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Bem-vindos ao quarto e último episódio do podcast do Observador, check-in sobre o Novo Banco. Nos primeiros episódios, ouvimos Sérgio Monteiro, que foi contratado pelo Banco de Portugal para ajudar na venda do Novo Banco em 2017. A Lone Star saiu vitoriosa dessa operação. Ouvimos também Luís Máximo dos Santos, vice-governador do Banco de Portugal e presidente do Fundo de Resolução, com quem falamos sobre o custo público da venda do Novo Banco à Lone Star. Não foi possível ouvir alguns dos ex-presidentes do Novo Banco. E finalmente entrevistamos Miguel Maia, presidente da Comissão Executiva do Millenium bcp, que vai ter um concorrente de perfil diferente. Eu sou Alexandra Machado, editora de economia do Observador. Neste balcão do Novo Banco, tenho comigo os jornalistas de economia Ana Suspiro e Edgar Caetano. Foram precisos quase 10 anos para o Novo Banco mudar novamente de mãos. Mas vamos começar por 2014, ano em que o Novo Banco foi criado.

A solução adotada pelo Banco de Portugal teve como principais preocupações preservar a estabilidade do sistema financeiro e proteger o interesse dos depositantes. E eu acrescentaria, tratando-se de um banco com uma grande importância junto das pequenas e médias empresas, assegurar a continuação do financiamento da economia. A solução adotada é também a que melhor salvaguarda o interesse dos contribuintes e do erário público e que garante a máxima responsabilização dos acionistas da instituição.

Este era Carlos Costa, que em 2014 era governador do Banco de Portugal, no dia 3 de agosto de 2014, quando foi anunciada a resolução do Banco Espírito Santo e a criação do Novo Banco. Ana Suspiro, podes sucintamente explicar o que aconteceu então ao Banco Espírito Santo?

O BES era gerido pelo Ricardo Salgado e o principal acionista era a família Espírito Santo. E tinha, de facto, uma exposição financeira muito grande a estas empresas do grupo Espírito Santo, que tinha uma situação financeira muito negativa. O que aconteceu ao longo de 2014 é que o banco foi assumindo cada vez mais perdas e foi obrigado a repor os rácios de capital. Inclusive fez um aumento de capital que ficou conhecido como o pior negócio do mundo, porque se perdeu todo logo a seguir. E chega ali em julho e é obrigado a registrar perdas extraordinárias e deixa de cumprir os rácios de capital e o BCE intervém e obriga.

Tira-lhe o tapete, digamos assim.

Tira-lhe o tapete, retira-o do Eurosistema e obriga, obviamente, o Banco de Portugal a avançar com uma solução drástica e inédita na banca europeia.

O Novo Banco foi criado nessa altura como banco de transição. Edgar Caetano, isso significa exatamente o quê?

Em termos simples, falar-se num banco de transição significa que o Novo Banco, nos primeiros anos, não era um banco como os outros. Foi criado como um banco que ia ficar com a licença bancária, com a operação, isto é, com os balcões e os funcionários, e com a maior parte dos depósitos e dos créditos, ou seja, aqueles que não tinham sido transferidos para o chamado BES mau. Ser um banco de transição significava que o Novo Banco era uma instituição financeira que estava sujeita a um plano de reestruturação escrutinado de perto pelas autoridades europeias e que, no fundo, era um banco que teria de ser vendido para que pudesse mais tarde, aí sim, afirmar-se como um banco normal, com acionistas estáveis e com projeto de longo prazo.

Mas por que não houve simplesmente uma liquidação ou mesmo uma nacionalização do Banco Espírito Santo?

