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Começa agora a comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Diogo Paupério Abreu, engenheiro e investigador que passou mais de três meses, foram 100 dias, isolado numa sala branca para simular uma viagem espacial. Bom dia, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia.

Nós apostamos tudo na luz branca para se sentir um pouco mais em casa.

Exatamente.

Para não estranhar muito.

Tem alguma semelhança, é verdade, com o tempo que estive fechado.

Tem, é parecido com este estúdio, só em janela.

Sim, temos aqui mais alguma cor do que eu tinha, as paredes, o teto e o chão era tudo branco.

Já vamos querer saber tudo sobre essa experiência. São cinco perguntas, Diogo, cinco pontos por cada resposta certa, ou dois pontos se pedir a nossa ajuda e acertar. Vamos a isto?

Vamos a isto.

Vamos ao cinema?

Ok, vamos ao cinema.

No famoso filme "Perdido em Marte", o astronauta, interpretado por Matt Damon, fica sozinho no planeta vermelho e tem de cultivar um alimento para não morrer de fome. Qual foi o legume que ele plantou?

Foram as batatas.

Eu pensei que ia dizer brócolis.

Estávamos à espera.

Foram as batatas, sim. Na sua simulação de 100 dias, presumo que não tenha havido plantações.

Não houve plantações, mas houve batatas.

Houve batatas? Batata frita?

Batata frita, infelizmente, não.

Era tudo desidratado?

Era tudo comida desidratada. Tínhamos também conservas para os 100 dias.

Racionamento da água, não é?

Racionamento da água, por acaso, não tivemos.

Não?

Não tivemos. Havia racionamento na parte dos banhos, que nós só tínhamos dois banhos por semana.

Era nesse sentido a água.

Sim. Mas podíamos beber a água que pretendêssemos.

É uma experiência para a vida, não é, Diogo?

Eu diria que sim. Foi uma experiência incrível.

O que é que os teus amigos disseram? Tu és doido?

Depende. Alguns disseram que sou doido, sim, mas outros também disseram que é-

Sorte, não é?

Sorte, mas parece uma experiência mesmo muito interessante e força nisso.

Mas valeu a pena levar-se ao limite quando Portugal ainda investe tão pouco na ciência aeroespacial?

Eu acho que sim. Acho que isso não limita os sonhos dos portugueses, pelo menos o meu sonho de tentar avançar nesta área também da exploração espacial. Sempre foi um sonho desde criança e quando tive a oportunidade, neste caso, de me candidatar, eu assim o fiz e acabei por ser selecionado.

Quantos eram?

Infelizmente, não posso dizer.

Número de candidatos?

Hã?

Não pode dizer o número de candidatos.

O número de candidatos.

Mas isto foi uma ação da ESA, da Agência Espacial Europeia. E qual é a ideia? É preparar eventuais futuros europeus para irem ao espaço?

O objetivo aqui é isolar o isolamento, ou seja, pegar numa das componentes de uma missão de longa duração espacial, neste caso, a parte do isolamento, e o impacto que isto tem no indivíduo, no ser humano, durante uma missão deste gênero. O objetivo é ver a parte da psicologia, da fisiologia, como é que o corpo muda, a parte do estresse.

Mas tinham gravidade ou não?

Tínhamos gravidade, sim. Essa é uma parte importante.

Faz toda a diferença, não é?

Faz toda a diferença.

Mas teve pena?

Tive pena, sim, infelizmente, mas aqui não há maneiras de não ter gravidade, a não ser em voos parabólicos, por exemplo, ou mesmo até, por exemplo, dentro de uma piscina, onde os astronautas também treinam. Mas neste caso, tínhamos gravidade.

Era muito bem. Era esse o treino. Muito bem, vamos continuar. Temos tantas perguntas para fazer.

E para perceber um pouco mais quais foram os efeitos desse isolamento, a pergunta é: como se chama o protagonista da canção de David Bowie, "Space Oddity"? Aquela canção muito famosa, o primeiro hit de David Bowie.

É a que começa "Ground control".

Major Tom.

Exatamente.

Muito bem. Então, quais são os efeitos, e disse que esse era o objetivo também desta experiência, de perceber os efeitos psicológicos, quais são os efeitos de se estar 100 dias em isolamento na cabeça de quem vive uma experiência destas?

