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Este é o som da Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o maestro Martim Sousa Tavares. Bom dia, bem-vindo.
Bem-vindo.
Bom dia. Sinto-me em casa.
Ainda bem, estás em casa. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedires a nossa ajuda, damos-te a escolha múltipla, temos três opções. Se acertares, recebes dois.
Muito bem.
O máximo são 25.
É justo.
Muito bem.
Vamos a isto?
Já alguém chegou aos 25?
Já.
Então, caramba.
13 pessoas, pelo menos.
13?
13.
Mas já andamos distantes.
Em dois anos deste programa.
Ok. É uma amostra.
Não é assim tão fácil.
E alguma correlação entre o QI dessas pessoas?
Não.
Não.
Ok.
Só posso dizer que nós fazemos perguntas umas vezes mais fáceis, outras mais difíceis, sem saber.
Muito bem.
Vamos lá. Hoje arranca mais uma edição do Festival de Sintra, de que és diretor artístico, mas antes vamos à gastronomia local. Toda a gente vai a Sintra comer os famosos travesseiros da mítica Casa Piriquita. Sabes a quem se deve o nome Piriquita? Foi uma alcunha dada por um rei à fundadora da pastelaria, por ser baixinha, por ser rodinhas baixas. Segunda metade do século XIX.
Qual seria o rei?
Segunda metade do século XIX?
Sim.
Vou dizer Dom Luís.
Queres mais ajuda?
É cana, era ajuda.
Ok, é bom que vou pedir então mais ajuda.
Então: Dom Pedro V, Dom Carlos I ou Dom Manuel II.
Bem, para ser segunda metade do século XIX, só pode ser um desses, que é Dom Carlos.
Exatamente.
Muito bem.
Com certeza também não vão faltar travesseiros e queijadas de Sintra na 60ª edição do festival mais antigo de Portugal, o Festival Internacional de Música de Sintra. Como diretor artístico, qual é o maior desafio, Martim? Gerir o peso histórico, pensar num cartaz fora da caixa para atrair um público mais jovem?
É um bocadinho as duas coisas. É o festival mais antigo do nosso país. Chega hoje às 60 edições. Não é super antigo, ou seja, há festivais do século XIX por aí, mas é o mais antigo do nosso país. Portanto, para o mal ou para o bem, é uma tradição que há que honrar. Mas o meu lema é: eu quero que o programa do festival, qualquer pessoa abra aquele programa e encontre pelo menos uma coisa.
Com que se identifique e queira ir.
Exatamente. Portanto, como é que eu consigo usar a matriz deste festival para fazer uma programação que seja verdadeiramente eclética e não elitista ou não em circuito fechado, ou que não seja só pianistas.
E como é que se faz isso?
Com muita curiosidade, ouvindo muitos artistas. Eu estou sempre muito antenado, como se diz no Brasil, a perceber quem são os artistas interessantes que ainda não vieram a Portugal, que estão a fazer formatos diferentes. E depois também desafiando os artistas a fazer coisas que nunca fizeram. Vou dar aqui um exemplo. Nós temos sempre programação para famílias. Já toda a gente ouviu "O Pedro e o Lobo", do Prokofiev, com narração. Este ano vamos ter "O Pedro e o Lobo", de Prokofiev, só que narrado pela Bumba na Fofinha. Eu convidei-a, vai ter uma orquestra.
Mais fora da caixa não podia ser.
Exatamente. Ela vai reinventar aquele texto. Nem eu sei o que ela vai fazer. O que é certo é que a história do Pedro e o Lobo vai ser um bocadinho diferente. É como fazer uma coisa que é clássica na sua origem, que as pessoas já ouviram, mas de uma forma que se calhar nunca ouviram. Esse é um concerto de entrada livre, ficam desde já convidados. Está muito pertinho de esgotar, porque como é a Bumba na Fofinha.
Claro, entrada livre, mas com bilhete.
Sim, é preciso exatamente levantar os bilhetes nas bilheteiras do Centro Cultural Olga Cadaval.
E quais são os teus destaques deste festival, Martim?
