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"We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard."
Roger, roll pitch.
4.359 km/h. É esta a velocidade que os quatro astronautas da Integrity se estão a deslocar, neste momento, rumo ao planeta Terra. Daria para fazer, aproximadamente, a viagem de Faro a Chaves em 10 minutos. É uma velocidade notável, mas que vai continuar a aumentar. No momento da reentrada no planeta Terra, para se perceber, a nave vai atingir 40 mil km/h. É 10 vezes mais rápido do que a velocidade atual, ou seja, a viagem entre Chaves e Faro seria possível de fazer em apenas um minuto. Para não se perder nestas estonteantes velocidades e em todos os outros aspectos da missão Artemis 2, vamos começar mais um episódio de "Cabeça na Lua". Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo está o astrónomo José Augusto Matos. E vamos começar precisamente por aqui. José, boa tarde.
Boa tarde, Miguel.
A nave continua a ganhar velocidade e agora vai ser assim até o final desse momento de reentrada.
Sim, é verdade. E eu começava já por dizer que nos dava jeito um veículo desses que fizesse a viagem entre o Algarve e Chaves num instante.
É verdade. Dava muito jeito.
Mas é verdade, neste momento ela está na sua trajetória programada e à medida que se aproximar da Terra, vai acelerar cada vez mais, porque a gravidade terrestre irá surtir esse efeito sobre a nave. E sendo assim, ela vai ganhando velocidade, até que, como referias há bocadinho, quando ela chegar mesmo próximo das vizinhanças da Terra, já estará praticamente em 40 mil km/h e vai ser com essa velocidade que ela vai reentrar na atmosfera e vamos depois ter novamente aí uma fase um bocadinho complicada, que é o regresso, que é sempre uma fase em que é acompanhada com muita atenção, porque a nave atinge já grandes temperaturas e também entra com uma velocidade elevada.
Sim. A reentrada, na verdade, é o momento mais crítico de toda a missão, muito provavelmente. A reentrada e o momento da descolagem.
São os momentos mais críticos.
Sim, devido à velocidade, devido ao calor. Neste caso, no momento da reentrada, vamos falar de temperaturas que se aproximam de metade da temperatura do Sol. José Augusto Matos, é algo que já foi muito estudado, estes momentos de reentrada, mesmo com estas velocidades. Neste caso específico, a nave Orion fez exatamente este voo, mas sem tripulantes, há três anos e meio na Artemis 1.
Sim, é verdade. De facto, ela está preparada, como qualquer nave que vem do espaço, para a reentrada. Ela tem um escudo, na parte debaixo dela. E que é muito curioso, nós depois, amanhã, como é mesmo dia, podemos falar disso com mais algum pormenor, mas de facto é um escudo que vai resistir a temperaturas na casa dos 2700 °C. Portanto, é uma temperatura, de facto, muito elevada. E esse escudo tem uma característica também muito curiosa, que é: ele vai desfazer-se à medida que o calor o vai degradando. E depois, além desse escudo, tem uma proteção ainda lateral, naquela forma cônica que ela tem. Tem ainda umas pastilhas térmicas de lado também para a proteger nessa parte. E ela depois atravessará toda a atmosfera. E já cá nas baixas camadas, ali já nos 5 mil, 6 mil metros de altitude, é que ela começará a abrir os primeiros pára-quedas, que irão travar, e depois ela tem uma sequência de três pára-quedas, que vão sendo abertos. E repara, Miguel, ela vai ter que pousar no mar apenas a 27 km/h. Portanto, ela entra a 40 mil e tem que chegar cá abaixo a 29, 30 km/h. É, de facto, uma desaceleração incrível.
É, um grande sistema de travagem também, criado pela atmosfera, mas também, claro, por todos esses pára-quedas. A preparação para os astronautas para momentos destes tem de ser muito exaustiva. É para isto que treinam tantos anos e têm tantos treinos para conseguirem chegar a momentos como este, em que a força é tanta, e conseguirem resistir e mesmo assim, para qualquer eventualidade, ainda poderem estar operacionais para algo que possa ser necessário fazer.
Sim, é verdade. Como há pouco referias, de facto, tanto a descolagem como a parte do regresso, são dois momentos críticos nas missões. Porque, nomeadamente aqui na questão do regresso, a nave é submetida a temperaturas muito elevadas e depois também há um aspeto que amanhã podemos aprofundar, que é: ela tem que entrar com o ângulo certo na atmosfera. Ou seja, se ela tiver um ângulo muito raso, ela bate na atmosfera e faz ricochete e volta para o espaço. Se ela tiver um ângulo muito inclinado, aí então ainda é pior, porque a temperatura e depois a própria aceleração sobre os astronautas também é demasiado elevada. É tudo calculado ao pormenor e ela vai ter que entrar com o ângulo certo de entrada na atmosfera para conseguir atravessar e em condições aceitáveis.
