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Hoje, José Manuel Fernandes confessa que já nem sabe se está contra corrente ou se está na twilight zone. Então explica o que te fez entrar hoje na quinta dimensão.

Bom dia.

Bom dia.

Já nem sei se estou na quinta, ou na sexta, confesso. Lembras-te que segunda-feira falamos aqui daquela manifestação sobre a bandeira portuguesa ser racista?

Sim.

Depois também te lembras, com certeza, de outra crônica em que eu falei sobre a nova cadeira que vai aparecer no 12º ano, Histórias, Cultura e Democracia, que mais parece uma trapalhada politicamente correta destinada a desensinar a história de Portugal em vez de ensinar. Portanto, de alguma forma, já íamos pelo mau caminho. Agora, aquilo que eu não imaginava possível, é que ensinar a somar dois mais dois ou saber o que é o teorema de Pitágoras pode ser considerado, vê lá tu, racista.

Como assim? Estás a brincar agora.

Não, estou a falar muito a sério, mas neste caso, não estou falando de Portugal. Estou a falar de Seattle, Estados Unidos, e por enquanto, aquilo que se sabe é que foram adotadas linhas de orientação para as escolas públicas, que condenam aquilo que consideram, e eu acho isso extraordinário, a matemática ocidental. A matemática passou a ser uma coisa ideológica. De acordo com essas linhas de orientação, há uma matemática racista, ouviu-se bem, racista. Essa matemática racista é utilizada como um instrumento de opressão das pessoas e das comunidades negras, ou seja, dos afro-americanos. Sendo assim, a proposta dos professores de Seattle é que em vez de aprendermos que três e três é nove, possamos ter a opção de escolher aprender a contar usando, por exemplo, o método dos aborígenes.

Isto é mesmo a sério?

Juro que não estou a inventar. Eu até descarreguei as linhas de orientação do programa, o PDF com isso. É inacreditável, mas é que Seattle é a cidade onde está a Boeing, onde está a Amazon e muitas outras companhias gigantescas, mas isso passa-se mesmo.

José Manuel, e como é que isso se pode explicar?

Eu acho que se explica daquela forma muito simples e muito triste, que é assim: em Seattle, como em muitas outras grandes cidades americanas, há um problema com as escolas públicas, que não conseguem integrar os estudantes afro-americanos. E muitas vezes, em vez de tentarem resolver esse problema, desistem. E eu acho que, no fundo, isto é uma forma de desistência. Com este currículo, os negros, em vez de aprenderem matemática, passam a aprender que a matemática ocidental é uma forma de opressão. E assim deixa de haver problemas, não é? E agora, aquilo que também eu soube é que já há, na Califórnia, movimentações na mesma direção e também com matemática. Antes era a Universidade Stanford que definia as regras e agora já está a ir por outro caminho. Naturalmente, tudo isto é uma loucura, até porque muita da matemática que aprendemos, eu acho que este aspeto é importante e muita gente não tem noção disso. Muita da matemática que aprendemos não foi desenvolvida naquilo a que hoje chamamos Ocidente. Até foi desenvolvida por gente de pele bem escurinha.

Claro que sim, a começar pela nossa numeração, por exemplo, é árabe.

É árabe.

E aprendemos isto na escola ocidental.

É verdade. Mas é árabe, mas a sua origem é até indiana. Aliás, a grande invenção indiana é o zero. E não se imagina a matemática sem zero. Os egípcios, os gregos e os romanos, quer dizer, os ocidentais, apesar de egípcios já hoje não tomarmos muito por ocidentais, não tinham este conceito de zero. Foram matemáticos indianos que conseguiram calcular, por exemplo, a primeira vez a distância entre a Terra e a Lua e a Terra e o Sol. Foram eles que determinaram o valor de pi, a regra para sabermos a circunferência, que é um dos números mais importantes e mais famosos da matemática. Eu podia dar mais exemplos, mas acho que estes servem para mostrar o disparate que é considerar a matemática uma coisa racista e achar que matemática ocidental é opressora das minorias.

Bom, mas pelo menos ficamos descansados, estas modas ainda não chegaram a Portugal.

Eu acho que por enquanto não, mas como costumo dizer, nunca se sabe. Eu diria que esta doença, até diria mesmo, esta loucura está a tomar conta de muitos meios acadêmicos americanos e por isso como é sempre uma praga, contagiosa. Um dia nós rimo-nos, porque ela só se manifesta através de um assessor parlamentar que quer dar nas vistas e aparece vestido com uma saia. No dia seguinte, já estamos a discutir as quinas da bandeira. No mês seguinte, já não me admira que vamos passar a discutir o racismo intrínseco da raiz quadrada. Quando queremos colocar ao mesmo nível a forma como os aborígenes fazem contas e o raciocínio que permitiu a Einstein elucidar os mistérios do universo, é porque queremos, no fundo, voltar a viver na Idade da Pedra. O que é mentira, porque eu acho que ninguém quer isso, até porque aposto que nenhum destes, eu acho que só lhes posso chamar fanáticos, sobreviveria um dia sem o seu iPhone. De certeza absoluta. No entanto, o meu alerta é este: tenham cuidado, porque eles estão aí. Eu diria mesmo que eles já estão aí.

José Manuel Fernandes com o "Contra-Corrente", aqui na sua Rádio Observador. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.