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Seja bem-vindo a mais uma edição do podcast "Claro como Água", o podcast da iniciativa Vimero Explica, em parceria com o Observador. Hoje vamos falar sobre o sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas, da inicial SDR, com Leonardo Matias, presidente do Conselho de Administração da SDR Portugal. Muito bom dia.
Olá, bom dia.
Bom dia, boa tarde, dependendo da hora que estão a ouvir isto. Olá, Leonardo. Antes de mais, para quem ainda não conhece, o que é este sistema de depósito e reembolso? Quais são os principais objetivos que levaram a que Portugal implementasse este sistema?
O sistema de depósito e reembolso é um sistema de recolha de embalagens de bebidas de uso único, até três litros, que permitirá ao cidadão consumidor, de uma forma acessível, simples, intuitiva, devolver as suas garrafas e latas de alumínio, contribuindo para aumentar as taxas de reciclagem em Portugal e, naturalmente, melhorando o ambiente. Portanto, todos nós, quando compramos bebidas com embalagens de uso único até três litros, vamos pagar um valor de depósito, que será reembolsável na íntegra quando a devolvermos. Portanto, a própria definição está subjacente. Ou seja, sistema de depósito, nós pagamos, vamos assumir que temos uma garrafa que custa €1, pagamos €1, neste caso, achamos que o valor do depósito será volta de €0,10, pagamos €1,10.
Já incluído no preço, não é?
Já está incluído no preço, não negociável. E quando entregarmos a garrafa, receberemos esses €0,10. Portanto, ao devolver uma ou mais embalagens de uso único nos pontos de recolha, que estarão disponíveis por todo o país, essas embalagens depois são levadas para centros de contagem e triagem e posteriormente transformadas naquilo que se chama matérias-primas secundárias ou rPET, que serão utilizadas na produção de novas embalagens, que depois também vão estar disponíveis como novo produto para ser consumido. Portanto, na prática, o SDR permitirá que o cidadão consumidor, com facilidade e transparência, recupere imediatamente a quantia que pagou no ato da compra do produto e, simultaneamente, também contribua de uma forma ativa e responsável naquilo que é um esforço nacional de recolher, reciclar mais e melhor, contribuindo para que os objetivos do sistema de depósito e reembolso, que são objetivos de todos nós de Portugal, de aumentar as taxas de reciclagem e com elas melhorar o ambiente, reduzindo inevitavelmente os impactos negativos que são produzidos anualmente pelas embalagens, como é o caso do littering, e promover um futuro mais sustentável.
E muda aqui também um pouquinho a perspectiva sobre o plástico, não é? Passa a ser visto como matéria-prima, em vez de desperdício.
Exatamente. Nós estamos a falar que em Portugal, por ano, as embalagens que vão ser abrangidas são entre 2.1 a 2.5 mil milhões de garrafas. Só em PET é perto de 1.5 mil milhões de garrafas e, portanto, esse PET, como vai ser recolhido, triado e depois reciclado, como o PET é recolhido com uma enorme qualidade em termos de consumo, vai ser facilmente reciclado, criando a inevitável economia circular. E aquilo que muitos especialistas chamam o plástico infinito, ou seja, não vai ser preciso produzir mais plástico na medida em que o plástico existente vai fornecer o plástico futuro.
E em que fase se encontra então esta implementação? Porque ainda não vemos por aí essas máquinas.
Não, ainda não. O decreto de lei que define o sistema que teremos em Portugal foi aprovado no início deste ano, e o SDR Portugal recebeu a sua licença para gerir o sistema nacional no passado mês de junho. E o que está estipulado na lei é que o sistema tem que estar operacional dia 1 de janeiro de 2026.
Muito bem. Que para mim parece que ainda falta um bocadinho, mas sei que para si, Leonardo Matias, que está envolvido nisto desde o início, não é assim tão pouco tempo.
Não, não é pouco tempo.
Muda aqui totalmente o sistema.
Muda o sistema e a infraestrutura de montagem é bastante complexa. Como lhe disse, estamos a falar em perto de 2.1 a 2.5 mil milhões de unidades no país, cobertura universal, 10 milhões de habitantes, mais os 17 milhões, julgo eu, de turistas. Portanto, vamos ter que ter uma infraestrutura bastante pesada. Estamos a falar em que vamos ter máquinas de recolha, essencialmente no retalho, perto de 2700 máquinas no retalho. O próprio sistema SDR propõe-se a ter também máquinas próprias, em conjunto, muitas vezes, com outras entidades, diria aeroportos, estações de comboio, passes do conselho, onde for, eventos culturais. Agora que estamos na época do verão, julgo que tudo o que for a temporada dos concertos, etc.
