belém do reino de Judá, tem que emigrar para Moab, do lado de lá do Jordão, Moab, atualmente na Jordânia. E ali, Elimeleque e Noemi, com os seus filhos, vão ter umas mulheres estrangeiras, moabitas, que casam com os filhos deste casal.
Eles emigram para Moab, que seria, portanto, um território fora do controle das tribos de Israel. Qual era a relação que havia com esse povo, com esse território?
Era uma relação má.
Vamos mais à frente falar dessas tensões.
Eu acho que mesmo que uma experiência superficial de leitura seja feita, em que vejamos que a relação com os povos estrangeiros é sempre difícil, com Moab é particularmente difícil. Até encontramos no livro do Gênesis uma espécie de justificação da inimizade com Moab, que vem do incesto. E, portanto, os moabitas são bastante mal vistos neste contexto antigo.
Eu fazia esta pergunta: o enquadramento é a fome era tão grave que esta família teve que emigrar para um sítio que, em teoria, seria hostil.
Claro, tudo é perto. Não é muito longe e, portanto, é uma solução mais óbvia nesse sentido, mas de qualquer forma são inimigos. E tomam mulheres locais, estrangeiras, aos olhos da perspectiva israelita.
Os dois filhos de Elimeleque.
Que depois acabam por morrer. São personagens muito efêmeros, que morrem e só sobram as mulheres. Quer o pai de família, quer os dois filhos morrem e quando vão regressar à sua terra, a Belém de Judá, estas duas mulheres acompanham sua sogra, Noemi, que lhes diz que podem ir à vida delas, podem deixá-la, mas há uma que se mantém com ela, que é precisamente Rut.
Pois, Noemi fica com as suas duas noras, perde os filhos, mas ganha duas novas familiares e até, como dizia o Daniel agora, segundo conta o livro de Rut, ainda começa por dizer às duas mulheres qualquer coisa como: "Fiquem na vossa terra, refaçam a vossa vida com novos maridos". Mas há ali uma relação particular que se vai estabelecer entre Rut, que é uma destas duas mulheres, e Noemi, a sua sogra, realmente muito particular. Rut insiste em ficar com a sogra. Aliás, a dada altura, ela diz mesmo a Noemi: "O teu Deus será o meu Deus". Isto surge depois da sogra lhe dizer qualquer coisa como: "A tua cunhada voltou para o seu povo e para os seus deuses". Portanto, aqui entre estes dois povos havia também uma espécie de inimizade divina.
E até se me permite salientar aqui uma certa ironia, porque Belém significa "casa do pão", pode significar isto, Bethlehem. E o fato de haver uma emigração da casa do pão para procurar alimento não deixa de ser uma grande ironia, principalmente para se mostrar o drama desta história, de um povo, como o Daniel dizia, que até em Deuteronômio 23 está dito que é proibido para sempre de entrar na assembleia do Senhor. Tanto que as pessoas que ficam em Moab morrem. Morre o Elimeleque, estes nomes são muito difíceis de dizer, e também os dois filhos, fica só realmente as duas noras e a sogra. E é realmente como estás a dizer, a certa altura, a sogra diz às noras para voltarem. Uma delas, Orfá, volta para o seu povo. Beija a sogra e volta para o seu povo. Portanto, não é claramente uma coisa de retaliação ou ela está muito zangada com a sogra. Não, ela volta saudando a sogra e é aí que Rut nega esse regresso à sua própria terra e lhe diz aquilo: "Para onde fores, eu irei, onde habitares, eu habitarei e o teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus". É uma forma, aliás, clássica de aliança bíblica, ou seja, de união. Rut não está a dizer simplesmente que gosta muito da sogra e quer viver com ela para sempre. Está claramente a fazer aqui um pacto que ressoa o pacto que o próprio Deus faz com a humanidade. E é interessante que Rut faça isso, precisamente quando a sogra só tem para lhe dar amargura, vazio e tristeza. A sogra enviuvou.
Perdeu os dois filhos.
Perdeu os dois filhos, não tem alimento.
Não tem bem para onde voltar, se calhar.
