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O Novo Banco nasceu com 4,9 mil milhões de capital. Acabou a receber 3,4 mil milhões de euros de injeções ao abrigo do mecanismo de capital contingente. A Lone Star entrou com mil milhões de euros no capital. Pouco mais de 10 anos depois de ser criado, o Novo Banco volta a ser vendido. A Lone Star chegou a equacionar colocar o banco em bolsa, mas preferiu a venda direta. Depois de avisos do governo de que não gostaria que o Novo Banco ficasse com os espanhóis do BPI, a Lone Star escolheu um francês. O BPCE não está na banca de retalho em Portugal. Será um novo concorrente para o resto do sistema. No acordo para a venda, acertou um preço de 6,4 mil milhões de euros. O Estado arrecada diretamente 733 milhões de euros. O Fundo de Resolução encaixa 866 milhões. A Lone Star fica com a fatia de leão: 4,8 mil milhões de euros. Isto depois de terem recebido mais de mil milhões de euros em dividendos. Um cheque chorudo, cujo valor final só ficará acertado quando o negócio puder ser concluído. 2026 pode ser o ano em que a banca portuguesa vai ter um novo protagonista. O impacto da venda do Novo Banco para o sistema financeiro português e o posicionamento dos concorrentes é o tema de conversa com Miguel Maia, presidente da Comissão Executiva do Milenium bcp. Eu sou Alexandra Machado, editora de economia do Observador, e a entrevista é conduzida por mim e pelo jornalista Edgar Caetano. O governo considerou que o acordo de venda do Novo Banco aos franceses do BPCE foi um sucesso. Para o setor financeiro, também foi uma boa notícia?

Boa tarde. Eu vou responder à sua pergunta, mas começo por dizer que eu não falo pelo setor financeiro, falo pelo BCP. O setor financeiro é composto por muitas entidades que têm muitas opiniões e, portanto, eu falo pelo BCP.

E para o BCP foi uma boa notícia?

Nós podemos ver o tema em duas perspectivas. Uma perspectiva de filme, que é pegar no ponto de origem e fazer o balanço do princípio ao fim, ou ver o desfecho. E o desfecho no contexto de que, neste momento, qual era a melhor decisão. E é nesta perspectiva que eu falo, ou seja, tendo presente aquilo que é a realidade atual à data da decisão, eu considero que o desfecho foi interessante, correto e positivo para a generalidade dos operadores e, sobretudo, para os clientes.

Quando saíram as primeiras avaliações do Novo Banco, falou-se em 5 mil milhões. Miguel Maia disse que se o Novo Banco valesse isso, então ficava ainda mais entusiasmado com o que poderia valer o BCP. Acabou por ser quase 6.500 milhões. Podemos dizer então que ficou entusiasmadíssimo?

Fiquei entusiasmado e, sobretudo, fico entusiasmado porque há o reconhecimento de que o setor financeiro em Portugal está numa fase diferente, conseguiu, em resultado das transformações que fez, nomeadamente toda a parte da otimização de custos, toda a atualização tecnológica, é hoje visto no mercado internacional, sobretudo no mercado europeu, com potencial de valorização completamente diferente do que tinha no passado e também nesse sentido, foi um sinal positivo para o setor financeiro e para o BCP.

Também é facto do BCP, o BCP também aí estava a dizer.

Claro, porque quando se avalia um operador como o Novo Banco em Portugal, que é um operador relevante no mercado português, mas que tem uma quota de mercado abaixo do BCP, um franchise que é diferente do franchise do BCP, obviamente que nos permite também estar otimistas relativamente àquilo. Aliás, de acordo até com as próprias evoluções dos analistas e a evolução do próprio título BCP. Tudo isto está bastante alinhado no sentido do reconhecimento do valor dos bancos em Portugal e o único banco cotado em bolsa em Portugal é o Banco Comercial Português.

Disse numa conferência recente, em que estava na presença até de outros banqueiros, isto foi ainda antes da notícia da venda do Novo Banco ao BPCE, que não esquecia que no programa da Troika os bancos estrangeiros, designadamente os espanhóis, não deram o mesmo grau de apoio ao Estado que deram os bancos portugueses. Falava de quê, concretamente?