Festivais.
Festivais, etc. Vamos ter isso.
Nas praias.
E depois de instaladas essas máquinas, vamos ter também os chamados block centers, onde agregamos a esmagadora maioria, e ter centros de contagem, que serão, em princípio, no Norte, Lisboa e Algarve. Portanto, isto requer não só investimentos, como planeamento, as máquinas vão ter que ter software próprio. É uma operação bastante complexa e julgamos que dia 1 de janeiro é um prazo bastante agressivo, mas vamos fazer os possíveis para poder lá chegar. Repare, o desafio dos sistemas de depósito e reembolso varia um bocadinho de país para país.
Porque isto já existe nalguns países.
Já existe. Já existe em variadíssimos países, inclusivamente na Europa. Neste momento, já existem 14 sistemas instalados na Europa, 10 que já estão em aprovação e oito países que também estão a pensar que tipo de modelo é que vão surgir. Mas o tema aqui relevante é que, eu estava a dizer, o desafio depende de país para país. Na Noruega, o enorme desafio é a geografia Qual é o desafio em Portugal, no sul da Europa, Portugal, Espanha e inevitavelmente Itália? São as lojas tradicionais e o chamado canal HoReCa, ou seja, tudo o que é hotelaria, pequeno comércio e cafés. E esse é um enorme desafio para nós, porque as contas que nós temos é que achamos que haverá cerca de perto de 80 mil pontos de recolha no canal HoReCa, e mais 12 mil das chamadas lojas tradicionais. E, portanto, este desafio é bastante intenso, e estamos a pensar quais as melhores estratégias para o seguir, os conceitos da logística inversa, ou seja, leva-se garrafas, traz-se garrafas, mas desta vez, quando se traz as garrafas, tem que se ter a noção que se traz um valor, não se traz ar. Se forem R$ 0,10 por garrafa, imagine, se leva 1000, 2000, 3000, 10.000 garrafas, o valor fiduciário que aí tem também.
E isto quer dizer que uma pessoa consumindo ou comprando uma garrafa no Algarve e quiser devolvê-la no Porto, pode fazê-lo. É universal, acho eu.
Exatamente. É o conceito universal de podermos, em qualquer parte do país e em qualquer rede, a estrutura acionista do sistema de depósito e reembolso é composta por duas associações, a Associação SDR Retalhistas, que compõe a esmagadora maioria do mercado retalho em Portugal e no Conselho de Administração estão presentes cinco grandes retalhistas, a Sonae, model Continente, o Pingo Doce, o Auchan, Intermarché e o Lidl, e associados também está a Mercadona, Macro, Dia.
Há aqui um esforço conjunto.
Essa é uma das partes. Exatamente. E também da outra parte, os produtores, ou seja, a Coca-Cola, Unilever, a Central de Cervejas, o Grupo Super Bock, a Smoll Compal e agregados a esses também, todos os associados, desde as águas do Vimeiro, às águas do Fastio, a variadíssimas entidades que estão ligadas. Portanto, o sistema reuniu-se todo para, em conjunto, poder fazer este esforço.
E como é que surgiu este sistema? Qual foi a necessidade sentida? Claro que os objetivos, já aqui percebemos um pouco, mas vamos a eles também.
Sim, quando a ideia do SDR surgiu em Portugal, o sistema de depósito e reembolso já era uma realidade com resultados muito positivos noutras geografias da Europa. E o que os acionistas atuais do SDR sentiram nessa altura foi a oportunidade de, em condições ímpares, participarem na solução que melhor serviria ao país. Portanto, por uma vez no nosso país, tivemos toda a indústria e o retalho a juntarem-se, a dizer: vamos contribuir para este objetivo, que é um objetivo, repito, nacional. E falamos, como disse, da esmagadora maioria das empresas da indústria e do retalho, e que no seu dia a dia trabalham com estas embalagens e diretamente com o consumidor. São empresas que são responsáveis e que assumiram como compromisso, nas suas estratégias de sustentabilidade e no âmbito daquilo que é, no jargão jurídico, a responsabilidade alargada do produtor, criar um sistema eficiente e eficaz e que fosse reflexo da responsabilidade ambiental que todas estas empresas preconizam. E, portanto, estes são agentes que melhores condições reúnem para desenvolver a solução que trará os resultados que o país precisa. Possuem conhecimento, os recursos técnicos, a capacidade de desenvolver, acrescentando este aspecto, que é chave, é estarem muito próximos do consumidor cidadão e, portanto, terem a possibilidade de utilizar os seus recursos próprios para sensibilizar, informar e formar, no sentido de promover uma mudança de comportamentos que vai ser necessária.