Foi uma resolução, não é? Aquilo que aconteceu ao BES foi uma resolução. Essa é uma pergunta que eu tenho alguma dificuldade em responder, a parte da nacionalização. A parte da liquidação era mais ou menos claro entre os protagonistas políticos da altura, e penso que até foram feitas contas, que o custo de uma liquidação de um banco daquela dimensão pra economia e pro Estado seria terrível. A nacionalização. O governo não estava aberto a essa solução, mas também ficamos na dúvida se os então gestores que estavam à frente do BES chegaram a pedir exatamente ao Estado que avançasse com essa solução. O governo da altura disse que essa questão nunca foi colocada diretamente em cima da mesa, pondo a responsabilidade daquilo que aconteceu ao BES no Banco de Portugal, que foi a autoridade que fez a resolução.

Os depositantes, com esta solução de resolução e não de liquidação, ficaram de alguma forma salvaguardados.

Sim, foi esse o objetivo da operação. Foi isso que se quis fazer com a resolução. Nem foi necessário recorrer ao chamado Fundo de Garantia de Depósitos, que no caso de uma liquidação, teria que ser chamado a intervir e no fundo, a ressarcir os depósitos, neste caso, os depósitos até 100 mil euros. Aqui foi uma operação que permitiu isolar tudo que era depósitos e créditos saudáveis, e todos esses foram salvaguardados.

Vamos avançar agora um pouco nesta linha de tempo e chegamos a 2015. O Novo Banco tinha de ser vendido, por aquilo que o Edgar Caetano já disse aqui, que era um banco de transição. Houve uma primeira tentativa. Por que não foi vendido nessa altura, Ana Suspiro?

Eu diria que o Novo Banco ainda era muito banco mau, ou seja, supostamente era o banco bom, mas ainda havia ali uma herança muito pesada e ainda se estava a digerir, até mesmo na relação com os clientes, que houve uma certa crise de confiança no banco e havia muitas coisas por resolver. Talvez fosse um bocado prematuro. O que é certo é que apareceram alguns interessados, mas também a geografia dos interessados e o perfil dos interessados não ajudou.

Que eram quem?

Eram dois grupos chineses, a Anbang e a Fosun, que em Portugal é dona da Fidelidade, e um fundo americano, a Apollo, que eu penso que está mais ligado até ao setor imobiliário. As propostas acabaram por não satisfazer os critérios que o Banco de Portugal na altura definiu, que foi quem protagonizou esta operação. E é preciso não esquecer que esta operação aconteceu quase ao mesmo tempo da campanha eleitoral para as legislativas de 2015. E eu penso que houve também aqui uma certa gestão que teve em conta essa situação.

E Portugal estava a sair de uma ajuda financeira da Troika.

Portugal tinha acabado de sair. Aliás, que saiu um mês antes do BES cair, não é?

E não sabemos se teve intervenção ou não, mas isso também coincidiu com uma fase em que as bolsas internacionais e houve uma crise muito focada na Ásia e na China, também não terá ajudado, certamente.

Aliás, esta N BAN, acho que entretanto desapareceu, não foi? Penso que teve dificuldades econômicas financeiras bastante fortes.

Sim, acho que sim. Até que chegamos a 2017, e ao que nos trouxe mais ou menos até aqui, o Novo Banco foi mesmo vendido à Lone Star. Quem é este fundo norte-americano?

O fundo Lone Star era um nome totalmente desconhecido em Portugal até o momento em que veio então disponibilizar-se para investir no Novo Banco. É um fundo norte-americano que foi fundado em Dallas nos anos 90 e que, como muitos outros fundos parecidos, investe sobretudo em ativos problemáticos, ou seja, operações que precisam ser reestruturadas, créditos em risco ou já em incumprimento. No fundo, são operações que têm bastante risco, mas também por isso têm depois retornos potenciais muito mais elevados, quando corre bem, é claro.

E houve nesta operação mais candidatos, em 2017?

Na altura, o Lone Star apresentou a única proposta vinculativa, mas numa fase anterior do processo houve outros interessados, sobretudo dois. Por um lado, houve um grupo chinês, mais uma vez, chamado Min Sheng, que mostrou interesse, mas havia algumas preocupações relacionadas com a transparência e a origem dos fundos. Por outro lado, voltou a estar interessado o fundo Apollo Global Management, outro fundo de gestão de ativos que apresentou uma proposta ou esteve envolvido no processo até certo ponto, em conjunto com outra entidade, que era a Center Bridge, mas o Banco de Portugal acabou por considerar a abordagem do Lone Star mais vantajosa para os interesses do Estado português e de toda esta operação.