Esse, nomeadamente os espanhóis, creio que é seu, que eu terei dito os bancos estrangeiros. O que eu quis dizer e que disse foi, ponto número um, para fazer o enquadramento. É muito importante para o sistema financeiro português ter bancos de diversas tipologias. É muito importante ter um banco público, a Caixa Geral de Depósitos, sobretudo bem gerido, como é atualmente, ter bancos com uma matriz mais nacional, como é o caso do BCP, com a totalidade da gestão executiva a ser portuguesa, e ter bancos de outras geografias, nomeadamente das outras geografias. Na área de banca comercial de relação, nós só tínhamos praticamente bancos espanhóis. Tínhamos na banca, sim, operações especializadas e sobretudo no crédito ao consumo, várias operações, entre as quais estava já o BPCE, com duas marcas. Na parte de banca comercial, não tinha. Nessa altura, quando o país perdeu o rating e portanto, quando havia uma enorme desconfiança de investidores internacionais relativamente ao risco Portugal, os bancos que apoiaram as empresas públicas e o Estado, nesse momento, foram sobretudo três bancos. Houve alguns bancos que renovaram facilidades, mas que tiveram disponíveis para fazer algum acréscimo e tomar uma risco adicional, foram os três bancos na altura que tinham um pendor mais nacional dentro dos grandes bancos, que era a Caixa Geral de Depósitos, o Banco Comercial Português E o Novo Banco. E não foi, ao contrário do que muitas vezes se pode pensar, no interesse do Estado. Deixe-me ser claro relativamente a isso, porque quando defendi estas operações no Banco Comercial Português, era muito claro, porque se o Estado português não estivesse bem, se nós não ajudássemos a economia portuguesa a superar esse momento, sofríamos diretamente nós o balanço. Eu nunca defendi estas operações numa lógica de fazer qualquer tipo de favor. Não houve nenhum favor, houve um interesse alinhado, interesse da economia portuguesa com o banco que tinha como principal ativo a economia portuguesa. É este alinhamento que eu digo que é diferente para outras instituições, porque no peso do seu portfólio de negócios, a relevância de Portugal não é a mesma como bancos que têm a sua sede aqui em Portugal e que têm este compromisso com a economia portuguesa. Volto a dizer, todos são importantes.

Mas será que numa situação similar os franceses do BPCE não fariam esse apoio, atuariam de forma diferente?

Sabe que os "e se" não é a minha especialidade, portanto eu constato aquilo que se passou no passado. Parece-me positivo, subscrevo que esta diversidade de geografias que é investir em Portugal, que é positivo para o mercado português.

A nacionalidade dos acionistas é relevante na tomada de decisões, nomeadamente, por exemplo, na atribuição de créditos, ou não?

Na atribuição de créditos, eu julgo que não, de todo. Quer dizer, acho que as operações em Portugal, todas elas, todas as que eu conheço, têm uma elevada capacidade de autonomia. O que é diferente é a capacidade das casas-mães estarem disponíveis para correr risco adicional ou não relativamente a esse país. São duas coisas diferentes. Uma coisa é autonomia para tomar decisões de crédito, outra coisa é quando há uma casa que consolida, o BCP consolida outras operações e obviamente, nós a cada momento, quando definimos o apetite de risco, que é uma coisa um bocadinho esquisita, mas que é a nossa disponibilidade para aumentar a nossa exposição, o capital que nós empregamos às diversas geografias, obviamente, temos em consideração aquilo que é a evolução da economia de cada um desses países e é exatamente isso, creio, que fazem todas as casas-mães, todas as casas que consolidam bancos nas diversas geografias. Não é uma crítica. A tendência é tentar levar isto sempre para o lado da crítica, mas não é essa a perspectiva. A perspectiva é uma leitura pragmática daquilo que é o compromisso da economia de cada um dos operadores e os diferentes modelos e incentivos de cada uma das instituições. É só isso.

Mas é interessante falar sobre isso, porque estamos a falar sobre um banco francês ou bancos espanhóis. O fato de o BCP ter como principais acionistas um grupo angolano e outro chinês, tem alguma influência nesse raciocínio?

Tem.

Se fossem dois grupos portugueses com as mesmas posições no capital que tem a Fosun e a Sonangol, isso teria alguma influência?