É um bocadinho como pedir qual é o meu filho preferido. Mas vou dizer os formatos mais disruptivos do festival. Sintra tem um lado de natureza que é fundamental e fazer só concertos em auditórios ou palácios seria passar ao lado de uma grande oportunidade. Nós temos caminhadas-concerto, em que damos ao público as coordenadas do ponto de encontro e faz-se uma caminhada de 40 minutos pela natureza e depois, no meio da serra, está à nossa espera um artista. Por exemplo, Filipe Melo, pianista, vai estar à espera do público para a primeira caminhada-concerto e depois fazemos uma ainda mais especial, que é ao nascer do sol. Normalmente no dia do solstício de verão, para saudar o dia mais comprido do ano. E este ano vai ser no Terraço dos Tritões, no Palácio da Pena. Não sei se estão a ver. Lá em cima, naquele promontório, vamos ter um quarteto à espera dos intrépidos.
Isso é giro.
Que vão sair.
Tipo Haley Paper com música.
Exatamente. Ainda na alvorada, faz-se um trilho até lá acima e acho que o nascer do sol é por volta das 6:00 a.m. O público já tem que estar lá para ter o sol a nascer por trás.
Se tiver bastante bom tempo, vai ser bom.
Sim, e ninguém pode dizer que tem coisas marcadas às 6:00 a.m.
Nós podemos.
Poucas pessoas podem dizer.
Exatamente.
Muito bem, vamos continuar a falar mais ou menos deste tema, Martim, agora na segunda questão. E a segunda questão é: em que década foi criada a Fundação Calouste Gulbenkian?
Década de 50.
Certíssimo. Em 18 de junho de 56 os estatutos foram aprovados pelo Estado português. Eu convenho que continua a ser a instituição, talvez, com as melhores e mais concorridas temporadas de música clássica.
Sem dúvida. No nosso país.
No nosso país, claro, os espaços esgotam, as temporadas esgotam rapidamente, em poucas horas, para o ano todo.
Sim.
Por que a música clássica continua a ser tão sacralizada e as pessoas continuam a pôr o melhor fato para ir assistir aos concertos?
Eu acho que isso, na verdade, já é mais fama do que provérbio, honestamente. A Gulbenkian, sim, é um lugar ainda de imenso prestígioPela história que tem no nosso país, por ter também um museu associado, atribuir bolsas de estudo, bolsas de investigação. Há ali, de facto, uma noção de que vamos ali ver o melhor que há. Aliás, é aquele slogan do próprio Gulbenkian, que é só o melhor. Portanto, ali vamos ter um encontro com coisas de altíssimo nível. Mas a própria Fundação Calouste Gulbenkian tem feito um esforço grande para despir esse casaco de peles, esse casaco de vison. Eu já fui assistente de sala na Gulbenkian, foi o meu primeiro emprego. Como eles chamam lá, são as lanterninhas.
Antes de ser maestro.
Exatamente. Quando estudava ainda, assistia a todos os concertos e na altura coincidiu com a Gulbenkian introduzir um ciclo que foi muito polémico e até teve que ser cancelado ao fim de uma ou duas edições, que eram as chamadas Músicas do Mundo, em que de repente, naquele mesmo sacrossanto grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, tínhamos, por exemplo, um músico cubano ou tínhamos um músico do Irão e traziam um público completamente diferente. E lembro-me que o público dos habitués ficava ainda escandalizado com isto. Lembro-me de ouvir coisas do gênero: "Quem é esta gente que nos entrou por aqui dentro, que se senta nas mesmas poltronas, que pisa a mesma carpetes?".
Vem de tênis.
Exatamente. Eu acho que hoje em dia já não é isso. Aliás, a Gulbenkian faz o Jardim de Verão, por exemplo. O último concerto que eu fiz na Gulbenkian foi no passado dia 15 de abril, foi um concerto com orquestra, com o Dino d'Santiago, com vários cantores ligados ao universo do Dino d'Santiago e à promoção social da associação dele. E posso dizer que a fundação estava muitíssimo feliz com um público muito diverso. Portanto, eu acho que já é mesmo mais fama do que proveito. Eu vejo isso também no Festival de Sintra, adere gente de todo o tipo. Agora, não podem é pedir às mesmas pessoas que vêm ao concerto das 06:00, que estejam também na récita de ópera, porque isso já envolve uma condição física.
