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Está na hora de destacarmos artigos ou histórias da imprensa nacional ou internacional. É a conferência de imprensa das manhãs 360. O artigo que trago há uns dias no Expresso é sobre a loja francesa Colis Colis, que abriu no início do mês em Lisboa.

Como é que se chama a mesma loja?

Colis Colis.

É coli? Isso não é-

Pacote, não é aquela bactéria.

A bactéria.

Não, não é. Abriu no início do mês no hub da Amadora. Mas é um hub. Desculpa, é um hub. E é distinta de todas as lojas que conhecemos, porque tem a particularidade de vender ao quilo encomendas perdidas. Mas é às cegas, ninguém sabe o que está a comprar.

É um total outro, basicamente.

É. Colis quer dizer pacote. Em apenas cinco dias, foram vendidas mais de três toneladas de encomendas não reclamadas. As filas chegam a ter três horas de espera, começam à porta do centro comercial ainda antes de abrir. E este sucesso é explicado pela curiosidade de abrir encomendas, não sei, a esperança de ter sorte, tal como numa raspadinha ou assim numa ida ao casino. O Luís está a olhar pra mim. Isto é verdade, isto aconteceu, está mesmo acontecendo. As encomendas podem ser abanadas, apalpadas, só não podem ser abertas.

Não pode, claro.

Por isso, se as embalagens forem escolhidas com mais afinco, com mais tempo, deixando de lado, por exemplo, as mais pequenas e leves, e escolhendo aquelas que têm formato de caixas de telemóveis ou de outros aparelhos eletrónicos, pode ser que a compra acabe por ser rentável. Também podem calhar tênis, óculos de sol, bijuteria, camisolas de futebol estrangeiras, mas lá está, não há garantia que não sejam falsificações. Isso é como as rifas.

Exatamente, na quermesse.

Sim, não há limite de tempo para andarem volta das encomendas. São colocadas num cesto, que é pesada à saída. O preço por quilo é de €21,99, mas se trouxermos menos de um quilo, pagamos €24,99. É como se fosse um preço fixo, quer tragas uma ou até um quilo. A loja foi criada em França por dois amigos de infância, que viram uma oportunidade de negócio nas muitas toneladas de encomendas que não eram reclamadas e que ficavam acumuladas em armazéns e que depois acabavam por ser destruídas. A ideia foi então começar a comprar toneladas de pacotes perdidos e vendê-los a revendedores ou diretamente aos consumidores. O sucesso nos últimos dois anos fez com que quisessem expandir o negócio. Andaram em quinces entre Madrid e Lisboa, mas disseram que encontraram em Portugal uma boa solução. Os portugueses foram muito acolhedores. O objetivo, dizem, além de dar destino a estas tais encomendas que seriam destruídas, é que as pessoas desfrutem da experiência e que seja um momento de prazer. Não sei se foi o caso de quem, num quilo de encomendas, ficou com um helicóptero telecomandado para crianças, dois frascos de spray para hemorroidas. Pode fazer falta, nunca se sabe.

É o que vem.

Agora com as festas, vem picante. Um pijama infantil do Homem-Aranha, um peluche, três colares com uma daquelas pedras para dar energia, um par de brincos, um anel com coração brilhante, dois pequenos objetos plásticos que não se sabe para que servem e um saquinho com 50 peças metálicas. Disto tudo não sai. O pijama? Do Homem-Aranha? É aquilo que se salienta. Há muita coisa que pode ser útil. Isso custou €24, foi? Não, custou €21,99. Que era um quilo. Exatamente.

Não, o helicóptero para a criança que vai adorar. Está baixando.

O artigo está no Expresso. A loja está no hub da Amadora.

Só um parêntesis. Não sei se ainda há esse formato televisivo, na MTV talvez, que é este esquema com contentores, que são abertos.

Sim, eu vi, exatamente.

Então as pessoas olham para alguém.

Muito bem.

Só podem abrir a porta do contentor, não podem ver o que está lá dentro.