Tem influência, mas não no sentido que você está a dizer. Tem influência no sentido em que não são acionistas de indústria. Nós não consolidamos nem na China, nem em Angola. Quer dizer, nós temos dois acionistas que têm 20%, cada um deles tem 20% do banco. Não há uma casa-mãe que tenha um apetite de risco para Portugal e que defina um bocadinho qual é que é a exposição que queremos ter no nosso portfólio de negócio, porque a entidade que consolida é o próprio BCP, que está sediado em Portugal. E nesse sentido é que é diferente.

Mas também concorda com o presidente do BPI quando nos disse numa entrevista que é um bocadinho provinciano falar em centros de decisão nacional ou eles existem? Isso conta?

Depende da perspectiva. Seguramente, se for de uma perspectiva redutora, sim, e aqui não está em causa os centros de decisão nacional naquela sessão passada, o que está em causa é, de facto, esta leitura do que é a responsabilidade de uma casa-mãe, como é que aloca capital a cada uma das geografias e portanto, estou seguro que dentro do capital alocado a cada uma das geografias, a gestão das diversas operações que trabalham em Portugal, têm essa autonomia. Não tenho muitas dúvidas relativamente a isso. Aliás, isso foi dito, creio que por qualquer um dos presidentes dessas instituições, que são duas casas muitíssimo bem geridas.

Enquanto concorrente que é, o que acha que vai acontecer ao Novo Banco, o que antecipa que possa acontecer ao Novo Banco agora que tem o BPCE como acionista?

Eu acho que o Novo Banco, ponto número um, fez um processo de recuperação muito bem conseguido. É fruto de um resultado de várias interações, o Eduardo Stock da Cunha, o António Ramalho, o Mark, tudo isso contribuiu para que o banco chegasse a esta posição como um operador pelo qual temos respeito e que é um competidor sério. Agora o que tem é um acionista que não é um fundo, o que é diferente, ter um acionista como um fundo, como um acionista mais de indústria, melhor competidor.

Que diferença é que pode perspetivar por causa disso?

Vamos ter um banco mais focado numa lógica não da valorização do curto prazo, mas numa lógica mais de médio e longo prazo, aliás, como o presidente do BPCE fez questão de dizer na sua entrevista.

Ou seja, a concorrência do sistema aumenta.

Sim, a concorrência aumenta. Para nós, isto não é um problema. Eu vejo sempre a concorrência como um estímulo à nossa capacidade de fazermos mais e melhor. A única coisa, o impacto no BCP, é que para nós conseguirmos o mesmo resultado, vamos ter que inovar mais, vamos ter que estar ainda mais próximos dos clientes. Mas isso é um desafio, é parte daquilo que nós fazemos. Não há nada de novo nisso. Tem sido essa a história do BCP

O Novo Banco é por vezes descrito como tendo uma cultura mais anglo-saxônica, cultivada também agora nestes anos sob a liderança dos gestores nomeados pelo Lone Star. Essa cultura anglo-saxônica mistura-se bem com a cultura bancária francesa, do que conhece?

Eu não sei bem o que se quer dizer com essa cultura. Eu creio que hoje na banca em Portugal, o modelo de banca comercial, a cultura não é muito diferente. A cultura de serviço ao cliente pode ser diferente, a cultura de inovação pode ser diferente, mas não vejo uma matriz da banca ibérica, uma matriz da banca anglo-saxônica, não consigo identificar, ou agora uma nova matriz da banca francesa. O que está a dizer de cultura, nesse sentido da cultura, é como é que servem melhor os clientes. E portanto, a tipologia dos clientes é a mesma, os clientes têm um perfil muito parecido, os clientes do BCP, dos clientes da Caixa Geral de Depósitos ou do Novo Banco, ou do Santander, ou do BPI. Portanto, a cultura é uma cultura de tentar competir pela preferência dos clientes e a forma de o fazer é, de facto, diferente em cada uma das instituições, mas não é por uma dimensão ibérica ou uma dimensão de uma outra matriz.

Miguel Maia, os bancos do sistema foram chamados a contribuir para o fundo de resolução, o que foi comparado até a receber a fatura de um jantar no qual não tinham comido. Cria desconforto ao BCP continuar a contribuir para o fundo de resolução, que ainda está a pagar a recapitalização do banco, que agora, mais do que nunca, é um concorrente pleno?

Esse é um tema muito sério, ainda bem que o traz, porque de facto não é uma questão de desconforto, é mais do que desconforto.

Qual era a palavra que punha?