E por quê? Qual foi, afinal, o acordo de venda com a Lone Star, Ana Súspiro?

É preciso também recordar aqui que este processo já teve aqui uma gestão mais profissional, entre aspas. Foi contratado Sérgio Monteiro como consultor, que tinha sido secretário de Estado, mas era um homem da banca para liderar esta operação. E o acordo de venda foi negociado durante algum tempo com a Lone Star e basicamente, o que estava em causa? O mesmo problema de 2015, ou seja, havia um conjunto de ativos que suscitavam muitas dúvidas a quem queria o Novo Banco e os compradores queriam uma garantia de que ficariam de alguma forma protegidos das perdas desses ativos. E o acordo que se conseguiu foi encontrar um desenho que permitisse ao comprador ter alguma segurança para avançar com a operação, mas sem obrigar, digamos assim, pelo menos no imediato, a que houvesse mais intervenção do Estado, nomeadamente financeira.

Era a assunção de que, afinal, os ativos bons não eram totalmente bons e havia muitos ativos tóxicos também dentro do Novo Banco.

Sim, havia aquele perímetro inicial, que aliás, houve coisas que foram consideradas boas e depois foram tiradas pra lá como más, e estas eram, digamos assim, as que estavam a meio do caminho entre o bom, entre o menos bom e o mau.

Também um pouco sucintamente, Edgar, queres nos explicar o que é isso do palavrão mecanismo de capital contingente ou na sigla anglo-saxônica CCA?

Sim, foi mais usada a sigla, precisamente porque a expressão mecanismo de capital contingente é uma boca cheia. Foi uma espécie de garantia pública sem ser uma garantia pública. Foi o modelo que se criou para que o Lone Star pudesse ser ressarcido nas perdas que viesse a ter com esse conjunto de ativos problemáticos que estavam a falar e que no fundo eram ativos que estavam identificados e que se sabia que iam gerar perdas quando fossem vendidos ou de certo modo reconhecidos como não tendo o valor que estava no balanço. No fundo, foi uma espécie de garantia pública que permitiu ir fazendo uma limpeza do balanço do Novo Banco às prestações, sem que houvesse impactos orçamentais muito concentrados no tempo, para o Estado, quero dizer.

A Lone Star, afinal, meteu ou não dinheiro no Novo Banco, e o Estado também. O que é que meteu no Novo Banco, afinal?

A Lone Star, basicamente, o dinheiro que pagou pelo Novo Banco, ficou no Novo Banco, foram cerca de 1 mil milhões de euros, portanto. O Estado não meteu dinheiro nessa altura. Essa foi, aliás, a condição do governo na altura, liderado por António Costa e com Mário Centeno nas finanças, de que não houvesse impacto orçamental em 2017. Mas logo nos anos a seguir, teve que cobrir chamadas de capital muito significativas nos primeiros dois anos a seguir à venda, 2018 e 2019. Foi mais ou menos consumido metade do valor que estava disponível no mecanismo de capital contingente, portanto, um valor quase da ordem dos 2 mil milhões de euros.

Lembra-nos o mecanismo de capital contingente tinha uma verba total possível de ser aplicada de 3890 milhões de euros.

Exatamente. Portanto, foi praticamente metade logo nos primeiros dois anos.

Para voltarmos ao acordo firmado para a venda em 2017 do Novo Banco à Lone Star e ao tão badalado mecanismo de capital contingente.

A primeira forma de montarmos a operação era garantir que o impacto nas contas públicas não existia no primeiro momento. E, portanto, tivemos inclusive uma conversa com o INE, com o Instituto Nacional de Estatística, que é quem valida o impacto nas contas públicas, para aferir de que forma é que nós poderíamos tentar acomodar

A dupla restrição: a restrição de não ter impacto, mas ao mesmo tempo de haver um apoio.

