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E na comissão de inquérito de hoje, the one and only António Sala. Bom dia, António.
Olá, bom dia.
Bom dia.
Bom dia.
Saudades. Que bom deve ser para os nossos ouvintes ouvirem esta voz.
Muito obrigado. É um prazer estar aqui.
O prazer é nosso.
Eu já tenho dito isso mais que uma vez, está testemunhado de forma escrita em revistas, em jornais e em entrevistas que eu tenho dado, em que me perguntam eu, enquanto homem da rádio, nesta altura, qual é a rádio com que eu mais me identifico. E eu digo sempre: é a Rádio Observador.
Muito obrigado.
Sinceramente, e não estou a dizer isso por estar aqui. Não fiquem a pensar que se eu for convidado de uma concorrente, sei lá, digo a mesma coisa. Não digo.
Não diz o mesmo de todos.
Mas olha, depois de hoje não vai ser convidado para ir para mais nenhuma rádio.
Não, vou ser convidado para eles dizerem: "Mas justifique lá, por quê? Nós somos melhores. Não, explique". E eu explicaria por várias razões. E uma das razões é isso. Esta é uma rádio fundamentalmente de palavra, de programas de autor, de abordagem política feita de uma maneira muito inteligente. Vocês têm colaboradores excelentes e é uma rádio que não está formatada demasiado daquela maneira tão rígida em que, como eu ainda há pouco tempo ouvi, numa conversa muito interessante na concorrência. Eu ia de carro e ia fazer zapping, e a determinada altura, uma conversa com ouvintes. E estava aí um ouvinte que falou da Amália e da sua experiência com ela. Que a encontrou uma vez na rua, que foi ter com ela e que lhe falou simpaticamente e que depois disse encontrar várias vezes. E uma das vezes, ele já não queria ser chato e a Amália que vai ter com ele e dizer: "Então, hoje não me fala?" E foi uma conversa giríssima. E quando aquilo acaba, o nosso colega que estava a fazer o programa diz: "Conversa interessante esta história da Amália, fantástica, não sei o quê. Vamos continuar e nunca mais vos esqueci. Aqui estão os U2." Ora bem, e eu disse: que raio de rádio é esta em que a playlist obriga-me a seguir a tocar? Evidentemente, que eu acho que aqui, ou eu, ou na Rádio Observadora, que se fazia imediatamente, a seguir não iam os U2, viriam depois.
Não podia ser.
E ali o que teria de se fazer é procurar imediatamente e entrar uma cantiga da Amália.
Evidentemente, era o que estava a pedir.
Isto até nos permite continuar a conversa já com a primeira pergunta, porque temos também que avançar.
Deixem-me só dizer que eu a nível de concursos, fiz concurso que nunca mais acabava.
Nós sabemos.
Mas o problema é este, é que as poucas vezes em que fui convidado para entrar em concursos, fiz papel de parvo completamente.
Não vai fazer aqui hoje.
Não?
Não, não vai fazer.
A ver vamos.
Vamos lá.
Primeira pergunta: como se chamava o programa de rádio que ficou famoso pela expressão: posso dizer a frase?
Eu acho que metia um telefone.
Metia.
Acho que o telefone tocava, tinha de se dizer a frase, depois pedia-se o disco e depois dedicava-se a alguém. Era o Quando o Telefone Toca.
Era o Quando o Telefone Toca.
Feito pelo célebre Matos Maia.
É verdade. Não é para elogiar a rádio onde aqui está, mas era para ouvir a opinião do António Sala sobre a rádio de hoje em dia. Já está meio respondido, está muito formatada, é isso, mas está a reinventar-se, não é?
Está a reinventar-se. Uma comparação entre a rádio hoje em dia. Então, de um ponto de vista tecnológico, não há comparação.
Sim, não tem nada a ver.
Mas é uma rádio que, salvo raras exceções, e vocês são uma dessas exceções, é uma rádio que está demasiado formatada.
Quando dizes demasiado formatada, é o quê?