Talvez. Portanto, Rut decide ir com a sogra unicamente por uma espécie de amor leal e gratuito, uma coisa que nós dizemos às vezes é "hesed" na palavra original, o professor de hebraico pode me corrigir, que é um amor totalmente desinteressado e um amor leal, gratuito, acima de tudo.
Daniel, Rut faz aqui um caminho interior a isso, converte-se àquele Deus do povo que em teoria era inimigo do povo dela?
Não sei se é a melhor palavra, conversão, talvez não se adeque muito a este contexto. O fato é que Rut é uma personagem boa, simpática, faz esta profissão de fidelidade, de "hesed", como o João dizia, de amizade com sua sogra. Às vezes este é um texto que até é pedido para casamentos, não sei se quem pede às vezes percebe que é uma relação de sogra pra nora. Mas é interessante que, como comentava um autor americano, um judeu, Robert Alter, todos os personagens neste livro são bons
Não há personagens maus. Há aqui um cenário idílico, todos são bons, não há aqui inimigos presentes. Apesar de haver este contraste com Moab, que aparentemente é inimigo, toda a gente é boa nesta história, só que há uns que são mais bons que outros. Esse é o caso de Rute.
Aliás, há um contraste com o final do Livro dos Juízes, que é particularmente violento, e isto depois parece uma coisa totalmente idílica.
Totalmente diferente. Aliás, por isso é que percebemos, numa análise mais literária, que é um texto muito posterior e que é aqui colocado no cânone cristão por outros motivos, sobretudo por este enquadramento histórico. Mas esta Orpa que deixa a sua sogra, não faz nada de mal. É algo que poderia fazer, mas Rute dá um passo além. Que isto seja propriamente uma conversão, dizia que não sei se é o termo certo, porque também nesta mundividência antiga, não há bem este conceito de conversão como depois aparece. No fundo, se segue a sua sogra, faz parte do pacote, perdoe-me a expressão, entre aspas, venerar e adorar os deuses que são seguidos nessa terra em particular. Portanto, se Rute decide seguir a sua sogra, Noemi, segue também a sua cultura, a sua língua, a sua terra e os seus deuses. O seu Deus, neste caso.
Muito bem, João, nós até agora temos estado basicamente a olhar para textos bíblicos que assentam na ideia de que só há um povo escolhido. Um povo que combate os inimigos, vimos muito isso no Livro dos Juízes. Este livro parece introduzir-nos aqui uma realidade nova, que é de repente uma estrangeira vai ser acolhida dentro do povo hebreu. Que lugar é que este texto procura ocupar aqui? Já vamos contar o que acontece quando Noemi e Rute voltarem a Judá, mas explica-nos um pouco sobre esta realidade. Há aqui a introdução da realidade do estrangeiro dentro do povo escolhido.
Nós já vimos que a Bíblia é talvez um livro que apesar de propor um absoluto, só Deus é Deus, é o livro contra todos os restantes absolutos. Contra todos os absolutos geográficos. Já vimos, aliás, neste contraste entre Juízes, Josué, Rute, Êxodo, depois Samuel, claramente, a Bíblia é contra todo o tipo de fundamentalismo e nenhum fundamentalismo é claramente bíblico. E a introdução do estrangeiro leva a que a lente narrativa e a lente do povo se amplie, impedindo que se diga que existe aqui um povo puro, separado de todos os outros povos, sem uma espécie de contaminação. Não sendo o estrangeiro aqui a contaminação, mas a ideia de pureza, o facto de Rute ser a bisavó do grande Rei David, mostra claramente a linhagem real, é uma linhagem real que já está produzida através do encontro entre as várias culturas circundantes.
E não contaminação.
Não, e não contaminação. Ou seja, o estrangeiro aqui não é algo que vem contaminar, mas é alguém que está dentro da relação que se estabelece até com o próprio Deus.
