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K7 60.
Continuamos este K7 60 a falar de Mário Soares, agora Soares o político. Ontem abordamos um Soares menos conhecido, Hugo.
E hoje revelamos pormenores do percurso do antigo primeiro-ministro e presidente da República, mas também do Ministro dos Negócios Estrangeiros, deputado, eurodeputado, líder do PS e claro, do lutador contra o Estado Novo. E por isso começamos pelo livro "Portugal Amordaçado".
Exato. E aqui só um pequeno contexto sobre o "Portugal Amordaçado", o livro que foi escrito durante o Estado Novo e que ficou como referência do que podia ser o futuro do país.
E se ontem falávamos em 1500 cartas trocadas entre Mário Soares e figuras da cultura, hoje, nesta vertente política, esse espólio pode chegar às 6, 7 mil cartas. Nem os investigadores sabem ao certo. José Manuel dos Santos, que foi assessor cultural de Soares durante 20 anos e que o conheceu durante quatro décadas, coordena esta coleção ambiciosa, muitas cartas, que tem então o "Portugal Amordaçado" como segundo volume destas obras publicadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e que sairá no próximo ano.
Vai ser apresentado, muito bem contextualizado, com um texto do Fernando Rosas. É uma edição crítica, com muitas notas. Nas suas edições do "Portugal Amordaçado", saiu primeiro em francês e depois em português. Era impossível sair em português antes do 25 de Abril. Aí também temos uma coisa muito interessante, que é uma carta de Snu Abecasis.
Uma carta que revelamos neste K7 60. Snu Abecasis, que era na altura editora da D. Quixote, mais tarde será mulher de Francisco Sá Carneiro. Morrerá, como na altura o Primeiro-Ministro, na queda do Cessna em Camarate. Mas dizia, Snu está muito zangada com Soares por causa da publicação do "Portugal Amordaçado".
"Porque não gostava de me impor durante os importantes dias desta semana que decorreu e também porque me foi prometido um telefonema, não tentei contactar para obter a resposta definitiva referente à publicação do livro 'Portugal Amordaçado'. Depois da formação do governo provisório ontem, pensei que talvez pudesse perguntar à sua esposa se já havia alguma decisão. Em consequência deste telefonema, fui informada por uma senhora que atendeu o telefone de que o livro já estava a ser feito na Arcádia. Talvez pareça ridículo escrever estas linhas, mas não foi possível durante a semana que passou mandar alguém telefonar para me informar da sua decisão. Sei que houve outras coisas, evidentemente bem mais importantes a fazer, mas se houve decisão para a Arcádia, também podia ter havido uma resposta para a Publicações D. Quixote."
Mesmo zangada, não é? Snu Abecasis. Esta edição do "Portugal Amordaçado" vai ser publicada com mais de 150 cartas.
Uma dessas cartas também é de Sá Carneiro. Sá Carneiro escreve-lhe uma carta altamente elogiosa para o livro e diz que gostava de o conhecer e de se encontrar com ele. É pena não ter acontecido até então, mas expressa esse desejo. E o Eduardo Lourenço diz, numa carta, que o "Portugal Amordaçado" é o romance político da nossa geração. E a partir de agora, quando quisermos olhar para os fios da nossa própria aventura, não podemos deixar de olhar para este livro.
José Manuel dos Santos, olhando para o acervo que Soares deixou, não tem dúvidas da importância da escrita no percurso de vida do político.
Mário Soares foi um político que queria ser escritor e foi escritor ao ter sido político.
Sabendo da importância que estes documentos poderiam ter, Soares guardou tudo, até o que os outros escreviam.
Muitas vezes, por exemplo, havia uma reunião importantíssima, aquelas reuniões, por exemplo, do Secretariado do PS, ou depois no Conselho de Ministros também, e às vezes eles deixavam papéis com notas em cima da secretária, da mesa de reuniões. E no final, Soares aproximava-se deles e pedia-lhes para levar as notas ou se eles já se tinham ido embora, levava-as.
É de tudo isto que se faz um espólio de mais de dois milhões de documentos que vai sendo publicado ao longo dos próximos anos e que ajudará a completar-se a história do país.