Ouvimos Sérgio Monteiro, que foi contratado pelo Banco de Portugal para ser consultor na venda do Novo Banco em 2017 e é um dos responsáveis pela criação do tal mecanismo de capital contingente. Ana Suspiro, percebemos sempre que o objetivo era não ter um custo orçamental em 2017, como tu há bocado referiste. Como é que isso foi sendo conseguido?

O que foi negociado no acordo que permitiu, de alguma forma, escapar ao impacto das contas públicas naquele ano, foi que a potencial e quase certa ajuda que o Estado teria que dar não podia ter um valor definido à partida. Nem um valor, nem um período temporal à partida, porque a partir do momento em que isso acontecesse, o Estado era obrigado a reconhecer aquele compromisso nas contas públicas no ano em que assumisse o compromisso. Portanto, o que é que saiu daqui? Saiu um envelope que permitia injeções públicas até 3,890 mil milhões de euros e um período temporal alargado para utilizar essas ajudas de vários anos. E isto permitiu que o Novo Banco não perturbasse as contas de 2017, que era um ano em que Portugal ainda não tinha as contas certas, que veio a ter mais tarde.

Só dois anos depois é que conseguimos o primeiro excedente, aliás, com Mário Centeno. Mas esse impacto que não houve em 2017, como tu já há bocado começaste a dizer, houve nos anos a seguir.

Sim.

O que é que aconteceu nos anos a seguir?

Nos anos a seguir, aliás, ele era previsto, porque todos os anos quando se fazia a proposta do Orçamento de Estado, lá estava a linha que correspondia à ajuda ao Novo Banco. Uns anos foi 700, 800, outros foi mais perto dos mil milhões, mas nós tivemos mais ou menos três anos em que aquilo era uma garantia que o Estado ia ter que meter dinheiro e que aquilo pesava no défice, obviamente. E ia défice. E foi sempre um dos temas quentes da discussão do Orçamento de Estado no governo de António Costa, que era minoritário e que tinha que garantir no Parlamento a aprovação. E o Novo Banco foi muitas vezes apontado como linha vermelha por parte de alguns partidos da oposição.

Mas passou sempre durante a geringonça.

Passou, é verdade. Mesmo naquele ano em que o Bloco de Esquerda, à meia-noite e tal, conseguiu uma votação que apagou a linha na qual estava inscrita a dotação para financiar o Novo Banco e que obrigou o governo a arranjar uma solução criativa para manter o compromisso.

Edgar, ao longo dos anos em que houve as injeções de capital no Novo Banco, pararam, como estávamos a referir, sempre as suspeitas, nomeadamente, e este é um acrescento novo, de que o Lone Star poderia estar a inflamar as perdas para ir buscar mais capital público. Pode ter acontecido isso?

Não há dúvida que o Lone Star, até pela natureza desta operação e do acordo que foi assinado, tinha um incentivo natural para registrar perdas rapidamente naqueles ativos, porque sabia que podia ir buscar um ressarcimento ao fundo de resolução. Dizia-se no setor que o próprio fato de o Lone Star estar a vender carteiras de ativos a preços mais baixos, até estava a complicar a vida dos outros bancos, que também tinham as suas carteiras para vender e no caso deles não podiam ir buscar reforçamento a lado algum, exceto ao bolso dos acionistas. Houve notícias sobre vendas de ativos a preços baixos. O Tribunal de Contas chegou a questionar os valores envolvidos em algumas vendas, nomeadamente os descontos que eram feitos face ao valor contabilístico, mas o fato é que o Lone Star tinha de vender aqueles ativos, neste caso, o Novo Banco tinha de vender aqueles ativos com alguma rapidez. Cada vez que queria vender, no entanto, tinha que pedir autorização ao fundo de resolução para fazer essas vendas. Nós tivemos Luís Máximo dos Santos a explicar este processo nesta série de entrevistas que fizemos, mas também tivemos há poucos meses o presidente da chamada Comissão de Acompanhamento do Novo Banco, José Bracinha Vieira, a dizer que o Lone Star poderá ter sido um pouco agressivo em alguns casos, mas de um modo geral, não se pode dizer que tenha abusado do mecanismo.

