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Olá, sejam muito bem-vindos à consulta informal do Projeto Arterial, uma iniciativa do Observador dedicada às doenças cérebro cardiovasculares. Nesta conversa, que estamos a gravar em vídeo e gravamos também em áudio para ser disponibilizada em formato podcast e na Rádio Observador, vamos falar com um médico e com um doente sobre insuficiência cardíaca, um problema que afeta cerca de 700 mil portugueses com idade acima dos 50 anos e é responsável por várias doenças. Temos hoje conosco Rui Batista, médico cardiologista, diretor do departamento de cardiologia da Unidade Local de Saúde de Entre o Douro e Vouga e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e João Abreu, que teve o diagnóstico de insuficiência cardíaca em 2008. Vamos começar então esta conversa com Rui Batista, uma vez que a insuficiência cardíaca, apesar de ouvirmos falar bastante neste problema, muitos doentes não conseguem identificar nem decodificar bem o que se está a passar com eles. Como é que podemos, de uma forma sucinta e clara, explicar às pessoas que problema é este?

Obrigado. De facto, o que é isto da insuficiência cardíaca? A insuficiência cardíaca é uma síndrome, isto é, é um conjunto de queixas e de achados no corpo do doente que sofre desta síndrome, e esta síndrome é causada essencialmente pela incapacidade do coração bombear o sangue na quantidade necessária para os órgãos do corpo. O que isto faz? Isto faz com que, se o coração não consegue bombear o sangue na quantidade necessária para os órgãos do corpo, os órgãos vão começar, no fundo, a queixar-se. E em termos práticos, o doente, o que é que vai sentir? Vai sentir cansaço, fadiga, falta de ar. Habitualmente, estes sintomas são mais evidentes quando faz esforço, mas em formas mais avançadas da doença, estes sintomas aparecem também mesmo sem esforço, em repouso ou com esforços mínimos, como por exemplo, lavar os dentes ou fazer qualquer coisa com as mãos um pouquinho mais elevadas, faz logo uma grande diferença ao doente. Tanto um cansaço, uma fadiga, falta de ar intensas. Muitas vezes esta falta de ar também é mais evidente quando as pessoas estão deitadas e quando se sentam, melhora. E depois, habitualmente é acompanhado pelo que nós chamamos a retenção de líquidos, isto é, como o coração não consegue também enviar o sangue suficiente para os rins filtrarem, vai começando a acumular água dentro do organismo. Então as pernas começam a ficar inchadas, em formas mais avançadas, vai água para os pulmões, que dá ainda mais falta de ar, e vai água para o abdômen, dando muitas vezes o fígado inchado e o que nós chamamos ascite, que é água dentro do abdômen. Portanto, no fundo, estas são as queixas principais dos doentes com insuficiência cardíaca.

Mas há sintomas, desculpe interromper, mas há sintomas que começam a ser mais limitativos numa fase mais avançada, mas inicialmente também podem ser sintomas que a pessoa pode assumir, que é o cansaço do dia a dia, que é da vida familiar, que é a profissão, que é porque andamos todos em estresse.

É verdade.

Isso pode levar a uma demora a procurar ajuda médica.

Sem dúvida. E nós, no estudo recente que citou, nós identificamos, principalmente nas pessoas mais velhas e nas mulheres, que até 90% das pessoas têm sintomas, mas que desconheciam o diagnóstico prévio de insuficiência cardíaca. Portanto, a importância de valorizar este tipo de sintomas, porque, em algumas destas situações, de facto, estamos perante a incapacidade do coração de lidar com as necessidades energéticas do organismo. Estava depois só dizer que há formas mais incomuns de sintomas, mas também podem surgir, que são as palpitações ou os desmaios que não têm causa, que também podem ser uma manifestação desta síndrome da insuficiência cardíaca. Só mais um aspecto que tem a ver com, a insuficiência cardíaca é uma doença que, no fundo, é a história final de muitas doenças cardíacas. Uma pessoa pode ter tido um infarte, lesionou o coração e surge a insuficiência cardíaca, ou pode ter arritmias graves que lesam o coração e levam à insuficiência cardíaca, ou pode ter hipertensão, diabetes, que lesam o coração e levam à insuficiência cardíaca.

