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Seja bem-vindo a mais uma edição de "Claro como Água", um podcast da iniciativa Vimedo Explica, que nos ajuda a conhecer o bem mais precioso da nossa vida: a água. E como beber água é um compromisso para a vida toda, hoje vamos falar da importância do seu consumo na idade avançada. E para esta conversa recebemos a dra. Sofia Duque, especialista em medicina interna e geriatria. Muito obrigada, dra. Sofia, por estar aqui na Rádio Observador para nos falar da importância da água na terceira idade. E é muito importante. É comum ouvirmos que os idosos sentem menos vontade de beber água. Isso acontece por quê?
Antes de mais, bom dia e obrigada pelo convite para estar aqui convosco. E sim, é verdade que as pessoas mais velhas têm menos vontade de beber água e bebem mesmo menos água. E por quê? Eu identificaria aqui três motivos. Em primeiro lugar, têm menos vontade de beber água, têm menos sede, porque têm uma diminuição do mecanismo da sede. E a sede deve ser vista aqui como o desejo ou a vontade que nós temos, naturalmente, de beber água. E para compreender por que as pessoas mais velhas têm menos sede, é importante vermos o que acontece nas pessoas mais jovens. E aquilo que acontece é que quando nós bebemos menos líquidos, há uma diminuição do volume do nosso sangue. Vai baixar a pressão arterial e vai aumentar a secreção de algumas substâncias que depois vão estimular, a nível do cérebro, de uma zona do cérebro que é o hipotálamo, o centro que controla, que regula a sede. Por outro lado, quando nós, adultos mais jovens, bebemos menos líquidos, vai aumentar aquilo que nós chamamos a osmolaridade do sangue, ou seja, o sangue vai ficar mais concentrado. E não só vai ficar mais concentrado o sangue, como o fluido, o líquido que banha todas as nossas células. E esta alteração da concentração destes líquidos, do sangue, do fluido que banha as células, vai ser também percepcionada por estruturas que estão nesse hipotálamo. E são estruturas que se chamam osmorreceptores e que não são mais do que interruptores da sensação da sede. E, portanto, quando estes receptores são ativados, lá aparece a sede. Por outro lado, quando nós bebemos menos líquidos, vai também haver uma menor produção de saliva. É natural. E isso vai fazer com que tenhamos a sensação de a boca estar seca e muitas vezes é isso que estimula a sensação da sede também, aqui por intermédio do hipotálamo. Talvez seja mais fácil com um exemplo prático. Se nós ingerirmos uma refeição muito salgada, que às vezes acontece, o nosso sangue vai ficar mais concentrado, e isto vai estimular o hipotálamo e vai aumentar a sede e nós vamos buscar água e vamos beber. No entanto, todos estes mecanismos que eu expliquei, e que são a nossa fisiologia, vão estar comprometidos nas pessoas mais velhas. E, portanto, estes mecanismos não vão funcionar da mesma maneira, por isso as pessoas mais velhas têm menos sede.
Mas é por causa do envelhecimento natural?
É o envelhecimento natural. Portanto, esta diminuição da sede não é uma doença, não é algo patológico, é algo que acontece transversalmente em todas as pessoas mais velhas. E assim, quando o seu volume de sangue está diminuído, quando o seu sangue está concentrado, não é desencadeado o mecanismo de sede, pelo menos não é desencadeado com o mesmo vigor, não vai aparecer a vontade de beber água, aquele reflexo que para nós é tão natural. E além disso, isto é também importante, porque não beber água culmina depois em desidratação. E nas pessoas mais velhas há ainda outro fator que contribui para mais desidratação, que é o fato de os rins também não funcionarem da mesma forma. Quando nós não bebemos água, o nosso rim deve desencadear mecanismos para poupar água, porque nós precisamos dessa água. Ou seja, a nossa urina vai ficar mais concentrada. Vamos perder menos água pela urina.
Mais escura também.
Mais escura, exatamente. O que acontece é que nas pessoas mais velhas isso não acontece e, portanto, perde-se esse mecanismo de compensação, o que potencia o risco de desidratação.
E mesmo a medicação pode também levar a uma maior desidratação.
