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K7 60.
Vamos recuar a 28 de abril de 1967, quando Muhammad Ali recusou ingressar no exército norte-americano porque não queria combater na guerra do Vietname.
Muhammad Ali, nessa altura, era já considerado por muitos um dos maiores pugilistas do mundo, mas era um lutador e também um rebelde.
É uma belíssima expressão, Nelson, porque nesse 28 de abril, há 54 anos, Muhammad Ali apresentava-se no quartel em que iria fazer a recruta em Houston, e das três vezes que o seu nome é chamado, recusa dar aquele passo em frente.
Grande campeão. Estou a imaginar a cena, os futuros recrutas todos alinhados e o Muhammad Ali é o único que se mantém na fila, sem se mexer. Aquela figura imponente.
Exatamente. Ali já tinha sido chamado em 1966, portanto um ano antes, mas foi dado como inapto. Só que um ano depois, e com a evolução da guerra, que se tornou cada vez mais difícil para os americanos, o pugilista recebeu a informação de que deveria apresentar-se no exército. A notícia correu rápido, claro, e os jornalistas questionaram se estava disposto a ir combater. A resposta foi muito clara.
"Tell me, champ, would you have been prepared to go into the army if it hadn't been for the Vietnam War?"
No, under no conditions do we take part in wars to take lives of other humans.
De resto, Muhammad Ali não se recusa só a combater, explica por que é que o faz, diz ele: "Sob nenhuma circunstância admite participar numa guerra para matar outros seres humanos", diz o champ.
Exatamente. E por isso, quando vai a Houston, já se esperava que recusasse. Sim, até porque já tinha apelado três vezes para que não fosse incorporado, garantindo que a sua fé era não violenta. Aliás, Ali acaba por ser considerado uma espécie do embaixador do Islão nos Estados Unidos.
É preciso explicar que Muhammad Ali nasceu em 1942, em Louisville, no Kentucky, mas chamava-se Cassius Clay.
E só em 1964 se converte ao Islão e muda de nome. Convém não esquecer o período que estamos a falar. Desde pequeno que Muhammad Ali e a sua família sentiram na pele o racismo, daí a luta que travou também pelos direitos civis. Convém não esquecer mesmo que à época os Estados Unidos eram países onde ainda havia segregação racial.
Sim, há uma frase célebre, aliás, quando os jornalistas lhe perguntam por que mudou de nome, e o Ali respondeu que Cassius Clay é nome de escravo.
Precisamente. Vamos voltar só ao início da nossa história, porque Ali não chega a ser preso quando recusa incorporar o exército, apesar de ter sido depois condenado a cinco anos de prisão, mas acaba por não cumprir, porque recorre e depois acaba por não ser condenado. Mas perde todos os títulos. Isso foi logo. E portanto, em 71, volta aos ringues para combater pelo primeiro lugar. Perde, não recupera o título e só em 1974 é que volta a tentar. Esse combate teve lugar no Zaire e, segundo escrevem os jornais da época, foi absolutamente memorável.
A carreira de Muhammad Ali é longa. Se não estou enganado, ele fez qualquer coisa como 60 combates profissionais.
Boa memória. Foram 58 e só perdeu três. Era de facto um atleta excepcional e foi sempre muito vocal na defesa dos direitos civis. E isto é muito interessante, porque a intervenção política de Ali teve de facto um impacto nos Estados Unidos. Isto não é muito habitual nos atletas e menos habitual ainda à época. Em 1996, e isto eu já me lembro bem, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, Muhammad Ali levou a tocha, que acende aquela pira enorme, o que é considerado uma honra para os desportistas, e é sempre uma imagem lindíssima que dá início aos Jogos Olímpicos.
De facto, um lutador impressionante que ficará para sempre pra história, mas quando recusou ir para a guerra, quando todos os jovens norte-americanos eram incorporados, também não se livrou de algumas críticas. "You're in the Army Now" é um original de uma banda holandesa, os Bolland & Bolland, mas esta versão de 1986 dos Status Quo é que é mais famosa, não é? Não fazia ideia que não era o original. Obrigado por teres esperado pela entrada da guitarra. Um ano mais tarde, em 87, os Onda Choc, no seu primeiro álbum, também fazem uma versão deste tema. Um álbum também bastante literista. A versão chamava-se "Tu Vais Para a Tropa, Pá!". Era assim, era a versão dos Onda Choc.
E o Rivellose também cantou "Eu Não Quero Ir à Máquina Zero". Belíssima música. Mas a 28 de abril de 1967, esta era a música que estava em número um nos Estados Unidos e também em Inglaterra. Um encontro de pai e filha, Nancy e Frank Sinatra, com "Something Stupid".
O Tiago Doors gosta muito desta música, mas na versão da Nicole Kidman, não é? Pois, que também não é o original, curiosamente. Nancy Sinatra, que teve em 1967 um ano em cheio. Deu que falar também com o tema para o 007 desse ano, "Só Se Vive Duas Vezes". Também são sempre grandes temas. E por falar em cinema, o Vietname, de resto, sempre foi uma grande inspiração para a sétima arte. Vejam, por exemplo, o inesquecível Robin Williams em 1977 no "Good Morning, Vietnam". Good Morning, Vietnam! Mas como de costume no "K7 60", também olhamos para Portugal. O que se passava em Portugal em 1967? Na música, um dos destaques foi precisamente esta canção, que venceu o Festival da Canção desse ano, "E o Vento Mudou", de Eduardo Nascimento. K7 60.
Rádio Observador