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Este podcast é uma parceria do Observador Leve com a Gilead. Continuamos a falar de terapias celulares e da forma como podem, de forma inovadora, ajudar no tratamento de algumas doenças oncológicas. No episódio anterior, já disponível em podcast e no site do Observador, falamos de linfomas, uma das doenças que pode tirar partido deste tipo de terapia. E hoje continuamos a falar do tema e dos desafios que enfrentam os doentes com este tipo de cancro. E para isso temos conosco o doutor Manuel da Cassis, presidente da Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Doutor, bem-vindo, obrigada pela disponibilidade.

Muito obrigado.

E pergunto-lhe, o linfoma é um tipo de cancro que afeta as células responsáveis por proteger o corpo das infeções e doenças. Como é que normalmente os doentes encaram este diagnóstico?

Em geral, encaram o diagnóstico com preocupação. Obviamente, porque quando vêm ter com o especialista em doenças de sangue, o hematologista, que é o meu caso, as pessoas vêm porque há uma suspeita de que algo pode não estar bem e aquela grande preocupação é saber se têm ou não têm uma doença maligna, afinal de contas, porque na realidade o linfoma é uma doença oncológica. E o que é importante que as pessoas saibam é que há uma variedade muito grande de linfomas com comportamentos clínicos e prognóstico bastante diferentes. E tudo isto tem que ser explicado tranquilamente aos doentes.

Claro que sim, porque o cenário à partida, claro, é bastante assustador quando recebem esse diagnóstico. Portanto, doutor, estes doentes necessitam de um acompanhamento muito próximo. Portanto, qual é a importância que deve ser dada ao papel do cuidador, das pessoas que vão rodeando este doente?

É um papel que eu acho que é crucial. Por quê? Porque a maior parte dos doentes, são mesmo a totalidade das pessoas que vêm ter conosco, que estão emocionalmente, psicologicamente fragilizadas, com um diagnóstico de uma situação que lhes parece, e muitas vezes é, pouco agradável. E, portanto, daqui a importância do cuidador, uma pessoa muito próxima do doente, mas que tenha algum distanciamento para poder perceber com maior objetividade as explicações que nós damos, quer em relação à natureza da doença, quer em relação aos tratamentos que poderão vir a ser necessários, quer mesmo em relação ao prognóstico da situação.

E no que diz respeito também à gestão do tratamento, como é que as equipes médicas, os profissionais de saúde, se organizam no dia a dia para também acompanhar estes casos e também, já agora, a família, os cuidadores destes doentes?

Primeiro, é preciso dizer que nem sempre um diagnóstico de linfoma significa que a pessoa precise fazer tratamento de imediato, porque há linfomas que são de uma evolução muito indolente e podem passar vários anos sem necessitar de fazer tratamento. Para aqueles que necessitam de fazer tratamento, esse tratamento, hoje em dia, na maioria dos casos, é baseado naquilo que nós chamamos imunoquimioterapia, que é uma conjugação de um protocolo de quimioterapia convencional associado a uma arma de imunoterapia, neste caso, na maior parte dos casos, um anticorpo monoclonal. Estes tratamentos são repetidos em intervalos regulares, por um número de tratamentos que em geral anda entre os seis e os oito tratamentos. E posteriormente, é necessário, obviamente, um acompanhamento. Na maior parte dos casos, estes tratamentos são feitos em ambulatório, quer dizer, o doente não necessita de ficar internado no hospital, são feitos naquilo que nós chamamos em regime do hospital-dia. Ou seja, o doente vem, permanece umas horas no hospital para fazer a terapêutica e depois regressa a casa. Isto implica, além de uma vigilância regular, também análises feitas regularmente, porque, por vezes, devido aos efeitos secundários da própria quimioterapia, pode ser necessário adiar por uns dias um tratamento, e isso é determinado pelos resultados das análises que o doente faz imediatamente antes do ciclo seguinte.

E este tipo de acompanhamento é feito por equipes que são multidisciplinares, que têm aqui também psicólogos, nutricionistas. Em que ponto é que estamos em Portugal? Esta é uma realidade que no terreno está fixada e que bons exemplos é que temos também noutros países, doutor Manuel Cacazes?

Em relação à realidade, eu posso lhe falar pela minha experiência no IPO de Lisboa, que é o hospital onde eu trabalhei até há muito pouco tempo, em que de fato, os nossos doentes são acompanhados por uma equipe médica e de enfermagem. Não quero mais realçar o papel da equipe de enfermagem, porque de fato, são os enfermeiros, as enfermeiras, que estão em contato mais frequente e mais próximo com os doentes e que muitas vezes se apercebem de algumas singularidades de cada caso que o médico pode não-

Não se aperceber.