Portanto, já são pessoas que já fazem parte dos grupos de risco.

Maioritariamente, apesar de não ser sempre assim, habitualmente as pessoas têm fatores de risco ou doenças que lesam o coração continuamente e que levam ao desenvolvimento da insuficiência cardíaca.

No caso do João Abreu, foi uma completa surpresa este diagnóstico, não foi?

Foi. Começo por agradecer o convite e realmente, respondendo à sua questão, foi uma surpresa enorme, não estava minimamente à espera do que ia acontecer. O primeiro impacto foi uma coisa, não acreditei muito no assunto, desvalorizei. Depois, com o passar do tempo, comecei a observar. E houve limitações grandes que me começaram a obrigar a compreender a doença e a seguir os conselhos médicos.

Mas qual é que foi o episódio que o levou a procurar ajuda médica? Bem sei que depois, mais tarde, nós tivemos uma conversa prévia a esta gravação, e bem sei que houve aquele período, também que eu acho que é típico, de negação, até chegar a uma adaptação e até possível aceitação da doença, mas houve algo que o fez ir ao hospital, mas também não foi logo aí que soube que tinha esta doença, certo?

Não, eu fui ao hospital com uma simples dor nas costas, que não passava de uma pontada, já estava há volta de oito dias, já se tinha passado, e nunca mais passava. E era inclusivo. Quando fui ao hospital, fui confrontado com várias arritmias. Para mim, foi um choque enorme.

Nunca tinha ouvido falar, não é?

Não, ouvi falar que era arritmia, mas isso acontece aos outros, nunca acontece a nós.

Claro, quando acontece a nós é que é mais complicado.

A partir daí, foram desenvolvidos vários exames, onde vim ter conhecimento desta dívida de doença.

E quando ouviu insuficiência cardíaca?

Como lhe disse, não liguei. Isto foi tudo seguido. Eu fui internado pouco tempo depois, assim de repente. Foi feito o selo cateterismo, foi feita a introdução de um CDI e, como foi tudo de repente, não deu pra pensar muito no assunto.

Desculpa interromper, Rui Batista. Só para percebermos o que é o CDI, porque há pessoas em casa que estão a ouvir ou a ver, conforme o formato, e que nos acompanhem, que não sabem. O que foi isto que aconteceu ao João e que teve que ser feito?

O CDI é um cardioversor desfibrilador implantável. É um dispositivo que nós implantamos aqui debaixo da pele, no tórax. Os eletrodos vão até o coração. E o que este dispositivo vai fazer? Algumas formas de insuficiência cardíaca manifestam-se por arritmias graves. Tão graves que podem levar à morte súbita. E outras, mesmo que não se manifestem dessa forma, o risco de elas acontecerem é tão grande que justifica colocar este dispositivo, que vai identificar se essas arritmias surgem, e se surgirem, pode tentar tratá-las, e se não conseguir, dá o choque. Isto faz com que evite um evento de morte súbita, que seria naturalmente muito grave. Portanto, o CDI, se ocorrer uma arritmia grave, vai impedir que essa arritmia tenha consequências fatais. É um dispositivo que nós implantamos a alguns doentes com insuficiência cardíaca.

E o João então fez isso, esteve internado, foi o primeiro tempo da doença, e depois disso, depois desse CDI? Tive que interromper para esclarecermos o que é.

Depois dessa situação, recorri ao médico que conhecia na altura. Ele me fez o balanço da situação. Chegado a um ponto, ou escolhia um lado ou outro, ou vivia e seguia os conselhos médicos, o seguimento deles, ou então as coisas acabavam ali de maneira mais complicada. Optei por realmente estar a par da doença, do que era a insuficiência cardíaca, e houve várias restrições depois que tive que fazer ao longo da minha vida, até agora.