É verdade, e por isso é que eu dizia que havia aqui três grandes motivos que levavam, por um lado, a menos sede e, por outro lado, a menos ingestão de água. Mas antes de pegar na medicação, eu gostava de pegar na medicação relacionada com um problema muito prático que nós vemos nas consultas, que é o medo da incontinência urinária, o medo das perdas involuntárias da urina. E por que é importante eu falar disto? Porque este é um problema que é altamente estigmatizante para as pessoas, pode limitar a sua capacidade de realizar as atividades do dia a dia, pode limitar a sua capacidade de socialização, pode levar as pessoas a ficarem presas no domicílio. No limite, isto pode levar a um estado de pendência funcional, cognitiva e culminar numa institucionalização. E, portanto, falar aqui deste medo da incontinência urinária é importante. A incontinência urinária pode surgir por doenças, hiperplasia benigna da próstata nos homens, tumores da próstata ou prolapso vesical nas senhoras, a bexiga hiperativa, tanto em homens como mulheres. Muitas vezes, a incontinência urinária pode também ser causada precisamente pelos diuréticos, que às vezes são prescritos quando há insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, insuficiência renal, mas muitos outros medicamentos, que não os diuréticos, também podem levar à incontinência urinária, a estas perdas de urina involuntárias, que são estigmatizantes, como os sedativos e os ansiolíticos, os antidepressivos, até mesmo os medicamentos que são utilizados na demência, alguns diuréticos utilizados para controlar a tensão arterial e até mesmo alguns medicamentos para a dor, como os opioides. Portanto, falar aqui da incontinência urinária e deste medo que as pessoas têm de beber água, porque acham que vai aumentar a incontinência urinária. O que é paradoxal, na verdade, é que se as pessoas beberem mais água E de uma forma mais regular vão ter menos incontinência urinária. Isto é muito engraçado.
A sério?
Sim.
Dá algum caso.
Por quê? Porque se nós não bebermos água, a nossa urina vai ficar mais concentrada, mais escura, mais irritativa. Então as pessoas vão ter mais urgência e mais incontinência urinária. Portanto, se querem evitar a incontinência urinária, é mesmo beber água, o que é muito engraçado. Por fim, eu queria também dizer que esta menor ingestão de água também está relacionada, muitas vezes, com a menor acessibilidade à água. Pensemos nas pessoas que têm alguma limitação na mobilidade. Se eu tiver sede, eu vou ter de me levantar desta cadeira, ir procurar uma garrafa d'água. Uma pessoa que tenha alguma limitação motora não vai ter esta agilidade e, portanto, pode ser difícil chegar à água. Ou pensemos numa coisa mais simples: uma pessoa que tenha artroses na mão, pode ter dificuldade a desenroscar a tampa e ver-se privada assim de aceder à água. Por outro lado, temos as pessoas que podem ter algum problema cognitivo e que simplesmente não se lembram que têm de beber água. Isto acontece em casos de demência ou em pessoas que, de uma forma aguda, têm uma alteração cognitiva, por exemplo, quando têm alguma doença. Portanto, há muitos mecanismos, começando pela sede, mas outros também, como eu falei de doenças e de mitos, que podem levar a uma menor ingestão de água nas pessoas mais velhas.
E, no entanto, existem necessidades hídricas muito específicas nesta fase, certo, doutora?
Na verdade, as necessidades de água são muito semelhantes nas pessoas mais velhas e nas pessoas mais jovens. Como é que nós estimamos essas necessidades? Essas necessidades podem ser estimadas através de uma medida muito simples, que é 30 mililitros por quilograma de peso. Isso significa, por exemplo, que uma pessoa com 50 quilos deveria beber um litro e meio d'água.
Ok.
Ou uma pessoa com 75 quilos, um pouco mais do que dois litros, 2250 mililitros. Aqui o importante não é nós distinguirmos as necessidades dos jovens, dos mais velhos. É reconhecermos que diferentes necessidades vão ser determinadas pelos medicamentos que as pessoas tomam. Por exemplo, se tomarem diuréticos, vão ter de beber mais água. Pelas doenças que têm, pela exposição a situações de maior vulnerabilidade para desidratação, como os períodos em que a temperatura ambiental está mais quente. Ou, por exemplo, outra situação de vulnerabilidade para desidratação é a prática de mais exercício físico.