Exatamente. Além disso, o acompanhamento psicológico é muito importante. Não é que toda gente precise dele. Há muitos doentes que, por si próprios ou com o apoio do cuidador e com uma boa relação com a equipe clínica, não necessitam de acompanhamento psicológico. Muitos outros haverão que isso é necessário, benéfico e importante, e mesmo, por vezes, até a intervenção de um médico psiquiatra, no sentido de o doente ser medicado para reduzir a ansiedade, combater ou tratar uma depressão que eventualmente se possa ter instalado. Isso é importante. Já do ponto de vista da alimentação, estes doentes não têm restrições alimentares particulares, mas fruto dos efeitos secundários do tratamento, pode acontecer um estado nauseoso, uma diminuição marcada do apetite, uma perda de peso, e aí o apoio de uma consulta de nutrição e de um nutricionista, é seguramente útil e importante.

Certíssimo. E qual é o papel aqui da Associação Portuguesa contra a Leucemia? Como é que estes doentes chegam até à associação e que tipo de apoio é que vocês prestam?

A Associação Portuguesa contra a Leucemia, surgiu precisamente, da necessidade sentida por um grupo de doentes e médicos do IPO, já lá vão quase 20 anos. Se de início foi muito vocacionada para a área da transplantação de medula óssea e das leucemias agudas, que são, afinal de contas, a patologia ou a doença que é com mais frequência submetida ao transplante de medula óssea, depois o âmbito da associação veio se alargar para passar a incluir todas aquelas doenças do sangue que têm características oncológicas, entre elas, obviamente, os linfomas. E portanto, de que maneira é que a APCL tem desempenhado o seu papel junto dos doentes e dos cuidadores? Primeiro, através de informações existentes no nosso site. O site da APCL tem uma página de informação em que estão descritos os vários tipos de linfomas, em que as estratégias de tratamento são abordadas, de uma forma relativamente genérica. E, portanto, existe informação no site da APCL ao qual os doentes podem aceder. A APCL também realiza com alguma frequência, agora que estamos numa época particular, por causa da pandemia, sob a forma do webinars, sobre vários assuntos. Temos tido webinars sobre linfomas, sobre mielomas, sobre leucemias agudas, é, afinal de contas, a intervenção que a APCL tem tido como contribuição para um tratamento, eu diria, holístico desta situação, destes nossos doentes hemato-oncológicos.

Eu já agora deixo também o site apcl.pt, é bastante fácil. E já agora, Dr. Manuel do Cacias, nós neste podcast falamos muito das questões inovadoras, dos tratamentos inovadores deste tipo de doenças. Falamos, por exemplo, da terapia celular CAR T. Como é que a APCL olha para estes avanços no tratamento dos linfomas e como é que podem os doentes encarar a doença também com estes tratamentos em jogo, com maior esperança, porque muito mudou há 20 anos. A APCL já existe há 20 anos, muito mudou no tratamento destas doenças.

Completamente, sem dúvida. Como eu lhe disse, o tratamento hoje em dia é baseado em imunoquimioterapia, mas estão abertas as portas para novas estratégias de tratamento, entre elas as chamadas terapias celulares, que são, talvez, na área dos linfomas, mais conhecidas por tratamentos com células CAR T, que não são mais do que os linfocitos dos próprios doentes, que são reeducados no laboratório de modo a reconhecerem as células do linfoma como células estranhas e cumprirem o seu papel, que é, afinal de contas, levar à sua eliminação. Este tipo de estratégias tem sido fruto de numerosos ensaios clínicos e até estudos em vida real. Está disponível em Portugal desde 2019, portanto, nós temos vários doentes, algumas dezenas de doentes já tratados com células CAR T. E os resultados são muito interessantes. Sobretudo por quê? Sobretudo porque têm sido aplicados em doentes com situações muito complicadas, portanto, resistentes ou refratários a outros tratamentos, inclusive alguns doentes que recaíram depois de um transplante de medula, para os quais a utilização de células CAR T é uma esperança de cura. Não será para a totalidade dos doentes, mas para uma porcentagem de casos que ronda os 40% a 50%, oferece, de facto, uma probabilidade real de cura, o que até há muito pouco tempo era absolutamente impensável.

Poderá ser aqui um avanço no tratamento muito importante. No próximo episódio vamos continuar a explorar o tema da terapia celular e a compreender o que são exatamente células T e de que forma são alteradas para combater algumas doenças oncológicas. Conosco vai estar Bruno Silva Santos, é professor e investigador do Instituto de Medicina Molecular. O Dr. Manuel do Cacias é presidente da Associação Portuguesa contra a Leucemia e juntou-se a nós neste episódio. Dr. Manuel, muito obrigada. Até à próxima.

Adeus, boa tarde.

Este podcast é uma parceria do Observador Leve com a Gilead.