Desde logo, teve que fazer uma série de mudanças. Nem lhe deram tempo para preparar.

Nenhum. Foi uma coisa assim, tudo de repente. Desde a ser internado, a fazer o exame, a fazer a colocação do CDI, foi tudo assim de repente. Não deu pra pensar em nada, nem havia nada muito a pensar, mas não deu pra pensar. Foi logo resolvido.

Ou é ou é, não é, Rui Batista?

Infelizmente, como falamos, a maior parte dos doentes, muitas vezes, a primeira manifestação da insuficiência cardíaca é quando vão à urgência com um sintoma agudo, habitualmente com falta de ar ou porque estão muito inchados. Na maioria das vezes, o diagnóstico não é feito.

Não é precoce.

E a primeira manifestação clínica é de gravidade suficiente pra levar o doente à urgência. O doente é internado. Aliás, é preciso compreender que apesar de falarmos que a insuficiência cardíaca era um pouco desconhecida, na verdade, no hospital, toda gente a conhece, porque a insuficiência cardíaca é a principal causa de internamento em doentes com mais de 65 anos.

Não, eu diria o desconhecimento por parte das pessoas.

Exato. Porque nós no hospital, infelizmente, conhecemo-la bem e muitos dos primeiros diagnósticos são feitos justamente quando o doente se dirige ao hospital pela primeira vez.

Via da urgência e não de medicina geral e familiar.

Exatamente. E por isso é muito comum esta sensação que de repente estava tudo bem e que num espaço curto de tempo deixou de estar tudo bem, o doente é internado e são feitos muitos procedimentos nesse internamento. E estes procedimentos habitualmente o que são? São procedimentos que nós fazemos para perceber não só porque é que o doente tem insuficiência cardíaca, porque como eu disse, há muitas causas, mas também depois pra perceber a gravidade da insuficiência cardíaca. E em algumas situações, nós acabamos por intervir de maneira a tentar tratar as causas da insuficiência cardíaca ou mitigar o risco a longo prazo desta insuficiência cardíaca.

E também para ir vigiando ao longo do tempo, porque passa a ser uma pessoa que dá entrada no hospital e que a partir daí tem um grande tempo de acompanhamento hospitalar muito estreito.

E depois, a partir daí, os doentes habitualmente têm este internamento inicial e depois vão ter um seguimento a nível hospitalar. Para muitos doentes, será pro resto da vida, partilhado entre a consulta e estruturas que podem existir nos hospitais especificamente pra acompanhar estes doentes, são as chamadas clínicas de insuficiência cardíaca, onde o doente vai fazendo tratamentos e sendo avaliado de forma sistemática.

Portanto, a vida mudou a partir daquele momento e a partir daí, até algumas coisas que fazia a nível solo, o João mergulhava.

A nível profissional, tudo acabou. A nível de lazer, também, tudo acabou.

Não acabou tudo, João, vá. Em termos de profissão, teve que se reformar de imediato.

Fui logo tratar dos papéis. Trataram logo dos papéis.

O que é que fazia?

Estava na parte comercial. A vida comercial é muito ativa, e isso tive mesmo que parar. Ia ser condicionado ao longo do tempo. E agora, passado estes anos, realmente já noto esse condicionamento, mas teve que ser assim.

Inicialmente, teve que deixar de conduzir.

Na altura, não deixei logo de conduzir. Eram cortes muito sucessivos e muitas coisas juntas, e eu recusei-me a isso. Havia coisas que eu ia abdicando, como o caso de mergulhar, por exemplo, andar de barco. Fui abdicando disso. Foi um impacto muito grande.

Custou-lhe muito.

Muito, custou-me muito, porque era o meu passatempo. Depois, a partir daí, deixar de conduzir, isto tinha que ser uma coisa de cada vez. E as coisas foram se assim sucedendo, de ano a ano, de mês a mês. Até chegar onde estamos.