Pois, eu há instantes estava aqui a pensar se os idosos também sentem menos necessidade de beber água, por alguma razão. É normal ser menos ativo nesta fase. Não necessariamente.
Mas não é por essa menor atividade que vão ter menos vontade de beber água.
As necessidades são iguais, mesmo não fazendo exercício.
Até podem ter mais necessidades se tiverem doenças, se tomarem diuréticos, e desejavelmente, isso deveria acontecer se forem ativos.
Doutora Sofia Duque, e que estratégias podemos adotar para ingerir mais água nesta terceira idade, ou seja, nesta fase tão importante da nossa vida?
Pensar nas pessoas mais velhas obriga também a pensar nos seus familiares, nos seus cuidadores, porque muitas vezes podem ser esses os elementos ativos que vão incentivar ao aumento da ingestão de água.
Lá está, quando a água está longe, existe uma mobilidade reduzida.
Sim. Em primeiro lugar, eu penso que não basta nós indicarmos que as pessoas têm de beber água. Temos de dar uma justificação e, portanto, temos de sensibilizar as pessoas e ensinar por que a água é importante. Explicar de uma forma breve por que a água é tão importante para o nosso organismo e existem vários benefícios de que já falamos. Temos de recomendar, aconselhar e às vezes eu até diria mesmo prescrever. Muitas vezes nas minhas folhas de recomendações incluo, quando esse é um problema crítico, deve beber água e pôr a quantidade d'água. Depois devemos ensinar as pessoas a valorizar situações que implicam maior ingesta d'água. Elevadas temperaturas, doenças, por exemplo, se tiverem um quadro de diarreia, de vômitos, têm de aumentar a ingestão de água ou se tomarem diuréticos. Depois ensinar as pessoas a estarem atentas aos sinais de desidratação. Temos de ensinar quais são os sinais de desidratação. Não é?
Boca seca.
Isso. Depois temos de oferecer água de forma regular, em particular nas pessoas que têm dificuldade na acessibilidade à água. Por exemplo, de duas em duas horas, oferecer água. Ou então deixar a água perto das pessoas, mas em vez de deixarmos na garrafa fechada, que se calhar a pessoa vai ter dificuldade a abrir, colocar logo num copo, por exemplo.
E se a pessoa tiver, por exemplo, dificuldade em agarrar no copo, pode ser uma paninha.
Sim, pode ser. E depois ir monitorizando se a pessoa, de facto, bebe água. Não é deixar lá a água e já está. Temos de verificar e incentivar as pessoas. No caso das pessoas, por exemplo, que têm algum problema de deglutição, pode ser necessário tornar a água mais espessa. Neste caso, vai precisar de um aconselhamento médico, ou de enfermagem, ou de nutricionista, mas ter presente esta questão é muito importante.
Às vezes existe uma espécie de gel, não é?
Exatamente. Mas convém as pessoas procurarem aconselhamento, porque a forma como se espessa a água vai depois ser muito diferente, de acordo com a gravidade do problema de engolir. E atenção que as pessoas podem se engasgar com água e isto levar a pneumonias de aspiração graves. E por fim, eu diria que é encontrarmos formas atrativas de beber água. Por exemplo, as infusões. Pode ser chá, mas não abusar com o chá, porque depois o chá também pode dar problemas de insônia e também aumentar a incontinência urinária. Os sumos naturais. Podemos também adicionar alguns sumos naturais, as gelatinas, também fazer com água. Os gelados, as sopas, são alimentos altamente ricos em água. E as frutas, há algumas frutas que têm um teor d'água muito elevado.
Qual é esse, a maçã.
A melancia.
A maçã, claro.
O melão, a laranja e alguns vegetais, por exemplo, o tomate, o pepino e também a alface.
A alface?
Alface.
Eu pensava que a alface não fazia quase nada.
Não, tem água. Portanto, fazer aqui uma mistura destes alimentos pode ajudar a colmatar aquela falta de vontade de beber água, aquela falta de sede que as pessoas têm.