É o tempo de liberdade, é o tempo da pessoa poder improvisar, é o tempo de uma pessoa se enganar. É uma rádio que quer ser demasiado perfeita em tudo. Hoje em dia, nós tecnicamente, tecnologicamente, conseguimos quase que a perfeição. E então agora com a inteligência artificial, eu se não falasse na inteligência artificial, já não estava cá. Mas é uma rádio que necessita, acima de tudo, de uma coisa que é essencial e que é a sua mais-valia, que é a comunicação, que é a voz. Não é os olhos nos olhos, mas é a voz nos ouvidos. E isso é importantíssimo.
Mas hoje em dia, muitos radialistas, se lhe podemos chamar assim, vivem muito também das redes sociais. A rádio passou a ter imagem, isso desvirtua ou é outra potencialidade?
Pode ser outra potencialidade. Desvirtua só uma coisa que eu acho que era a magia que a rádio tinha antigamente, que era: quem será o dono desta voz?
Exatamente.
Como é que será a dona desta voz? E depois tinha aquele tipo de magia, que era muito engraçado, que era quando nós telefonávamos para uma determinada empresa, por razões profissionais, e atendia-nos sempre uma senhora que tinha uma voz deliciosa. E nós conjeturávamos: ela deve ser alta assim, morena ou loira, deve ter forma. Ai, que voz! E um dia íamos à empresa e até fazíamos questão de vamos conhecer a senhora. E a senhora não era propriamente bem aquilo que nós tínhamos idealizado. E a rádio vivia muito isso. Eu recordo-me, no princípio, quando comecei a fazer o programa com a Olga, o Despertar, e já lá vão décadas. O interesse dos meus colegas a perguntar: "Epá, a tipa tem uma voz fantástica. A tipa é gira, é boa. Como é que ela é? Epá, mas é nova?" E quando eu comecei a trabalhar com ela, ela já não era propriamente uma menina, já era uma senhora adulta, pujante e cheia de força e cheia de vitalidade. Mas hoje em dia, não. Temos aqui as câmaras que desmascaram isso. Desculpe, só. Até nos podíamos dar ao luxo de estar a entrevistar alguém e eu dizer: "Tenho aqui esta senhora lindíssima", e ela podia ser feia como uma bota de tropa. Hoje em dia, não posso fazer isso.
Fez isso, António Sala?
Não cheguei a fazer.
Mas adorou a pílula
Às vezes adorei a pílula fui magnânimo nas coisas, fui bondoso, penso eu.
O António Sala, entretanto, tornou-se também uma figura conhecida, os portugueses conhecem a sua cara, mas acontece-lhe ainda, muitas vezes, reconhecerem-no pela voz?
Sim. Por acaso é engraçado, há bocado entrei nos estúdios e uma das vossas colegas simpaticamente veio me acompanhar até aqui. Mas eu vinha da rua com sol e trazia óculos escuros. E ela só quando chegou aqui e eu disse: "Epá, está escuro. E troquei de óculos e pus os óculos normais, sem ser os do sol". Ela é que disse: "Sou eu que eu vi que..." E também pela voz. Eu gosto muito do reconhecimento, mais que facial, pela sonoridade, pela voz. Isso é comum e eu fico muito feliz, porque às vezes entro num café, peço um café ou uma coisa qualquer e alguém que se volta e diz: "Ah, reconheci-o pela voz". As pessoas também, durante um tempo, eu usei bigode toda a vida. Tive sempre um bigode mais ou menos farfalhudo e a partir de uma certa altura tive de fazer uma brincadeira em televisão em que imitei o José Cid, impus o cabelinho dele, os óculos Ray-Ban, e fui para o piano e toquei e cantei a canção que levou ao Festival da Eurovisão. E a produção disse: "António, há uma coisa que tens de fazer, tens de tirar o bigode, que o José Cid nunca usou bigode na vida". Vou me separar, mas depois foi giro, porque primeiro custou-me, mas depois começam aquelas coisas que é as minhas amigas disseram: "Olha que tu ficas mais novo para uns cinco anos".
E lá saiu o bigode.
Na minha idade, nem que fossem cinco meses ou cinco dias. Nunca mais foi, nunca mais voltou.
António Sala, vamos à segunda pergunta, que tem um pouco que ver com aquilo que estava a falar agora a propósito do José Cid. Em 1979, Israel ganhou o Festival da Eurovisão com a canção "Hallelujah", de que depois fez uma versão com o grupo Maranata. Quem é que representou Portugal no Eurofestival nesse ano de 79?
Uma boa pergunta.
Foi ou tem?
Foi ou tem, pois foi. Em 79, em 79. Vês doce?
Vou lhe dar três hipóteses.
Três hipóteses.
O Gemini, José Cid ou Manuela Bravo.
Então foi Manuela Bravo.
Manuela Bravo.
Uau!
António, sete pontos. O António Sala tem uma história com o Festival RTP da Canção, participou como concorrente e também apresentou o festival.
Mais do que uma vez.
Mais do que uma vez, nos anos 90. Como é que viu toda esta polêmica este ano a propósito dos boicotes em relação à participação de Israel? Portugal fez bem em participar?
Vamos lá ver. Eu acho que em tudo, em todas as intervenções e a música, tudo que nós fazemos, mas mesmo uma música, a música é uma arma no sentido do combate de diversas coisas, contra injustiças, contra determinado tipo de situações. Não sou apologista do boicote, mas sou apologista daquilo que muitos países fizeram e que participaram, em que reclamaram vivamente e acharam que houve o protesto, e eu vou chamar de atenção muito forte para isso. Agora, eu sou franco, tenho muita dificuldade sempre na exclusão das coisas em relação à arte. E se eu considerar a música uma arte, porque o é, mesmo na música ligeira. Não devemos fazer. Estamos a viver uma guerra já há mais de quatro anos, já ultrapassou até o tempo que foi a Segunda Guerra Mundial, que é a guerra na Ucrânia, e eu tenho sentido que tem havido concertos, grandes pianistas, exposições a grandes escultores e grandes pintores russos, exatamente por esta situação.
Mas a Rússia, por exemplo, foi excluída do Festival da Eurovisão.
Foi, mas eu não sei até que ponto. Não sou muito apologista deste tipo de coisas. Sou franco. Acho que se deve reclamar, que se deve aproveitar sempre essa oportunidade, até para chamar mais a atenção. Mas atenção, a arte em si não tem a ver com isso.
Portanto, considera que Portugal fez bem em participar?
Acho que Portugal fez bem participar, mas de qualquer maneira, as vozes que se levantaram, os artistas que se movimentaram no sentido de dizer que não concordavam e que achavam que Portugal não deveria estar presente, eles também fizeram bem. E a liberdade é tudo isso.
E, portanto, também deveria ser alargado essa tolerância para com os desportistas russos, por exemplo, também.
Acho que sim.
Deviam ser integrados.
Acho que sim. Acho que no desporto, nas artes e nessas coisas, a não ser que eles sejam apenas... Claro que esses regimes e esses países vão fazer sempre um aproveitamento disso, no sentido até de tentar branquear um bocadinho as suas posições que são muito negras. Mas por isso é que existe imprensa livre, por isso é que a nossa diferença enquanto países democráticos em relação a essas ditaduras e esses regimes musculados, a diferença vê-se e faz-se e pratica-se dessa maneira. Vamos lá ver. Há escritores que tiveram vidas malditas. Eu não vou deixar de ler esses escritores. Se me perguntarem enquanto escritor, o que eu acho notável? Como homem, abjeto.
E mesmo assim, a obra e o autor são distintos.
São distintos, têm que ser distintos. Isso passa-se muito, por exemplo, Wagner. Wagner é nitidamente, e até politicamente e tudo, as suas posições. Depois o aproveitamento que o regime nazi e que o Hitler fez, nomeadamente de Wagner, tornou autenticamente num compositor maldito. E há pessoas e países que excluem completamente as obras de Wagner. Sinceramente, acho isso igualmente criminoso.
Muito bem.
Uma coisa é falar-se dele e dizer o que ele era, outra coisa é ouvir-se a música e ele era perfeitamente notável.
Vamos continuar a falar.
Eu considero que vamos chamar reacionário.
Não, vou nada.
É o que eu penso.
Vamos continuar nos limites do pensamento. Vai perceber porquê na próxima pergunta. Quem disse a frase: "Um dia sem rir é um dia perdido"?
É que eu conheço a frase, mas não me recordo de quem é o autor.
Posso ajudar.
Pode.
Charlie Chaplin, Herman José ou Ajuricaba, líder da tribo Manaó na Amazônia?
Eu inclino para as duas primeiras e das duas primeiras eu diria que, estou a olhar ali para fora da aquário, querendo ver se alguém me dá uma ajuda, ninguém me dá ajuda nenhuma, riem-se.
Então vá, Charlie Chaplin ou Herman José?
Eu acho que é Charlie Chaplin.
Está certo, muito bem.
Mais dois pontos.
Mais dois pontos. Já tem nove pontos.
Isso é bom ou mau?
É bom, vai bem lançado. O António Sala editou em 1984 um livro chamado "As Anecdotas de Sala". Ainda se contam anedotas, António Sala?
Contam-se de forma diferente. Hoje em dia, quem diz: "Eu vou contar uma anedota", parte para uma anedota, olha-se para ele e acha-se que é um dinossauro, uma coisa muito pré-histórica.
E já não se pode contar anedotas de loiras, por exemplo, ou pode? Ainda se pode?
Acho que se pode contar anedotas de tudo.
Pode.
Claro que sim. Então vamos lá ver.
Há uma loira fora do estúdio a rir.
Há mais de uma, penso eu.
E a loira diz que sim, que é possível contar essa anedota.
Por acaso é engraçado, antes de entrar eu estive a vos mostrar uma cena televisiva do passado, em que eu era o apresentador e o concorrente era um rapaz e moreno, em que nós chegamos à conclusão de que ele fez papel de loira burra. Mas a pergunta em si era o quê exatamente?
Se ainda se podem contar anedotas de loiras.
Eu acho que se pode contar tudo. Acho que a fronteira é o bom senso. Mas não há limites, nem há limitações. Eu quando contava anedotas nos meus espetáculos e nas apresentações, se me apetecia contar uma anedota em que metia um padre, eu porque via que na primeira fila estava um monsenhor, ou estava o senhor cardeal patriarca de Lisboa na altura, ou alguém, eu não deixava de a contar, não fazia essa autocensura. Agora, evidentemente que depois, vamos lá ver. Era uma anedota em que eu iria ridicularizar o clero? Aí eu pensaria duas vezes. Não é autocensura, mas é um bocado bom senso. E eu evitava então determinado tipo de coisas, mas sempre nessa perspectiva de uma liberdade que sou eu que estabeleço para não invadir a liberdade dos outros. Mas pode, claro que sim, porque há loiras inteligentíssimas que eu conheço, há loiras burras e há homens que são muito burros e muito inteligentes também.
Muito bem. Onde é que fica a fronteira entre o que pode ser dito e o que não deve ser dito, António Sala? Há quem diga que são, por exemplo, as características físicas de determinadas pessoas, aquelas às quais as pessoas não podem fugir.
Vamos lá ver. Se a condição física da pessoa tem a ver com uma limitação muito grande dela de locomoção, ou porque lhe falta um membro, ou vários membros inferiores ou superiores, eu acho que é de todo evitável e não se deve fazer isso.
A doença.
