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2014. O Novo Banco nascia, mas era para ser vendido. Em 2015, as chinesas Anbang e Fosun e a americana Apollo tentaram ficar com o banco, mas o Fundo de Resolução, a quem cabia fazer a venda, abortou-a. As propostas foram consideradas insatisfatórias. O país tinha deixado para trás um período de ajuda financeira sob o jugo da Troika. A banca tinha sido arrastada para esse precipício. Muitos clientes deixaram de pagar créditos. O malparado atingiu 17,5%. Foi com esta pressão que chegou o governo de António Costa no final de 2015 e logo se viu a braços com outro caso: a resolução do BANIF. Foi também o Fundo de Resolução chamado a limpar esta nova situação. Com Mário Centeno no Ministério das Finanças, o governo tinha na banca uma dor de cabeça. Era preciso vender o Novo Banco, que continuava no balanço do Estado. Chegamos a 2017. A venda fez-se. A Lone Star injetou 1000 milhões de euros no capital do Novo Banco, mas não pagou nada ao Estado. Foi ainda criado um mecanismo de capital contingente que permitia levar do Estado para o banco fundos de até 3.890.000 milhões de euros. Todos os anos, o Fundo de Resolução foi chamado a injetar dinheiro no Novo Banco. E todos os anos os governos socialistas tiveram de responder no Parlamento por que é que o banco bom estava a mostrar-se aparentemente tão mau. E ainda tiveram de responder pela conversão em créditos fiscais de perdas registadas pelo banco e que mais tarde podiam ser convertidas em capital. E foram. O Estado entrou diretamente no banco, comendo parte da posição do Fundo de Resolução. Agora, no encaixe da venda aos franceses do BPCE, parte do valor faz check-in nos cofres do Ministério das Finanças. É sobre a participação do Fundo de Resolução no Novo Banco e a figura criada para capitalizar a instituição que vamos falar com Luís Máximo dos Santos, vice-governador do Banco de Portugal e presidente do Fundo de Resolução. Eu sou Alexandra Machado, editora de economia do Observador e a entrevista é conduzida pelos jornalistas Ana Suspiro e Edgar Caetano.

O processo de venda do Novo Banco aos franceses do BPCE foi liderado pelo fundo Lone Star, que tem 75%. O Fundo de Resolução foi consultado em algum momento sobre a opção que acabaria por ser tomada?

Pela circunstância de, como disse bem, a Lone Star ser titular de 75% do capital, a condução do processo foi da Lone Star.

Mas nunca o consultaram.

O que não significa que não tenha havido contactos entre o Fundo de Resolução, e é só por ele que eu aqui posso falar, embora saiba que o mesmo se passou relativamente ao Estado, entre o Fundo de Resolução, a Lone Star e o próprio BPCE.

Então sabiam mais ou menos os valores envolvidos?

Sim, a partir de determinada altura, já próximo do anúncio final.

E sinalizaram a sua aprovação?

Não, não sinalizamos, porque ficámos conscientes do valor que estava em causa, mas a lógica do processo é um pouco diferente, na medida em que uma vez feito o acordo, a Lone Star, e é um acordo, insisto neste ponto, entre a Lone Star e o BPCE, tem, ao abrigo dos direitos contratuais, a faculdade, como se diz um pouco na gíria, de arrastar o Fundo de Resolução, ou seja, no fundo, de o fazer aderir à venda. Para isso, é preciso que se verifiquem as condições, como por vezes se diz numa expressão em inglês, mas talvez seja aqui mais eloquente, de arm's length, quer dizer, se verificar que todas as condições que estão previstas para a Lone Star se aplicam, diria-se mutatis mutandis, ao Fundo de Resolução.

Mas o Fundo de Resolução achou o preço bom. Se fosse um preço disparatado, não iria aceitar. Ou não venderia, no fundo, exerceria a opção de não vender.

Achou um preço muito bom, até.

Muito bom. Desprava menos é?

Estes processos negociais, de facto, o BPCE demonstrou desde o início estar muito interessado em concretizar esta operação, e portanto, é natural que a certa altura se faça um esforço.

E foi um preço muito superior ao outro? Sabe até essa informação?

Sobre isso não estou em condições de falar neste momento.

O Novo Banco foi muito escrutinado nos últimos anos. Auditores, supervisores, Parlamento, imprensa, mas os compradores também vão fazer a sua due diligence. Não haverá mais surpresas desagradáveis?