É um fardo. Eu diria que é um fardo que nós suportamos e que é, em primeiro lugar, profundamente injusto e que tem implicações. Deixe-me explicar um bocadinho isso. Nós hoje, o nosso mercado é o mercado europeu. Quando se fala no mercado único bancário, a União Bancária, o que nós estamos a trabalhar relativamente a estes operadores. Cada vez há mais bancos estrangeiros que, lá as corporates, em operações de crédito ao consumo. Há uma multiplicidade de operadores, agora estes novos operadores, as Revolut, etc, que trabalham com clientes portugueses. E portanto, o que o BCP gostaria de ter era um level playing field. E portanto, se à partida nós partimos com este fardo, como lhe chamei, que há uns que suportam e outros que não suportam, é uma distorção da concorrência. Isto é claríssimo, há uma distorção da concorrência. O BCP, através de dois mecanismos, ou seja, a forma de alimentar o fundo de capitalização contingente do Novo Banco, já fez contribuições superiores a 600 milhões de euros. E anualmente, destas duas vias, porque aquilo é o imposto especial sobre a banca e o fundo de resolução nacional, pesam, número redondo, 40 milhões de euros por ano. É um peso que tem muito significado. Deixe-me só terminar, porque este é um tema que me diz muito.

Mas nós vamos continuar no tema.

Mais uma vez, gosto de dividir o filme dos diversos fotogramas. Há um momento em que se tomam as decisões, as decisões são tomadas num contexto e nesse contexto, as decisões são as decisões pusífeis, quer dizer, não são as ótimas decisões. Mas nós, gestores, e a sociedade como um todo, tem a obrigação de que quando reconhece que se comete um erro, que pode acontecer, ou quando não se cometeu um erro, mas as circunstâncias se alteraram, é nossa obrigação alterar o modelo. Ou seja, quando nós concluímos que porque foi mal tomada a decisão no início, que não é o caso, não é o que estou a dizer, mas que as circunstâncias se alteraram e constatamos que isto é um fardo apenas para uns operadores. Se nós queremos ter uma concorrência justa, e devia ser obrigação de todos os que têm responsabilidade sobre o sistema financeiro português, a começar pelo Parlamento e pelas autoridades de supervisão, os diversos operadores, assegurar que há uma concorrência equilibrada e justa. Portanto, deveria se mudar o mecanismo.

Para todos contribuírem, não é? Para todas as entidades contribuírem. Mas aí já achava o fardo comportável? Ou seja, se todos tivessem que contribuir para o fundo de resolução.

Repare uma coisa, não é uma questão de ser comportável, aí passava a ser, pelo menos, ser justo. Ou seja, não era justo estarmos a pagar a tal fatura que você referiu, mas pelo menos era justa a forma como ela era distribuída por todos aqueles que estão sentados à mesa, ou seja, por todos aqueles que estão a servir os clientes.

Deixe-me só perguntar, mas isso hoje é mais uma preocupação para si do que era há um mês? Ou seja, até há um mês o Novo Banco, aliás, o Novo Banco nem é um banco.

Não é mais, nunca deixou de ser.

Mas agora é mais porque o banco já vai ser totalmente autónomo.

Não, porque isto não tem a ver com o Novo Banco. A minha preocupação não é com o Novo Banco. Essa preocupação está arrumada, é com todos os concorrentes. É a forma como, quando eu estou a conceder um crédito, há uma parte do que estamos a fazer que obviamente tem aqui um lastro anual de cerca de 40 milhões de euros, que há outros operadores que podem chegar aqui e não têm esse peso às costas e, portanto, criam condições para poderem ter outra competitividade ou para ter a mesma competitividade, tem que cortar noutras coisas. É exatamente isso que eu me queixo. E sobretudo, o que me parecia é que não é nem complexo, nem difícil, é uma questão de ter coragem política de tomar essa decisão, de assegurar que todos os que comercializam produtos financeiros a clientes que são contribuintes portugueses, que estão sediados em Portugal.

Mas isso é a verdadeira preocupação do BCP e não o fato de ainda estar a fazer contribuições que servem para pagar uma dívida relativamente ao Novo Banco.

Já assumi, a história é o que é, a gente tem que carregar o passado. Podemos mudar o futuro, o passado não podemos mudar. Já que não podemos mudar o passado, ao menos que se assegure que esta contribuição é definida de uma forma equitativa e que não penaliza sobremaneira um banco como o BCP.