E o consumo adequado de água, e particularmente a água mineral, pode ser favorável a um envelhecimento saudável e prevenir algumas doenças. Eu gostava de perguntar que problemas mais frequentes podem estar associados a uma carência de minerais?
Essa é uma pergunta interessante. Ou seja, fazer uma associação entre a água e conseguir um envelhecimento ativo e saudável. E penso que é isso que todos nós desejamos. Em primeiro lugar, temos de ver que quando nós falamos de envelhecimento ativo e saudável, não nos devemos focar só a partir dos 65 anos. O envelhecimento começa cedo, bem cedo.
Aos 30.
Não, a partir do momento em que nascemos.
Nascemos, pois é.
Portanto, nós temos de começar a pensar em envelhecimento saudável muito mais cedo. E temos que ter noção que a água é um constituinte muito importante de todos os nossos órgãos e sistemas, e que a água vai ser fundamental para o funcionamento de todos esses órgãos. Portanto, ingerir a quantidade de água necessária é fundamental e inevitavelmente vai prevenir doenças. Há algumas doenças que estão muito ligadas a uma menor ingestão de água. Por exemplo, o maior risco de infecções urinárias, os cálculos renais, que muitas vezes geram as cólicas renais muito frequentes nesta altura do verão e que, no limite, podem levar a-
É mais frequente no verão?
É mais frequente no verão, porque há um maior risco de desidratação. Porque o aumento da temperatura ambiental leva a uma maior perda d'água pelo suor. E se a pessoa não compensar essa água que perdeu, que é difícil de medir e de ter percepção através de uma maior ingesta hídrica, vai efetivamente ter mais cólicas renais. E as cólicas renais, no limite, podem levar até mesmo à perda de rins, de um rim. Isto no limite, claro. Não quero assustar as pessoas, mas isto pode acontecer, portanto é fundamental beber água. Mas a própria diminuição de ingestão d'água pode estar associada a problemas tão banais como a obstipação. E se tivermos prisão de ventre, poderemos vir a ter divertículos ou até problemas hemorroidários, por exemplo. A insuficiência renal, naturalmente, está muito ligada à diminuição da ingestão d'água. Se bebermos pouca água, podemos ter problemas de pele, maior risco de infecções da pele, maior risco de feridas, isto é muito visível nas pessoas mais velhas. Uma pele desidratada muito facilmente quebra. Pode surgir dor de cabeça quando estamos desidratados, cãibras musculares. No global, eu diria que um estado de desidratação está associado a um compromisso da nossa capacidade física e da nossa capacidade cognitiva. Mas fazendo aqui a ponte para o envelhecimento ativo e saudável, é muito interessante nós pensarmos nalgumas doenças que tipicamente estão associadas a um envelhecimento menos bem-sucedido. Por exemplo, as doenças cardiovasculares. E aqui eu realço a hipertensão arterial, que depois pode levar à insuficiência cardíaca, mas realço também algumas doenças metabólicas, como a diabetes, que é tão frequente no nosso país. Estas doenças estão inequivocamente ligadas a um envelhecimento mal sucedido. E nós sabemos que vários sais minerais presentes na água podem contribuir para minimizar o risco cardiovascular e para melhorar o controle metabólico. No caso da hipertensão arterial, por exemplo, o potássio é fundamental, mas também o magnésio, o sódio também. No que diz respeito ao controle dos valores de glicemia e o controle dos valores de colesterol, temos também aqui o papel importante do bicarbonato, e estamos a falar de sais minerais que estão presentes na água.
E quais são os sais minerais mais importantes, então? Diria o cálcio, magnésio.
São muitos.
Se calhar, dependendo da pessoa também, dá para perceber que minerais é que lhe faz mais falta.