As due diligence fazem-se exatamente para que quem vai comprar Saiba na plenitude o que está a comprar. Agora, é como diz, o Novo Banco foi talvez a instituição mais escrutinada que eu me recordo e seguramente isso também foi uma condição da sua atratividade, porque quem vai comprar conhecia o processo, sabia tudo o que se tinha passado e, portanto, à partida, isso dava uma garantia adicional relativamente à própria instituição.

O Novo Banco foi, no fundo, vendido a um valor mais elevado do que se esperava. Acha que isso pode levar o Fundo de Resolução a pagar mais cedo aquilo que deve ao Estado?

Pagar mais cedo pode acontecer. Nalguns casos pode haver, mas isso terá de ser avaliado, porque sejamos realistas, a situação líquida do Fundo de Resolução é ainda profundamente negativa. E, portanto, é evidente que a venda agora, a participação, o próprio recebimento dos dividendos, o facto de as coisas também correrem bem do lado da 8ante, os rendimentos que temos obtidos da própria aplicação dos recursos que entretanto o Fundo de Resolução passou a dispor e que não tinha, tudo isso evidentemente vai ter como finalidade, diria única até, o pagamento do capital e dos serviços.

Mas vem acelerar um bocadinho, não?

Não gostaria de me vincular desde já a isso, porque depende de contas rigorosas que terão de ser feitas na altura. Agora, que melhora, obviamente, a expectativa e, sobretudo, eu diria que confere a certeza de que o Fundo de Resolução vai reembolsar os créditos que obteve. É claro que não é apenas por estes montantes, porque seriam insuficientes, bem entendido, mas porque se mantém o fluxo financeiro decorrente das contribuições que o setor irá fazer. E, portanto, verifica-se aquela ideia que muitas vezes foi dita, mas numa certa altura ninguém acreditava, que a longo prazo ou médio e longo prazo, isto é neutro do ponto de vista do Estado, ou seja, o Estado, para falar do Estado, será reembolsado de tudo aquilo que desembolsou.

Já houve alguma abordagem dos governos AD para rever as condições do contrato, uma vez que o PSD, quando estava na oposição, foi muito crítico do prolongamento do prazo de pagamento da dívida?

Não, uma abordagem nesse sentido não houve nenhuma, mas eu creio que as coisas estão estabilizadas desse ponto de vista. Essa estabilidade é boa, porque confere previsibilidade e, à partida, diria que não antevejo que isso aconteça, mas tudo depende sempre do que possa vir a ocorrer. Não há dogmas a este respeito, embora para já os contratos, como costumo dizer, existem e são para cumprir.

Eu queria que fizesse aqui um ponto de situação. Em termos simples, quando é que a dívida do Estado será paga e quantos anos é que os bancos vão demorar, através das suas contribuições, a financiar o fundo?

Bem, pelo menos seguramente até 2046. E há uma parte dos empréstimos que será até um pouco mais tarde. Mas isso não é novidade nenhuma, porque isso foi o que se teve na origem.

Não, é só para fazer um ponto de situação, para as pessoas perceberem qual é a situação líquida, qual é que é o plano de pagamentos, em termos simples, naturalmente.

O plano de pagamentos ainda não está feito, no sentido em que, quer dizer, pagaram-se já 714 milhões de euros a título de juros. A certa altura, depois, eu tive a ocasião várias vezes de referir isso, deixou de se pagar juros, porque a taxa, de acordo com a revisão que se estabeleceu em conformidade com as regras do contrato, passou a ser de 0%. Isso agora será revisto no início de 2026, a taxa de juro. Mas, portanto, a situação líquida continua a ser negativa da ordem dos 7 mil milhões de euros. Pouco mais, esses números estão todos publicados nos nossos relatórios.

Prevê que agora que o Novo Banco foi vendido, os bancos intensifiquem a pressão no sentido de serem reduzidas ou atenuadas as suas contribuições, ainda mais num contexto de queda dos lucros no setor, que agora se irá verificar?

O cálculo que foi feito para determinada altura foi justamente para que os montantes que os bancos pagam a título das contribuições tivessem um valor global anual estabilizado, justamente para facilitar a respetiva gestão. E calculado justamente já com este prazo alongado Portanto, eu diria que a expectativa é que esse quadro se mantenha. Mas também aqui, se houver vontade de ambas as partes, que é o suposto, visto que o contrato é assim mesmo, isso poderia ser modificado, mas não me parece que isso seja desejável, porque uma das partes, um dos aspetos fundamentais aqui foi justamente quando se estabeleceu esse quadro, dizer ao setor que há aqui uma previsibilidade. E agora as condições até melhoraram relativamente a outros cenários. Portanto, não creio que haja um aumento de pressões sobre isso ou uma grande polêmica em torno dessa matéria.