Mas vamos avançar nesse sentido, com o novo governo?

Não tenho indicação de que o tema esteja sequer em cima da mesa.

Mas acha que este governo teria coragem política para isso?

Acho que seguramente, se tiver a oportunidade, quando isto for um tema prioritário, porque há vários temas prioritários, um governo tem várias frentes e mais uma vez, tem que olhar para as frentes que são mais prioritárias. Isto é um tema absolutamente prioritário para nós. Acho que o governo algum dia há de ter que olhar para isto e quando as coisas são insustentáveis, não duram toda a vida. Eu estou seguro que isto um dia se vai resolver. Tenho pena que não seja mais cedo do que mais tarde.

O presidente da Comissão de Acompanhamento do Novo Banco disse ao Observador, em entrevista no final do ano passado, que não houve evidências de que o Lone Star tenha exagerado nas imparidades e nos pedidos de injeção do dinheiro público. É também esse o seu entendimento?

Ponto número um, é muito fácil discordar com as pessoas. Eu não discordo em nada dessa afirmação, porque ele está numa posição, que é uma posição diferente da minha.

Mas a sua opinião sobre o que ele disse.

Na minha opinião, eu não tenho nenhum elemento que me permita concluir que houve qualquer tipo de utilização abusiva. Para fazer uma declaração com responsabilidade, ou tinha factos que me iniciavam isto e aí podia fazê-la, ou não tenho, e portanto era absolutamente gratuito e provocatório estar a fazer esse tipo de afirmação. Agora, o que eu digo é que se você vir as contas dos bancos que tiveram que se recapitalizar com suporte dos seus acionistas, o custo risco nunca foi negativo.

O que quer dizer, para os nossos ouvintes e eleitores?

Quer dizer que nós quando concedemos crédito, é normal que haja sempre alguns créditos que correm mal. É normal, na atividade bancária, quando uma pessoa concede crédito ou não toma risco nenhum, o que seria desadequado, porque só apoiaríamos aqueles clientes em que temos 100% de certeza, o papel do sistema financeiro é gerir risco, é tomar algum risco. E portanto, no mercado desenvolvido, é normal que o custo risco, ou seja, as imparidades normais que temos que fazer para os casos em que correram menos bem, que há sempre uma porcentagem de casos que correram menos bem, eu diria que anda ali nos 40, 45, ao longo do ciclo, pontos base. E as instituições que tiveram apoio do Estado têm feito recuperação de imparidades, na sua conta de superação. Não estou a falar especificamente do Novo Banco, estou a dizer que as que tiveram apoio do Estado e que não tiveram. O caso do BCP é diferente, porque foram os únicos dois bancos que receberam as ajudas do Estado e pagaram as ajudas do Estado. E o BCP, recordo aqui, aliás, há uma nota do Tribunal de Contas sobre isso, que foi altamente interessante para o Estado, porque pagámos quase mil milhões de euros em juros.

Mas então queria dizer que não foi só.

Nós não só devolvemos os 3000 milhões, como pagámos quase mais 1000 milhões de juros e gimmicks. E portanto, houve aqui um peso grande. O que eu estou a dizer é que outros bancos fizeram as imparidades, seguramente bem constituídas, mas agora estão a recuperar essas imparidades constituídas e os modelos e incentivos para a constituição dessas imparidades eram diferentes. Daí a concluir que estão mal, não faço essa comparação.

Os que tiveram a contribuir para o Fundo de Resolução para haver chamadas de capital no Novo Banco, tiveram toda a informação disponível que queriam sobre essas injeções de capital?

Não. Há que definir muito bem as responsabilidades. Nós não somos acionistas nem do Fundo de Resolução, nem do Novo Banco.

São financiadores.

Somos financiadores, numa dupla perspectiva. Por um lado, houve de fato um financiamento ao Fundo de Resolução e, por outro lado, somos não financiadores, somos uma coisa que se chama contribuintes, que é diferente ser financiador. Quando a gente financia, depois recupera, quando somos contribuintes, fizemos a prestação e nunca mais a vemos.

Então neste caso são contribuintes.

