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Este programa tem o apoio de Bacalhau Ribeiro Alves. Bacalhau com Todos. A partir de hoje e até ao final do ano, vamos contar-lhes tudo sobre o bacalhau, que ficou conhecido como o fiel amigo. Chama-se Bacalhau Com Todos, sempre a esta hora. Todos os dias temos uma entrevista, uma manifestação artística envolvendo o bacalhau e um facto curioso a abrir cada episódio. Nem propósito, este fim de semana o bacalhau foi notícia. Vários assaltantes entraram num armazém em Cacia, Aveiro, e roubaram 300 caixas de bacalhau avaliado em € 100 mil. Esperemos que não nos falte o bacalhau para a consoada. No Bacalhau Com Todos de hoje recebemos o fotógrafo Pepe Brix, que esteve embarcado num bacalhoeiro, no qual tirou muitas fotografias publicadas no livro "Os Últimos Heróis". Pepe Brix, muito bom dia, bem-vindo ao primeiro Bacalhau Com Todos. Agora sim, Pepe Brix, muito bom dia.

Bom dia.

Olá, bom dia, viva, não estava fácil.

Não estava.

É mais fácil, digo eu, subir a bordo de um bacalhoeiro ou não?

Não é. Também não é.

Olha, Pepe, foste autor do livro "Os Últimos Heróis". Quanto tempo estiveste a bordo de um bacalhoeiro para fazer este trabalho fotográfico?

Aquela viagem demorou cerca de três meses e meio. Foram precisamente 105 dias no mar.

Qual foi o percurso que fizeste a bordo de um bacalhoeiro?

Nós saímos da Gafanha da Nazaré no dia 4 de fevereiro, e o mar estava muito mal, muito agitado. Então tivemos que ir pelos Açores para nos protegermos ali um bocadinho pelos Açores. E depois dos Açores, então, quando passamos ali as que estão ali já mais a oeste, subimos então para os Grandes Bancos de Terra Nova e demoramos cerca de 13, 14 dias para fazer a viagem.

E o que é que nos podes contar dessa viagem? Como é que foi o ambiente vivido a bordo durante essas semanas nesse bacalhoeiro?

Há tanta coisa que podia contar durante os três meses e meio. Mas olhando um bocado para trás e tentando espremer um bocado essa laranja que foi essa viagem, creio que aquilo que aqueles homens passam, o facto de eles terem que embarcar, muitos deles duas vezes por ano. Ora, se fizermos as contas, esta viagem demorou três meses e meio. Agora as viagens estão a ficar um bocado mais reduzidas a nível de tempo, mas uma campanha pode demorar até cinco meses. Mas se pusermos uma média de quatro meses em duas viagens por ano, são oito meses que aquelas pessoas passam por ano. Ora, passam oito meses que estão ali confinados a um espaço relativamente pequeno, que é uma embarcação de 80 metros, e condicionados, claro, à companhia dos seus colegas.

E tu tiveste a oportunidade de viver esse ambiente. Como é que são aqueles homens que se dedicam a esta atividade, que é muito dura?

São pessoas muito humildes, muito modestas, que, na verdade, também têm um bocado aquela atividade no sangue. Porque ali, principalmente na zona de Aveiro, há um grande historial da pesca do bacalhau. Portanto, há ali um misto de necessidade e orgulho em praticar a pesca do bacalhau. Embora não seja fácil, há, de certa forma também, uma certa alegria, em estar a perpetuar uma coisa que já vem de há tantos anos.

Tu sentiste que foi um trabalho fotográfico difícil?

Fotograficamente, o trabalho não era difícil na medida em que era tudo muito fotogênico. O Joana Princesa também já não era um navio novo. O facto de ser um navio-

Perdemos ele.

Isso também fazia com que as imagens retratassem melhor as poucas condições em que muitas vezes estes homens embarcam. Ou seja, fotograficamente e enquanto documento, essas fotografias acabaram por resultar facilmente. Houve, no entanto, outras questões que me custaram muito mais. Coisas que eu percebi que acho que deve ser pensado de outra forma. Acho que a pesca de arrasto devia ser reformada. Era uma grande reforma e nós devíamos pensar melhor na forma como estamos a explorar os nossos recursos marinhos selvagens.

Dizes isso por quê?

Digo isso porque, como sabes, a pesca de arrasto não é propriamente uma pesca muito seletiva. E, infelizmente, nós, portugueses, não somos os únicos a pescar, por exemplo, naquela zona, que são os Grandes Bancos de Terra Nova. Somos várias frotas, muita pressão, sobre uma zona que já mostrou sinais de falência. Nos anos 90, o governo canadiano teve que fechar os grandes de pesca, precisamente porque estavam completamente em baixo

Pepe Briggs, estamos com algumas dificuldades em manter esta conversa devido à falta de qualidade da ligação telefónica. É pena. Agora parece que já temos melhores condições. O que eu gostava de perceber era como é que era o teu dia a dia a bordo deste bacalhoeiro.