Mas a solução encontrada, estamos a falar de uma venda a um banco que não estava a operar em Portugal, entre todas as soluções possíveis que existia, desde a bolsa, desde ser comprado por um banco já presente no mercado português, de um modo geral, e aqui vestindo mais a capa do Banco de Portugal do que do Fundo de Resolução, a solução encontrada tem vantagens ou há desvantagens?

Olha, eu evitei sempre, na medida do possível, pronunciar-me sobre isso, mas agora que a questão está ultrapassada, eu acho que a solução, francamente, dificilmente poderia ser melhor. Isto é, a fazer-se uma venda a uma outra entidade, nestes termos, portanto, sem ser a alternativa da dispersão do capital em bolsa, de facto, a possibilidade de entrar um novo ator, que é o caso do BPCE, no nosso mercado, de uma economia tão desenvolvida como é a francesa, de uma realidade que é a da União Europeia, com uma comunhão de regras que sempre teria ter em qualquer caso, mas que já estão bem assumidas, com relações empresariais e econômicas profundas, uma network de contatos que indiscutivelmente existe, eu acho que isso vai ter um valor acrescentado.

E seria melhor do que a bolsa. A bolsa daria menos encaixe, mas teria outras vantagens, não?

É difícil comparar, não temos o contrafactual.

Mas aí comprado por outro banco, por exemplo, neste caso.

Também seria algo interessante.

Seria interessante, mas aqui o encaixe seria menor, provavelmente, não?

Também seria algo interessante. Por outro tipo de razões. Também seria algo interessante, até desde logo, o impacto positivo no mercado de capitais, mas relativamente a uma concentração com atores já a operar-

Como o caso do BPI, Caixa Bancos estava interessado.

Parece-me esta solução francamente melhor.

Por quê?

Porque, de facto, não é um problema do capital ser espanhol ou de outro país qualquer. É ficar, nesse caso, um excesso de concentração.

De um país espanhol, está a falar.

Nesse caso, mas podia ser de outro qualquer. Por isso é que eu digo, não é tanto a origem do capital.

É ser apenas um país, é ser só de um país.

Mas uma concentração excessiva, exatamente, de um ator. Portanto, eu acho que esta solução, desse ponto de vista, diversifica, é enriquecedora pro nosso sistema bancário.

Em oposição então à do BPI, que mesmo que fosse um valor meio superior.

Não se trata de um valor superior, não se trata dessa questão. Vamos lá ver. É melhor, logo à partida, por este conjunto de razões que eu indiquei. É evidente que isto é discutível. Nunca o disse antes, porque entendia que não devia fazer, até porque o Fundo de Resolução, a sua posição não era estratégica. Esta participação era estritamente financeira. Nós queremos vender isto pra pagar o que se deve. É diferente de outras abordagens, como a do Estado português ou do Banco de Portugal em si mesmo. Mas foi bastante bom, diria eu. E não pretendo dizer com isto que é nulo tudo o que houve de menos bom para trás, mas o desfecho acaba por ser bastante positivo.

Ainda em segundos, acha que o consumidor fica mais bem protegido?

Vamos lá ver. Quanto maior a concorrência, maior proteção do consumidor é de um mercado concorrencial. E todo este processo também ele próprio foi um processo concorrencial. Agora, a proteção do consumidor é um objetivo que está sempre presente. Inclusive, obviamente, na ação do Banco de Portugal, que também através da supervisão comportamental, exerce uma função de promoção da transparência, da qualidade da informação, da efetividade dos direitos dos clientes bancários, etc. A questão não se cinge a isso, mas ao manter o banco como uma unidade autónoma. E isso é muito importante também do ponto de vista dos trabalhadores do banco. Repare, seria um bocadinho, eu diria, quase cruel, ao fim destes anos todos, as pessoas que se mantiveram fiéis ao Novo Banco e que em condições difíceis operaram e acabaram por conduzir a uma situação bem-sucedida, porque há que dizer, não é só as administrações que contam, contam todas as pessoas que estão a trabalhar para uma instituição. E chegar-se agora e provavelmente por causa de uma fusão, por exemplo, virem a perder o respectivo posto de trabalho. Seria uma coisa bastante dura e ainda bem que não vai ser assim. E o próprio BPCE já fez declarações relativamente ao seu compromisso nesse sentido.