E depois teve também que adaptar a nível de alimentação?

Sim, houve muitos condicionamentos. A nível da alimentação, a nível de ingerir bebidas alcoólicas, o símbolo dos vinhos, o símbolo das cervejas, isso tudo acabou.

Que a nível social é uma pressão que eu diria que é muito complicada.

Aceita-se. Neste meu caso, eu sabia o que é que tinha, sabia as condicionantes que tinha. Tinha a opção ou fazer ou não fazer. Se eu optei por fazer, vamos fazer tudo, não vamos fazer só metade. Optei por fazer. Não me custou, vou sair com amigos na mesma, eles podem fumar, podem beber, sem qualquer problema, não faz diferença absolutamente nenhuma. Eu não posso? Não posso. Tudo bem.

Desde o momento do diagnóstico até hoje, tem então um conjunto de terapêuticas que tem que fazer, inclusive algum tratamento hospitalar. Quer resumir como é que é essa parte? E sei também que está à espera de um telefonema importante.

É verdade. Além dos medicamentos diários, a toma dos medicamentos diários, apareceu-me há cerca de um ano, mais um medicamento que me veio ajudar, a nível de cansaço, que é uma toma no hospital de 15 em 15 dias de um novo medicamento. É injetável, estou lá há cerca de seis horas. Realmente sinto-me com mais força, sinto-me com outra atividade. A partir daí, a vida vai continuando dia a dia. Sabemos os limites que temos, o nosso corpo obriga-nos a fazer esses limites, não dá pra exagerar. Mesmo que queiramos exagerar, não podemos exagerar. Não dá. As coisas não dão. Depois é mentalizarmos nisso. E ao dia a dia é mentalizarmos nisso e arranjar soluções para ultrapassar estas falhas que nós temos ao longo da vida e que adquirimos.

Estamos a falar de quantos medicamentos por dia, mais ou menos?

Os medicamentos todos, em torno de 21 comprimidos.

Por dia. Em relação à adesão à terapêutica, como são muitos medicamentos, pode ser difícil depois também ter esta-- o João é um bom caso, porque é cumpridor daquilo que lhe sugerem, mas acredito que não seja a regra, infelizmente, de todos os doentes.

Sim, no tratamento da síndrome de insuficiência cardíaca, nós temos vários pilares. Nós temos a parte das alterações de estilo de vida, a abstinência alcoólica, muito importante. Temos a parte dos dispositivos, alguns tratamentos cirúrgicos que podem ser necessários, e temos a parte da terapêutica farmacológica. E de facto, como nós temos fármacos que vão atuar em várias vias patológicas, muitos deles são diferentes. Tomas de manhã, tomas à tarde, e é muito comum os doentes relatarem a grande complexidade que estas estratégias farmacológicas determinam. Claro que a adesão terapêutica é um aspecto fundamental, e estes medicamentos só funcionam se de facto forem tomados da forma que têm que ser tomados. Muitas vezes há diuréticos que são muito incômodos, porque a pessoa depois tem que ir muitas vezes à casa de banho durante o dia e corta-lhes o dia completamente. Há a questão de medicamentos que podem ter efeitos secundários. E portanto, pro doente e pros seus cuidadores, é um desafio conseguir gerir toda esta terapêutica, mas na verdade, a adesão é fundamental. Ter um doente tão disciplinado que consegue tomar de facto a maioria das tomas na hora que deve ser, é muito bom. Claro que aqui o principal a ganhar é o doente, porque nós sabemos que o benefício máximo de todas estas estratégias ocorre quando de facto a adesão terapêutica é boa. Existem várias estratégias para melhorar a adesão terapêutica, o facto do contacto com as clínicas de insuficiência cardíaca, o apoio do sistema ao doente é fundamental pra ele se sentir acompanhado e sentir que há um compromisso biunívoco entre os cuidadores.

É quase um contrato.

É um contrato, é verdade, é quase um contrato.

Tem direitos e tem deveres.

