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Já temos conosco o Pedro Lino para mais um Boa Moeda esta sexta-feira. Pedro, vamos olhar aqui para um acontecimento nos mercados que teve ondas de choque um pouco por todo lado, que nos leva a pensar que, por vezes, até os melhores investidores falham, não é? Ou pelo menos aqueles que consideramos melhores.
Sim, bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade. Tivemos esta última semana o caso da Situational Awareness, que era um fundo de investimento que já vamos ver, estava endividado e que originou umas grandes flutuações no mercado, principalmente nas ações de tecnologia. E o que aconteceu? Durante o primeiro semestre de 2026, este fundo, que foi criado por um senhor Leopold, que era antigo investigador da OpenAI e é um grande defensor da revolução da inteligência artificial, e ele no primeiro trimestre de 2026, com os seus investimentos, teve um retorno neste fundo de 400%.
O que é obra, de facto.
O que é obra. E tudo alimentado à base das empresas de inteligência artificial. E nós víamos no mercado tudo que eram empresas ligadas a chips, a memória, estavam tudo a disparar. Algumas empresas tinham triplicado de preço, mas em julho aconteceu o impensável. Ou seja, houve uma correção muito forte nas empresas de inteligência artificial.
Uma queda.
Uma queda, e levou o fundo a perder 67% do seu valor num único mês, obrigando-o a vender grande parte das suas posições, da sua carteira de títulos, a uma empresa que se chama Citadel e do fundo, que é um dos maiores hedge funds do mundo.
Claro, e isto leva-nos a uma questão, Pedro. Como é que um fundo que tinha saltado tanto, de repente, e é mesmo de repente, passa a falhar tanto, não é?
É verdade. Antes de mais, importa-se esclarecer uma ideia. A grande lição desta história que vamos ouvir é que não é que investir na inteligência artificial seja um erro. Não é. O problema é quando o fazemos de uma forma errada. Aliás, muitas empresas em que o fundo investia continuam a ter excelentes perspetivas de crescimento. O problema foi, mais uma vez, a forma como se investiu. Uma excelente ideia pode se tornar um péssimo investimento se não tiver uma adequada gestão do risco. E essa é uma das regras mais importantes do mercado. Ter razão demasiado cedo ou demasiado alavancado pode produzir um resultado que é um desastre.
Depois, o alavancado, daqui a pouco já vamos esclarecer mais à frente o que é. Mas, para já, logo no início, disseste que se tratava de um hedge fund. O que é um hedge fund?
Um hedge fund é um fundo de investimento. Ao contrário dos fundos tradicionais, ele tem muita liberdade. E a liberdade inclui pedir dinheiro emprestado, utilizar derivados, vender ações que não possui, ou seja, eu posso pedir emprestado ações e vender.
Venda a descoberto.
Ter uma concentração muito forte em títulos, ter, por exemplo, 50% em um título ou dois. Ou seja, este tipo de fundos permite ter rentabilidades extraordinárias, mas também, como vamos ver, perdas extraordinárias. E por isso é que a maior parte destes fundos se destinam apenas a investidores profissionais.
E mesmo assim, como se vê. Enfim. Vamos então a esse outro palavrão, para quem não está muito por dentro disso, que é alavancagem.
Sim, alavancagem, basicamente, é pedir dinheiro emprestado para investir. Vamos imaginar um exemplo simples: tem €100. Investes apenas esses €100 num título e se o título subir 10%, ganhas €10. 10% de 100. Agora, imagina que pedes emprestado, além dos €100, mais €400. Passas a investir €500. Se o mercado subir 10%, ganhas €50. Ora, mas o teu capital inicial eram só €100, o que significa que ganhas 50%. Isto é ótimo. O problema é quando cai. E se, por exemplo, dos €500, se eles desvalorizarem 20%, perdeste €100. Ora, se o teu capital era €100, ficaste sem dinheiro.
Desapareceu e ainda deves 400.
E ainda deves 400.
Fora juros.
Fora juros. Ou seja, o que temos aqui a perceber é que a alavancagem funciona como um grande amplificador. Amplifica os ganhos, mas também é preciso termos muita atenção aos potenciais de perdas. A alavancagem, no fundo, é como conduzir um carro em Fórmula 1 a alta velocidade. Permite andar muito depressa, mas qualquer erro tem consequências desastrosas.
Também bates muito pressa, é muito bom, com muita força.
Exatamente.
Com muita força. Por que que nestes casos, quando chega a estas situações-limite, coloca-se esta dúvida: por que estes hedge funds são obrigados a vender?
Ora, no caso deste senhor, ele teve que vender porque tinha o fundo alavancado, endividado, tinha opções até três vezes, ou seja, o fundo estava muito endividado. E quando um fundo utiliza dívida, os bancos exigem garantias, porque a dívida são os bancos que emprestam dinheiro e as garantias são a carteira de títulos.
São os próprios títulos.
São os próprios títulos. E se os títulos descem, o que é que acontece? O banco vai pedir mais garantias.
Isto já não vale 100, vale só 50, portanto precisa de uma garantia de 50.
Repõe-a outra vez. E é isto que se chama uma margin call, uma chamada de margem. Ou seja, são as garantias, estas margens de segurança, que de repente desaparecem e o banco obriga o fundo a vender os ativos. Ou seja, o que aconteceu foi que este senhor Leopold, ainda dia 24 de julho, andou a pedir mais dinheiro aos investidores para reforçar as margens. Os investidores disseram: "Já chega, o senhor anda a brincar". E ele não tendo conseguido captar dinheiro, o que os bancos lhes disseram foi: "Olhe, o senhor tem que vender e tem que nos devolver o dinheiro".
Para acabar as perdas ali.
Para acabar as perdas ali.
Claro. Ou seja, está aqui uma boa lição para qualquer investidor, não é?
Sim, muito provavelmente nenhum de nós vai criar um hedge fund, mas podemos é retirar uma lição desta história. A maior parte dos investidores perde dinheiro não é porque escolhe más empresas, é porque assume demasiado risco. E isto pode acontecer através da alavancagem. E esta alavancagem, este endividamento, pode colocar todo o patrimônio em risco, porque estamos a investir no curto prazo e, por exemplo, num único só título. Por isso, no investimento, sobreviver é muito mais importante do que ganhar dinheiro depressa. Devemos ter paciência.
Notas finais, então.
Esta história da Situational recorda-nos que nos mercados financeiros, a inteligência, o conhecimento ou até uma excelente visão sobre o futuro podem não ser suficientes, porque este senhor é expert em inteligência artificial, mas sem disciplina na gestão do risco, qualquer investidor pode falhar. E nos mercados não vence quem ganha mais num ano. Vence quem consegue estar investido durante muitos anos. Isto é paciência, é preciso ter muita paciência para investir.
Deixar o tempo funcionar.
Exatamente.
Muito bem, Pedro, aqui uma história dos nossos tempos que é exemplar. Nós voltamos para a semana, Pedro.
Muito obrigado, bom fim de semana.