Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quinta-feira. Depois, para participar, basta ligar 910 002 4185, é o nosso número, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp. O número não muda: 910 002 4185. Carla. Faz hoje 50 anos, 20 de novembro, que morreu Francisco Franco, o ditador que governou Espanha durante 36 anos, depois do triunfo numa guerra civil de uma violência antes desconhecida e que, de alguma forma, iria antecipar a Segunda Guerra Mundial. Como sucessor, deixou um rei, Juan Carlos, que depois seria uma figura central na transição para a democracia, uma evolução que defendeu logo no discurso de posse nas Cortes, dois dias depois da morte do caudilho. Durante muito tempo, este processo de transição foi visto como exemplar, até que começou a ser ora contestado por radicalismos extremistas, ora por radicalismos separatistas, sendo que depois também começou a ser minado por governos aparentemente interessados em reabrir querelas históricas. Em causa está a memória e a utilização política da memória. E é também sobre isso que queremos falar no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia. Sabes explicar por que é que em Espanha a ditadura acabou de forma gradual e pacífica e não como uma revolução como aqui em Portugal?

Bom dia, Carla. Há muitas explicações e talvez uma das mais importantes é que a nossa revolução foi antes, e portanto também serviu de exemplo para o que podia correr bem e o que podia correr mal em Espanha. Mas eu acho que há outras. Mais do que olhar para isso no programa de hoje...

E vamos querer mesmo ouvir o José Manuel, porque houve aqui uma falha na rede, mas pelos sinais que estou a ter, ele vai recuperar. O José Manuel vai conseguir. Chamamos o José Manuel, que já está aqui ao telefone. Chamamos o José Manuel. E dizias que mais do que discutir a transição espanhola, qual é a mesma ideia do Contracorrente?

A ideia do Contracorrente é tentar perceber o que foi a transição espanhola, porque o regime de Franco teve muitas semelhanças, mas também muitas diferenças relativamente ao regime de Salazar. Aliás, é sobre isso que é o mais recente "O Resto é História", do Rui Ramos e do João Miguel Tavares, e é muito interessante, mas o final foi particularmente diferente, porque enquanto que em Portugal houve uma revolução, em Espanha houve uma transição. Para essa transição foram muito importantes vários fatores, designadamente três questões. Primeiro, a existência de um rei que quis comandar, ou pelo menos enquadrar essa transição, e que foi determinante para salvar a transição no final, com uma tentativa de golpe para fazer reverter tudo no famoso 23 de fevereiro. Estamos a falar de Juan Carlos. Juan Carlos hoje está a ser ostracizado em Espanha e está quase exilado, mas na altura foi um herói e não se pode ignorar isso. Depois temos uma vontade de compromisso, quer da parte dos políticos que vinham do franquismo e quiseram fazer a transição e que acabaram por a conseguir fazer e passar tranquilamente o poder, mesmo quando os partidos que tinham formado praticamente implodiram. Estou a falar designadamente de Adolfo Suárez, que é uma figura central neste processo. E finalmente, também a vontade de compromisso por parte dos partidos, alguns deles muito antigos, históricos, que quiseram colaborar neste processo de transição, designadamente o Partido Socialista, o PSOE, de Felipe González, mas também o Partido Comunista na altura, de Santiago Carrillo, o que não é um detalhe, porque aliás, a questão dos comunistas em Espanha era muito delicada, até por causa da memória da guerra civil. Para que isso fosse possível, houve uma espécie de compromisso, que eles chamam compromisso da memória, que foi não tratar de ajustar contas depois do fim da ditadura. Portanto, não houve ajuste de contas e permitiu-se que, naturalmente, e houve uma enorme publicação de livros e de bibliografia após o começo da democracia sobre o período da guerra civil, já com liberdade, já sem censura, mas não houve aquilo das comissões da memória, as comissões de reconciliação, não houve nada disso. Simplesmente há várias coisas que a partir de há 20, 25 anos começaram a ser postas em causa, umas por razões políticas, pelo PSOE de Zapatero, que já é muito diferente do PSOE de González, e que resolveram desenterrar os temas da memória com objetivos políticos, de combate à direita espanhola, e depois também com os extremismos, designadamente o Podemos, e partidos que contestavam abertamente a transição e os seus termos, como também alguns separatistas. E isto, naturalmente, tem um custo hoje. E esse custo hoje, ainda hoje sai uma sondagem em Espanha em que se vê, ponto um, que um terço dos espanhóis tem uma visão positiva do franquismo e essa divisão entre os jovens há um empate entre os que têm visão positiva e visão negativa. Portanto, não é assim que se constroem novas memórias. Pelo contrário, quando as novas memórias ganham cargas políticas, elas acabam por ser determinadas pelas simpatias políticas e não por aquilo que é uma leitura da história. E infelizmente este processo, que correu muito bem no início, está a correr mal agora e acho que vale a pena meditar um pouco sobre isso tudo.

Muito bem, é o que faremos depois das 10:00. Até já, José Manuel. Até já. 910 002 4185 para nos dar a sua opinião em direto no Contracorrente, logo a seguir ao Jornal das 10:00. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 910 002 4185.