A nossa proposta é: nós vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance pra o melhorar. Do seu lado, vamos tentar que consiga acompanhar este regime terapêutico. Pode dizer-nos, sentir que não consegue, e nós podemos tentar alternativas. Mas lá está, a comunicação aqui é fundamental, e perceber se o doente está de facto a tomar a medicação é fundamental pra nós conseguirmos também, se isso não acontecer, encontrar formas de melhorar esta adesão terapêutica. E há muitas ferramentas pra o fazermos.

E haver um ajuste, se for necessário. Esse ajuste terapêutico conforme as necessidades de cada doente.

Exatamente.

Não ser o doente a fazer mudanças e deixa tomar, porque hoje se sentiu mal ou então ao fim de semana se calhar não faz mal não tomar. Às vezes há situações-- ou não dizerem tudo ao médico.

Em alguns medicamentos, até é possível que a família ou o doente esteja instruído pra fazer alterações terapêuticas se sentir que isso é necessário. Mas pra maioria dos medicamentos, eles não devem ser interrompidos sem indicação médica. Ou sem acompanhamento da equipe do doente que está a gerir o processo. E claro que interromper a medicação toda, que é uma coisa que acontece mais vezes do que seria desejável, muitas vezes é a antecâmara de ir parar à urgência com uma descompensação de insuficiência cardíaca.

Quais é que são as consequências de uma insuficiência cardíaca não tratada e, por sua vez, não controlada?

A insuficiência cardíaca é uma doença inexoravelmente progressiva. Portanto, se nós tivermos um doente com insuficiência cardíaca em que nós não tenhamos qualquer intervenção, e dependendo, naturalmente, da forma em que o doente se encontra previamente, mas a insuficiência cardíaca é inexoravelmente progressiva. As formas mais graves poderão ter uma mortalidade de 50% a um ano. A maioria das formas terão uma mortalidade de 50% a cinco anos. Estamos a falar de uma síndrome, e eu não quero ser catastrofista, mas é uma síndrome que pode ter um prognóstico pior que a maioria dos cancros, se nós não a tratarmos. Agora, a grande vantagem, como nós temos tantas ferramentas pra tratar a insuficiência cardíaca, que nós conseguimos melhorar o prognóstico do doente, mas a insuficiência cardíaca, enquanto síndrome, pode ter um prognóstico muito sombrio.

O João é um caso em que a ciência tem estado ao seu lado, porque tem acompanhado desde os 47 aos 62, e agora está a aguardar uma outra fase.

É verdade. Eu fui candidato para um transplante cardíaco É mais um passo em frente, mais uma barreira que teve que ser solucionada e saltada. Ficamos à espera.

Está a guardar o filme, quando for, vai e daqui a dois anos voltamos a falar.

Sim, eu não penso muito no assunto. Sei o que é, sei o que tenho que fazer. Não vou estar constantemente a pensar nesse assunto, senão leio em doudo mesmo. Outra forma de dizer antes estar sempre a pensar na mesma coisa. Já de si, com a notícia que foi, abala-se muito, o nosso sistema abala muito. Eu fiquei muito abalado com a situação, mas compreendi que era a hipótese que tinha, não havia outra. É ou não é? Optei por ser. Estamos a estar à espera da situação.

E que conselhos é que daria a outras pessoas que estejam numa situação semelhante?

As pessoas que sabem que têm a doença, estão acompanhados, devem ser acompanhados pelos médicos, e depois abstrair-se da doença, tentar viver o melhor o dia a dia. Porque se nós estamos sempre a pensar na doença, não se vai lado nenhum. A doença existe, nós sabemos o que temos, sentimos o que a doença está a nos a provocar. Vamos partir e gozar o dia a dia o melhor que se pode, com amigos, com família, passeios, aquilo que se consegue fazer melhor. E o resto, onde for, logo vai surgir. Não vale a pena estar muito a fazer projetos daquilo que vai acontecer ou que não vai acontecer. Não sabemos.