E o ensino da música nas escolas portuguesas é adequado?
Está melhor do que nunca, também. Uma das coisas mais bonitas do nosso país, na verdade, é a descentralização das escolas. Os conservatórios, as escolas profissionais existem literalmente em todo o país. E muito boas escolas profissionais estão em sítios improváveis. Por exemplo, a Covilhã. Vou dar aqui um exemplo, que acho que é pouco conhecido dos portugueses e que devia fazer muito orgulho. As escolas profissionais são equivalentes ao ensino secundário, simplesmente saem de lá com diploma profissional. Existem escolas profissionais de muitas profissões, uma delas é música.
Muitas artes.
Exatamente. Pode ser marquetaria. Tal e qual. E a Escola Profissional de Artes da Beira Interior, que é a EPABI, os alunos que terminam ali o seu diploma, normalmente são alunos que não têm posses para depois comprarem bilhetes e andarem pela Europa inteira a fazer audições para as melhores escolas de música. Portanto, o Conservatório Real da Holanda, que tem sede na cidade de Haia, monta ali na Serra da Estrela uma espécie de stand para ouvir as nossas fornadas de recém-diplomados da escola da Covilhã, porque sabe que eles não vão ter meios para ir à Holanda fazer uma audição. Portanto, vêm eles cá ouvi-los numa lógica de captação direta na fonte deste talento, e depois atribuem bolsas e levam-nos para lá. E eu só descobri isto quando comecei eu próprio a trabalhar pelo interior do país e conheci a realidade da EPABI e não fazia ideia disto, porque o talento é certo, nasce em todo lado. Portanto, a única questão que pode estar entre o talento e as oportunidades são as assimetrias das infraestruturas, de questões socioeconômicas. E portanto, o ensino da música, na verdade, está melhor do que nunca.
Mas aí, Martim, estamos a falar de uma fase de escolaridade mais avançada, numa fase mais inicial, no ensino básico. Os alunos têm um contacto com a música que lhes permita descobrir essa vocação, esse talento?
Têm também. Eu vou falar aqui num assunto polémico, já fui crucificado algumas vezes em praça pública por causa disto, que é a flauta de bisel. Toda a gente tem presente o instrumento.
Então a gente tem que ter uma.
Exatamente.
E o xilofone.
Tal e qual. Eu ainda acho que a flauta de bisel parte de um pressuposto que é o seguinte: isto é um instrumento muito barato, compra-se numa papelaria, portanto, é uma forma acessível de pôr os miúdos a saborear o que é fazer música. Mas eu acho que isso parte de uma premissa errada, porque nós não temos que escrever sonetos também para apreciar um soneto. Nós não temos que pintar um quadro para apreciar uma tela. Da mesma forma, não é por eu tocar a melodia do Harry Potter numa flauta de bisel que eu vou ser o melhor ouvinte para a música. Eu acho que a música precisa primeiro de quem a ouça, de quem a entenda, e só depois de quem a toque. A música precisa de ser ouvida e fruída. E a ideia de que a flauta de bisel cumpre isso é uma ideia errada, porque qualquer pessoa aqui que tenha passado pela experiência de uma turma de 30 miúdos, em que uns têm flautas da Yamaha e outros têm flautas da Honor, e aquilo não está bem afinado. Eu lembro, na minha turma, a malta usava as flautas como espadas. Portanto, andava tudo à pancada com aquilo. Eu acredito que algumas escolas terão certamente programas de música muito interessantes, desenvolvidos no local, mas o programa at large, digamos, que passa pela flauta de bisel, eu acho que merecia aqui levar um toquezinho.
O ensino e a aprendizagem da música, mesmo assim, ainda continua a ser visto como um privilégio.