E dentro da nave, o que acontece aos astronautas? Nós estamos a falar de velocidades estonteantes, estamos a falar de calor a níveis muito extremos. Dentro da nave também ficam condições extremas para os astronautas?
Não, e ainda bem para eles, porque senão, quando cá chegassem abaixo, tínhamos astronauta no espeto ou astronauta no churrasco. Portanto, ainda bem que eles estão protegidos e estão muito bem protegidos. Eles dentro da nave irão vestir os seus fatos pressurizados, porque obviamente um risco que há sempre nestas reentradas é haver, por exemplo, uma despressurização na cápsula, nela perder a atmosfera interior e, portanto, eles têm os fatos pressurizados vestidos para que se houvesse um problema qualquer desse género, que obviamente seria um problema grave. Mas fosse apenas isso, eles estariam protegidos com os fatos pressurizados. Mas eles, por incrível que pareça, dentro da nave, e como a nave está muito bem protegida contra essas elevadas temperaturas Eles dentro da nave terão sempre um clima ameno lá dentro e, portanto, a temperatura de facto não será elevada. Desse ponto de vista, mostra justamente que todos os sistemas de proteção térmica que a nave tem, neste caso concreto da reentrada, têm que funcionar de forma efetiva e eficiente para que dentro da nave a temperatura se mantenha constante e não haja grandes aumentos de temperatura dentro da nave.
Sim, e daí a importância de fiscalizar e detectar qualquer problema. Todos os parafusos têm que estar muito bem apertados.
Exatamente.
Por agora, os astronautas seguem em períodos mais pacatos desta viagem. Ainda ontem falámos disso. No planeta Terra, isto tem deixado espaço para se falar de alguns aspectos curiosos e caricatos desta viagem. E eu vou falar aqui de um que tem marcado os últimos dias. Ficámos a saber com esta missão que os astronautas comem Nutella. Sr. Augusto Marques, estavas preparado para este destaque dado a um creme de barrar?
Por acaso eu próprio fiquei surpreendido, meu caríssimo, porque vi o frasco da Nutella a flutuar dentro da nave e fiquei admirado, porque não fazia ideia. Também não estive a ver com atenção o menu, mas de facto não fazia ideia que fosse um frasco de Nutella. E de repente, noutra semana, numa altura qualquer, já não sei bem o dia que foi, estava a ver um vídeo e apercebi-me do frasco de Nutella a flutuar lá dentro para trás e para a frente. E vi afinal que foi um frasco de Nutella ali dentro. Mas é interessantíssimo que é um frasco de Nutella exatamente igual aos frascos que nós compramos no supermercado. É uma coisa curiosíssima.
Ficam aqui algumas dúvidas sobre isto. A NASA já veio garantir que não há aqui nenhum tipo de patrocínio, a NASA não entra nesse aspecto. A marca aproveitou para naturalmente fazer algumas campanhas de marketing, mas todos nós temos a ideia de que a alimentação no espaço é algo muito controlado, algo muito restrito. Vem aqui com produtos concretos que depois têm de ser hidratados, têm de receber água para depois poderem ser consumidos, vão quase todos desidratados, e de repente aparece aqui um frasco de Nutella, que complica um pouco a explicação sobre todo o resto. Há mais produtos que os astronautas e que essas missões possam levar destes de consumo do dia a dia, que nós não estejamos a par?