Para fazer esta reportagem fotográfica, eu tive que conciliar duas actividades. Inscrevi-me como observador de pesca. Na verdade, fui para lá trabalhar como observador e fazia a reportagem nas minhas horas vagas.

Portanto, a pergunta é: o que é que faz um observador?

Um observador de pesca reporta todas as quantidades de peixe que são recolhidas de lance a lance. Quantidades de peixe, espécies pescadas, latitude e longitude. Tu tiras as coordenadas dos lances, de onde a rede foi largada, de onde a rede foi recolhida, a quantidade de peixe de peso vivo pescado e que espécies. Esse peso por espécie.

E isso era uma atividade que te ocupava durante quantas horas num dia?

Sempre que o navio estava a arrastar, eu tinha que dizer os lances que chegavam ao navio, portanto ocupava-me bastante tempo. Também depende da espécie, porque se, por exemplo, estiverem a pescar o que chamam de comunista, que é o red fish, os lances são mais curtos. Logo, por dia vai haver mais lances de pesca. Contudo, por exemplo, se estivermos a pescar a palmeta, que é um peixe que está em maiores profundidades, os arrastes já são de seis a oito horas, portanto são muito menos por dia, o que também faz com que eu tenha mais tempo livre.

E depois nas horas vagas, entre aspas, fazias fotografias, é isso?

Exato. exatamente. Aliás, os dois trabalhos eram conciliáveis de certa forma, porque eu, por exemplo, quando estava a observar o alar das redes, conseguia estar a fotografar também. Dava para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

E o armador convivia bem com essa tua dualidade?

Sim, não houve problemas em relação a isso. Com alguns cuidados, como é óbvio. Houve ali algumas restrições.

E os pescadores também te receberam bem, não houve nenhum problema?

Não, problema absolutamente nenhum. Aliás, o João, a Princesa, é uma situação com que mantive contacto.

É um navio português que ainda se dedica ao bacalhau ou não, já não?

Como? Não percebi a pergunta.

A pergunta era se esse navio ainda se dedica ao bacalhau, mas presumo que não.

Este navio agora não. Este navio deixou de pescar o bacalhau, julgo eu. Mas não tenho a garantia disso.

Muito bem, Pepe Briggs, muito obrigado por te teres juntado a este "Bacalhau com Todos", o primeiro aqui na Rádio Observador. O fotógrafo Pepe Briggs, autor do livro "Os Últimos Heróis", com fotografias captadas a bordo de um bacalhoeiro português. Livro que já tem algum tempo e que é um retrato da vida difícil a bordo dos bacalhoeiros que percorrem longas distâncias em busca do bacalhau. Bacalhau que inspirou Sérgio Godinho em 1976. A música chama-se "Bacalhau Basta" e faz parte do disco "De Pequenino Se Torce o Pepino" e fecha este primeiro "Bacalhau com Todos".

Eu não quero que me dês o mundo inteiro num beijo. Eu não quero que me dês latifúndios no Alentejo. Eu não quero que me dês mais do que tens para me dar. Eu não quero nem amêndoas, nem anéis, nem um colar. Nem declarações entusiastas. Vou dizer alto e bom som, para quem é bacalhau basta, para quem é bacalhau basta. Basta-me bacalhau do bom. Basta-me bacalhau do bom. Foi isto que ela me disse, foi assim que ela falou. Quando um dia lhe escrevi, ela depois telefonou. Quando a fui ver à janela, a persiana corrida tinha uma fresta e por ela uma mão convidativa. Dizia-me: "Sobe cá acima". Subi ao sétimo céu, depois disse-lhe em surdina, depois disse-lhe em surdina: "Quem gosta de ti sou eu. Quem gosta de ti sou eu." Depois fomos ao cinema ver um filme de aventuras. Cheio de peripécias, umas más e outras duras. Com tiros à queima-roupa e beijos à Hollywood, lá me fui chegando a ela, imitando-os como pude. Torcido como um ginasta. Até que disse que eu sou lixo, para quem é bacalhau basta, para quem é bacalhau basta. O teu amor é que é fixe. O teu amor é que é fixe. Dei-lhe uma fotografia, fita-cola para colar. Foi colá-la na parede e disse: "Aqui vai ficar". E mesmo se um dia formos cada um para seu lado, o teu rosto ficará para sempre aqui marcado. E enquanto o que a gente se afasta. Falará do nosso amor, para quem é bacalhau basta, para quem é bacalhau basta. Pois bacalhau do melhor. E foi bacalhau do melhor. A vida não vale nada e a morte vale ainda menos. Mas quando é a nossa vida vale aquilo que fazemos. Desde o dia em que se nasce até à noite em que se morre, é com aquilo que se faz que o caminho se percorre. E se a vida é para ser gasta. Vamos gastá-la a preceito, para quem é bacalhau basta, para quem é bacalhau basta. Mas que seja bacalhau bem feito. Que seja bacalhau bem feito. Que seja bacalhau bem feito.

"Bacalhau com Todos". Este programa teve o apoio de Bacalhau Ribeir'Alves