Sim, é uma coisa optativa. Vou vos dar um exemplo. Eu tenho uma filha pequenina e como é óbvio, ela está sempre a ouvir música em casa, porque quando eu estou a tocar piano, ela vai ao piano também. E eu já decidi que eu não vou tentar fazer dela uma música profissional ou o que for, mas há uma coisa que eu gostava de tentar incutir nela, quase tipo experiência biológica, que é tal como nós ensinamos as cores, podemos ensinar as notas. Eu posso tocar-lhe uma nota e dizer: isto é um lá, e isto é um dó. São diferentes, tal como um verde e um azul, não são a mesma coisa. Vou tentar que ela identifique isso, e portanto ela vai passar a ter o que se chama ouvido absoluto, que ela ouve uma frequência e identifica aquela nota, que não ocupa espaço na nossa cabeça.
Mas por geral, quase como-
Sim, é um skill interessante, é um party trick, como se diz, é uma coisa para festas, mas a verdade é que uns têm mais sorte do que outros, Bruno.
Muito bem. Então vamos para a terceira pergunta para ver se-
Estás com sete pontos, Martim Sousa, estás com sorte.
Sim, foi pena ali a primeira.
Esta acho que é um pouco mais fácil. Em que dia a poeta Sophia de Mello Breyner teve honras de Panteão? Ou seja, em que foram trasladados os restos mortais de Sophia para o Panteão.
Em que dia? Terá sido em junho ou julho. Eu já não me lembro se foi na data da morte dela. Eu estava lá nessa cerimônia, lembro-me bem
Foi uma ajuda.
Foi na data em que faleceu.
Sim.
Então foi dia 4 de julho, salvo erro?
O mês está certo.
O mês está certo.
Pois é.
E o ano está agora?
Todinha, são só datas.
Sei bem que foi em 2004.
Não, que ela faleceu.
Exatamente. Não, o Panteão teria sido 2017, por aí.
Então vamos à ajuda. 2 de julho de 2014, 6 de novembro de 2019 ou 2 de julho de 2016?
É de 2016. Não, 2014.
É isso.
Não, mas eu aqui fui levado ao colo. Agradeço-lhes muito.
Ajuda. Uma coisa, claro, tu és neto de Sophia de Mello Breyner. Toda a gente também conhece os teus pais e há uma coisa curiosa que eu vejo nas reações das pessoas quando publicas alguma coisa, um livro, nos teus programas, é que, ao contrário do que acontece com outros filhos de famosos, com outras pessoas que têm esse privilégio de ter uma herança positiva familiar, quase toda a gente te elogia. Eu estou a falar da experiência.
Mereces por ti, provavelmente.
E eu vejo isso, eu diria, quase que dos raros consensos. Há uns anos dizia-se no Brasil que o Chico Buarque era o único consenso nacional. E ao contrário do que acontece, como estava a dizer, com outras pessoas, não há aquela tentação de se dizer: "Pois é, só está ali por ser filho de quem é." As pessoas conseguem fazer essa distinção. Como é que tu vives com o peso dessa herança, que tens no nome também?
Sabes que hoje em dia vivo não só em paz, como em muita gratidão. Vou dar aqui um exemplo: eu estou a fazer um projeto de vida para deixar como herança, que é ter todos os livros que a minha avó publicou em vida em primeiras edições. Portanto, tal como eles vieram ao mundo, com os seus erros, com as suas gralhas, com as suas erratas. E é uma coisa que eu há uns anos teria tido vergonha de fazer, pelo simples fato de que entrar num alfarrabista a perguntar se tem o "Dia do Mar" de Sophia de Mello Breyner na primeira edição, dar-me-ia vergonha, do gênero: "Mas por que andas a comprar isto?"
"Eles sabem quem tu és."
Exatamente. E eu quando estava a fazer o meu primeiro curso aqui em Portugal, eu assinava como Martim Tavares, porque incomodava-me muito entre colegas, entre professores, as pessoas comentarem, porque parece que o Sousa Tavares chega antes do Martim. E portanto, é mais uma questão genealógica do que imediata minha. E aconteceu-me uma vez, escrevi um texto que foi publicado numa coletânea de textos académicos sobre música e assinei-o Martim Tavares, como assinava sempre, e mandei aquilo para o editor e no índice dos textos, apesar do meu texto vir assinado Martim Tavares, no índice vinha Martim Sousa Tavares. Portanto, à minha revelia, obrigaram-me a usar o apelido que eu estava a esconder. Nesses anos, eu de facto andava em fuga desta ideia dos pais e dos avós. Queria muito provar que era alguém, eu próprio. Depois vivi fora de Portugal seis anos e isso pôs-me em paz com o apelido e com o nome. Quando voltei, foi já numa lógica mais serena e muito grata. Hoje estou a acabar esta coleção de primeiras edições, já tenho os mais raros, e hei de me lembrar de outras coisas para me ligar a este património familiar. Uma delas, por exemplo, saber a data que a minha avó foi levada ao Panteão.