E afinal, contas feitas, quanto é que o Estado ou o fundo de resolução meteu nessas chamadas de capital?

O mecanismo, já dissemos, tinha um teto máximo de 3.890 milhões de euros. Acabou por se gastar cerca de 3,4 mil milhões ou 3 mil milhões e 400 milhões, o que deu uma poupança face a esse teto máximo que foi superior a 400 milhões de euros. O valor que foi injetado é um valor elevado, que foi sendo acumulado ao longo dos anos. Houve um ano, em 2018, que foram mais de mil milhões de uma assentada. Ainda assim, a poupança face ao pior cenário acabou por ser relevante e Máximo dos Santos disse no Parlamento que 400 milhões não são propriamente trocos.

E o Estado ainda pode vir a ser chamado pra alguma dessas?

Não, neste momento, o processo está encerrado desde que no final do ano passado se chegou a um acordo para encerrar antecipadamente o tal mecanismo de capital contingente, que no fundo, veio abrir caminho à distribuição de dividendos e também para a venda ou para a eventual cotação em bolsa, que acabou por não acontecer. Esse acordo para o fim do mecanismo envolveu encerrar todos os processos judiciais que estavam ainda pendentes e que ainda eram alguns, mas no fundo, todos os recursos foram abandonados e as partes puderam pôr um ponto final a este processo longo.

O mecanismo já foi fechado. Afinal, qual é o balanço final do custo para o Estado?

Temos aqui duas grandes operações de financiamento do Novo Banco. A primeira foi logo em 2014, quando o banco foi criado com uma injeção de capital de 4,9 mil milhões de euros. Parte deste dinheiro foi pago pelos bancos, mas enfim, isto foi sempre um custo do fundo de resolução, portanto, não deixa de ser um custo público, digamos assim. E depois tivemos o dinheiro que foi injetado nos anos seguintes ao abrigo do mecanismo de capital contingente, que foram mais 3,4 mil milhões. Portanto, grosso modo, chegamos a um valor superior a 8 mil milhões de euros.

Contas essas que ainda estão por liquidar

O fundo de resolução vai reembolsar os créditos que obteve. É claro que não é apenas por estes montantes, porque seriam insuficientes, mas porque se mantém o fluxo financeiro decorrente das contribuições que o setor irá fazer.

Luís Máximo dos Santos, vice-governador do Banco de Portugal e presidente do Fundo de Resolução, assume que o dinheiro é para ser devolvido. Edgar Caetano, quanto tempo tem o Fundo de Resolução para devolver o dinheiro?

A maior parte dos fundos tem que ser devolvidos até 2046. São cerca de 30 anos em relação à altura em que se cristalizaram as condições em que o setor financeiro iria ter que pagar esta dívida.

Mas o Fundo de Resolução tem condições para devolver esse dinheiro?

Não, não tem. No imediato, não tem. Neste momento, o Fundo de Resolução, a única coisa que pagou ao Estado e que agora não paga, foram os juros. Portanto, a parte de capital ainda não começou a reembolsar. Tem havido melhorias na situação líquida do fundo, que é uma entidade pública, apesar de financiada pelos bancos, mas ainda há um buraco da ordem dos € 7.000 milhões, que corresponde, grosso modo, aos compromissos financeiros que o fundo tem que assumir com o Estado. E, portanto, ou há uma alteração no prazo, ou há uma alteração nas condições de reembolso, ou então tem que ir buscar mais contribuições de outras entidades, para além daquelas que atualmente financiam o fundo, que são os bancos a operar em Portugal.

Mas é expectável que haja mudanças nesses compromissos, Edgar? E os bancos vão continuar a contribuir para o Fundo de Resolução?