Maioritariamente contribuintes. Quando fala os custos para os contribuintes da resolução do Novo Banco, os contribuintes somos nós. Não são os cidadãos portugueses que têm contribuído, é sobretudo os bancos, através dessas contribuições, e são os bancos que vão andar aqui mais de 30 anos a fazer o pagamento da dívida da resolução.

Fiquei um pouquinho confuso há pouco sobre o que disse. A minha dúvida é: na sua perceção, será que o Novo Banco vendeu, não digo ao desbarato, porque é uma expressão um bocadinho abusiva, mas vendeu demasiado barato aqueles ativos que tinha, porque depois podia ir pedir a fatura ao Fundo de Resolução?

Não tenho nenhuma evidência disso. Para se poder fazer afirmações dessa gravidade, é preciso, ou com essa densidade, é preciso analisar a informação, e eu não tenho nenhuma evidência disso. Quando não tenho nenhuma evidência desse fato, o que não posso fazer é contribuir para se criar uma imagem que pode estar absolutamente errada.

Mas de alguma forma o BCP é o dono Não falo de outros bancos, mas o BCP teve de vender os seus ativos, as suas carteiras de ativos mais barato porque o Novo Banco estava a vender as suas mais barato.

Havia concorrência no mercado.

Quando há mais oferta, o preço desce, mas não me vou queixar.

Não só por causa da oferta, mesmo pelos preços.

Claro, mas é o preço. Quando se está a vender e há mais carteiras no mercado, obviamente que a procura sendo a mesma, há mais oferta. Mas não é isso, não me queixo disso.

Só voltando ainda, uma última questão em relação ao fundo de resolução e às vossas contribuições para o fundo de resolução. Se não forem alteradas as condições, isso pode ter repercussões ao nível das vossas contratações ou de agências, balcões, enfim, comissões, da vossa atividade?

Para um banco, hoje em dia, a eficiência operativa é um tema absolutamente crítico. Para nós conseguirmos ter preços adequados e competitivos aos clientes, para nós conseguirmos remunerar adequadamente os acionistas, estamos a competir com outros, porque os acionistas, nomeadamente dos bancos que não têm acionistas de indústria e portanto, são bancos cotados. É por isso que se calhar o BCP é o único banco cotado, os investidores têm que escolher onde é que colocam o dinheiro. Não têm nenhuma obrigação com o BCP. Nós temos investidores, o BCP tem mais de 100 mil investidores de retalho, porque exatamente entendem que podem aplicar ali as suas poupanças e que vão ter um retorno. Ora, se nós não formos eficientes operativos, se não tivermos uma eficiência operativa alta, é difícil ter uma rendibilidade sustentada. Portanto, nesse sentido, obviamente, que nós temos que fazer mais com menos. Nós não estamos a penalizar, mas isto obriga a fazer mais com menos.

Quanto menos?

Como lhe disse, estamos a falar com as contribuições atuais, as de 2024 foram cerca de 38 milhões de euros.

Estas operações de compra e venda suscitam sempre algumas indefinições de quem é vendido. Estão a aproveitar este momento, por exemplo, para contratarem pessoas ao Novo Banco?

Não, não tenho memória de termos contratado ninguém recentemente ao Novo Banco. Nós não contratamos com base em estar uma instituição mais ou menos em transição. Nós contratamos em função daquilo que precisamos para o BCP. A nossa perspectiva é, sobretudo, contratar as pessoas numa fase inicial da carreira e formá-las e fazê-las crescer dentro do banco. Às vezes isso não é possível, por uma razão qualquer, e só nesses casos é que vamos ao mercado e nunca pomos como condição venha daqui ou venha dali. Tentamos encontrar a melhor pessoa do mercado, a melhor pessoa para aquela posição específica dentro do mercado. Já contratámos pessoas do Novo Banco no passado, tal como eles contrataram pessoas do BCP.

Mas não há a aproveitar essa indefinição.

Não, nem aproveitamos, nem deixamos de aproveitar. Não é um fator que pondere a decisão.

Mas parece ter sido importante para a vitória do BPCE nesta corrida, o facto do banco francês ou o grupo francês lhe dar garantias de que não vai fazer despedimentos. Acredita que é mesmo assim? Até que ponto é que nos tempos que vivemos, um banco pode dizer que não vai fazer despedimentos? Não despedimentos, mas saídas, rotação de pessoal.