Ora bem, nove pontos.
Nove pontos. Ainda faltam duas.
Faltam duas. Vamos para a quarta pergunta.
Pergunta nove pontos é jogo.
Vamos ver se agora corre um pouquinho melhor. Que cantor venceu a primeira edição do "Ídolos" em Portugal? Se calhar não vai correr bem.
Primeira edição do "Ídolos". Bem, o "Ídolos" teve alguns vencedores famosos.
E outros que não venceram que também são famosos.
Terá sido o Nuno...
O Nuno, exatamente. Lá de cima.
Sim. É um ponto cardeal.
É um ponto cardeal.
Oh, meu Deus!
Lá de cima. Ponto cardeal é em cima.
Ponto cardeal de cima.
Exato, o Nuno.
Caramba, eu estava aqui encravado.
Exatamente. Martim, foste jurado numa das edições do "Ídolos", não sei se foi de boa ou de má memória.
Foi boa, para mim boa.
O certo é que hoje continuam a existir concursos de talentos, o "The Voice", por exemplo, há todos os anos. Há muitas pessoas que saíram do "Ídolos", outras saem do "The Voice". Há espaço para todos estes talentos em Portugal? Se calhar ficamos com a ideia de que muitos até dos que vencem nem são os que acabam por singrar. Como é que se faz toda esta distinção?
Tal e qual. Por isso é que muitos concursos hoje em dia começam a ter uma coisa que é o prémio do público. O júri dá a sua votação, mas o público dá uma votação diferente. Eu vou deixar aqui o apelo, caso me estejam a ouvir alguns potenciais candidatos a talent shows, que é: ganhar um concurso destes é bom, mas não faz trabalho nenhum por vocês. Vocês vão lá mesmo a ter que fazer o caminho das pedras, de fazer concertos em circuitos pequeninos, gravar, etc. Muitas vezes eu até acho que os candidatos que por ali passavam sentiam que aquilo os ia catapultar para o estrelato, quando na verdade eles não se podem esquecer que aquilo são programas de entretenimento também.
São programas televisivos.
Exatamente.
Têm uma lógica um pouco diferente do reconhecimento simples do talento.
Tal e qual, há ali um pacto tácito, depois cada programa pode novelar mais ou menos isso. Há uns que são verdadeiras novelas, em que nós acompanhamos os dramas da família. Outros, menos, é mais o que acontece ali. Mas aquilo não deixa de ser entretenimento e portanto para o ano haverá outro programa, e outro programa, e todos os anos há vencedores e as pessoas não têm que necessariamente se lembrar de quem eles são na hora de comprar um bilhete para um concerto.
E às vezes até acontece uma coisa curiosa, não sei se concordas, é que aqueles que não ganham, muitas vezes são aqueles que depois se esforçam mais e acabam por ter carreiras mais longas.
Tal e qual. Por exemplo, a Carolina Deslandes participou no "Ídolos" e não ganhou.
O Diogo Piçarra, por exemplo, também.
Também, exatamente. O Salvador Sobral
A Luísa Sobral também participou e também não ganhou.
E há outros que vencem e passado um ano já ninguém se lembra.
Tal e qual. Mas a vida é assim. Se nós fôssemos ver o que era os tops do programa de 99.
O Diogo Piçarra ganhou. Está a fazer confusão. O Diogo Piçarra ganhou, a Luísa Sobral é que não ganhou.
Pois, e a Carolina Deslandes sei que não ganhou.
Também não ganhou.