Muito bem, nós já voltamos pra segunda parte de "As Histórias da Bíblia", nós vamos continuar a falar da história desta personagem, Rute. Estamos a acompanhar o caminho que a personagem faz com a sua sogra até Judá. Vamos também saber o que é que esta história nos diz sobre o lugar dos estrangeiros nos planos divinos, também sobre o lugar das ações de cada dia, neste plano de salvação que a Bíblia propõe aos seus leitores. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar de Rute, a protagonista do oitavo livro da Bíblia, uma das mulheres mais importantes da narrativa bíblica e também uma história que nos coloca perante o valor das mulheres no Antigo Testamento, ao mesmo tempo que nos confronta com esta realidade do lugar dos estrangeiros no contexto do povo escolhido. Daniel, queria continuar basicamente a contar esta história, como já percebemos na primeira parte que basicamente Noemi e a sua família emigraram pra Moab, Noemi enviuvou e viu-se sozinha com as suas duas noras estrangeiras e está agora a voltar pra sua terra. E Rute quer manter-se ao lado da sogra. O que é que acontece depois? Elas seguem as duas pra Judá, é isso?
Sim, e depois procuram refazer a sua vida, pra utilizar uma expressão moderna. E os restantes capítulos do livro de Rute falam-nos de uma espécie de esquema ou de proposta que Noemi faz a Rute para também conseguir, através de um parente, encontrar uma solução pra sua vida. Isto tem o seu quê de caricato e aqui a vida rural, que o João, mais especialista no mundo rural, explicará melhor que eu, mas vai no fundo unir Rute em casamento, também agora um novo parente, a este Boaz.Que é alguém que vai acabar por casar com Rut e unia precisamente esta genealogia quer anterior, quer à família dos patriarcas, como termina o livro, quer depois posterior, com a descendência de Rut, que ligará com o Rei David.
Parece-me que o livro menciona claramente a ideia de que há aí uma ligação qualquer, uma legislação qualquer que justifica essa ideia desse casamento. Queres explicar um bocadinho mais detalhadamente?
Sim, é um livro muito idílico. Eu dizia há pouco que não há personagens más, apenas umas melhores que outras, mas também este cenário quase perfeito que encontramos aqui, apesar das dificuldades da fome e da migração forçada, mas uma certa candura no tom da narração, leva-nos também a perceber que há aqui práticas que talvez em tempos históricos tenham sido facilmente desrespeitadas, mas que aqui aparecem como importantes. Uma é deixar espigas ou restos das espigas para o estrangeiro, para colher, para quem vier atrás, para poder servir de caridade para aquele que precisa, quer este costume do levirato, que era algo que está tematizado no Deuteronómio, que é algo que também já nos aparece no Novo Testamento, noutros contextos, que é esta ideia idealizada, isto depois na prática nem sempre terá sido assim, mas quando morre o marido, um parente próximo, tipicamente um irmão desse falecido, teria a obrigação de casar com a sua mulher, portanto, com a viúva, para dar descendência, no caso em que esse primeiro casamento não tivesse filhos.
Como era o caso aqui de Rut com esse filho.
Para dar descendência ao morto, àquele irmão ou aquele parente que tinha falecido.
E este Boaz é um parente de Noemi, portanto, seria um parente do marido de Rut, do filho de Noemi.
Sim, e há aqui uma história, enfim, um bocadinho de sedução, digamos assim, progressiva, mas Boaz não é, ou Boaz, enfim, não sei qual é a melhor forma de dizer, em hebraico é Boaz, que é parente próximo, mas não é o mais próximo. Ainda há um outro parente mais próximo que teria então esse direito. E depois há ali uma espécie de negociação na porta da cidade, que era um lugar, por um lado, de encontro nestas cidades antigas, no contexto bíblico, e também de tomada de decisões importantes, em que esse tal parente mais próximo teria a obrigação de ser o redentor desta família. Esta palavra de resgate, redentor, traduz precisamente esta obrigação legal de um parente próximo tomar conta da família que fica desprotegida, mas incluiria também ter de casar com Rut, que é estrangeira, e esse parente, que permanece anónimo no texto, diz: "Não, não me dava muito jeito". E é então Boaz que faz isso através de um gesto também muito pitoresco, que corresponderia a costumes legais ou uma espécie de direito consuetudinário, tinha a ver com o dar a sandália. Esse parente que não quis receber Rut, percebe-se porque o caráter polifónico da Bíblia e da história bíblica e das tendências bíblicas é também aqui muito claro. Aqui é tudo perfeito, simpático, mas há correntes bíblicas de uma grande agressividade contra estrangeiros. Aliás, este livro de Rut é entendido corretamente, a meu ver, como uma espécie de polêmica contra outra tendência bíblica no pós-exílio, em que há um cerrar fileiras na identidade judaica, ao tempo de Esdras e Neemias, vemos isso nesses livros de Esdras e Neemias, de uma proibição de casamentos com estrangeiros, casamentos mistos, digamos assim.