Sente apoio da equipa que o segue? Não sei se tem o telefone do médico, se tem o contacto da equipa, se sentir alguma coisa estranha, pode rapidamente, sem ter que ir ao hospital, contactar?

Eu estou a ser seguido no Hospital Garcia de Orta e posso lhe garantir que há pouco tempo tive dois internamentos de urgência e não fui assistido logo pela médica que me costuma seguir, foi por outra equipa. E posso lhe dizer que fui extremamente bem tratado, desde os médicos, desde a parte de enfermagem e até os auxiliares. Havia palavras de carinho, havia conforto, não faltou rigorosamente nada. Sinto que sou acompanhado. Se houver alguma situação de urgência, tenho o número do hospital, ligo para o hospital e há sempre alguém que ajuda. Se houver alguma coisa muito urgente, recorra às urgências.

Ou liga ao 112, se calhar é até o mais adequado. Rui Batista, há um estudo recente, eu queria voltar a ele só para terminarmos, que veio trazer dados preocupantes em relação à insuficiência cardíaca e dados comparativos a um outro estudo, que julgo que era de 1998, que vem trazer também novas preocupações. Quer falar-nos resumidamente sobre isso?

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia, em colaboração com a AstraZeneca e Nova Medical School, desenvolveu nos últimos quatro anos, um grande estudo epidemiológico chamado PORTOS. E o que nós fizemos nesse estudo? Tínhamos um caminhão onde tínhamos todas as ferramentas para diagnosticar a síndrome da insuficiência cardíaca e fomos, de forma aleatorizada, percorrer o país, Portugal continental. Quase 6200 pessoas. Chamamo-las das listas dos centros de saúde para fazerem a marcha diagnóstica da insuficiência cardíaca. E o que nós identificamos? Em primeiro lugar, em pessoas com mais de 50 anos, porque a insuficiência cardíaca está muito relacionada à idade, ao envelhecimento, e nós temos que nos lembrar que Portugal é um país envelhecido. Portugal, acima de 50 anos, tem quase metade da população.

Uma consequência da longevidade.

Da longevidade. É bom, por um lado, mas coloca outros desafios. E então, o que nós identificamos? Nós identificamos que nesta amostra de pessoas com mais de 50 anos, 16% das pessoas tinham queixas de cansaço, de fadiga ou de edemas. E quando nós aplicávamos os testes para diagnosticar a insuficiência cardíaca, de facto, havia sinais de que aquelas queixas provavelmente eram secundárias à insuficiência cardíaca. Só que encontrámos também uma grande heterogeneidade entre as regiões do país, em que o Alentejo tinha uma prevalência da insuficiência cardíaca, que era quase o dobro da região Norte do país. Isto tem muito que ver com os fatores de risco da insuficiência cardíaca, a hipertensão, a diabetes, a obesidade. Identificamos que a maioria destes casos de insuficiência cardíaca, nós temos essencialmente dois grandes grupos de doentes com insuficiência cardíaca, doentes como o João, que têm um coração que tem muita dificuldade em contrair, mas temos uma outra forma de insuficiência cardíaca, em que o problema não é tanto o coração contrair, mas é ele conseguir relaxar rapidamente para receber o sangue que está a vir dos pulmões. Se ele também não conseguir relaxar, o sangue não vem dos pulmões e acumula-se para trás. E esta forma encontra-se mais associada a doentes mais velhos, a mulheres, à obesidade e à hipertensão arterial. No fundo, identificamos que até um em cada nove pessoas que tinham insuficiência cardíaca desconheciam o diagnóstico. Isto dá-nos imensas linhas de atuação. Há claramente necessidade de ter as ferramentas disponíveis para fazer o diagnóstico de insuficiência cardíaca. E na verdade, existe uma análise que serve de triagem, que é o NT-proBNP, que infelizmente não é comparticipado pelo SNS e que deveria ser para permitir pelo menos um rastreio de base populacional da insuficiência cardíaca, bem como outros exames que infelizmente ainda não são comparticipados e que podiam ajudar os médicos de família a fazerem o diagnóstico mais precocemente. Qual é o objetivo? O objetivo é encontrar estes doentes na comunidade, tal como nós fizemos no estudo. Porque se eu identificar o doente na comunidade e se intervir logo nessa altura, provavelmente ele daí a dois, três ou quatro anos não vai ter a descompensação que vai levá-lo ao hospital e que vai gerar aquele internamento, que se calhar era evitável se nós tivéssemos feito uma intervenção mais precoce. O estudo PORTOS tem muitos outros dados interessantes sobre a saúde cardiovascular da população portuguesa, que depois nós iremos divulgar a breve trecho, mas de facto, o dado primário é que encontrámos 700 mil portugueses que sofrem de insuficiência cardíaca. E tem que ser muitos portugueses para a insuficiência cardíaca ser a principal causa de internamento.