E enfim, tem a carreira que tem. Portanto, a fama é transitória. Eu acho que os artistas têm que se preocupar com a durabilidade das coisas através da qualidade, não tanto do estrelato ou de estarem na moda. E um ótimo exemplo disso é ver quem eram os artistas mais ouvidos no verão de 1999 aqui em Portugal, que passavam na rádio. Se calhar, metade deles ou mais, nós já nem nos lembramos daquela música. Enquanto que outras, se calhar, que passaram mais entre os pingos da chuva, continuamos a ouvi-las.
Procuraste ter uma postura pedagógica enquanto jurado do concurso. Nós sabemos que como é um formato de entretenimento, também depois o perfil dos jurados muitas vezes é muito diferente, para suscitar precisamente até algum antagonismo.
No caso do "Ídolos", o júri foi todo refeito e era um júri que tinha ficado famoso no passado por algumas tiradas mais sarcásticas, mais duras, nomeadamente de um dos membros do júri, que era o Manuel Moura dos Santos, que ficaram famosas. E nós fomos avisados no início que já não funciona assim. Portanto, estas coisas depois vivem na internet para sempre e o peso que tem uma piada, uma pirraça que se faz. Entre outras.
A rezável.
Exatamente. Eu ainda uso a frase: "Bubacar não vai dar" com os meus amigos, quando alguém está a tentar fazer uma coisa, eu digo: "Olha, Bubacar, não vai dar". E isso vem dos "Ídolos", é Manuel Moura dos Santos. Portanto, fomos avisados de que estas coisas podem, por cinco minutos de piada, doer na vida de uma pessoa o tempo inteiro. Portanto, tentamos fazer uma lógica positiva, sem ser necessariamente amiguista.
Muito fofinha.
Houve gente que dissesse isso. Havia pessoas que viam aquele programa e queriam sangue, queriam humilhação, queriam ver os candidatos a serem demolidos. O que nós tentamos era que ninguém não passasse sem saber por que não passava. Portanto, uma pessoa não passava, não era porque não gosto do seu penteado ou porque não gosto da forma como se vestiu. Há sempre uma razão específica para isso. E muitas vezes cabia-me a mim a análise técnica. Quando eu era o quarto a falar e ainda só se disse: "Cantas bem, mas não me encantas", eu dizia algo do gênero: "Olha, estás a cantar fora da tonalidade, etc. Isto depois não vai funcionar".
"Bubacar não vai dar".
Bubacar não vai dar, por outras palavras.
A flauta de Bisel não correu muito bem. Muito bem, Martim, vamos para a última questão, para chegar aos 19. Aqui sobre uma área em que também te meteste em termos literários. Que nome recebeu em português a obra principal do estratega militar e do filósofo chinês, o Sun Tzu?
"A Arte da Guerra".
Certíssimo, "A Arte da Guerra". Isto a propósito de um livro que publicaste não há muito tempo, "Amanhã à Mesma Hora", que é sobre liderar orquestras, trabalho em equipa, liderança de uma forma genérica, não é?
Exatamente.
O que é que um maestro tem a ensinar a gestores, a políticos, toda a gente que dirige equipas sobre essa arte?
Eu acho que as orquestras, e é isso que eu descrevo neste livro, é um livro só sobre orquestras. Portanto, eu não estou a falar de empresas.
Mas pode ser transposto.
Mas tudo é altamente metafórico, altamente aplicável, porque as orquestras são o exemplo perfeito de um grupo de pessoas altamente qualificadas, que trabalham sob pressão, que é a pressão de trabalhar ao vivo, sem uma rede, sem um plano B, e onde cada pessoa pode ser muitíssimo boa a fazer o que faz, mas se não consegue trabalhar com a pessoa que está ao seu lado, elas anulam-se. Portanto, dois virtuosos que não trabalham bem, na verdade, são dois pontos a menos para aquela orquestra.
Mais com mais dá menos.
Exatamente. E portanto, nós temos que das diferenças, conseguir fazer de alguma forma uma harmonia. E é óbvio que nenhum músico da orquestra vai sempre subscrever a 100% as decisões que estão a ser tomadas, mas tem que de alguma forma ser participante, tem que de alguma forma aceitar o espaço dos outros. E portanto, tudo isto sem falarmos, nós estamos a fazer isto com linguagem não verbal. Essencial, sim, e quase telepática, às vezes. E portanto, o tipo de problemas que as orquestras têm, as formas como os resolvem, o que são boas e más práticas, entre muitas outras coisas, eu acho que é mesmo um exemplo muito refrescante para lembrar que a natureza humana é igual em todo lado. Seja numa empresa, seja numa padaria, seja numa orquestra, e as orquestras lembram por que as coisas correm bem.