Um certo nacionalismo.
Um certo nacionalismo que levaria a uma proibição de tomar mulheres estrangeiras, então moabitas.
E este livre aparece aqui para tentar pôr isso em causa.
E aqui justifica, dá uma bondade na possibilidade de receber esta mulher estrangeira, aquilo que faz Boaz.
Muito bem, João, na primeira parte nós falámos justamente sobre este facto de Rut, estrangeira, ser acolhida em Judá ao abrigo desta antiga lei do levirato e depois acaba por mostrar lealdade à sogra e a Deus, e isso traduz-se nesta entrada na genealogia do Rei David, ou seja, Rut e Boaz vão ter um filho, que é Obed, e esse filho vai ser o avô do Rei David. Como é que os cristãos têm lido este texto ao longo dos séculos, olhando aqui esta realidade da mistura entre o estrangeiro e o povo escolhido, como é que isto tem sido recebido pelos cristãos?
Se calhar, algumas notas. Em primeiro lugar, logo na proximidade do texto, nós já falámos sobre isso, que é um contraste face ao final do livro dos Juízes. Final muito violento, principalmente o capítulo 19, tem uma cena a partir do versículo 22, aquilo é claramente perturbador, a leitura das vezes um só versículo já perturba. E portanto, primeiro essa dimensão. A seguir, há uma certa altura em que Boaz diz: "Rut, conta-me tudo o que fizeste pela tua sogra. Deixaste pai e mãe e a tua terra natal para vir a um povo que não conhecias". De certa maneira, se nós nos relembramos do episódio de Abraão, há comentadores que dizem isto: Rut parece uma espécie de Abraão no feminino
Alguém que deixou pai e mãe em casa paterna em favor do hesed, do amor genuíno, da amizade, também por um estrangeiro, porque Noemi era também para Rute uma estrangeira. Há aqui essa inversão. Os cristãos olharam muitas vezes para Rute como uma forma de dar início, de se inaugurar aquilo que São Paulo vai procurar muitas vezes, que é evangelizar nas margens do judaísmo. Aquelas pessoas como Rute são estrangeiras à genética do povo judaico, à religião judaica e que podem receber, segundo a história de Rute, porque há essa certa legitimação, a cultura judaica e depois, posteriormente, a cultura cristã.
E, portanto, também podem ser salvos os estrangeiros?
Sim, podemos pegar neste filão e seguir por aí.
É que no fundo estamos aqui a falar de uma história de imigração ilegal, não é?
Não vamos usar esses termos para não sermos cancelados, mas sim, claramente não é uma imigração segundo as regras do jogo.
Se a minha pesquisa não me falha, este é um texto que tem pouco protagonismo na liturgia católica. Obviamente, também é muito pequeno. Mas enfim, segundo percebi, surge nas missas católicas uma vez a cada dois anos e é em dois dias de missas de semana. Isto também poderá contribuir para que o texto não seja assim tão conhecido entre a generalidade dos cristãos, no contexto português?
No contexto português, não conheço outros contextos, mas imagino que seja igual. Nós conhecemos as grandes figuras e às vezes algumas figuras secundárias, mas claramente o livro de Rute, como também Ester, que iremos falar a seguir, não são propriamente as figuras mais conhecidas. E são colocadas um bocado à margem. Não sei se há grandes motivos além desse. Na liturgia também é um livro muito pequeno. Quem começou a ler o livro quando o episódio começou, se calhar já o acabou.
Já leu duas vezes.
E aqui não estão presentes aqueles grandes temas da aliança, da libertação.
Não é uma saga, uma epopeia, não dá pra fazer propriamente um filme. Quer dizer, um filme se calhar Tarkovsky dava, mas um filme daqueles hollywoodescos, tipo "Os Dez Mandamentos", não dá.