E ainda sobre a carreira política de Mário Soares, vamos mudar um pouco de agulha para recordar algumas das datas mais marcantes. Em 1976, Mário Soares tornou-se o 105º primeiro-ministro de Portugal.
O 105º primeiro-ministro. Desculpas, Edite, mas são demasiados números para mim. Eu acabei de almoçar. Aliás, ainda não acabei de almoçar, para ser bem sincero.
Mas apanhamos também.
Sim, e pronto, ainda estou a fazer a digestão. Ou comecei a fazer a digestão agora mesmo.
Bom, indo ao fundo do baú da lista de singles mais vendidos em Portugal em 1976, encontramos uma surpresa, Tiago.
É isso. No fundo do baú, encontramos o quê? Um viking alemão com aspecto japonês, que se fartou de vender discos em Portugal. Não é? Assim uma coisa bem...
É por aí.
É globalização, acho eu, é um bocado isto.
Um viking alemão com aspecto japonês. Estamos a falar do Vicky, o viking que estreou em Portugal pela RTP em 1974, com dobragem alemã e legendas em português. Vicky, que repetiu mais tarde na TVI, em 1996, e depois ainda passou pela RTP 1 e pela RTP 2, também pela RTP Açores, aí já com dobragem em português.
Olá. O viking mais famoso do mundo da animação, com este Hey, Hey, Vicky, Hey, conseguiu então ter o single mais vendido em 1976.
Um single de uma série de animação. Mas também já não se fazem músicas assim para os desenhos animados hoje em dia.
Esta música era muito gira.
Pois é.
O single mais vendido em Portugal em 76. Haverá muita gente a cantar.
Há, certamente.
Eu acho que os mais entradotes, como nós.
Como eu, mais eu. Esta série é muito enganadora em relação aos vikings, atenção. Os vikings são todos simpáticos e cantorias.
É uma série de animação.
Não, eu já vi várias séries sobre os vikings e se há coisa que esta malta não era, era amiga.
Simpática.
Sim, simpática. Mas enfim.
A próxima paragem neste "Cassete 60" é 1983, o ano em que Mário Soares é eleito pela segunda vez primeiro-ministro.
Exatamente. E 1983 foi também o ano em que o nosso país revelou uma ligeira esquizofrenia musical. Senão, atentem bem nalgumas das pérolas que dominaram os tops nacionais em 83. Atenção, peço aos nossos ouvintes que tenham cuidado com o momento que se segue.
A versão portuguesa do êxito britânico "Save Your Love".
Eu não avisei.
Não preparaste o seu sentimento.
Não.
Bom, isto também foi um grande sucesso em Portugal, não foi só no Reino Unido. Aqui, Romeu e Julieta são, na realidade, Carlos Guilherme e Júlia Gonçalves.
Exatamente. Começámos este tour com amor. Mas há mais. Atenção, há mais para descobrir neste pot-pourri melódico. Escutem isto.
Tinhas falado em esquizofrenia musical, foi isso, Tiago?
É, eu só queria alertar para este ponto. Tivemos aqui já uma crítica por não termos deixado o Vicky, "Vickiei", rolar mais tempo, porque sim, havia gente a cantar, respondendo à pergunta.
Sim, confirma-se.
Pode ser que o consigamos recuperar no fim deste "Cassete 60". Bom, Tiago, portanto, "Onde Vais Portuguesa Bonita?"
Linda, exatamente.
Tiago, que bela seleção musical que nos estás a trazer esta tarde.
Sim, mas repare que também poderia ter optado por outros artistas, que ocuparam igualmente um digno lugar no top nacional em 1983. Então temos um Roberto Carlos, um Júlio Iglesias, um Armando Gama.
Muito bem. E então, não houve nada digno de relevo?
Houve, sim, Judite. Por acaso até houve, mas na minha opinião, esta é uma canção bem fraquinha.
Ok.
Um tal de David qualquer coisa, que diz não sei o quê, para calçar uns sapatos vermelhos e ir bailar. Esta gente realmente gosta de cada coisa. Eu não consigo perceber isto. Escutem lá.
Esta vinha lá de fora.
Do estrangeiro.