Foi sendo criada uma certa ideia de que o Estado, neste processo do Novo Banco, ficou com todas as perdas, mas quando chegou a hora de vender o banco, quem ficou com os lucros quase todos foi o Lone Star. Qual é o seu comentário a esta ideia, digamos assim? Está errada?

Discordo dela completamente.

Discorda totalmente.

Discordo.

Então.

Repare, nós temos que ter aqui sempre um ponto de partida e o ponto de partida é a resolução do Banco Espírito Santo em agosto de 2014. Não fora a resolução e os resultados seriam muitíssimo piores.

Está-se a referir a quê? Uma insolvência?

Exatamente, à liquidização do banco.

Era a única alternativa, sim.

Podia não ser. Vamos lá ver, o banco podia ser nacionalizado.

Sim, integrado na Caixa, discutiu-se isso.

Integrado na Caixa é difícil, mas nacionalizado.

Como o BPN.

Mas, por exemplo, precisamente, já que falou do BPN, os números são absolutamente inequívocos. É que a nacionalização do BPN para o erário público foi muitíssimo mais cara do que a resolução do BES, se ponderarmos aquilo que se gastou em função dos ativos de cada banco.

A dimensão do banco. Ainda assim, a pergunta da-

Ou a dimensão do banco. E deixe-me só terminar. Portanto, isto significa que nós temos de olhar sempre para todo este processo, tendo o ponto de partida e depois, evidentemente, vendo os passos subsequentes.

Mas aqui a distribuição dos ganhos entre o Estado e o acionista privado, o fundo. É mais por aí que a minha pergunta ia, não é?

Certo, mas em 2017 foi indispensável fazer um acordo. O Estado, nem o fundo de resolução podiam colocar mais dinheiro no banco, não podiam mesmo juridicamente, no caso do fundo de resolução, a menos que houvesse uma alteração dos compromissos que tinham sido assumidos, perante a Comissão Europeia, mas recordo aqui que havia um prazo pra venda, o objetivo era vendê-lo. Esse é que era o objetivo. E portanto, essa situação foi uma situação bastante difícil, isso eu posso testemunhar de facto viva voz, porque reparem, não havia nenhum banco, contrariamente a outros países que são nossos parceiros. Quer dizer, não havia nenhum banco no mercado português, nenhum banco português, digamos assim, em condições de fazer uma oferta para comprar o Novo Banco. Recordo aqui que o Banco Popular foi comprado pelo Santander numa resolução mais tarde.

No fundo, aquilo que aconteceu em Espanha, exatamente, e que depois também aconteceu mais tarde em Portugal.

Não havia. Portanto, o grau de incerteza relativamente ao que o banco poderia fazer ou não era gigantesco. A desconfiança das autoridades europeias era um facto. Não vou estar a particularizar, mas eu fui testemunha. Portanto, a Lone Star entrou com os mil milhões, que foi para digamos, realmente corresponder às necessidades de capital. E o sistema que se encontrou foi um sistema que não foi de garantia relativamente às perdas nos ativos que estavam no mecanismo de capital contingente, não foi isso. Se fosse assim, seria muito maior o custo. Foi de manutenção de um determinado ratio de capital e eu agora apelo aqui à vossa memória. Lembram-se todos que o limite era 3,890 milhões. O que é que sucede? Toda a gente dizia, e até eu percebia a lógica do argumento, que esse montante se esgotara, porque era da natureza, os incentivos a isso conduziriam. E acabou por não suceder. Ficamos 485 milhões aquém. Portanto, não só não houve a prestação de garantia relativamente às perdas nos ativos. Ficamos aquém do limite que tinha sido estabelecido.

No valor não são trocos, como dizem no Parlamento, não são trocos.

E agora estamos a obter resultados. E a Lone Star teve sete anos sem ter remuneração nenhuma. Eu não estou aqui agora, tudo menos isso, a fazer o jogo de quem quer que seja. Mas quer dizer, arriscou, é uma questão da dimensão do risco, porque arriscou numa altura em que outros não quiseram fazer e esse processo foi aberto e concluído.

Ou não puderam.

Ou não quiseram, ou não puderam. Mas eu falo mesmo de entidades estrangeiras. E a verdade, havia um grande receio que o banco depois pudesse andar de fundo para fundo deste gênero de entidades como é a Lone Star, e agora verificamos que não.

Porque eles não podiam vender antes do processo de reestruturação estar concluído, não é?