E depois a liturgia, sobretudo aos domingos, no contexto católico, escolhe episódios do Antigo Testamento que façam uma ligação temática mais ou menos direta com o Evangelho e, portanto, neste caso, não aparecerá tanto, porque não há episódios no Evangelho assim talvez tão óbvios.
Este livro de Rute, pelo menos nos cânones cristãos, surge aqui colocado num lugar curioso. Por um lado, está entre o Livro dos Juízes, que falámos no episódio anterior sobre Sansão e Dalila, um livro que relata um período de uma grande instabilidade, muito caos, um certo afastamento de Deus. E depois o primeiro livro de Samuel, que relata uma espécie de reconstrução da ordem depois desse caos, com a transição pra monarquia e depois, eventualmente, com a figura do rei David. O fato deste livro estar aqui colocado ajuda, de alguma maneira, esta história concreta a fazer esta transição entre o caos e a ordem, entre o período dos juízes e a monarquia? Tem aqui algum papel concreto?
Convirá talvez sublinhar que isso acontece no cânone cristão, ou seja, nesta arrumação dos livros bíblicos, que acontece em contexto cristão, que seguem, no fundo, o que foi feito na Bíblia grega, na Septuaginta. Para os judeus, isto faz parte de um grupo genérico chamado Escritos. Todos os escritos, que de fato são de épocas posteriores.
Já agora, a propósito disso, fazer aqui um bocadinho de promoção ao nosso próprio podcast. Essa é uma pergunta que tem chegado muito ao nosso e-mail: por que há tantas Bíblias diferentes, tantas organizações diferentes dos cânones? Por que há livros que estão num sítio e não estão noutro? E, portanto, é bem possível que em breve haja um episódio ou uma quinta-feira em que vamos tentar explicar essa realidade. Mas estávamos a falar da colocação deste livro neste lugar no cânone cristão.
Sim, é por um motivo óbvio que é logo o início do livro dizer que isto acontece no tempo dos juízes. A Septuaginta faz logo esta colocação cronológica. Depois de se falar do Livro dos Juízes, conta-se este episódio aqui no tempo dos juízes. E depois, como também se sublinha, o rei David, de certa forma, tem também uma certa pedagogia de preparação pra aquilo que vamos ver na história, na vinda do rei David, nos livros a seguir.
Já agora, a este propósito, o que sabemos sobre o autor deste texto, quando é que foi escrito, como é que ele aparece na história dos escritos bíblicos?
Há pouco referi o entendimento deste livro numa espécie de diálogo polêmico com Esdras e Neemias. E portanto, neste pós-exílio, em que há esta afirmação da nacionalidade e de uma certa pureza étnica e religiosa, aqui Rute dá uma outra perspectiva. Portanto, percebemos também a diversidade e os vários filões e tendências neste pós-exílio, que é um tempo também de grande criatividade e onde se vai compondo também o cânone bíblico, por assim dizer, ou que se vai começando a compor. Outros fatores, como, por exemplo, o vocabulário, o estilo, percebe-se que, numa análise mais fina, há aqui termos e há aqui sintaxe do texto que aponta pra uma época mais tardia, portanto, será do tempo persa e provavelmente ali à volta do século quinto.