Eu posso falar apenas da minha própria experiência. Não posso falar também do resto da tripulação com quem eu estive, porque nós tivemos seis. No final, podemos ter experiências diferentes. E ao mesmo tempo, isto também é a primeira missão da ESA, da Agência Espacial Europeia e do Centro Aeroespacial Alemão. Portanto, neste caso, como é a primeira, futuras possíveis missões irão tentar replicar a mesma situação, mas ao mesmo tempo pode ter aqui variações. Podemos ter aqui diferenças em que indivíduos efetivamente têm outros tipos de comportamento.

E esse é precisamente o objetivo da experiência, ver qual será a reação e o impacto em pessoas diferentes.

Exatamente. Na minha própria experiência, ao realizar esta missão, o que vai parecer um pouco estranho, mas eu gostei bastante.

Isso é estranho.

Metam-no lá outra vez. Mas por que gostou?

A verdade é: o grupo faz a diferença toda. O trabalho em equipe, sem dúvida que muda completamente a diferença. E uma coisa que eu digo muitas vezes também às pessoas, à família, aos amigos que também me perguntam sobre a missão, é que felizmente não tivemos nenhuma ovelha negra. Ou seja, não tivemos ninguém que desestabilizasse o grupo. Nós também fomos escolhidos a dedo. Houve uma fase de seleção, bastante extensa ainda.

Vocês conheceram-se antes de entrarem para a sala, para essa experiência?

Nós tivemos duas semanas de treino intensivas para aprendermos todas as experiências. Nós tivemos 23 experiências no total e nós tínhamos de saber como executá-las. Tivemos um treino bastante intensivo através da Mission Control e das diversas equipes que estavam a monitorizar-nos 24 horas. Para as fazer, foi necessário uma preparação prévia e nós conhecemo-nos muito bem durante essas duas primeiras semanas.

Mas isto é um pouco como nos reality shows, como o Big Brother, em que aparentemente, e aí claro que as pessoas são escolhidas para que surjam os conflitos, mas mesmo com uma escolha muito cuidada das pessoas que vão participar na missão, é natural que em 100 dias de convivência surjam algumas tensões. Não foi o caso, não aconteceu isso?

O que eu digo sempre é que, neste caso, quando me perguntam se é parecido com um reality show, eu digo que não parece no aspecto em que isto é uma missão muito profissional e houve muitos protocolos.

E os objetivos são muitos.

E os objetivos são muitos.

E há secretismo em algumas coisas.

Exatamente, e são muito definidos. E há secretismo.

Mas ainda sobre a questão da reação ao isolamento, como é que isso se vai medindo ao longo desses 100 dias de experiência?

Vai-se medindo através destas 23 experiências que eu estava aqui a falar. Não posso falar concretamente, uma vez que é confidencial.

Mas ainda não pode, até porque há de haver outras experiências.

Exatamente. E os estudos também vão sair passado daqui a dois, três, depende da quantidade de anos que vão ser, mas eles vão saindo. Mas eu tive experiências em que tentavam ter indicadores de como é que nós estávamos a adaptar. Podia tanto ser como nós tínhamos que fazer análises de sangue, ou seja, nós próprios tirávamos o sangue uns aos outros. Tivemos que ter esse conhecimento.

Essa prática, claro.

O sangue, a urina, as fezes, o cabelo.

O sono.

O sono também. Nós éramos monitorizados, muitas vezes tínhamos diversos aparelhos, também, neste caso, a parte com elétrodos, eletrocardiogramas, também eletroencefalogramas. Havia diversos tipos de experiências. Infelizmente, não posso ir mais a fundo.

Vocês tinham noção do tempo a passar? Era-vos dito: "Estamos no terceiro, quarto, vigésimo dia"?

Nós tínhamos também relógios. Nós sabíamos efetivamente que dia que era e dia da semana.

Mas não viam luz solar.

Não víamos luz solar, não tínhamos janelas.

Janelas, claro.

Exatamente. A única luz que nós tínhamos era uma luz até parecida aqui com a do estúdio.

Branca.

Era uma luz branca, exatamente.

Nós estamos prontinhos. Nós pensamos nisto cuidadosamente.

Isto também é uma experiência, uma missão.

A luz era bastante parecida. A luz que nós tínhamos lá era uma luz que estava a replicar e era muito parecida ou quase igual à luz da ISS, da Estação Espacial Internacional. Era uma luz que estava branca das 7h às 20h45. Depois ficava uma luz amarela, tal como na ISS, e depois já a partir das 23h até às 19h, durante a hora de dormir, ficava uma luz de presença. Nós tínhamos estas três fases, o nosso ciclo circadiano não mudou completamente.