E vai dar vontade, por exemplo, se virmos uma garrafa na rua, pegar logo nela. Às vezes as pessoas ignoram. Se calhar, também vai mudar esse comportamento cívico, das pessoas deixarem de deitar lixo ao chão.
Absolutamente.
De não reciclar, que já não é plausível, muito menos com esse sistema, até existe uma benesse.
Imagine que tem uma moeda de R$ 0,10 no chão, vai passar por ela ou não?
Exatamente.
Eu acho que não vai passar por ela, vai tentar recolhê-la, não é?
E já aqui falamos um bocadinho sobre o impacto dos SDRs noutros países europeus, e nós estivemos aqui a falar em off, que existe precisamente um episódio do Seinfeld, em que o Kramer e o Newman, o carteiro, se encontram para juntos recolher o máximo de garrafas possíveis para depois, de facto, receberem esse dinheiro. E é muito engraçado esse episódio, vale a pena ver.
Eu julgo que, aliás, nalguns dos concertos de verão, já há umas políticas dessa natureza e muitas vezes são pessoas das aldeias que estão e não necessariamente as pessoas que vão aos concertos. Portanto, sem dúvida, essa motivação vai existir.
E a montagem e gestão de um SDR implica seguramente um investimento elevado, claro, então já aqui falou até da tecnologia e do software que será também diferenciado para o nosso país. E como é que isto será pago? Que impacto poderá ter nas embalagens, isto é, no produto?
Certo. Se me permitisse, eu só queria dizer, como há bocadinho falámos, noutros países, os números não mentem. E, portanto, no exemplo da Letônia, que instalou o sistema há dois anos, já atingiu uma taxa de retorno de 80%.
Uau!
Ou o caso do sistema irlandês, instalado em fevereiro deste ano, que em oito meses já recolheu 400 milhões de embalagens. E a nossa ambição é grande. Repare, o número de embalagens de bebidas dos Unico que são recolhidas atualmente, anda perto dos 30%, 30, 35. O nosso objetivo é chegarmos a 90. E, portanto, nós entendemos, com os recursos que temos, que vai ser possível, mas vai ser uma grande mudança para Portugal nos objetivos ambientais também. Aí que dizemos que o objetivo é um objetivo nacional, não é de A ou de B. Há a responsabilidade alargada do produtor É o que está previsto na lei, mas independentemente de tudo, fica mal a Portugal só fazer uma recolha de cerca de 36%, submetê-las a aterros.
Não fazia ideia que era tão baixa essa porcentagem.
E temos que passar pra 90. E aliás, está previsto na lei. É um objetivo ambicioso, mas é um objetivo que nós vamos disponibilizar toda a infraestrutura. Vamos fazer todas as campanhas.
Isto vai funcionar, não tem como.
E depois temos que ser nós, não é? Nós os dois, você e eu.
A divulgar.
Por um lado, a divulgar, mas depois também o nosso comportamento.
Claro.
Que vai ser intuitivamente levado pelo depósito que nós fizemos e queremos ser incentivados.
Há esta motivação extra.
Exatamente. O montante de investimento que nós prevemos, e repare, o que eu falei foi essencialmente na compra das máquinas. As máquinas têm um palavrão que chama reverse vending machines, são máquinas de venda inversa.
Pensava que era reversível.
Inversa.
Inversa, sim.
E tem um custo bastante grande. Os centros de balcão onde vamos juntar, como disse, das várias unidades de retalho onde estiverem as máquinas instaladas, os centros de contagem, e isto tudo tem que ter um sistema de informação. Tem que estar extremamente protegido, na medida em que nós temos que divulgar ao governo e depois às autoridades europeias, o que é que recolhemos, quando, onde e por quê.
Todos os valores, por aí fora.
Exatamente.
Está aqui também uma política de transparência.
Por um lado, transparência e depois de cuidado, na medida em que a entidade A não pode saber quanto é que a entidade B recolheu e vice-versa, nem aonde. E isso é muito importante. Temos que ter um sistema de altíssima segurança.
E universal também.
E universal, o que é comum, repare, já há sistemas alternativos. Nós em Portugal temos o SIBS, por exemplo, e os multibancos, a rede multibanco, todos os bancos participam, e dão a facilidade e agilidade ao consumidor. Isto é mais ou menos equivalente ou analógico, na medida em que todas as entidades vão participar, o cidadão tem essa comodidade e essa transparência, mas a gestão e o tratamento da informação vai ter que ser muito cuidado.