Segundo dados do Fundo de Resolução, estima-se que os bancos vão ter de pagar cerca de € 250 milhões por ano, durante os próximos anos. Isto é o contributo do setor de forma agregada. A questão é que os bancos, como dizia agora a Ana, estão a tentar que se aumente o leque de contribuintes para dividir esta fatura por mais intervenientes naquilo que é a operação bancária financeira que existe em Portugal, para não ser só os bancos que na altura foram identificados como contribuintes.

Chegados a 2025, há um acordo para o Novo Banco voltar a ser vendido, desta vez aos franceses do BPCE.

Vamos ter um banco mais focado numa lógica não da valorização do curto prazo, mas numa lógica mais de médio e longo prazo.

Miguel Maia, presidente do Millenium bcp, um concorrente, admite que essa mesma concorrência vai ser agora mais musculada. Comecemos pelo comprador. Quem é o BPCE?

O BPCE é um dos principais bancos em França. Eles dizem no seu site que são o segundo maior grupo bancário naquele país, mas na métrica que é mais frequente utilizar nessas avaliações, que é a dimensão dos ativos, este grupo é o terceiro maior banco de França, depois do BNP Paribas e do Crédit Agricole, que curiosamente era um acionista histórico do BES, antes da resolução. O BPCE é uma grande instituição financeira francesa, já dissemos, que foi criada através de uma grande fusão que existiu em 2009, no rescaldo da crise financeira que teve como clímax a falência do norte-americano Lehman Brothers. Essa crise alastrou-se na altura a vários bancos franceses e europeus, e em França, em particular, colocou duas entidades financeiras sob pressão financeira, política, de todas as ordens. Eram o Banco Populaire e a Caisse d'Épargne, que significa, no fundo, caixa de poupanças. Estamos a falar de um banco que tem uma índole muito mutualista, quase comparável ao Montepio em Portugal, mas também com algumas características que se assemelham quase também à Caixa Crédito Agrícola em Portugal. No fundo, é uma instituição que tem algumas parecenças com essas, embora de facto seja de uma dimensão totalmente diferente.

E vai entrar cá na banca a retalho.

Na banca a retalho, sim. Eles já tinham algumas operações menos conhecidas em Portugal, o Banco Primus, o Oney, são operações muito viradas para o crédito ao consumo, sobretudo nessa área. Também tem um banco chamado Natixis, que tem um centro de competências no Porto. Também é uma instituição que é propriedade do BPCE, mas de facto não tinham uma operação como vão passar a ter, e é uma operação muito relevante de banca tradicional comercial, como é o Novo Banco.

O BPCE vai comprar o Novo Banco por 6.400 milhões, pelo menos é o acordo que está em cima da mesa, uma pipa de massa e não esperada. O Estado vai receber já alguma coisa, Ana Sofia?

O Estado vai receber já, porque o Estado passou a ser acionista do Novo Banco, através dos ativos da conversão de créditos fiscais no capital. Portanto, recebe cerca de € 730 milhões pela participação direta. Depois, se considerarmos que o Fundo de Resolução também é acionista e também vai receber, vai ter direito a 866 milhões de euros. Portanto, no total, a parte pública recebe 1,6 mil milhões de euros, mas é claro que a parte-leão, de quase 5 mil milhões de euros, fica pra Lone Star, que de facto correu o risco e ganhou, saiu vencedora.

Entrou com mil milhões e sai com 5 mil milhões.

Não sei se é um jackpot, mas é certamente uma jogada que correu bem.

A compra do Novo Banco pelo BPCE vai mudar alguma coisa no sistema financeiro português, no mercado português, nomeadamente para trabalhadores, depositantes, empresas? O que se pode esperar disto, Eduardo Catroga?

Eu diria que, se calhar, o BPCE conseguiu comprar o Novo Banco precisamente não só pela oferta choruda que fez, mas sobretudo porque é talvez aquela oferta que menos iria alterar coisas no sistema financeiro português, nomeadamente ao nível do que disseste, trabalhadores e atividade.

Porque havia outra proposta?