Era minimamente respeitado.

Exatamente.

Muito bem, vamos seguir para mais uma questão.

Já tem 10 pontos.

Já tem 10 pontos. Se calhar não é do seu tempo, mas a série "Friends". Série "Friends", viu?

Vi.

Quantos eram os amigos?

Posso contá-los?

Claro.

Era a Phoebe, a Rachel, a Monica, o Joey, o Ross e o Chandler. Eram seis.

Seis.

Muito bem.

E estava com o direito a 10 pontos. Eu era incapaz de dizer os nomes todos.

Dizer os nomes, também eu.

Também nunca fui muito do clube "Friends", mas eram seis também, tal como vocês dentro dos espaços desta experiência. Já disse que interagiram antes, que a equipe é importante. Ficaram amigos depois disto?

Sem dúvida, ficamos muito amigos. Como eu estava a dizer, felizmente, neste caso, não tivemos nenhuns conflitos desse aspecto e nenhuns problemas.

Mas houve tensões.

Claro que houve tensões como se fosse, por exemplo, uma família. Estamos 100 dias isolados, é normal que a nossa interação até acabe por ficar um pouquinho como uma família. E dentro de uma casa, normalmente temos aquelas discussões de quem vai lavar a loiça.

Exato, a divisão de tarefas.

A divisão de tarefas, arrumar a casa.

Havia um líder dos seis ou vocês eram todos como...?

Havia um comandante, mas eu diria que foi bastante horizontal. Se fosse necessário uma decisão final, o comandante ia ter. Mas neste caso, nós tínhamos uma posição muito horizontal em termos de responsabilidades e se houvesse algum problema, também falávamos com a "mission control".

E eram de que nacionalidade?

Tínhamos, claramente, aqui português. Tínhamos depois italiano.

Pode dizer o nome, disse o nome do "Friends".

Pronto, também posso dizer esse. Os nomes também.

Os nomes.

Não sei se pode.

Neste caso, eu acho que até poderia, porque acho que estão divulgados. Mas vou dizer cada país.

Em cada país, como o seu.

Exato. Italiano, temos aqui alemão, polaco, francês, e holandês.

Três homens, três mulheres?

Três homens, três mulheres.

Paridade.

Parece mesmo o "Friends".

Como é que ocupavam o vosso tempo? Isto é, não tinham televisão? Aparelhos eletrónicos, internet, redes sociais?

Não. Isso foi um dos melhores detox que eu já fiz.

O isolamento.

Sim. Não ter telemóvel foi uma das melhores coisas. Efetivamente. Mas nós não tínhamos acesso à internet, nós só tínhamos acesso a um jornal, que nós escolhemos, para termos acesso a algumas notícias.

É claro que esteve a ler "O Observador". Não precisa dizer.

Não preciso de continuar.

Não precisa. É secreto.

É secreto. Infelizmente, não posso estar aqui a dizer.

Claro.

Citar jornais.

As experiências ocupavam as vossas oito horas por dia, por exemplo?

Dependia do dia. Nós acordávamos sempre às 7h e íamos dormir às 23h. Tínhamos oito horas de sono. E dependendo do dia, tínhamos alguns dias que estavam repletos de experiências. Das 23 experiências, se calhar tínhamos bastantes e o dia estava bastante ocupado, mas havia dias, efetivamente, por exemplo, também ao fim de semana, em que tínhamos mais algum tempo livre. Em média, nós tínhamos cerca de cinco dias e meio de trabalho. E depois o resto para o descanso. Mas nos momentos em que nós tínhamos livre, nós usávamos, por exemplo, para ler livros, tínhamos objetivos até de ler vários livros, 20 livros, 10 livros, dependia do indivíduo. Mas também tínhamos jogos, jogávamos jogos de tabuleiro, Catan. Também tínhamos um plasma, que nós usávamos para ligar e para planear o dia, ligávamos com o computador, mas não tinha acesso nenhum à televisão. E também usávamos para ver filmes. Quando nós tínhamos a possibilidade de termos tempo livre, usávamos também.

Coletivamente.

Coletivamente.

Era para todos.

Leu muito?

Li muito. Gostava de ter lido mais.

Leu algum livro que possa dizer que leu?

