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Cá estamos mais uma vez com o Pedro Lino. Pedro, temos aqui em cima da mesa, supostamente, o fim da guerra dos Estados Unidos e do Irão. Sabemos que isto a qualquer momento muda, pode mudar, mas neste caso, tendo em conta este cenário, o que muda para os investidores?

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, tivemos, pelo menos por agora, o fim da guerra. Já sabemos que a incerteza paira sempre no ar, mas é isso mesmo que os mercados odeiam: a incerteza. E não necessariamente as más notícias. Quando temos uma má notícia, no fundo, existe a concretização de algo e os investidores e os mercados conseguem perceber quais são os riscos associados.

E ajustam imediatamente a essa realidade nova.

A incerteza é algo que nós não sabemos o que vai acontecer. E o não saber pode ser uma coisa muito boa, muito má.

E pode ser paralisante, não é? Ficar à espera.

Sim, porque normalmente os investidores, quando há um conflito, ninguém sabe até onde pode escalar. Neste caso, acabou em bombardeamentos. Ninguém sabe quais são as consequências econômicas, o impacto do preço do petróleo, que foi quase até os 130 e agora, felizmente, está a descer, já está abaixo dos 80. Mas depois quando surgem essas soluções diplomáticas, os mercados é que conseguem finalmente calcular os riscos e por isso é que vimos também os mercados subirem e as bolsas, apesar de tudo, comportarem-se de uma forma muito boa e estas notícias são boas para reduzir a volatilidade.

Claro, e a peça central que nós temos aqui é o petróleo.

Sem dúvida. O petróleo foi o que dominou. Tivemos uma duplicação do preço do petróleo, que andava volta dos US$ 60, foi para os 130, agora está abaixo dos 80. E esta é uma preocupação muito grande. Por quê? Porque o petróleo, como nós já referimos aqui, afeta tudo: transportes, indústria, agricultura, logística, o custo da energia. Por isso, quando o conflito termina ou reduz a incerteza, o petróleo tende a estabilizar e isso acaba sempre sendo uma muito boa notícia para a economia.

Claro. Depois, isso pode significar também que há menos pressão sobre a inflação, sobre os preços.

Sem dúvida. Vimos na última reunião do BCE que uma das preocupações é a subida dos preços da energia, inflação sobre os preços da energia, e isso tinha muito a ver com o preço do petróleo. Por isso, o que acontece? O custo para as empresas aumentou substancialmente. Pode ser que agora, finalmente baixe. Os preços no consumidor também aumentaram muito substancialmente e estamos a ver os produtos agrícolas aumentarem. Por isso, esta redução do preço do petróleo, na realidade, o que temos é uma menor pressão sobre a inflação e por isso, a inflação tendendo a desacelerar, significa que o BCE, em vez de subir três vezes os juros, pode ser que só suba mais uma vez, dos 2,25 para 2,5. E isso acaba por ser boas notícias, porque também chegamos a um ponto também do conflito, já havia uma incerteza muito grande até onde é que os juros iriam.

Tal e qual. Portanto, isso significa que as taxas de juro terão um comportamento mais contido do que teriam no cenário oposto.

Sem dúvida, porque em um cenário de incerteza, teríamos seguramente uma subida mais consistente dos juros para tentar travar a inflação. Com o preço do petróleo a baixar substancialmente, como ocorreu nesses dias, o que aconteceu é: não vamos ter juros mais baixos, eles vão é subir menos do que a expectável, porque os efeitos secundários na inflação e na economia já se estão a fazer sentir. Mas o que vamos ter é taxas de juro que não subam tanto, significa que vamos continuar a ter crédito barato, porque 2,5% são taxas muito boas. E esta redução da incerteza também vai conduzir outra vez a maior investimento e maior crescimento econômico. Por isso a redução de incerteza é sempre boa.

E é isso, Pedro, que leva, por exemplo, as bolsas a continuarem a subir. Porque muita gente não entende por que as bolsas estão a subir. Estão a bater máximos históricos.

É verdade. E muitas pessoas pensam: se a guerra acabar, os mercados já subirem, a oportunidade desapareceu. Ou seja, os mercados tendem a antecipar o fim dos conflitos. E os conflitos não são eternos. Nós vimos isto desde há 100 anos. Ou seja, nós temos períodos de incerteza, mas as bolsas vão subindo porque as empresas adaptam-se. Por isso, historicamente, o que interessa? Interessa se os lucros das empresas continuam a crescer. Mais recentemente, o impacto da inteligência artificial, que está a impulsionar muito as bolsas e os investimentos, e se a economia mundial vai continuar a expandir ou não. Isso são os fatores-chave que os investidores devem ter em mente. Depois, a menor inflação, ou melhor, apesar de termos uma menor inflação, nós temos, e também já falamos isso nos outros podcasts, temos três pontos que vão, no meu ponto de vista, fazer com que as bolsas continuem a subir. A dívida pública vai continuar em recordes e vai continuar a subir. A emissão de dívida pública.

Está a falar em termos globais?

Em termos globais. Os Estados Unidos vão imprimir mais, vão ter um défice e continuam um défice orçamental. Europa também. Estes gastos militares que não contam para o défice, mas que incluem emissão de dívida. Por isso a dívida pública vai estar maior, os défices vão estar elevados. Note-se a França, que não consegue reduzir o seu défice. Isso tudo implica criação de moeda, e a criação de moeda acaba por ser inflacionista para os ativos financeiros.

Sem dúvida. Terminando, que grande lição que podemos tirar daqui para os investidores?

Eu acho que quem vende no pânico, perde. Por isso cristaliza as perdas e depois perde a recuperação, porque as recuperações foram muito rápidas. Nós tivemos em março uma queda muito abrupta dos mercados, abril que foi a recuperação mais rápida. Por isso, cuidado quando se entra em pânico. E quem manteve uma estratégia disciplinada, atravessou a turbulência, mas se beneficiou. Mas mais, quem reforçou e quem tinha planos de investimento que foram reforçados mensalmente, então saiu duplamente a ganhar.

Isto é, quem aproveitou a queda de preços precisamente para reforçar e não para sair.

Completamente. Esses então foram os que ganharam mais e lá está, as guerras acabam, as crises passam e a disciplina do investimento é o que interessa e é o que vai fazer a diferença a longo prazo entre quem acumula patrimônio e quem anda a correr atrás das notícias.

Que fica a lição para próximas ocasiões, que elas vão sendo muito frequentes, estes levantes nos mercados. Muito bem, foi o Boa Moeda com o Pedro Lino. Voltamos para semana com este ou outro tema. Até lá.

Obrigado. Bom fim de semana.