Não podem ver.

Mas se usassem os scanners chineses. Eles sentam também.

Vamos agora a um assunto um pouco mais sério, muito mais sério. E está em todo lado o caso do julgamento de Dominique Pelicot e dos 50 homens que violaram a mulher de Dominique Pelicot, Gisèle Pelicot. Eu escolhi aqui um artigo do Guardian que procura responder a esta pergunta e apresentar estes homens que foram condenados pelos abusos e pela violação de Gisèle Pelicot. Foram 50 homens julgados pela violação desta mulher e que foram condenados apenas entre três a 15 anos. Os abusos e violações foram praticados num período de nove anos, entre 2011 e 2020. Estes homens condenados agora têm entre os 26 e os 74 anos. Há um enfermeiro, um jornalista, um guarda prisional, um soldado, caminhonistas, agricultores. A maioria vivia num raio de 60 km de Mazan, terra onde vivia o casal, na altura, casal Pelicot. Seis tinham sido já acusados de violência doméstica, dois tinham sido condenados por violência sexual, 23 tinham cadastro por outros tipos de crimes, mas alguns não tinham nada disto, não tinham cadastro, não eram suspeitos da prática de qualquer crime. Alguns disseram no julgamento que não tinham ido à casa de Pelicot com a intenção de violar Gisèle e acabaram por pedir desculpa. E entre eles estão Cyril Deville, um talhante de 54 anos, que violou Gisèle enquanto a mulher dele estava fora de casa. Lionel Rodriguez, funcionário do supermercado local, um homem com três filhos. Jean-Pierre Marchal, de 63 anos, que não foi condenado por violar Gisèle, mas por seguir os métodos de Dominique e de ter violado a própria mulher com estes métodos e juntamente com Dominique, foi condenado a 12 anos. Fabien Sauton, de 39 anos, que tinha um longo cadastro por assalto à mão armada e tráfico de droga, violência doméstica. Este, como muitos dos condenados, disse que julgava ser um jogo entre o casal, mas que reconhecia que era violação. Que jogo tão interessante. É impressionante. Ele acabou por reconhecer que era violação, porque na altura Gisèle não estava claramente em condições de manifestar o seu consentimento. Simone McEntee, de 43 anos, foi o único homem que Gisèle reconheceu, porque ele tinha ido à casa levado por Dominique. Numa outra altura. Numa outra altura, para ver Gisèle. Isto é horrível. McEntee, também como outros homens, foi vítima de abusos na adolescência, ou pelo menos foi com os traumas que alguns tentaram justificar o seu comportamento. Jérôme Villela, de 46 anos, foi dos poucos que reconheceu que sabia que Gisèle estava inconsciente naquele momento e disse a um psiquiatra que sabia, tinha noção que se ela estivesse consciente, não teria dado o consentimento. Por último, para mencionar mais um destes homens, Thierry Parisot, de 54 anos. Ele tornou-se alcoólico após a morte do filho de 18 anos. Depois separou-se da mulher, esteve internado num hospital psiquiátrico e foi aí que o identificaram como um dos suspeitos da violação de Gisèle. Ele diz que não saiu de casa para o encontro com Pelicot a pensar que ia violar alguém, mas foi isso que aconteceu. Muitos disseram que não partiram com essa intenção, mas quase todos também acabaram por reconhecer que não tinha havido consentimento e que o que tinham feito era, de facto, um crime, era uma violação, embora alguns mantenham que não a violaram. Sim, eu li uma declaração em que não, porque o marido tinha autorizado. Tinha autorizado, tinha dado o consentimento e pensavam que era um jogo. E que o marido podia decidir por ela. Alguns que disseram isso acabaram por reconhecer que estava errado. Mas é muito interessante, porque são pessoas muito diferentes, com histórias de vida muito diferentes, algumas perfeitamente integradas, e perceber como é que disto se passa para um crime desta natureza

Acaba por ser estranhamente interessante.

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