Sim, claro. "The Hitchhiker's Guide to the Galaxy".

Claro.

E por acaso uma situação engraçada foi o nome que nós demos à nossa tripulação, que foi Vanguard 42. Vanguard, como foi a primeira missão da ESA e da DLR, está na vanguarda, são os pioneiros.

E o 42, o célebre número.

Exatamente. O célebre número.

Do "Hitchhiker's Guide".

Diego Paupério Abreu, quando é que saiu de lá?

Eu saí dia 1 de agosto.

Já tem saudades?

Boa pergunta.

Quando chega aqui fora, esta confusão, as redes sociais, tudo o que tinha.

Mas a verdade é que existem muitos estímulos aqui fora e dentro do isolamento nós não ouvíamos nada para o exterior. Se estivéssemos todos calados, era silêncio absoluto. Existe uma espécie de calma nessa situação. Claro que eu tinha muitas saudades dos amigos, muitas saudades da família e também muitas saudades do exterior e daquilo que também adoro fazer. Mas sem dúvida que às vezes também dá algumas saudades.

Aliás, era possível ter contacto com a família, não era?

Tinha uma chamada de duas horas por semana com a família.

Duas horas?

Sim, aos fins de semana. Era em tempo real, nós tínhamos uma chamada normal, não havia aqui delays. O que numa missão de longa duração e talvez nas futuras missões, possa haver.

Onde é que tudo isto aconteceu?

Isto aconteceu em Colônia, na Alemanha.

Temos estado a falar e não dissemos onde é que tinha sido.

Sim.

Podia também não poder dizer, podia ser um local secreto.

Exato.

Mas é um caminho diferente, isto ter acontecido na Alemanha. Podia estar em qualquer sítio da Europa que era basicamente a experiência era a mesma, não?

Poderia, mas neste caso as instalações no campus do Centro Aeroespacial Alemão são muito avançadas, diria eu, pelo menos daquilo que eu vi. E ao mesmo tempo também temos até o EAC, que é o European Astronaut Center, o centro de astronautas europeu, mesmo ao lado. Nós estivemos no IMBE, que é o Instituto de Medicina Aeroespacial Alemã. Esse edifício tinha vários módulos e nós estivemos dentro do módulo que foi preparado exatamente para isolar completamente a tripulação, para fazer um isolamento que seja no mínimo realista.

E não houve nenhum momento em que um dos participantes quisesse sair?

"Eu quero-me ir embora."

Não, felizmente não aconteceu.

Não houve aqueles momentos de claustrofobia, de dizer: "Eu já estou farto disto."

Não, nós fomos, como lhe disse, selecionados a dedo.

Já sabiam que tinham essas-

Exatamente, nós passamos essa fase de seleção. E somos todas pessoas, o que eu também costumo dizer, que acho que também foi o processo desta missão, somos pessoas que gostam de resolver problemas. Nós não gostamos de criá-los. E nós acabamos até por ser todos engenheiros. Não sei se teve aí uma ligação, mas foi um papel fundamental, porque nós nunca deixávamos os problemas para o dia seguinte.

O Bruno falou aqui na questão da claustrofobia. Qual é que era a dimensão do espaço em que estavam?

Era 130 metros quadrados no total, mas eram à volta de 60 metros quadrados utilizados.

Úteis. É pouco?

Sim.

Havia dormitórios ou quartos individuais?

Eram cápsulas. Nós tínhamos cápsulas. Eram seis cápsulas. Tínhamos a main room, a sala principal, e depois tínhamos seis quartos. Até sete, neste caso. Eram duas casas de banho com sanita, era depois também onde nós tomávamos o duche, uma terceira, depois uma cozinha, uma despensa, uma sala com as experiências, outra sala com a parte médica, onde fazíamos as experiências médicas.

Emagreceu?

Emagreci um quilo.

Então já não vou, já não me compensa.

Mas a verdade é que também na tripulação houve pessoas que perderam bastante mais peso.

E foi filmado? A experiência foi filmada?

Nós tínhamos cerca de mais de 20 câmaras. Eu não sei se ao certo eram 23, mas tínhamos mais de 20 câmaras apontadas para nós, apontadas para todo o sítio do habitat, para que vissem toda a nossa atividade.

Estava aqui a pensar num possível documentário.

Temos tantas perguntas para lhe fazer. A próxima é para cinco pontos. Diego Paupério Abreu, qual é a capital do Burkina Faso?

