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08h13, altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no "Contracorrente" desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número, 91 002 41 85. Carla.
André Mountbatten-Windsor. É assim que ontem foi sempre designado aquele que conhecíamos como o Príncipe André, Duque de Iorque, irmão do Rei Carlos III, diz-se que filho preferido da Rainha Isabel II. E não foi por acaso, nem apenas por aquele que muitos consideram ser a ovelha negra da família real britânica ter sido detido para interrogatório pela polícia de Sua Majestade, e logo no dia em que completava 66 anos, foi porque André Mountbatten-Windsor já não faz oficialmente parte da família. Mas será que a família e a monarquia resistem ao escândalo? É isso que queremos debater no Contracorrente de hoje e também tentar perceber como se chegou a este ponto. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
Ficaste surpreendido com este raid da Justiça britânica?
Não, por duas razões. Basicamente, porque a acumulação de provas relativamente àquilo que andou a fazer Andrew Mountbatten-Windsor é mesmo muito complicado. É uma situação em que mais cedo ou mais tarde isto iria acabar por ser assim. Vamos lá ver. Há duas questões que são diferentes, são distintas e que podem levar a alguma confusão. As suspeitas sobre o antigo príncipe Andrew, príncipe André, que apareceram já há uns anos e que tinham a ver, sobretudo, com comportamentos da esfera pessoal, mas com suspeitas de crime. Estamos a falar das relações de ter sexo com menores, basicamente é disso que estamos a falar, e das acusações que foram feitas por uma daquelas raparigas que foi envolvida na teia, na rede de Epstein. O processo judicial acabou por não seguir adiante, houve uma indemnização, houve um acordo fora da justiça, o pagamento de um montante em dinheiro para a acusadora deixar cair as acusações. Entretanto, ela morreu, suicidou-se, e temos uma situação em que esse caso ficou a manchar o nome, fez com que o príncipe André saísse da esfera da família real, passasse a ser tratado, como tu disseste, por Andrew Mountbatten-Windsor, e não pelos seus títulos, nomeadamente o título de Duque de Iorque. O que está agora aqui em causa é diferente e mais complicado do ponto de vista das responsabilidades do antigo príncipe e, sobretudo daquilo que o sistema judicial pode fazer. Estamos a falar da utilização de acesso privilegiado a informação classificada e usar esse acesso para transferir, passar, fornecer, ceder essa informação a Epstein para obter, eventualmente, um conjunto de favores financeiros. E daí esta acusação, esta suspeita que está agora a ser investigada e os termos exatos são suspeita de má conduta no exercício de cargos públicos. Isto porque há dois tipos de cargos públicos que o Andrew Mountbatten-Windsor exerceu. Por um lado, ele era o chamado working royal, um membro da família real com responsabilidades públicas. Não era apenas alguém que estava a viver nos palácios da realeza. E depois porque ele desempenhou, durante um determinado período bastante longo, funções como uma espécie de embaixador para temas económicos do Reino Unido, uma espécie de embaixador para trazer investimentos, para fazer negócios, coisas desse género, para abrir portas, fechar portas. E foi nessa qualidade, uma qualidade de servidor do Estado britânico, que ele terá passado esta informação a Epstein, uma informação particularmente delicada nalguns casos. Nalguns casos, será a informação que sobretudo lhe dava oportunidades de negócio e noutros, uma informação que poderá ter, no limite, por um lado, posto em causa os interesses de grandes empresas britânicas como a BP, a principal empresa de petróleos britânica, e noutros casos poderá ter, no limite, também colocado em risco a segurança das forças britânicas no Afeganistão, teatro de operações particularmente perigoso e complicado. Estamos a falar de situações muito diferentes, situações diferentes daquelas que são apenas o comportamento desviante de um royal, como se diz. Neste caso, estamos a falar mesmo de uma situação em que essa personagem abusa da sua figura pública para beneficiar alguém em privado e, em particular, tudo parece também ser para conseguir dinheiro para a sua ex-mulher, mas com a qual manteve uma relação de grande proximidade, Sarah Ferguson. Sarah Ferguson que tinha uns hábitos de vida e, sobretudo, de gastar dinheiro absolutamente extremados. Aquilo era como se não existisse carteira, fundo ou o que quer que fosse. Ela conseguiu sucessivamente contrair dívidas gigantescas, de vez em quando conseguia ter receitas também muito grandes com algumas com alguns empregos ou negócios que atendo, mas depois passado uns tempos já estava tudo outra vez muito debaixo d'água e muitas centenas ou milhões de libras para pagar. E foi nesse quadro que estará também a pedir ajuda ao seu amigo Epstein, bem depois de tudo ser conhecido sobre as circunstâncias em que este mesmo Epstein atuava, bem depois da primeira condenação, que foi ainda na Flórida, e bem depois de se conhecerem muitos outros detalhes e sempre negando o que não era possível negar. Há uma famosa entrevista que ele dá ao "Newsnight" da BBC em 2019, que na altura, mesmo pessoas que acompanhavam isto, disseram que não foi apenas um acidente de comboio, foi um choque de um caminhão contra um barco que desencadeou um tsunami, o qual por sua vez provocou uma catástrofe nuclear. Portanto, foi uma coisa extremamente catastrófica.
Há uma série sobre essa entrevista, a história dessa entrevista.
Sim, essa entrevista é muito relevante. Ele estava já como a ovelha negra da família, agora fica um pouco pior do que isso e não deixa de ser significativo que ontem, podemos discutir até que ponto isto também é frieza dos royals. Na nota que fez o seu irmão Carlos III, a palavra o meu irmão, ou irmão, ou membro da família, nunca aparece. Aparece apenas a justiça que faça o seu dever e o próprio Carlos III passado um bocadinho que estava numa apresentação de moda da Semana da Moda de Londres. Portanto, do ponto do que diz respeito à Casa Real, eles farão tudo para conseguir sobreviver, até porque do ponto de vista, como tu recordaste, se a mãe Isabel II tinha algum fraquinho, há sempre um filho, às vezes, por ser o mais frágil ou o mais mal-comportado, que faz com que as mães tenham uma espécie de fraquinho. Acontece muitas vezes. A mãe Isabel II tinha algum fraquinho por André, Carlos talvez não tenha o mesmo fraquinho e ele que já tinha sido obrigado a deixar as instalações da família e ir para uma espécie de exílio interno. Agora, ontem passou umas horas na polícia e veremos o que é que o futuro nos guarda, sendo que no que diz respeito à família britânica, essas coisas abalam sempre, mas talvez o maior abalo ainda tinha sido aqui há 25 anos, mais ou menos, quase 30 anos, quando morreu a Princesa Diana.
Ora bem, muito para falar então no "Contraponto". Até já.