Havia outra proposta, nomeadamente do Caixa Bank, que é o acionista a 100% do BPI, que depois de comprar o Novo Banco, certamente iria fazer uma fusão entre o BPI e o Novo Banco e isso traria, já que falas em alterações de coisas no mercado português, levaria a alterações maiores certamente para os trabalhadores. E foi interessante ouvir Máximo dos Santos falar de como isso podia ser cruel até para os trabalhadores do Novo Banco que se mantiveram leais ao banco e continuaram e agora podiam ver o seu posto de trabalho em risco. De resto, no que à banca diz respeito, claro que o Novo Banco já não era um banco de transição há muito tempo, já era um banco a funcionar de forma mais ou menos normal, mas claro que a entrada de um acionista, ainda mais demonstrando ter bolsos fundos que lhe permitem fazer esta oferta, certamente que vai mudar alguma coisa na forma como o banco opera em Portugal e como compete com os outros.

E impede-se aquela concentração que, pelo menos o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, não gostaria de ver no mercado português, concentração alegadamente excessiva dos bancos espanhóis.

Essa foi uma pergunta que fizemos às várias pessoas que entrevistámos.

E todos concordaram, mais ou menos, com a posição do ministro.

É interessante ouvir as diferenças subtis nas respostas de cada um, mas de facto isso acho que era inegável. Estamos a falar de uma concentração, não é por ser de Espanha, mas é de um país que não é Portugal, o que no contexto da união bancária traz questões interessantes. Porque de facto estamos a caminhar para uma união bancária, mas depois, na prática, vemos que quando as coisas estão verdadeiramente em cima da mesa, há toda uma série de questões que se colocam.

Sim, porque aqui em Portugal houve declarações do ministro das Finanças, que não era o vendedor, era apenas uma parte menor interessada, digamos assim. Mas noutros países nós temos visto intervenções musculadas dos governos.

Na Alemanha, Itália.

Na Alemanha, na Itália, Espanha, mesmo em operações indoors, dentro de casa. E os governos gostam muito de continuar, no fundo, a intervir muito. Enquanto isso acontecer, o mercado bancário europeu terá dificuldade em consolidar-se.

É a união bancária.

Mas o BCE tem promovido a tentativa de haver operações transfronteiriças e esta enquadra-se nesse perfil que o BCE procura.

Vai ser à força, consolidação à força, uma união bancária criada de forma quase, neste caso, deliberada e sem que o setor possa ter muita resposta, mas o que vemos é que o poder político pelo menos gosta de se intrometer nestes trabalhos.

E eu deixo aqui uma nota que fala-se da concentração do poder dos espanhóis na banca portuguesa, que é inegável, mas se nós olharmos para a economia portuguesa, também os franceses estão a ganhar algum poder, porque em vários setores estratégicos estão a assumir posições muito relevantes. Já são os donos da ANA, agora compram um dos maiores bancos, poderão eventualmente vir, são dos candidatos à TAP, portanto, também é uma matéria que levanta algumas questões, eventualmente.

E não te esqueças que o grupo financeiro que empregava mais pessoas em Portugal, ou que emprega mais pessoas em Portugal, é francês, embora não tenha balcões abertos. Sabes quem é que é?

Sei, é um banco, agora não estou lembrada do nome.

BNP Paribas.

É o BNP Paribas, que tem todos os seus serviços administrativos em Portugal, no Porto.

Mas não tem operação.

Tem centros.

Exatamente.

E são o maior empregador, mais do que o BCP, mais do que os outros bancos.

Pois. Vive la France.

O acordo ficou feito, ainda falta fechá-lo por completo, o acordo de venda do Novo Banco ao BPCE. Ficamos a aguardar esse desfecho do negócio, que deverá acontecer só em 2026, depois de todas as autorizações, nomeadamente da concorrência. Só aí ficará fechado em definitivo o valor deste cheque. Este foi o "Check-in ao Novo Banco", que ficará disponível nas plataformas de podcast do Observador e no site do Observador.