Eu aprendi todas as capitais. Eu já não vou.

Foi exatamente por isso que fizemos esta pergunta.

Faz mais de um mês e meio.

É tão parecido com o Gu-Gu Dá-Dá. Pois é, é parecido com o Gu-Gu Dá-Dá.

Burkina Faso.

Quer ajuda?

Acho que vou precisar de ajuda.

E eu vou tentar dizer isto bem. Uagadugu, Bujumbura, Kampala.

Qual foi a primeira?

Uagadugu. É isso mesmo. O Bujumbura é a capital do Burundi e Kampala é a capital de Uganda.

Como é mesmo, Carla?

Ouvem o podcast. Essa era uma das tarefas que vocês tinham que fazer.

Sim. Não era uma das tarefas, mas neste caso foi um dos objetivos, também para ocupar o tempo.

Mas o Diego se autopropôs ou que todos tinham que fazer?

Não fizemos todos. Vários membros da tripulação acabaram por fazê-lo. Eu até no início achei que era uma tarefa impossível. Pelo menos uma tarefa difícil, porque efetivamente não tinha o conhecimento de muitas capitais e de muitos países no mundo. Mas foi muito interessante, também com o tempo que eu tinha disponível, neste caso, nos tempos livres, foi bastante interessante aprender. Mas é engraçado que eu devia ter revisto antes para ser cinco pontos.

Preparar as capitais todas do mundo é complicado. E qual foi a primeira coisa que fez quando saiu? Aliás, há uma fase quando saem destes 100 dias de isolamento, há uma fase quase de descompressão, em que continuam com alguns acompanhamentos. Mas depois quando está verdadeiramente em liberdade, o que fez pela primeira vez que se recorde?

Primeira vez Mal saí, nós tivemos ainda sete dias de recuperação. Esses dias de recuperação também foram cheios de experiências.

Consta que comeu um pastel de nata.

Exatamente, foi a primeira coisa.

Olhe, temos aqui mais dois para você.

Mais dois?

A Nata Lisboa pensou nisso.

Mal saí, a primeira coisa que nós fizemos, nós tínhamos a mission support e mission control, todas as equipes que nos fizeram o suporte durante a missão, estavam cerca de 40 pessoas à nossa volta, e nós acabamos por dizer apenas umas palavras e fomos a correr lá pra fora, pra ver o sol, pra ver a natureza, para ver o exterior e o ar livre. Isso foi a primeira coisa. Mas eu acho que só foi passado algum tempo, foi no mesmo dia, quando eu saí, eu estava no campus, isso era um sábado, e acabei por estar a passear no campus do Centro Aeroespacial Alemão e sentei-me num banco e não estava ninguém. Estavam as folhas a cair, estava o sol. E foi nesse momento que eu pensei: "Isto até é bom".

Estar cá fora.

Sim, isto é bem bom.

Isto é bonito, isto afinal é bonito.

É bastante bonito, isto é bastante grande. Eu acho que agora até pensaria duas vezes se voltava a repetir a missão. A verdade é: eu voltaria a repetir a missão, mas acho que se calhar pensaria duas vezes naquilo que estava a perder ou pelo menos a isolar-me.

E o que estava a perder era isso, era o movimento das folhas nas árvores e a cor do céu.

Não, era tudo.

Era tudo, obviamente, mas também esses pequenos detalhes passaram a ser mais valorizados.

Sim, sem dúvida. E não foi só essa parte, foi também a parte da presença da família durante toda a missão, porque efetivamente eu só tinha cinco contatos que eu tive que escolher.

Teve que escolher.

Teve que escolher cinco pessoas que podia contactar ao longo desse período.

Exatamente.

E não podia ir mudando as cinco pessoas.

Não. Infelizmente, não.

Ok. Não lhe arranjou problemas na família, isso?

Não. Não houve problemas.

Não estava na lista.

Sim. Podem ter ficado um pouquinho tristes.

Claro.

Mas sem dúvida que foram as pequenas coisas que uma pessoa dá por garantido que fizeram a grande diferença quando saí.

Vamos para mais uma pergunta, é a última. Tem 17 pontos, pode chegar aos 22. Quem foi o primeiro português a ir ao espaço em agosto de 2022?

Foi da Blue Origin. A missão acho que foi a Shepard e tudo. Acho que foi o Mário Ferreira.