Tiago, portanto, esse David qualquer coisa que dizia, é o David Bowie, é isso?
É capaz de ser isso. Eu sabia que era um estrangeiro.
Portanto, em 83 tivemos José Guilherme, tivemos José Cid e David Bowie.
Carlos Guilherme. Assim é que é.
Carlos Guilherme. Fizeste José Guilherme.
Foi por simpatia.
Exatamente.
Neste "Cassete 60" regressamos ao ano de 1986, o ano em que Mário Soares foi pela primeira vez eleito para a Presidência da República. Foi também o ano em que se realizou o 23º Festival da Canção.
25º, não, 23º, exatamente. Um festival que aconteceu no dia 22 de março de 1986 nos estúdios da RTP e para o qual foi deslocado um batalhão de apresentadores. Foram eles, escutem: Alice Cruz, Ana Zanatti, Eládio Clímaco, Fialho Oveia, Henrique Mendes e Maria Helena. Consta que cada um deles terá apresentado cerca de meia música por apresentador, mais ou menos isso.
Exato. Em 86, a RTP experimentou um novo modelo de festival ao qual chamou "Uma Canção para a Noruega".
Isto porque o festival se ia realizar precisamente no Luxemburgo, não é? Era essa a ideia.
Exato. "Uma Canção para a Noruega". Neste modelo, "Uma Canção para a Noruega", cada um dos quatro centros de produção da RTP ficou incumbido de escolher três canções e gravá-las em estúdio.
Descentralização.
Exatamente. Para depois serem apresentadas ao grande público através da emissão assegurada da sede da RTP, que na altura ficava na Avenida Cinco de Outubro, em Lisboa. Hoje em dia é um hotel, pelo que sei.
Isto parece que éramos a América. Muito grande o país e de cada lado vem uma música. Conferência Oeste versus Conferência Este.
Quase isso.
Tiago, queres assumir o papel de Eládio Clímaco e anunciar a canção vencedora deste festival de 1986?
Eu não consigo assumir esse papel, mas teria muito gosto. Então vamos a isto. Com certeza. Ana Zanatti, a vencedora foi a canção número 11, com letra e música de Guilherme Inês, Zé da Ponte e Luís Oliveira, canta Dora, "Não Sejas Mau Para Mim".
O sonho de saber viver. É tempo de seguir o novo amanhecer. Não sejas mau ppara mim. Oh, oh. Só te quero a ti. Oh, oh. Uma história de amor que um ano vou contar, nem se quer esquecer. O lado bom de passar contigo, fica guardado no meu sentido. As fitas loucas, os bairros húmidos, as crises curtas, tudo vai. Eu quero sonhar.
Isto é uma autêntica viagem aos anos 80. Todas as sonoridades, mesmo a letra. Sim, Tiago.
Posso só enviar um pedido de desculpas a Eládio Clímaco? Peço imensa desculpa, Eládio, por esta péssima imitação.
Não foi muito mau. Eu acho que o Eládio Clímaco tem sentido de humor, não é? Portanto, não há problema.
E acho que a determinada altura, todos nós sonhámos ser um Eládio Clímaco, até porque ele tinha o privilégio, não só de apresentar o Festival da Canção, mas também de conduzir os Jogos Sem Fronteiras.
Os Jogos Sem Fronteiras. Isso sim, é extraordinariamente importante.
Era, sem dúvida.
E para terminarmos o cassete 60 de hoje e a pedido de várias famílias, não é, Angeli de França?
Boa! Os simpáticos Vikings.
Vamos voltar aos Vikings, não queremos defraudar os nossos fiéis ouvintes.
Ficamos então com o single mais vendido no ano de 1976. Canção que dava o mote para uma série de Vikings.
Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. Levanta bem a vela. Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. No alto mar navega. Na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, Vicky. Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. Quando a vida está feia. Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. Tens uma boa ideia. Na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, Vicky. O lobo mau faz tremer. A tempestade ele receia. Mas no final sempre terá. Uma feliz ideia. Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. Levanta bem a vela. Hey, hey, Vicky. Hey, Vicky, hey. No alto mar navega. Na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, Vicky. Cassete 60.
Rádio Portugal.