Se não estou em erro, 90% desconhecia a sua doença.

Como muitas destas formas de insuficiência cardíaca têm estes sintomas que são relativamente inespecíficos, como a fadiga, um cansaço, um inchaçozito das pernas. A verdade é que as pessoas vão deixando andar, atribuem à idade, atribuem que andam mais cansadas Como depois não temos disponíveis no médico de família, logo as ferramentas mais simples de diagnóstico, nomeadamente esta análise do NT-proBNP, estas queixas podem ficar um bocadinho em standby e acabam por não ser valorizadas. E os doentes também: "Pronto, vamos andando." Só que em alguns destes casos, de facto, estas queixas correspondem a síndrome de insuficiência cardíaca e depois a doença vai progredindo e vai ter o seu evento, mais cedo ou mais tarde.

Para terminar, que conselho então é que daria a quem nos está a assistir, sendo que nem sempre o acesso pode ser muito facilitado? Mas o que é que podemos dizer, em resumo? O que é que podemos aconselhar as pessoas a fazerem perante esses sintomas?

Nós temos que começar sempre pelo princípio. O segredo para não ter doenças cardiovasculares é ter uma saúde cardiovascular adequada quando somos mais novos. Portanto, evitar os fatores de risco: fumar, o álcool, ter a pressão arterial controlada, evitar o sal, ter uma dieta rigorosa, fazer exercício físico, isto para evitar os fatores de risco que vão levar à insuficiência cardíaca. Quando os fatores de risco estão instalados, como a hipertensão, a diabetes, a obesidade, as pessoas devem cumprir escrupulosamente as indicações do seu médico para garantir que os fatores de risco estão controlados e que, portanto, não vão lesar o coração. Quando os doentes têm sintomas, e os sintomas cardinais que nós falámos, o cansaço, a falta de ar de esforço, falta de ar quando a pessoa está deitada, o edema, as pernas inchadas, a barriga inchada, estes sintomas devem ser valorizados. A valorização destes sintomas deve fazer com que o doente procure o médico para que possa ter acesso a uma avaliação médica e depois aos exames que ele considerar adequados para o seu diagnóstico. E, portanto, no fundo, nós podemos prevenir a insuficiência cardíaca, por um lado, evitando os fatores de risco, quando eles aparecem, tê-los bem controlados e depois quando aparecem sintomas, valorizá-los para que permita fazer o diagnóstico.

Muito bem, obrigada. João Abreu, uma última mensagem, muito rápida, para quem estiver a assistir.

Eu acho que as pessoas, os mínimos sintomas que tenham, realmente devem recorrer ao médico e não vale a pena pensar que as coisas acontecem aos outros, não acontece comigo. E depois temos ali os médicos para nos seguirem e para nos orientarem, e devem seguir os conselhos médicos.

Fazer a sua parte, que é o que o João faz. Muito obrigada aos dois. Foi a consulta informal do projeto Arterial, uma iniciativa do Observador dedicada às doenças cerebrocardiovasculares. Obrigada por ter estado conosco. Até à próxima.