Muito bem, há aqui outro aspecto interessante, Daniel
Deus praticamente não aparece nesta história. É referido algumas vezes na boca das personagens, as personagens mencionam Deus. Por exemplo, como disse há pouco, a outra nora de Noemi regressa para os seus deuses e Rut diz que quer abraçar o Deus dos israelitas, mas por acaso ele nunca é posto pelo narrador a fazer, estou a usar aspas, a fazer nada, a não intervir nesta narrativa. Há quem veja nisto uma espécie de sublinhado como Deus, mais do que intervir diretamente na história, atua na história também através do comportamento das pessoas, do cumprimento das normas sociais, como aconteceu, por exemplo, com a questão do casamento com Boaz, da fidelidade de pessoas como Noemi e Rut. Como é que lês a ausência de um Deus interveniente nesta história? Não é caso único na Bíblia, no Antigo Testamento, termos episódios ou histórias ou blocos de texto em que Deus está mais ou menos ausente. Um leitor atento do próprio Pentateuco, da Torá, vê que durante vários capítulos na história de José, o último destes patriarcas, algo de semelhante acontece. Parece que Deus não está ali em jogo. Deus quase que não é referido e há um foco, portanto, na humanidade, nos valores que de certa forma derivam da lei, mas vão sendo postos em prática. Aqui vemos a observância desta lei do levirato, tematizada no livro Deuteronómio. Vemos aqui o cumprimento mais ou menos escrupuloso, aqui nesta parte mais rural, das espigas, que são deixadas para trás. Eu já explico. E Rut começa precisamente a apanhar esses restos das espigas. E, portanto, há aqui uma espécie de teologia prática em ação, que não é caso único, e talvez isso nos mostre que a Bíblia é também esta biblioteca e esta riqueza de perspectivas diferentes acerca da ação de Deus e da ausência de Deus, de uma ausência que é presença, de certa forma. Sim, aqui não há sonhos, Deus não fala, não há anjos, não há grandes revelações. E às vezes a tendência é até dizer que Deus age por debaixo da superfície, debaixo da pele da história. Mas há um comentador americano da Universidade de Yale que disse que pode ser intenção claramente do livro mostrar que, para lá das duas grandes esferas, que é a esfera do nascimento e a esfera da fecundidade da Terra, destas duas fecundidades, é o hesed, este amor genuíno, gratuito, que conduz a história. Às vezes nós queremos apressadamente colocar Deus. Não está Deus, se calhar a Bíblia dá este espaço, mas acho que é aquilo que fala da questão das espigas. Fala da questão agrícola, porque eu penso que um bocado não mencionámos este aspeto da história, que é quando Rut viaja para ajudar Noemi, que regressa a casa, Rut arranja ali uma espécie de trabalho como agricultora. Sim, não é bem um trabalho. Nos campos de Boaz. De Boaz, exatamente. É a primeira vez que eles se veem, ou pelo menos na história. Portanto, a bondade dele até começa com arranjar-lhe um emprego. Exato. O Daniel já referiu que havia uma lei agrícola que proibia os donos das terras de colher o campo até às bordas das espigas, ou seja, a espiga é uma planta que tem um caule, depois tem uma espécie de zona um bocadinho rugosa onde está misturada a planta que se pode aproveitar e uma parte tipo casca. E, portanto, eles poderiam colher, mas deixar, das duas, uma ou algumas coisas para trás para os pobres irem colhendo ou não colher toda a planta. O que acontece é que Rut é-lhe concedido até a possibilidade de ir respigar aos fardos, aos fardos das espigas que já tinham sido colhidas ou que iriam ser depois debulhadas. O que é debulhar? Debulhar é pegar na planta e depois retirar, separar a parte que é comestível ou utilizável, aquilo que é o grão puro da palha e da casca. Claro que se calhar a CAP vai mandar um e-mail a dizer que eu não estou a explicar bem. Mas para nós vermos o ponto em que, de certa maneira, a hipérbole daquilo que nós estamos a falar é a hipérbole agrícola, nós sabemos que pelo livro, o resultado do dia de trabalho de Rut, este dia onde ela conhece Boaz, é quase um efá de cevada, corresponde a mais ou menos 22 litros. É uma medida antiga que corresponde a 22 litros, que é aproximadamente 10 a 14 quilos de grão puro. Ou seja, é quase impossível uma só pessoa sem maquinaria retirar 10 a 14 quilos de grão puro. Portanto, já há aqui esta quantidade gigantesca que quer mostrar claramente a bênção a que Rut tem acesso através deste libreto pastoral, quase parece a "Menina e Moça" do Bernardim Ribeiro. Há aqui um certo lirismo pastoral que depois joga com muito estes conceitos de respigar, de debulhar as espigas, de um trabalho que é muito forçoso. Não sei se todos já tiveram a oportunidade de ir para o meio do milho fazer este tipo de atividades, é forçoso. Muito bem. Conhecemos então a história de Rut, este pequenino livro que surge no Antigo Testamento, mas com uma história muito impactante na narrativa bíblica, é o fim do quinto episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia. Na próxima semana vamos falar de outra mulher muito importante na Bíblia e que também tem um livro inteiro com o seu nome. Falamos de Ester. E já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Já sabem, nós respondemos às perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial em podcast. Até para a semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.