Esta era fácil. Este foi um voo turístico. Quando é que vamos ter um português numa missão real no espaço?

Mário Ferreira foi num voo suborbital. Quando é que vamos ter? Não lhe sei dizer. Eu espero que seja breve.

Gostava de ser um deles?

Naturalmente, eu diria que sim, mas neste caso, para ser astronauta é necessário uma grande fase de seleção. Na última seleção, não sei se sabem, mas pelo menos pra ESA, foram cerca de 22 mil candidaturas.

É impressionante.

Estamos a falar de muita concorrência. É bastante complexo. Mas quem sabe, eu espero que exista um português no futuro, um astronauta, porque também serve ao mesmo tempo de inspiração.

Claro.

Efetivamente, eu não tive uma inspiração de um astronauta português quando era novo, mas gostaria, e acho que existem muitos miúdos portugueses também que gostariam.

Mas tinha fascínio pela ficção científica quando era miúdo?

Eu queria até ser astrônomo, eu queria até querer astronomia. Eu tive um telescópio em segunda mão, quando era miúdo, e eu queria seguir astronomia no ensino secundário, mas acabei por ver também as saídas e acabei por seguir a parte de eletrotécnica e computadores, a parte da robótica, porque também era uma parte que eu adorava, e vi que também acabava por ter mais saída. Mas o engraçado é que acabamos por dar a volta e acabei por também encontrar esta parte através do espaço.

E saiu a tempo de ver o eclipse.

Exatamente. E vi o eclipse.

Diogo Paupério Abreu, ao entrar nesta experiência, está de alguma forma a colocar-se na pole position em Portugal para poder vir a ser um astronauta? Isto é, tem alguma importância isso a esse nível? Qualifica-o mais do que qualquer outra pessoa?

Eu diria que me pode qualificar mais na parte da seleção, mas eu não diria que estou na corrida. Quando abrir as próximas fases, não sei daqui a quantos anos, mas seis anos, se calhar até me vou candidatar. Posso me estar a posicionar para isso, mas eu diria que ainda estou muito longe, porque a fase de seleção é mesmo muito complexa.

E pra esta experiência que teve, quanto tempo é que demorou todo o processo? Desde que surge.

Foram cerca de cinco meses desde a parte até à fase de seleção, porque nós ainda fomos convidados a uma zona da Alemanha também para fazermos testes psicotécnicos, para fazermos questionários, para fazermos entrevistas, e só a partir daí é que foi necessário. Mas continuo a dizer, é muito diferente a parte de astronauta. A fase de seleção é muito diferente.

Não pode dizer o número de candidatos, mas havia muitos portugueses? Pode pelo menos dizer isso?

Houve vários portugueses. Sim, isso posso dizer.

E o que está a fazer agora?

Comecei agora um doutoramento. O programa doutoral em Engenharia de Eletrotécnica e Computadores, neste caso, em Sistemas Computacionais.

E onde é que está a fazer?

No INESC TEC.

Ok.

No INESC TEC, é o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores: Tecnologia e Ciência. Ele procura desenvolver soluções, neste caso, eu estou na parte do CRAS, que é o Centro de Robótica e Sistemas Autónomos. Também tem a parte terrestre, a parte marítima, a parte aérea, mas tem aqui um foco também marítimo. Mas também existem alguns projetos que estamos agora a começar a ter, também ligados um bocado à parte espacial. E quem sabe, eu espero também trabalhar um bocadinho nestas duas vertentes, uma vez que também estamos a falar de ambientes extremos.

Claro, e aproveitar esta experiência ainda mais.

Exatamente.

E tem dado muitas entrevistas? Está agora a começar.

Eu dei uma pra "O Observador".

Sim.

Certo.

Não sei se posso falar o nome.

Pode, claro.

Não disse a idade. Fiz uma excelente entrevista.

É publicidade, mas pronto.

O Martim que esteve a acompanhar o eclipse de uma maneira como nós muitas vezes aqui recordamos. Muito emotiva, sim.

Foi uma excelente entrevista, mas pra além dessa entrevista eu não tive mais nenhuma. E este é o meu primeiro podcast.

Então muito obrigada por este privilégio.

Não, obrigado.

Eu recebi aqui o Diogo Paupério Abreu, fez 22 pontos na comissão de inquérito. Quase o pleno.

O meu objetivo era mais 10.

Obrigada.

Obrigado e bons voos.