Com certeza, mas poderia agora, em vez de ser um Este tipo de operador ser outro qualquer e o operador do ponto de vista sistêmico, é do que estamos a falar, não é por ser este banco ou aquele ou outro, o sistêmico é relevante pro funcionamento da economia portuguesa.

Sim. Disse no Parlamento há poucos meses que ficou satisfeito com a vigilância que foi possível fazer do cumprimento do acordo que foi feito quando o banco foi vendido ao Lone Star em 2017. Olhando pra trás, considera que o Estado e o Fundo de Resolução tiveram a sua posição suficientemente protegida neste contrato?

Francamente, fiquei satisfeito. Eu respondo pelo meu trabalho e fiquei satisfeito. Por quê? Precisamente pelo conjunto de incidências. Vamos ver o seguinte: a certa altura, depois de feita a venda, o Fundo de Resolução teve de se confrontar com um conjunto de operações que tinha de se pronunciar sobre elas, que o Novo Banco as propunha e o Fundo de Resolução tinha de avaliar.

No fundo, pras pessoas que estão menos atentos, pras pessoas perceberem, eram operações que implicavam perdas que depois iam ter que ser ressarcidas pelo Fundo de Resolução ou pelo Estado.

Eram operações relativas a ativos integrados no mecanismo de capital contingente. Quer dizer, nós tivemos que definir um conjunto de princípios, dos quais precisamente um deles era o da maximização das vantagens. Olhe, foram 400 operações. Repare, como sabe, o Fundo de Resolução, o seu staff é lhe prestado pelo Banco de Portugal. Não é de todo, digamos, um trabalho de banco central típico. Mas encontrei, de facto, um profissionalismo enorme e dessas 400 operações, digamos, a maioria, repare, 13% tiveram uma oposição do fundo e não se puderam realizar, 42% das mesmas puderam se realizar caso fossem observadas determinadas condições, que era a sine qua non que o fundo colocava. E, portanto, só aí já vamos em 55%. E depois, enfim, houve 28% que não manifestamos oposição e 16 que foram aprovadas com recomendações, que também eram importantes. Portanto, a fiscalização foi efetiva, mas não foi só efetiva no que diz respeito a este tipo de operações, porque para chegarmos à decisão as interações eram enormes, eram permanentes. Foi também na questão da recusa em pagar alguns dos pedidos que o Novo Banco formulou e que deram azo precisamente às questões a dirimir pelo tribunal arbitral. E, portanto, também aí nós tivemos ganhos, porque várias vezes o tribunal arbitral deu-nos razão.

O Fundo de Resolução não pôde nomear um administrador. Havia apenas uma comissão de acompanhamento cujo presidente considerou que o Lone Star não abusou do uso dos fundos públicos. Mas houve, na sua opinião, algum exagero, nomeadamente nessas situações em que estava a descrever em que o Novo Banco queria ser ressarcido em prativas e vocês tiveram que se opor. Sentiu que havia ali uma pressão de exagero de utilizarem em demasia os fundos públicos?

A verdade, e eu cingir-me-ia a esta expressão, é que se o pedido foi feito e um tribunal arbitral absolutamente independente concluiu nas partes em que isso aconteceu, também houve outras ao contrário, é preciso dizer, em que nós dissemos que não era devido pagar e o tribunal teve a opinião favorável ao Novo Banco. Mas se isso aconteceu nessas partes, quer dizer que, pelo menos nessas, os pedidos não tinham fundamento à luz do contrato. E, portanto, realmente não houve uma possibilidade de nomear um administrador. Curiosamente, por imposição da Comissão Europeia, porque não queria que ficasse um vínculo de uma entidade pública. Temeu que essa nomeação pudesse criar dificuldades à reestruturação do banco. A comissão de acompanhamento, devo dizer que fez também o seu trabalho e foi uma peça importante para chegarmos a um desfecho.

Mas um administrador teria feito a diferença, ou seja, teria sido mais eficaz, mais produtivo no sentido de limitar eventuais abusos.

Um administrador é evidente que era uma solução, do ponto de vista da governance, mais robusta. Isso não há dúvida. Agora, uma andorinha não faz a primavera, sozinho no meio do conselho, também não sei se os seus pontos de vista se conseguiriam impor. Teria sido preferível, mas a nota que eu quero deixar é que o sistema a que se recorreu, tanto no mecanismo e o enquadramento institucional, funcionou. Funcionou e, insisto, a médio prazo, médio para longo prazo, vai haver, sem dúvida, um ressarcimento de todos os empréstimos do fundo.

