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São 8h15, está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar para nós 91 002 41 85 ou também nos pode enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo. Carla. Nos últimos dias, os Estados Unidos deslocaram para o Médio Oriente e o Golfo Pérsico um dispositivo militar que dificilmente se justifica apenas com a necessidade de defender as suas instalações das ameaças do Irão. O regime respondeu à contestação nas ruas com uma repressão brutal. Fala-se em dezenas de milhares de mortos. Trump ameaça Teerão falando da dimensão da sua armada e exige que o regime aceite desmantelar o programa nuclear. A Europa, que hesitou anos e anos, classificou ontem a Guarda Revolucionária como organização terrorista. Há cada vez mais sinais de uma guerra tão inevitável como de desfecho e duração imprevisíveis. É sobre esses cenários, assim como os nossos deveres de solidariedade com o povo iraniano, que queremos falar no Contracorrente de hoje. José Manuel, depois do ataque em junho aos bunkers nucleares e também da recente operação na Venezuela, achas que vamos assistir a uma operação semelhante, surpreendente e cirúrgica? Bom dia.

Bom dia, Carla. Acho difícil. Acho difícil, sobretudo porque o Irão está à espera. Portanto, o Irão está à espera, está preparado e apesar de estar debilitado, tem outros meios. Tem outros meios e outros recursos e neste caso é muito difícil inclusivamente perceber qual o objetivo de uma operação militar. Porque a ameaça começou a ser feita, como tu recordas, quando a escalada de repressão começou a matar milhares de pessoas. Os iranianos estavam na rua, eram as maiores manifestações desde os protestos de 2009 e de repente a internet calou-se. Deitaram abaixo tudo, deixou de haver comunicações, inclusivamente as comunicações por telefone fixo tornaram-se extremamente difíceis. Ninguém conseguia comunicar com o Irão e a Guarda Revolucionária, que é a guarda pretoriana do regime, começou a matar pessoas nas ruas. Mas quando digo matar pessoas nas ruas é matar, às vezes adolescentes com tiros na nuca ou no pescoço pelas costas. Não tinha nada a ver com aquilo que às vezes é a repressão de uma manifestação e um acidente. Não, foi algo que terá resultado. O próprio regime fala em mais de 3 mil mortos, mas é capaz de ser 10 vezes mais, é capaz de ser 20 vezes mais. O que quer dizer que em poucos dias a repressão no Irão pode ter correspondido ao total de mortes na guerra em Gaza, sendo que em Gaza uma parte significativa das mortes eram soldados que estavam de arma na mão. Evidentemente que houve vítimas civis, ninguém nega isso, mas aqui estamos a falar de manifestantes. Haverá alguns guardas revolucionários que também foram atacados por manifestantes, mas é disso que estamos a falar. A própria Europa, que durante muito tempo, e aqui muito por culpa da França, andou a tentar evitar declarar a Guarda Revolucionária como uma organização terrorista, o que a coloca no mesmo patamar do Daesh, no mesmo patamar do Hezbollah ou do Hamas, o que dá uma autoridade diferente aos Estados para poderem combater, porque trata-se de combater o terrorismo. Ontem, na reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, a França aceitou essa mudança para seguir os outros países. A Itália foi quem começou este movimento dos países renitentes. A Itália foi quem começou o movimento, depois veio Espanha e agora a França e portanto conseguiu-se que na União Europeia houvesse essa declaração, que era um pedido dos Estados Unidos há muito tempo, desde 2019, que a Guarda Revolucionária é considerada uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Ora bem, o que é que está em causa? Está em causa a pressão sobre o regime para acabar com a repressão e, mais do que isso, para permitir alguma abertura e alguma evolução, mas está também o programa nuclear e o programa de mísseis. Até que ponto é que naquela forma de um dia diz uma coisa, no outro dia diz algo diferente, Donald Trump vai de facto passar à ação é um enorme ponto de interrogação. Como tu disseste, o dispositivo militar tem uma dimensão próxima daqueles momentos em que houve mesmo guerra, como por exemplo, as guerras do Golfo. Houve um porta-aviões, uma coisa parecida com o que tinha acontecido nas costas da Venezuela. Há um porta-aviões que já está na zona. Há uma enorme quantidade de aviões que foram transferidos, designadamente das Caraíbas para as bases ou do Golfo Pérsico, que estão na Arábia Saudita, estão nos Emirados, penso também no Catar, acho que é melhor dizer no Catar, estão na Jordânia, mas também Diego Garcia, nas ilhas Chagos, no Oceano Índico, e há inclusivamente outro tipo de aviões que estão aparentemente à espera em bases europeias, que foram transferidos para a Europa. Os comandantes estiveram recentemente em Israel e na Jordânia. Neste momento, julgo que está em Israel um enviado também da administração Trump, aparentemente tem a ver com coordenação de inteligência, de informações, serviços de informações. Portanto, a pressão aumenta. Respondendo à tua pergunta, vamos ter uma ação relâmpago. O problema é que o Irão não é de facto igual à Venezuela, não é tão frágil. Está à espera. Já montou também dispositivos de preparação.

E já viu o que aconteceu na Venezuela também, não é?

E também já vimos que na Venezuela não foi propriamente uma mudança de regime. Portanto, há uma evolução no regime que a gente não sabe ainda onde é que vai acabar. Ainda esta semana foi libertada uma portuguesa que estava presa, a meu ver injustamente, há cinco anos, salvo erro.

Sim.

E com a pressão, à espera de mais 15 de prisão e depois sabe-se lá. Portanto, muito dificilmente será isso, mas há outra coisa que nós também sabemos, é que Trump e sobretudo o eleitorado Trump, não quer guerras prolongadas, não quer operações muito arriscadas. E se nos recordarmos como foi catastrófica a tentativa de intervenção no Irão em 1979, quando foram os reféns da embaixada, que é de facto um desastre absoluto, penso que tudo isso deve estar a pesar naquelas cabines de crise da Casa Branca e eu não tenho a certeza o que é que vai acontecer. Agora, que as nuvens estão cada vez mais negras sobre aquela região muito explorada do Médio Oriente, a isso não tenho dúvida.

Até já, José Manuel. Vamos ter a oportunidade de falar melhor sobre tudo isto. 91 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no nosso site.