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José Manuel Fernandes quer hoje contrariar o discurso oficial sobre a austeridade. Porquê, José Manuel? Achas que vai haver austeridade?
Eu acho que não vai haver austeridade. Eu acho que já há austeridade. Acho que a austeridade já cá está. Eu às vezes interrogo-me sobre se os nossos políticos não vivem numa espécie de bolha, se conhecem realmente o país que governam. Porque dizer que não vai haver austeridade quando no final da primeira semana de abril, e estou a falar de há duas, três semanas, já havia 900 mil trabalhadores atingidos pelas medidas de combate à pandemia, eu acho que é um bocado andar a brincar com as palavras. Todos esses trabalhadores, é preciso ter noção disso, já tinham perdido rendimento. Nalguns casos, um terço do rendimento, nas situações mais favoráveis, noutros casos, todo o rendimento. E sinceramente, se pensarmos bem, são números que pecam por defeito. Primeiro, porque entretanto já passou mais tempo e tem havido mais empresas a entrarem em lay-off, tem continuado a haver empresas a dispensar trabalhadores. E depois, sobretudo, porque esses números não abrangem todas as situações, porque há pequenos microempresários que pura e simplesmente deixaram de poder trabalhar e que não estão aqui contabilizados. Eu diria, sem querer exagerar, que muito por alto, talvez um quarto da população ativa, um quarto dos trabalhadores, já perdeu o rendimento desde que a crise se iniciou. Eu acho que pra eles a austeridade não é uma coisa abstrata. A austeridade já chegou e eu acho que pra alguns chegou mesmo com toda a força.
E quando dizes que chegou com toda a força, estás a referir-te a quê, concretamente?
Estou a falar de uma coisa muito dura e muito concreta que é fome. Fome pura e dura. Eu este fim de semana, por acaso, tive conhecimento de situações concretas, através de relações pessoais, de pessoas e de famílias que de repente ficaram sem rendimento ou quase sem rendimento, e isto aconteceu de um dia pro outro. Podia dizer que eram situações pontuais. Infelizmente, não são. E por que eu digo que não são? Porque ontem eu ouvi uma entrevista à Desí Borioni, como sabemos, ela é presidente do Banco Alimentar. Acontece que é presidente do Banco Alimentar há 27 anos e ela disse que nunca tinha visto nada como aquilo que está a ver. Em concreto, ela disse que só ontem de manhã, domingo, ontem foi domingo, tinha recebido 11.500 pedidos de apoio, todos no contexto das dificuldades criadas pela pandemia.
José Manuel, mas como é que se explica essa explosão dos pedidos de ajuda?
O que ela disse é que são pessoas desesperadas, que viram basicamente as suas vidas viradas do avesso, sem aviso prévio e no fundo, sem que se pudessem preparar. E é gente muito diversa. Ela deu muitos exemplos, são motoristas da Uber, são manicures, cabeleireiras, são dentistas, por exemplo. É muita gente ligada ao turismo, aquelas profissões todas que nós vimos pelas ruas de Lisboa. São feirantes, esquecemos muitas vezes deles, não é? Não há feiras. São pessoas que trabalhavam nos ginásios, são fisioterapeutas, empregadas domésticas, até motoristas de táxis. Muita gente não tinha pé de meia, como se costuma dizer. Vivia com o dinheiro que ia fazendo. Se pensarmos um bocadinho, há muita gente que não tinha. São profissões mais ou menos independentes, mais ou menos informais, mais ou menos temporárias, pessoas que se iam safando, às vezes até não se safavam mal, mas que viram o seu mundo desabar de um dia pro outro.
Mas a Segurança Social não apoia estas pessoas?
Eu acho que as malhas da Segurança Social são muito largas, muito formais, e mesmo que às vezes as pessoas também não tinham as suas profissões completamente formalizadas. E além disso, a burocracia também é muito lenta. Entre papel vai, papel vem, eu diria que se acaba a comida no frigorífico, sobretudo se houver crianças pequenas, se houver família. Eu acho que muitas destas pessoas, além disso, nunca viveram situações destas, têm vergonha de ir pedir, porque estão, para mais tudo, numa situação muito estranha, que é estarem presas em casa sem se poderem mexer. É por isso que eu acho que andar por aqui a dizer que não vai haver austeridade, eu acho que é mesmo de quem acha que o mundo começa e acaba nas fronteiras da função pública e que se os funcionários públicos mantiverem os seus salários, se até tiverem aumentos, como tiveram, então não há austeridade. Eu acho que o mundo pode estar a desabar à volta, mas para os nossos políticos, a verdade oficial é que não há austeridade. Há fome, mas não há austeridade.
É porque habitualmente associa-se a austeridade a políticas como cortes de salários ou aumento de impostos.
Pois, isso é o habitualmente da linguagem de quem vê o país como se as fronteiras do país fossem as arcadas do Terreiro do Paço. Só que não são. Se pensarmos, não são. Mas mesmo assim, mesmo que fossem, se pensarmos um pouco aquilo que são políticas orçamentais, não tenhamos dúvidas que primeiro, nunca chegámos a sair da austeridade. É bom não nos esquecermos disso. E segundo, vamos mesmo ter austeridade, aliás, já estamos a ter em algumas das políticas que foram definidas. As pessoas já se esqueceram, mas infelizmente vão lembrar-se muito depressa de que tivemos anos de falta de dinheiro no SNS Nós tínhamos urgências dos grandes hospitais fechadas à noite. Agora ninguém fala disso, porque as pessoas deixaram de ir às urgências. Mas quando voltarem, e vão voltar em breve, muito depressa, porque isso vai acontecer, as quebras vão voltar-se a notar e vão voltar a notar ainda mais, muito provavelmente. Mas eu acho que o pior nem é isso, se queres saber.
Então, o que é o pior?
Eu acho que o pior é uma coisa que eu tenho falado aqui várias vezes, é que nós estamos com respostas à crise económica que proporcionalmente têm uma dimensão muito menor que aquelas que estão a dar outros países como a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda. E a explicação é simples: nós estávamos muito bem no déficit. Ainda bem que estávamos. Tínhamos feito um esforço e tínhamos conseguido estar bem. Só que estávamos mal na dívida. Qual é o resultado disso? O resultado disso não é muito politicamente correto dizê-lo, mas é que a Alemanha e a Holanda podem agora endividar-se sem estar à espera que a Europa diga: "Ok, endividem-se." Mas nós não, nós estamos a olhar para a Europa. O resultado disso é que nós estamos a pagar menos aos trabalhadores que estão em lay-off e nós temos um programa muito menos forte de apoio às empresas do que têm outros países. A timidez desse nosso programa, e eu já o critiquei aqui várias vezes, é já, hoje, neste momento, um rosto da nossa austeridade. Quer dizer, como diria o outro, não temos dinheiro, ou melhor, temos medo de não vir a ter dinheiro para pagar um programa mais forte. Mas nisso está uma discussão sobre austeridade que eu diria que é mais técnica, mais para economistas. A austeridade que dói neste momento, que dói já, é a austeridade das pessoas que estão com fome. E essa está cá com toda a força. Chegou sem pedir licença nem ao António Costa, nem ao Bloco de Esquerda.
"Contra-Corrente" com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho, na Rádio Observador. Amanhã nova edição a não perder, como sempre, depois do jornal das 20:00.
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