Eu lembro-me de uma história que vi há uns anos num documentário sobre a União Soviética e sobre uma experiência que foi feita, que era uma orquestra funcionar sem maestro. Falas no livro?
Sim.
Eu agora não tinha a certeza. Eu não tinha a certeza se teria assinado.
Eu posso contar essa história em 30 segundos, se quiserem, é divertida.
Tens mais, tens dois minutos.
Nos anos a seguir à Revolução de Outubro, quando o poder soviético já estava implementado, tentou-se eliminar a figura do líder em todo lado. Fosse na agricultura, quem explorava os operários, não podia, fosse num banco, fosse nos correios. Então lembraram-se nas orquestras, está lá o maestro que é um vampiro, um usurpador do trabalho dos músicos.
É o capataz.
Exatamente. Vamos, portanto, eliminar o maestro. E não só isso, como a orquestra passava a referendar todas as decisões, do gênero: queremos tocar isto mais rápido ou mais devagar? Mão no ar para quem quer mais rápido. E depois os músicos, vejam bem, tinham direito de veto sobre coisas que outros colegas estavam a fazer, que era o lado mau da delação, no fundo. Que eu não gosto do que o meu colega está a fazer, vou pôr a mão no ar e vou dizer: "Camaradas, o que acham do que os camaradas contrabaixos estão a fazer?" E todos: "Ui, achamos mal". Mas ninguém toca contrabaixo, só os contrabaixistas é que sabem. Portanto, na verdade, eles começaram a ter muitos problemas logísticos, os ensaios demoravam muito mais tempo, eram caóticos. Então iam ganhando prêmios soviéticos por serem a incorporação do espírito soviético, mas ao fim de 10 ou 20 anos tiveram que debandar porque já não dava para trabalhar assim.
Nós, os ignorantes na matéria, como é o meu caso, veem maestros com atitudes físicas, se quiseres, completamente diferentes. Aos minimalistas, aos exuberantes, que parece que vão bater em alguém logo a seguir. Isto reflete-se, de facto, o que isto quer dizer? O que estes gestos querem dizer para os músicos?
Eu também falo disso um pouquinho. É mais ladrar do que morder. Ou seja, eu desconfio sempre dos maestros que transpiram e dançam e saltam e grunhem e uivam e tudo, porque eles, na verdade, não estão a fazer a música. Eles têm que transmitir informação e às tantas isso começa a ser uma coisa de tal forma coreográfica.
E pode distrair.
Começa a ser o centro do show. Estamos aqui para ouvir música ou para ver o maestro a fazer um bailado em cima do pódio? Também estão mal os que mal se mexem e gastam duas calorias por concerto. Os maestros russos diziam: quem tem que suar são os músicos, não são os maestros. Portanto, a orquestra a tocar a 200 à hora e o maestro só se mexe um milímetro, também acho injusto. É preciso participar no esforço. Mas os outros também acho um bocadinho demais. E às vezes é fogo de vista, porque uma coisa é ser solista, outra coisa é ser líder. Uma coisa não é necessariamente a outra. Muitas vezes o líder não vai levar os louros, mas está ali a segurar as rédeas para que a coisa funcione e para que um solista possa brilhar. E tantas vezes o problema é quando o líder também quer ser o solista.
Conversa interessante.
Bom fecho.
Isto é só orquestras.
Martim Sousa Tavares, 19 pontos.
Dezenove pontos. Não é péssimo.
Não é péssimo, foi ótimo. É média. Obrigada por teres aceitado o nosso convite. O Festival de Sintra arranca hoje. Há eventos, convidados para todos os gostos. Para saber mais sobre o cartaz.
festivaldesintra.pt.
Tão simples quanto isso. Obrigada, Martim.
Muito obrigado a vocês.