A minha questão é: a reestruturação do balanço que foi feita pelo Novo Banco Capitaneada pelo Lone Star, teria sido feita da mesma forma, aos mesmos preços, às mesmas prioridades, se não existisse o mecanismo de capital contingente? Em termos científicos.

Se não existisse o mecanismo de capital contingente, a Lone Star não tinha assinado o contrato. Não tínhamos feito a venda, pura e simplesmente. Sou testemunha. Nem a Lone Star, nem qualquer outro hipotético comprador.

No fundo, não foi a garantia que era exigida por alguns compradores, mas era uma garantia.

Agora não vou estar a discutir tecnicamente. Na minha opinião, não foi tecnicamente uma garantia e a demonstração entre o que seria o habitual da garantia relativamente às perdas nos ativos do mecanismo, a diferença dos valores explica bem a situação. O que não quer dizer que evidentemente não fosse necessária, porque era indispensável, toda uma ação de vigilância que, na minha opinião, foi exercida e acho que os dados o demonstram.

Falámos há pouco sobre o presidente da Comissão de Acompanhamento, neste caso Brancinha Vieira, mas o primeiro presidente da Comissão de Acompanhamento disse no Parlamento, no início deste processo, que ia ser necessário ter coragem para lidar com alguns nomes de estimação. Estava a referir-se a nomes de credores conhecidos e empresários famosos em Portugal. Agora que o processo terminou, acha que houve essa coragem?

A coragem é sempre precisa na vida, em todas as dimensões. É uma opinião que foi expressa, cujo alcance acho que todos nós percebemos, e não tenho nenhum elemento pra dizer que não houve um esforço completamente dirigido por parte da administração do Novo Banco à recuperação dos créditos que tinha nesse estado. Agora, é evidente, mais uma vez, que o mal foi ter-se chegado aí. Nós depois chegamos à conclusão, por isso é que tudo isto acabou por ser preciso, que muitos daqueles créditos não tinham sido concedidos com as regras que deveriam presidir do ponto de vista da análise de risco, das garantias.

Mas houve a tal coragem para executar esses empresários? O que acha?

Eu não acompanho, nem acompanhei, nem isso era da minha função. O Fundo de Resolução não era parte, nem nunca foi, nem era esse o objetivo da administração do Novo Banco. Certamente que para qualquer banqueiro que se preze, e parece-me que eram todos profissionais, naturalmente uma das coisas que tem que fazer é justamente recuperar os créditos que se encontram numa situação, recorrendo aos meios que os contratos lhe permitem e fazendo a avaliação de qual é o melhor caminho, que às vezes também não é o óbvio.

Sim, mas disse no Parlamento em 2020 que não podia garantir que não pudesse ter havido vendas de ativos a partes relacionadas por parte do fundo Lone Star. Estamos agora a falar sobre outra coisa. E disse na altura que não era o detetive Sherlock Holmes. Mesmo não sendo o Sherlock Holmes, hoje está tranquilo sobre esse risco?

Eu disse o que eu disse na altura. Acho que foi oportuno, até pelo seguinte: eu sou da opinião que todo o processo do Novo Banco, até pelo caráter inovador que representou, foi um fator também muito propiciador de populismo. A questão do Novo Banco foi muito usada pra disseminar populismo.

Por quem?

Não quero estar a particularizar, mas na sociedade.

Mas por alguns líderes políticos, por exemplo.

Sim, mas de diversos quadrantes, dos próprios mídia, etc. E é evidente que a pessoa não pode garantir, porque quando eu disse que não era o Sherlock Holmes, é muito simples, por isso é que há várias instâncias. Eu e a minha equipa respondíamos pela eficácia dos mecanismos de vigilância que existiam para que o contrato fosse executado bem. Vamos lá ver, falar vigilância não é que não estivéssemos do lado da contraparte uma entidade idônea, mas é que fosse executado de acordo com o que o contrato estabelecia.

No fundo, não controlavam o resultado total da operação.

Agora, é evidente, se houver coisas que estão fora ou inalcançáveis por esta via, mas que possam ser alcançadas por outra qualquer, isso eu nunca poderei garantir. Agora, a questão é ao contrário. Nunca tive o menor indício de que isso acontecesse.

No próximo episódio, vamos falar do impacto da venda do Novo Banco para o sistema financeiro português e o posicionamento dos concorrentes. O nosso convidado é Miguel Maia, presidente da Comissão Executiva do Millenium bcp.

Vamos ter um banco mais focado numa lógica não da valorização do curto prazo, mas numa lógica mais de médio e longo prazo.