Sim, como referias, e é bem verdade, toda a ementa dos astronautas é controlada e é programada. Eles todos os dias sabem quantas calorias podem ingerir, têm um menu definido. E realmente muita dessa comida é aquela comida desidratada, porque há aqui vários aspectos a ter em conta. Em primeiro lugar, no espaço, o astronauta não vai cozinhar, digamos que não vai ligar o fogão para cozinhar nada. A comida vai já toda preparada. Depois, a comida desidratada tem uma vantagem também, principalmente em missões de longa duração, aqui não é tanto o caso, mas, por exemplo, na estação espacial, que é uma comida que tem períodos de validade longos, de meses. Isso também é vantajoso. E de facto, é uma comida que eu diria, praticamente no geral, toda ela preparada para as missões espaciais, enfim, para as permanências no espaço e digamos, ajustada àquele ambiente de imponderabilidade também. Agora aqui, de facto, o caso às vezes de aparecer, como aqui aconteceu com o caso da Nutella, eu diria que é um pouco estranho, embora acredito que obviamente a NASA não tem qualquer intenção de fazer publicidade à marca. E o frasco que apareceu ali de repente a flutuar, penso que também foi de forma inadvertida. Ou seja, eu apercebi-me no vídeo que estava lá a astronauta perto e ela provavelmente terá mexido em qualquer saco que levava comida e o frasco ficou por ali a flutuar e apareceu na filmagem da câmera. Mas de facto é isso. Não é assim habitual haver estas marcas mais corriqueiras que nós vemos nos supermercados neste tipo de missões. Mas pode acontecer. Isto por quê? Porque também a Nutella no espaço, por exemplo, é algo que até se lida bem com ela, porque, para já, é uma matéria espessa. É aquele chocolate espesso. Não é um líquido propriamente dito. O líquido é algo mais perigoso no espaço, porque flutua, e pode ir para um equipamento eletrónico e pode obviamente causar avarias. Agora, a Nutella não. Faz-me lembrar um pouco o mel, por exemplo. Eles já têm levado mel nas missões da estação espacial e levam mel e podem usar mel. Por exemplo, nas tortilhas, eles não usam pão porque o pão faz muitas migalhas e migalhas também não é bom andar a flutuar dentro de uma nave. Mas usam nas tortilhas, nomeadamente. E aqui também é esta Nutella, que eu sou capaz de apostar que seria para usar ao nível daquelas tortilhas que eles têm e metem a Nutella lá dentro e barram e usam. Mas de facto eu diria que não é um produto até que seja complicado usar no espaço, devido justamente à densidade que tem. Tem esta vantagem.
Estamos sempre a aprender e de facto é curioso. Não estaria à espera de, num programa dedicado a uma missão espacial, estar a falar das propriedades da Nutella.
Deixemo-nos ficar porque já ficamos todos com vontade de comer Nutella.
Sr. Augusto Marques, antes de fechar, a nave Orion vai chegar ao planeta Terra, norte de Portugal continental, à 00h06m, 00h07m, por ali, na madrugada de sexta para sábado. Falta um dia, nove horas e aproximadamente 10 minutos para chegarem. Até lá, ainda vamos ter um programa amanhã, sexta-feira, mas a que é que devemos estar atentos nesta altura em que a nave vai principalmente ganhar agora muita velocidade?
Ora bem, já agora em relação à hora da chegada, nós no nosso caso, como estamos com hora de verão, ainda temos que pôr mais uma hora em cima. Aqui será por volta da 01h e nós na altura iremos tentar acompanhar, mas de facto ela chegará já muito tarde à hora portuguesa. De facto, agora e amanhã depois também podemos aprofundar um pouco isso, o que vai acontecer de relevante é a sua aproximação à Terra. Ela depois, a uma distância ali nos 6.000 km da Terra, 5.000, 6.000 km Vai injectar o módulo de serviço europeu, aquele módulo que está acoplado a ela. Esse módulo vai ser injectado e depois irá reentrar na atmosfera, irá arder e irá desaparecer na atmosfera. E depois a própria cápsula vai manobrar para entrar justamente com aquela parte de baixo virada para a atmosfera, onde está o escudo térmico, e irá entrar dessa forma então, com essa velocidade que nós há bocadinho referíamos. Neste momento, no oceano, o barco de transporte anfíbio está já a navegar e está já a colocar-se num ponto intermédio. Não vá às vezes haver um ligeiro desvio na reentrada. Mas eu diria que a NASA vai obviamente fazer tudo por tudo para que ela venha mesmo a descer no sítio previsto, ou seja, essa vai ser no fundo a preocupação. E eles também a nível da nave, os próprios astronautas irão preparar-se para a reentrada, que implica depois uma série de procedimentos a fazer, nomeadamente vestir os fatos pressurizados e por aí fora, irão se preparar e já estão com saudades de casa e portanto também devem estar ansiosos por tocar no Oceano Pacífico e serem recolhidos. E desta vez há agora um pormenor engraçado, que é no tempo das missões Apollo, nomeadamente nas duas primeiras missões na Apollo 11 e na Apollo 12, o regresso à Terra ainda tinha depois uma grande dor de cabeça. É que iam para a quarentena. Depois já acabaram com isso a partir da Apollo 14, mas de facto nas duas primeiras tiveram esse problema. Mas isso não se coloca agora nesta missão e portanto isso já passou um pouco à história, mas de facto que os nossos caríssimos Armstrong, Aldrin e Collins quando voltaram ainda tiveram que ir três semanas.
Agora não vai acontecer.
Agora já não há nada disso, exatamente.
José Augusto Matos, muito obrigado. Estamos de regresso amanhã para analisar esse derradeiro momento da chegada ao planeta Terra desta missão Artemis. Até lá, já sabe, continue com a Rádio Observador, acompanhe tudo em observador.pt e não fique com a cabeça na Lua.
"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard."