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Começa agora mais uma comissão de inquérito. Hoje, é nosso convidado Francisco José Viegas, escritor, editor, jornalista e antigo secretário de Estado da Cultura. Bom dia, bem-vindo!
Bom dia, Carla.
É a Maria João agora. Ainda é Maria João. Mas a Carla também cá está.
Francisco, eu confundo estas vozes.
Olá, Paulo, desculpa.
Não faz mal. Então está na praia?
É verdade.
É assim que começa o dia, não é?
Quem está na praia, está sempre na praia.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, recebe dois. Vamos a isto?
Ok, vou tentar falhar todas. Isto é duro.
Isto é uma bola de berlim pelo meio e vai lá. Ainda ninguém conseguiu. Pode ser que seja hoje.
Acho que ainda não entrevistaram ninguém na praia.
Não. Pelo menos que nos tenha dito.
Sim, exato.
Começamos então pelo seu clube do coração, Futebol Clube do Porto. Quantas Supertaças fazem parte do palmarés portista?
Ah!
Pergunta aí ao vizinho do lado, ao banhista do lado.
Ao merdador Salvador.
Estão todos no teu clube, Bruno.
Não.
Não estão, não.
Supertças?
Sim, Supertaças. São muitas.
São muitas.
Pois.
Quer ajuda?
Quero, claro.
Nove, 10 ou 24?
Então são 24.
Bem saido. Sem sombra de dúvida. O Benfica tem 10 e o Sporting nove. Está a ver? Diz que se tornou adepto do Porto porque se irritava quando o faziam escolher entre o Benfica e o Sporting. Foi para ser do contra e depois virou paixão? Como é que foi?
Sim, um pouco isso. Há sempre aquelas coisas dos miúdos, de perguntar: " És do Benfica ou és do Sporting?"
Pois.
Só que aquilo irritava-me muito, porque havia algumas pessoas que eram do Porto e não me perguntavam. Por que aquilo não poderia ser do Porto? Sendo que depois houve um acontecimento que foi um pouquinho marcante na minha vida de adepto, que foi em 1963, em dezembro, a morte do Pavão. Os pais do Pavão eram nossos vizinhos. Eu vivia em Chaves, que era a terra do Pavão. E aquilo impressionou-me muito, como é evidente. Eu lembro-me perfeitamente de ler o artigo do Carlos Pinhão na Bola, porque eu era miúdo, pedia ao meu pai para me comprar a Bola, porque eu queria ler coisas sobre a morte do Pavão, que morreu aos 16 minutos. E depois fiquei, de facto, impressionado com aquilo e fiquei portista. Aliás, uns dois ou três meses depois, dois meses depois, veio um grande jogador para o Porto. Foi também marcante, que era o Thiago Cumbillas, não sei se estão recordados.
O Bruno deve estar. O Paulo está a dizer que sim, mas mesmo.
Não, o Paulo não parece a pessoa ideal para recordar.
Não.
De todo.
Não, e houve até um peditório entre sócios e simpatizantes do Porto e eu contribuí com 20 escudos.
20 escudos, ah pois.
Que na altura era dinheiro.
O Santo António.
E já agora, Francisco, no arranque desta época, animado para o que aí vem, com os primeiros sinais?
Eu tenho por costume só retomar a temporada, a época.
Para aí em dezembro.
Para aí, não. Também não vou tanto tão longe, mas em setembro.
Em setembro, ok.
Em setembro. Em agosto estou um bocadinho à margem, mas ontem deitei um canto de olho. Pelo canto de olho vi um pouco do Porto Atlético. Não deu para ver nada. Vamos esperar agora o jogo com o Vitória.
E depois os prognósticos. E depois é que vêm os prognósticos.
No fim do jogo.
E Francisco José Viegas, como é que olha para a fusão do Ministério da Cultura com a Juventude e os Desportos? Está tudo bem desde que cumpra o papel?
Eu não olho, mas de qualquer modo, acho que durante algum tempo, em muitos países europeus, foi uma prática, não diria comum, mas uma prática corrente em muitos países. Em alguns deles não existia o Ministério da Cultura. O Ministério da Cultura foi uma invenção de 1959, do general de Gaulle, ou seja, era um cargo que caía como uma luva em André Malraux. Malraux era ministro da Informação, era uma espécie de ministro da Propaganda também do próprio de Gaulle e do governo francês. E o Ministério da Cultura servia fundamentalmente para duas ou três coisas. Uma, fazer uma lei do cinema, porque era necessário, porque havia, na verdade, uma indústria cinematográfica nascente em França, e foi a célebre Lei dos Setenta. Depois, também porque era necessário fazer reformas no património. Todas as grandes reformas e trabalhos de recuperação do património francês, nos anos 60, foram feitas a partir, finalmente, do Ministério da Cultura. E havia também uma intenção imperial, ou seja, era a cultura como representante da diplomacia francesa e como uma espécie de espelho da glória da França. Com o tempo, isso foi alterando. E hoje, também pelo fato da própria ideia de cultura estar já não apenas ligada à cultura stricto sensu, como ela era nos anos 60 ou 70, mas ligada a outras manifestações, outros circuitos Parece-me que a coisa corrente é, hoje em dia, ligar cultura e mídia. Como acontece em Inglaterra, como acontece até em França.
Já tivemos esse modelo.
Sim, tivemos durante algum tempo. Eu acho que o importante é que, de facto, funcione. Há sempre a ideia de que isso pode significar uma menorização da cultura. Estou a colocá-la entre aspas. Eu espero que funcione, espero para bem de todos nós que funcione.
Muito bem. Francisco, vamos à segunda questão, que tem a ver com isso também, com a forma como os governos se organizam.
Vou apanhar de novo.
Vamos lá.
Não, agora já tem dois pontos.
Esta é fácil.
Dois pontos já são seus.
Quantos ministros da Cultura é que teve António Costa nos seus governos, isto entre 2015 e 2024? Estamos a ouvir o porta.
Luís Filipe de Castro Mendes, Graça Fonseca, Pedro Adão e Silva.
Estes foram quatro, não é?
Sim.
Só se algum deles contar por dois.
E nomeados. Francisco, foste também secretário de Estado da Cultura há mais de 10 anos, em dois anos. Quatro ministros em oito anos. Isto é uma área de política de desgaste rápido ou não, como a administração interna ou a saúde?
É desgaste, está muito sujeito ao escrutínio público, tem muito a ver com uma área que é ampliada pela imprensa, pela comunicação, pela própria indústria da cultura.
Os chamados agentes do setor, é isso?
Sim, exato.
E fazem muito barulho.
Bastante. Estão no seu direito. Toda a gente está no seu direito de fazer esse ruído, de ter a sua influência. Às vezes essa influência não se traduz numa influência política. Essa projeção mediática não tem paralelo numa influência política real. Ao nível dos votos, que é aquilo que muitos políticos, ou que os políticos, pelo menos, querem mais. Esse peso é muito flutuante.
Mas condicionam as políticas do setor?
Podem condicionar, sim. Acredito que condicionam, porque não é bom estar permanentemente ser alvo de críticas e eu acho que tem que haver uma discussão sobre isso. Costuma haver uma discussão sobre o que é o papel do Estado na cultura e tudo isso. Acho que nunca se fez essa discussão.
Francisco, podemos levar essa discussão ao ponto de pensar: precisamos de um Ministério da Cultura ou não?
Para já precisamos de uma espécie de administração do setor da cultura, que é uma coisa que cabe numa direção geral. Mas precisamos de linhas estratégicas e hoje, na verdade, o mundo da cultura não tem, como eu dizia há pouco, apenas a ver com o setor estrito da produção cultural ou do património. É muito mais largo, a sua intervenção é muito mais larga. E eu suponho que faz todo sentido haver um setor exclusivamente preocupado, exclusivamente dedicado a essa matéria.
Francisco, vamos avançar para a terceira pergunta. Esta tem a ver com hábitos de leitura em Portugal e de acordo com um estudo muito recente, aliás, foi divulgado este fim de semana, da Universidade Católica, qual a porcentagem de leitores portugueses que prefere o livro digital? Vamos dar aqui uma margem de 3%.
Uma margem de erro.
Uma margem de erro, para cima e para baixo.
Eu não consigo bem ver isso. Conheço os dados do mercado propriamente dito. E posso dizer-vos que, em termos reais, a venda de livros eletrônicos, de e-books, corresponde neste momento a pouco mais de 1%.
A pouco mais de 1%? Só?
Nas vendas, mesmo.
De venda, sim.
Sim, de vendas. Estou a falar de vendas efetivas. Não estou a falar daquilo que as pessoas dizem que preferem ou que fazem. Se nós formos, por exemplo, fazer essa enquete no meio acadêmico, obviamente que haverá provavelmente 20, 30%, porque grande parte da literatura acadêmica hoje circula em livros digitais. Não estou a falar em sites exclusivamente dedicados à publicação de material acadêmico, estou a falar de livros que têm uma versão digital.
E são versões estrangeiras, editadas lá fora.
Sim.
Então queres arriscar um número ou não? Ou posso dar aqui uma ajuda também.
Ótimo.
Então vamos lá, 8%, 40% ou 17% da porcentagem de leitores que diz preferir o digital.
Preferem, se formos ser realistas, 8%.
São 17 os que dizem.
Entre o que se diz e o que se faz efetivamente.
Mas, de facto, essa enquete pode ser feita só entre leitores.
Ou pode ser aquele fenômeno, como toda a gente vê a RTP2.
Sim, exatamente.
E depois nas audiências não está traduzido. Achas que o anúncio da morte do livro físico foi manifestamente exagerado? Por esses dados que indicaste, parece ser o caso.
Sim, eu lembro-me, por exemplo, do último grande best-seller do John Brown, que era sempre um best-seller, um grande título, um grande ruído no mercado editorial nos Estados Unidos. E houve um ano em que o livro eletrónico, a versão digital, vendeu tanto como o livro em papel. E essa porcentagem mudou radicalmente. Mudou, imagina, para 30/70, 20/80. E, por outro lado, aqueles inquéritos internacionais que muitas vezes aparecem, inclusive nos sites das instituições europeias, da Comissão Europeia, que aliás valia muito a pena nós consultarmos, para termos uma ideia, por exemplo, de que há uma diferença entre os chamados estudos sobre hábitos de leitura em Portugal feitos por entidades portuguesas e aquilo que aparece nos sites da União Europeia, e que são muito diferentes. Portugal, nesses inquéritos internacionais, aproxima-se do quarto lugar a contar do fim, portanto, em antepenúltimo lugar em hábitos de leitura, daqueles que doem zero a um, um a cinco, cinco a 10.
E como é que não conseguimos alterar esses hábitos de leitura, ao fim de tanto tempo, de investimento, de um plano nacional de leitura, de muitos jovens e crianças terem hábitos de leitura quando precisamente são jovens e depois isso não tem um reflexo nos hábitos de leitura na idade adulta?
Nós fazemos políticas de incentivo à leitura para idades muito vastas. Mas depois temos dificuldade em acompanhar esses leitores mais tarde. O grande problema é uma espécie de falha tectônica que existe entre, imagina, 14 e 18 anos. É quando se perdem muitos leitores que depois não são recuperados. Durante muito tempo, pensava-se que as famílias eram um dos incentivos fundamentais aos hábitos de leitura, não são. Não são porque as gerações que perderam hábitos de leitura já são os pais, e, portanto, não são exemplo. E, portanto, eu mantenho que à escola cabe um papel determinante, não com aquilo que nós hoje chamamos de leitura inclusiva e que se tem nos últimos anos distinguido por baixar um pouco o nível da qualidade da leitura. Eu acho que há professores absolutamente fantásticos nas suas aulas de Português, mas penso que será pela escola. Quer dizer, terá que ser uma política integrada, essencialmente educativa, essencialmente na escola.
Vamos a mais uma pergunta, Francisco. Esta é uma notícia recente.
Esta é fatal.
Esta é fatal, porque é uma notícia recente e diz-lhe muito, portanto deve saber. Nasceu no Pocinho, Conselho de Vila Nova de Foz Côa. O Museu do Côa assinalou recentemente um aniversário, mais um. Quantos anos fez o museu?
Ora, também não sei ao certo. A decisão foi em 95, 96.
Sim, até ao museu, mas ainda houve um processo. Com ajuda.
Ainda houve um processo.
Com ajuda.
Uma ajuda.
Então, 10, 15 ou 20?
20.
Quinze anos, já.
Pronto.
Quinze anos. E o Parque Arqueológico, o museu e a Fundação do Côa passaram por muitos altos e baixos, com momentos difíceis que até o secretário de Estado, Francisco José Viegas, teve que lidar com eles, mas ultimamente parece que tem corrido bem, recordes de visitas.
Tem corrido muito bem.
Tem corrido muito bem. E a cultura pode e deve ser sustentável?
Pode, mas não se pode conceber como uma espécie de fortaleza. Quer dizer, tem que haver uma ligação muito estreita, neste caso, com a autarquia, com exposições itinerantes.
Sobretudo quando estamos no interior, ainda por cima, o desafio é maior.
Sim, não basta apenas chamar as pessoas para visitar o parque arqueológico, visitar o museu, que aliás é uma coisa que vale muito a pena, mas é preciso que seja uma espécie de cruzamento, e no caso, o cruzamento de várias atividades e de várias modalidades de exposições, coisa que tem acontecido muito no Museu do Côa, que faz a ponte entre o parque arqueológico propriamente dito, ou seja, uma visita ao parque, e depois um espaço, como se diz hoje, que eu detesto a expressão, mas é um espaço expositivo, onde as pessoas sejam chamadas para comprovar que a cultura não é um gueto e que um museu como aquele do Vale do Côa pode também abrir portas para outros caminhos e até para outras formas de conhecimento, como aliás tem acontecido.
Francisco José Viegas, vamos para a última pergunta. Eu acho que esta é muito fácil para um especialista na matéria. Como se chama a empregada brasileira do doutor António Sousa Homem?
Dona Elaine.
Está correto.
Muito bem.
Grande bónus. Muito obrigado.
Isto exige muito conhecimento.
De parte a parte.
Muito autoconhecimento.
De quem responde, mas também de quem faz a pergunta.
Claro.
Conheces pessoalmente o doutor Sousa Homem?
Conheço pessoalmente.
Seria um bom candidato à Presidência da República?
Não, porque eu creio que ele é monárquico.
Mais uma boa razão para ser candidato.
Bom, o atual presidente da República era presidente da Casa de Bragança.
Não seria assim estranho.
Não seria muito estranho.
Dos candidatos já anunciados à Presidência da República, qual achas que mereceria o apoio do doutor Sousa Homem?
Muito surpreendentemente, talvez fosse, até agora--
Não é fácil.
A hesitação.
Ainda não foram apresentados todos.
Daqueles que já anunciaram.
Há um que talvez ele não votaria nele, mas talvez não se importasse que fosse presidente, apesar de tudo, considerando tudo o resto, que é o António José Seguro.
Muito bem. António José Seguro, de quem foste editor também.
Exato, também fui editor de António Costa.
Já fazes o pleno.
Esta não merece pontuação. Para quando o próximo livro?
2026. Em princípio, no princípio.
Então já não está a ser escrito na praia.
Não, de maneira nenhuma.
E é mais uma aventura do inspetor.
É, histórias do inspetor Jaime Ramos. Garanto que não é nenhum assassínio num estúdio de rádio.
Ficamos mais descansados.
Mais descansados.
Mas é a continuação das histórias.
Da saga. Francisco José Viegas, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E agora bola de Berlim com ou sem creme?
Com.
É cá dos nossos. Obrigada e um bom dia de praia.
Bom dia e boa semana para vocês.
Obrigado.
Obrigada, boa semana.
Obrigado.