Dependendo da pessoa, dependendo das suas doenças, dos medicamentos que toma. É fundamental, no caso das pessoas mais velhas, nós pensarmos na massa óssea, porque com a idade vai haver um declínio da massa óssea. Isto significa maior risco de ter osteoporose e fraturas. Fraturas que no limite podem ser fatais. E o cálcio, de facto, desempenha um papel fundamental aqui na formação e manutenção do osso, mas também dos dentes. E sabemos que as pessoas mais velhas muitas vezes têm problemas de saúde oral, que depois podem levar à incapacidade para ingerir os alimentos que necessitam e culminar em situações de malnutrição. Mas este mesmo cálcio, que é importante para os ossos, depois também tem outras funções. Por exemplo, na coagulação do sangue, na origem dos estímulos nervosos, portanto, no funcionamento do sistema nervoso central, o nosso cérebro e do sistema nervoso periférico, os nossos nervos. Este cálcio também é importante para a contração dos músculos. No que diz respeito ao magnésio, e acho que a Rita também tinha falado no magnésio. O magnésio é super importante para os músculos. E nós sabemos que as pessoas mais velhas habitualmente têm uma diminuição da massa e da força muscular.
E a recuperação também é mais difícil, não é?
Muito mais. Se perdem músculo, é muito difícil a sua recuperação. Isto está muito ligado com a sua capacidade de realizar as atividades no dia a dia e de serem autónomas, que é aquilo que as pessoas querem. Mas este magnésio não só é importante para os músculos, como depois também é importante para os nervos, para os tais estímulos nervosos. Também para controlar a pressão arterial, para o próprio funcionamento cardíaco. É muito comum nós encontrarmos pessoas com déficit de magnésio e arritmias. E às vezes basta oferecermos magnésio para corrigir esse problema.
Mesmo o cansaço. A minha irmã diz muitas vezes: "Ah, tens de tomar magnésio para o cansaço".
Porque esse cansaço manifesta-se através de fraqueza muscular. E, portanto, isso ilustra bem aqui o papel do magnésio nos músculos. Mas este magnésio até é importante na formação dos glóbulos vermelhos, e os glóbulos vermelhos são eles que vão levar oxigênio para todas as nossas células, em particular para o cérebro, que precisa tanto dele para pensar. E este magnésio também é importante para os ossos. Isto, de facto, é curioso. A água também vai ter ainda outros sais minerais. Não ficamos aqui no cálcio e no magnésio. O sódio. E de facto, o sódio em excesso pode levar à pressão arterial alta. E nós não queremos hipertensão arterial, mas o sódio é fundamental.
E na água está superequilibrado, não é?
Não podemos abolir o sódio da nossa alimentação e muito menos nas pessoas idosas, que muitas vezes têm outras condições que levam a que tenham falta de sódio, como por exemplo, os diuréticos que nós médicos prescrevemos. O sódio vai ajudar a manter a quantidade de líquido que nós precisamos no nosso corpo, portanto, retém a água no nosso corpo e 70% do nosso corpo é água. Portanto, o sódio é aqui importante também para o funcionamento dos nervos e também dos próprios músculos. E depois o potássio. O potássio é também aqui um ião, um sal mineral muito importante.
Que não está só nas bananas.
Não, também está na água. E também contribui aqui para o ritmo do coração. Mais uma vez, quando as pessoas têm palpitações, pode ser este um sinal de falta de potássio. E a falta de potássio também pode acontecer devido ao uso de diuréticos. Portanto, temos que ter aqui muita atenção. Quem toma diuréticos tem que beber água. Isto é curioso, porque nós pensamos: estamos a tirar água, mas não, as pessoas têm mesmo de De continuar a beber água. Este potássio também é importante para o funcionamento dos músculos, dos nervos e lá está também para a regulação da pressão arterial. Mas a verdade é que nós não ficamos por aqui. Depois ainda temos o cloro, e o cloro de certa forma trabalha de forma articulada com o sódio. São dois iões que estão muito equilibrados entre eles e, portanto, mais uma vez, o cloro vai ter também uma importante função a manter o equilíbrio de líquidos no nosso corpo. E depois não esquecer outra coisa: o cloro vai ser necessário para produzir o ácido gástrico no nosso estômago. E esse ácido gástrico é fundamental para a digestão dos alimentos. Portanto, a água vai ter um papel fundamental também para que a alimentação em geral seja rentável e para que as pessoas consigam obter os nutrientes que necessitam. Por fim, gostava só também de falar do bicarbonato. Muitas vezes esquecemos do bicarbonato, mas ele vai ser fundamental para neutralizar aquele ácido do estômago. E sabemos que as pessoas mais velhas muitas vezes se queixam de doença do refluxo gastroesofágico.
Azia.