Agora, desculpem-me lá, eu posso contar anedotas de carecas, posso contar de gordos, porque eu também estou nesta altura, estou aqui em carne e osso, mas um bocado mais em carne que em osso nesta altura. Portanto, em tudo tem de haver o tal bom senso, mas eu acho que não há limites para as coisas. E quando esses limites são ultrapassados, felizmente, onde vivemos, no país em que vivemos e socialmente como somos e politicamente como somos, existe a crítica. E assim como uma pessoa porque procede muito bem e é fantástica, é aplaudida e sobe no conceito, em termos de grande público, a pessoa que tropeça demasiadas vezes em coisas disparatadas, sem nexo e por vezes maldosas mesmo, também sofre com isso e as suas carreiras modificam-se muito para pior.
Vamos para a quarta pergunta: em que igreja está instalado o Panteão Nacional?
Estou a fazer o percurso, estou a descer, estou a ir para o lado. É uma boa pergunta. Fantástico.
É uma igreja muito conhecida.
Está na Graça, vem por aí abaixo.
Nossa Senhora do Monte? Não. Dê-me lá.
Vamos dar mais a dizer. A Igreja de Santa Engrácia, a Igreja de São Roque ou a Igreja de São Domingos.
São Domingos não é. É capaz de ser Santa Engrácia.
E é mesmo.
É mesmo.
Conhecia-la pelas obras.
E a pergunta tem aqui uma insinuação. E o seu museu da rádio, quando é que avança?
Ele está a avançar, mas de uma forma muito lenta. Sabe, a melhor explicação para durar tantos anos a sua feitura e chegar à sua conclusão, a mim, magoa-me. E eu nunca consegui perceber isso, porque toda a vida trabalhei praticamente no setor privado. E no setor privado, prazos são prazos, podem falhar, podem atrasar, mas há uma mecânica que é económica, fundamentalmente, e que faz com que as coisas andem de uma maneira diferente do que andam no setor público, onde a burocracia é imensa. Umas semanas atrás, eu perguntava e estava a dizer a alguém que está comigo nesse projeto e que pertence e está ligado diretamente à Câmara de Cascais.
À Câmara de Cascais. A ideia é o museu ficar instalado na parede, nas antigas instalações do Rádio Clube.
Não, já não é nessa.
Já mudou?
Por isso mesmo é que é na parede. É numa zona central nobre daquela vila, exatamente junto à paragem da estação dos comboios da linha de Cascais, da linha do Estoril. Voltando um bocadinho atrás, a resposta que me deram foiA burocracia em Portugal e as coisas públicas são lentas e nos museus ainda são mais, porque os museus caminham e andam a uma velocidade diferente do tempo em que vivemos. É um bocado poético como explicação, mas não tive argumentos para contrariar.
Então não há um prazo ainda para vermos?
Eu penso que no final deste ano, eu acredito mais que no princípio do próximo ano, no primeiro trimestre do próximo ano, possamos já dizer e vamos abrir e inaugurar com pompa e circunstância, porque merece, mas por ser o meu museu. Ele tem o meu nome, mas acima de tudo, ele conta a história da comunicação e a história da rádio desde os seus primórdios, não apenas em Portugal, mas no mundo. Está projetado muito para as novas gerações. De que forma? Vamos ter, logicamente, desde o início das primeiras emissões e tentativas de comunicação rádio e objetos que vêm até os nossos dias, mas vai estar muito virado para que os jovens possam meter a mão na massa com estúdios que lá estão presentes, com formas digitais de poder exercer. E acima de tudo, o que eu quero é tentar com as escolas, que nessas visitas alguns dos jovens possam sentir-se tocados e até influenciados para uma profissão que se calhar nunca tinham pensado na vida.
Trabalhar na rádio, não é? Muito bem. Também fez televisão, o António Sala. Em que ano foi para o ar o concurso Palavra Puxa Palavra?
Foi nos inícios dos anos 90. Agora a minha dúvida, isto em casa de ferreiro, espeto de pau.
Foi inícios, inícios.
Foi inícios, inícios. Ou 90 ou 91.
Escolha um.
Não me dão ajuda.
É para ter o challenge.