O que eu posso dizer é que eu conheço o presidente do BPCE, tenho-o como uma pessoa extremamente credível e, portanto, o que ele quis dizer é que era um compromisso com a economia portuguesa e acredito quando ele diz isso, que a intenção é essa. Obviamente, o banco será gerido e não acredito que se tomem decisões que não tenham racionalidade econômica nesse sentido. Mas essa frente de corte de custos, não me pareceu, das palavras dele, eu pelo menos não depreendi que isso fosse um vetor principal de atuação.

Já assumiu que admite que venha aí uma concorrência um bocadinho mais musculada. Vão ter que rever o plano estratégico por causa disso? Vão revê-lo, estão a revê-lo? E já agora, temem perder o lugar de maior banco privado de matriz nacional?

Deixe-me dizer, nós entregamos o plano estratégico anterior com mais de um ano de antecedência. Conseguimos alcançar os objetivos que tínhamos no plano estratégico com mais de um ano de antecedência. Quando fizemos o novo plano estratégico, que apresentamos ao mercado no último trimestre do ano passado, o nosso cenário central era que o Novo Banco viesse a ser um banco em mercado, aliás, como a gestão anunciava. E portanto, não há aqui uma novidade nenhuma face àquilo que era a nossa expectativa. O cenário base não era ser do BPCE, mas o cenário base era ser, como a gestão vinha a anunciar, um banco que iria para o mercado e portanto, que teríamos na bolsa duas instituições, que seriam o BCP e o Novo Banco. Não há nenhuma alteração desse ponto de vista.

Mas a segunda parte da pergunta da Alexandra era se temem perder o lugar de maior banco.

Não. Eu temo todos os dias não fazer o suficiente para que o banco se afirme de modo a merecer a preferência dos clientes. O dia em que eu acordar a pensar que estou aqui numa posição confortável, o melhor é dar o lugar a outro. Todos os dias, todas as equipes do banco têm que não dar nada por adquirido e perceber que temos que diariamente conquistar a preferência dos clientes. Nesse sentido, é isso que fazemos.

Teria feito sentido que a Caixa comprasse parte do Novo Banco e, já agora, o BCP também estaria disponível para comprar a parte das empresas, caso a opção tivesse, de facto, sido de dividir o banco?

Já está a entrar outra vez nos "ses". Se, se. "E se o céu caísse e se o mundo acabasse". Eu disse desde o primeiro momento que no que tocava ao BCP, a nossa matriz de crescimento era o crescimento orgânico E as compras não se fazem, as aquisições não se fazem porque alguém quer vender. As aquisições fazem-se quando há valor a criar. Para haver valor a criar, tem que se entender que ativos é que estão em questão e qual é o preço dos ativos. Tudo isso pondera numa decisão. E foi isso que eu disse desde o primeiro mês. Não se tendo colocado essa questão, não tenho nenhuma resposta para lhe dar.

O BPI, cujo acionista espanhol no fundo perdeu a corrida pelo Novo Banco, pareceu dar a entender que havia espaço para consolidação, neste caso entre o BPI e o Novo Banco. Não tendo havido isso e com o BPCE a indicar que quer manter o Novo Banco como está, acha que a consolidação pode acontecer noutro lado e o BCP pode fazer parte disso?

Sinceramente, eu já disse isto, acho que o mercado português tem hoje um nível de concentração adequado. Pode sempre concentrar mais qualquer coisa, mas não é uma prioridade. Não há aqui algo que esteja a prejudicar o normal funcionamento do mercado em termos de consolidação. Acho que o mercado está bem servido dessa matéria. Depois há um tema residual, obviamente, a gente pode brincar porque as Caixas de Crédito Agrícola Mútuo são 64 bancos e aí seguramente que há de haver consolidação. Relativamente aos outros operadores, não vejo que isso seja algo que se vá verificar no curto prazo. E a consolidação que eu vejo, e acho que vai haver consolidação, é numa perspectiva de evolução da União Bancária e da crise maior. Nessa perspectiva, não acho que vá ser um tema de curto prazo, mas à medida que a União Bancária se vai aprofundando e ganhando densidade, estou convencido que haverá maior consolidação.

No quarto e último episódio, analisamos com os jornalistas Edgar Caytania Naspiro os 10 anos de Novo Banco, desde que foi criado até o acordo de venda que vai levar o banco aos franceses do BPCE.