Estava aqui a pensar que vai dar jeito ter uma boa bagageira vazia. É um incentivo pra limparmos a nossa bagageira do carro.
Esse é o enorme desafio do canal Horeca e dos centros comerciais. Portanto, a maior parte dos pequenos restaurantes portugueses não têm espaço de armazém. Portanto, como é que vão? Vão recolher, não vão recolher. E os centros comerciais, cujo centímetro quadrado é talvez o mais valorizado em Portugal, onde é que eles vão pôr? E portanto, nós assinamos protocolos com a AHRESP, por um lado, e assinamos também protocolos com a Associação dos Centros Comerciais, para estudarmos em conjunto aquilo que pode ser a melhor solução para todos.
Exatamente. Para este transporte, lá está.
Recolha, transporte.
Recolha, transporte, exatamente.
E pagamento.
E pagamento, sim.
Porque também quando os restaurantes começarem a perceber, e os hotéis começarem a perceber, que têm mil, dois mil, cinco mil euros lá atrás, faz sentido, não é?
Sim.
Mas para lhe dizer, voltando à sua pergunta.
Não vão procrastinar tanto. Ninguém vai procrastinar tanto.
Eu acho que não.
Sem dúvida.
Mas nós prevemos, neste momento, um investimento cerca de 100 milhões de euros, que será suportado pelos acionistas, naturalmente. Acho que o que nós prevemos é que motivará uma criação de empregos, entre empregos diretos e indiretos, cerca de 1500 empregos, e vai promover o desenvolvimento da economia nacional em várias áreas. Eu, por exemplo, não vejo por que não pode haver uma indústria portuguesa, uma empresa portuguesa que faça estas máquinas de venda inversa. O software vai ser desenvolvido por várias entidades, também provavelmente portuguesas envolvidas, e vai haver o transporte, etc.
Vai ser aqui uma grande revolução. Nós estamos mesmo já a terminar. Não queria terminar sem antes perguntar-lhe: por que existe o mito urbano de que não vale a pena reciclar, que depois mistura-se tudo. Mas claro que não é assim, certo? Pelo que me descreveu, isto seguramente não irá acontecer com os SDR.
Não, com certeza que não. Aliás, porque este é um sistema complementar aos outros sistemas e, portanto, os nossos, chamemos de resíduos, que cada vez mais chamamos recursos, os nossos resíduos vão ser geridos paralelamente a todos os outros sistemas. Portanto, nenhuma das garrafas até três litros ou das latas de alumínio e aço vão ser misturadas com o que quer que seja. Naturalmente, daí que nós temos os nossos box centers, onde agregamos, e temos os nossos centros de contagem. E portanto, há estudos, inclusivamente, dizem que por 100 garrafas virgens produzidas, um sistema de devolução a depósitos com a taxa que eu lhe falava dos 90%, permite produzir um total de 208 garrafas. Portanto, está a ver o importante que isto é. E, por outro lado, se pensarmos na melhoria da qualidade do material recolhido, como é limpo e é de segurança alimentar, vai ser utilizado na produção de novos produtos, através do SDR, e também permite evitar uma emissão anual, os cálculos que nós temos feitos pelo técnico, de 109 mil toneladas de CO₂ equivalentes, e mais uma razão para nós percebermos a importância de separar estas garrafas e de as colocar no lugar certo.
E obrigada por esta iniciativa, que eu acho que vai revolucionar.
É nossa, é de todos nós.
É nossa, é de todos, exatamente, e é um esforço de todos.
Eu é que lhe agradeço.
Muito obrigada, Leonardo Matias. Foi um gosto recebê-lo aqui na Rádio Observador para nos falar então deste sistema de depósito e reembolso de embalagens de plástico, ou SDR, e também promover esta consciencialização sobre o uso de plásticos no nosso cotidiano. Muito obrigada. E ao invés da habitual curiosidade, deixo-vos com um facto muito importante. Estima-se que até 2040, entre 23 e 37 milhões de toneladas de plástico poderão ser escoados para o oceano todos os anos, segundo dados das Nações Unidas. E lá está, todo este sistema faz cada vez mais sentido e ainda bem que ele vai existir. Será já dia 1 de janeiro de 2026. Vamos fazer figas para que tudo corra bem. Este foi mais um episódio de "Claro como Água" que, já sabe, está disponível em observador.pt e também nas plataformas digitais. Se quiser saber mais sobre os benefícios do consumo de água mineral, consulte a página "Vimeiro Explica" em aguadovimeiro.pt, e até ao próximo episódio.