Se calhar, não sei, eu vou arriscar. 90?
Acertou. 90.
Também se eu falhasse uma coisa minha, era uma vergonha.
Não era nada. Apresentou o Palavra Puxa Palavra, depois o Você Decide em 1995.
E o Um, Dois, Três.
E o Um, Dois, Três, exatamente.
O Casa Cheia, chegou a apresentar o Casa Cheia ou não?
Não, nunca cheguei a apresentar o Casa Cheia.
Mas o Um, Dois, Três.
Fui ao Casa Cheia enquanto convidado naquelas emissões especiais que faziam.
Especiais.
Era o Carlos Ribeiro que apresentava, não era?
Era.
E o Fernando Pereira também apresentou. Tantos postais que eu enviei para esse concurso.
Sério?
Nunca me lá quiseram.
O Palavra Puxa Palavra, para mim, de todos os concursos, o mais espetacular de todos foi o Um, Dois, Três. Primeira grande responsabilidade, substituir um monstro televisivo, um mestre da televisão, senhor televisão, Carlos Kuro. Depois, porque o programa em si, para a época, e se alguém se lembra e que nos ouve, tinha realmente uma estrutura fantástica, com bailarinos, com cenários que para a época, e não havia ainda a digitalização das coisas, era mesmo cenário real, madeirinha e pano, e tudo que era necessário.
E dava bons prêmios.
Dava prêmios.
Rolotes, carros, caravanas, coisas impensáveis hoje em dia, não é? Me perdoem os produtores de televisão, mas quer dizer, oferecer aspiradores em 2026, comparado com os anos 80 ou 90, em que se ofereciam rolotes. E férias, não era?
Férias espetaculares noutras latitudes. Bem longínquas.
António Sala, tem saudades de apresentar um programa seu de televisão?
Tenho alguma saudade. Vamos lá ver. Eu cheguei a fazer muita coisa que não gostava, mas hoje em dia já estou naquela fase para fazer só faço aquilo que me apetece e que eu aceito. Tenho tido alguns convites simpáticos e também para concursos, mas sou franco, aquele género de concurso em que se tem que pôr em cima da cabeça um sapo, a coisa do género, é uma coisa que não me agrada muito, nem que as pessoas têm que fazer tontinhas, tropeçar muito, fazer muitos disparates. Mas tenho duas ou três ideias. Eu, por exemplo, tenho um projeto na minha cabeça que eu acho que é muito engraçado. Eu comemorei 60 anos de carreira e durante dois anos estive num espetáculo teatralizado e musical em que contava a minha história desde pequeno. Havia um pequeno ator, que é o João, e o João tem 11 anos nesta altura. Toca piano incrivelmente, já foi solista acompanhado por orquestras sinfônicas, representa, canta, dança, tem um talento incrível. E é inteligentíssimo e culto. Eu gostava de fazer um programa na televisão que se chamasse O Cota e o Putu. Logicamente, que o Cota está aqui, o Putu deve-nos estar a ouvir em Coimbra. E em que recebíamos convidados. E era um olhar exatamente de gerações diferentes, de indivíduos completamente diferentes, de um homem que já ultrapassou a barreira dos 70 e do miúdo que está com 11 anos, para o mesmo convidado. Eu acho que é muito engraçado e podia ser uma coisa muito gira.
É uma boa ideia que me leva a esta pergunta, que não conta: por que usa dois relógios, um analógico e um digital, António Sala?
Porque eu gosto de relógio. O relógio, relógio é porque é mesmo o que eu gosto e gosto de ver as horas. O outro é um aparelho eletrodoméstico, mede o coração, faz isto, só não faz os extraolados, mas tenho de andar com ele por causa das pulsações.
António Sala, muito obrigado.
Foi um prazer estar aqui.
Foi uma excelente edição de Inquérito. Está aqui com 16 pontos. Parabéns! Venha de novo. Só não leva uma rolote, nem uma caravana.
Não, mas venho o aspirador.