Exatamente, azia, que nós chamamos de pirose. E, portanto, ter o bicarbonato, nomeadamente ingerido através da água, pode minimizar estes sintomas que são tão incomodativos e que muitas vezes levam à necessidade de tomar outros medicamentos que têm vários efeitos secundários. Mas além disso, há aqui uma função muito curiosa do bicarbonato. Ele vai acelerar o esvaziamento gástrico. E será que isto é importante nos mais velhos? É, porque nos mais velhos há um atraso do esvaziamento gástrico. Então a comida fica mais tempo no estômago. Eles vão ter fome mais tarde e muitas vezes isto leva a que haja uma diminuição da ingestão de alimentos, comparativamente àquela que é necessária para manter o seu estado nutricional normal.
Levar ao emagrecimento anormal.
Ao emagrecimento, à perda de músculo, à perda de força, no limite, à perda da autonomia e à incapacidade para viver sozinhos. Portanto, ter este bicarbonato é muito importante por estas funções, além de que, e a pensar aqui no processo do envelhecimento desde cedo, o bicarbonato também vai ajudar a controlar os níveis de colesterol, os níveis da glicemia e, portanto, vamos aqui diminuir o risco de aterosclerose e de doenças cardiovasculares, que podem condicionar a esperança de vida das pessoas. Portanto, nós vemos que a água não é só H₂O.
Verdade.
A água é H₂O, mais sais minerais, no fundo, é um alimento. E que ainda por cima vai ajudar a potenciar o efeito dos outros alimentos, que é muito importante nas pessoas mais velhas.
Doutora Sofia, já passamos um bocadinho do nosso tempo. Vamos aqui só falar que é muito comum haver pessoas que chegam às urgências portuguesas com quadro de desidratação. Estamos a falar de números elevados?
Eu não consigo ter dados portugueses. Diria que se nós olharmos para alguns estudos, até internacionais, nós podemos identificar que dentro dos idosos que são admitidos numa urgência, 10 a 20% podem estar desidratados, mas há outros estudos em que essa percentagem pode chegar aos 60%. E por quê? Porque isto vai depender muito das condições climatéricas. No verão nós já sabemos que vamos ter mais doentes desidratados, vai depender depois das doenças que as pessoas têm, dos medicamentos que tomam, e portanto, é fundamental nós termos em atenção a possibilidade de prevenirmos a desidratação. Atenção que nós podemos ter pessoas que são admitidas na urgência "simplesmente" tendo como problema principal a desidratação, mas muitas das outras doenças também ocorrem com desidratação. Por exemplo, um quadro febril tem desidratação. Por exemplo, na Covid nós tínhamos muitos quadros de desidratação.
Pode ser a origem e sintoma.
Pode ser o problema original, principal, a pessoa desidratou, por exemplo, numa onda de calor, mas nos idosos não é preciso uma onda de calor para causar desidratação, basta haver uma privação d'água muito pequena e um ligeiro aumento da temperatura corporal e a incapacidade de aceder à água. Ou podemos ter a desidratação associada às outras doenças.
Então vamos aos sintomas de desidratação na terceira idade. Temos que ter atenção a quê?
Antes de mais, dizer que se nas pessoas mais jovens a sede é um sinal de alarme, nas pessoas mais velhas esse sinal vai estar ausente, na maior parte dos casos. Muitas vezes nós também avaliamos o estado de hidratação olhando para a pele, olhando para as mucosas, e este sinal não é tão fiável nas pessoas mais velhas, porque muitas vezes nós avaliamos o estado de hidratação da pele através do seu turgor. E nas pessoas mais velhas, devido à desidratação natural da pele e à alteração da elastina e de outros constituintes da pele, ela parece naturalmente desidratada. Portanto, temos de olhar para outros sintomas como a boca seca, a língua seca, os lábios secos, olhar para as características da urina, uma urina mais escura, mais concentrada.
E a cor dos lábios, por exemplo? Isso é mais oxigênio, se calhar.
Mas os sintomas de fadiga, a fraqueza, quando têm tonturas, vertigens, quando têm prisão de ventre ou obstipação, a própria dor de cabeça. E depois há alguns sinais mais graves. Por exemplo, quando aparecem com os olhos encovados, quando não suam, significa que já nem têm água para suar. Portanto, quando a pele está completamente seca, quando a pressão arterial está baixa e quando a batida cardíaca aumenta, a frequência cardíaca aumenta. Quando temos uma pessoa com uma respiração muito rápida, esse pode também ser o sinal de desidratação, ou quando temos alterações do estado mental, em que a pessoa fica letárgica, prostrada, confusa, desorientada, e isto pode culminar em situações de coma, que podem mesmo ser depois fatais.
E, neste caso, a hidratação terá de ser intravenosa, por exemplo?
Pode ter de ser, mas é sempre importante, sempre que possível, evitar e manter a hidratação oral. E há várias formas de garantir a hidratação oral nas pessoas mais velhas. Há algumas alternativas à água, utilizando água ou não. Por exemplo, as infusões de ervas. Também podem ser infusões de chá, mas tentar evitar chá em excessiva quantidade, porque isso também pode aumentar a incontinência urinária.
E se calhar aproveitar e fazer um chá com água mineral.
Exatamente. E ervas.
E ervas.
Sim.
E vamos agora, para terminar, alguns truques para envelhecer com qualidade.
Esse é um grande desafio. E esse é o meu dia a dia: promover um envelhecimento ativo e saudável. Em primeiro lugar, começar a planear desde cedo, adotar estilos de vida que sejam saudáveis logo desde o início. Portanto, não podemos só pensar em beber água quando chegamos aos 65 anos. Devemos começar a pensar logo mais cedo, logo desde que nascemos. Uma alimentação saudável e não esquecer incluir na alimentação a água, praticar atividade física e não esquecer beber água, porque vamos perder mais água, manter a mente ativa, e a água é muito importante para o cérebro, preservar a saúde mental, reduzir o estresse, a socialização.
Sim.
Mas se calhar em vez do álcool Pode ser a água, não é?
Sim, a água e arranjar um animal de estimação é muito importante para a socialização.
Também temos de hidratar.
É verdade, também temos de hidratar o cão.
Evitar o tabaco é fundamental. Dormir bem. E já agora, às vezes as pessoas mais velhas não dormem bem porque têm de acordar a meio da noite para ir urinar. Se calhar aqui uma dica é incentivá-las a beber água, por exemplo, até às 16 ou 17 horas. Vigiar a saúde dos olhos é também fundamental para nós envelhecermos bem e o estado de hidratação é fundamental. Se ficarmos com os olhos secos é muito desconfortável.
E nesse caso usar soro fisiológico, por exemplo.
Por exemplo, sim. Preservar a audição, eu penso que é outra dica para o envelhecimento saudável.
Não ouvir músicas aos berros.
Tal e qual. E evitar a exposição ao ruído, e muitas vezes há o ruído profissional, e usar proteções. E por fim, eu diria que prevenir de doenças infecciosas é também outra dica para o envelhecimento ativo e saudável. Sempre que houver vacinas, aderir à vacinação, mas se tivermos as infeções, não esquecer que vamos perder mais água e, portanto, temos de beber mais água.
E ir ao médico.
Sim, controlar as doenças, claro.
Muito obrigada, doutora Sofia. Foi um gosto tê-la aqui à conversa connosco.
Obrigada.
Foi um prazer. Este foi mais um episódio do podcast "Claro como Água" da iniciativa Vimeiro Explica, em parceria com o Observador. Se quiser saber mais, consulte o site observador.pt, onde encontrará todos os episódios deste podcast. Este episódio foi dedicado à terceira idade, às necessidades hídricas na terceira idade. Termina agora com a nossa já habitual curiosidade: a desidratação e a natural perda de água corporal ao longo da vida afeta a elasticidade da pele, assim como a doutora Sofia já nos disse, razão pela qual fica menos elástica e mais propensa a rugas e flacidez. Também é preciso pensar nisto, não é, doutora?
Sim, acho que sim. A aparência também é uma coisa muito importante.
Sim, porque também afeta o nosso estado emocional.
Claro, o bem-estar das pessoas.
Até ao próximo episódio e lembre-se, beba muita água. Muito obrigada, doutora Sofia.
Obrigada.