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Deixar o guarda-chuva em casa, ele não vai cair hoje. Em Lisboa e em Faro vai ser mais um dia quente, máximas de 28 °C para Lisboa, 23 °C no Porto e 30 °C em Faro. A esta hora, Lisboa com 16 °C, o Porto com 15 °C e Faro com 22 °C. No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes quer dar-nos conta da sua estranheza com estes dias que vivemos. Dizes tu que não julgavas possível termos políticos com tanto descaramento e tanto cinismo?

Bom dia.

Bom dia.

É verdade. Eu devo dizer que estou em estado de choque, de alguma forma, não caiu bem em mim mesmo ainda, porque, como sabes, ontem eu falei aqui do que considerava um escândalo, que era o afastamento, o despedimento do presidente do Tribunal de Contas. Pois bem, eu acho que o escândalo transformou-se num filme de terror. Nós tínhamos à frente do Tribunal de Contas, um homem com provas dadas, um juiz que sabíamos que era independente, que era um profissional experiente, que era alguém que tinha cumprido três mandatos como presidente do Tribunal de Contas Europeu. Portanto, ele tinha tudo o que poderia ter. Era difícil encontrar alguém melhor, se pensarmos que nos próximos anos o importante é fiscalizar os muitos milhares de euros que vêm vir da Europa. Só tinha um pecado, era ter se metido com o PS e, como se sabe, quem se mete com o PS, leva.

Mas António Costa veio falar de uma regra.

Desculpa, mas isso são tretas. É puro cinismo. O lugar de procurador-geral da República não tem nada a ver, nem é comparável com o presidente do Tribunal de Contas. Essa regra nunca foi explicitada, nunca ninguém falou dela. É uma coisa inventada à última hora. Basta dizer que o anterior presidente do Tribunal de Contas nem sequer magistrado era. Era o Guilherme Oliveira Martins. Não são lugares equiparados. Mais, desde o 25 de abril, todos os presidentes do Tribunal de Contas foram sempre reconduzidos. Mais ainda, esse princípio que ele diz que combinou com o presidente da República. Falaram dele a quem? A que pessoas? Quem é que ouviu falar do assunto? Eu acho que isto foi uma desculpa, foi uma armadilha e que Marcelo não soube libertar-se dela ou não quis libertar-se dela.

O que sabemos é que Marcelo mandou uns recados pelo Expresso a dizer que apreciava muito o trabalho de Vítor Caldeira como presidente do Tribunal de Contas e exigia um perfil semelhante.

Exigia um perfil semelhante. Quer dizer, isso é para rir, ou melhor, é para se chorar. Poucas horas depois dessa notícia sair, soubemos que Marcelo aceitara a proposta do governo e nomeara para novo presidente, nada mais, nada menos que José Tavares. Ora bem, é difícil imaginar uma escolha pior. É literalmente colocar a raposa dentro do galinheiro. Portanto, é ter ido buscar alguém cujo passado recomendava que estivesse o mais longe possível de lugares de responsabilidade e lugares de fiscalização.

José Manuel, mas pare, ele era chefe de gabinete de Vítor Caldeira. Como é que isso pode ser tão mau?

Eu imagino que ele tenha ocupado esse lugar por ignorância de funções, porque aquilo que me importa é aquilo que eu sei dele, do que ele fez no processo das PPP, que é aquilo que é público, porque o resto é lugar de bastidores. Portanto, aquilo que todos sabem é que as PPP rodoviárias, e é o nosso pesadelo, foram um dos processos mais ruinosos da democracia portuguesa. E nesse processo, houve um momento especialmente crítico, que foi na renegociação dos contratos em 2009. Em 2009, pleno consulado de José Sócrates, loucura absoluta. Ora, José Tavares aparece nessa renegociação como responsável do Tribunal de Contas, a fazer aquilo que nunca poderia fazer.

Como assim? Queres explicar melhor isso.

Várias coisas. Primeiro, é bom recordar que nessa negociação, o Estado português não perdeu pouco, perdeu 3,5 mil milhões de euros. Quem foram os protagonistas dessa negociação? Dois dos maiores figurões que por aí andaram: Mário Lino e Paulo Campos. A Polícia Judiciária suspeita de uma grande proximidade entre Paulo Campos e Mário Lino. Não, desculpa, não é entre Mário Lino e Paulo Campos, que esses eram próximos. É entre Paulo Campos e José Tavares. E tem bons motivos para isso, tem boas razões para suspeitar. É que tem e-mails trocados entre o e-mail particular de José Tavares, não é o e-mail de serviço, não é o e-mail do Tribunal de Contas, é o Gmail ou coisa do gênero, de José Tavares, e o e-mail de Paulo Campos, onde José Tavares envia a Paulo Campos documentos internos do Tribunal de Contas. A dar a Paulo Campos conta da argumentação que estava a ser elaborada no Tribunal de Contas para ele preparar documentos que estavam a ser preparados. Ora, isto é gravíssimo, isto é supersuspeito. Mas há mais. José Tavares participou em reuniões com o governo de Sócrates. Quer dizer, temos alguém do tribunal que vai avaliar as ações do governo, a preparar as ações do governo, que depois vão parar ao tribunal. Isto é absolutamente inacreditável. No inquérito às PPP, nós temos Almerindo Marques no Parlamento a testemunhar que as coisas eram combinadas com José Tavares Portanto, eu não sei como é que hei de classificar este tipo de comportamento. Eu não sei se isto é crime, mas eticamente é absolutamente inaceitável.

José Manuel, mas isso que estavas a contar não era conhecido.

Claro que isto era conhecido. Isto está escrito, por exemplo, no caso do inquérito do Parlamento, está escrito no inquérito do Parlamento. Eu mesmo agora fui descarregá-lo, fiz uma busca por Tavares, encontrei logo. O que isto mostra é que estamos mesmo a voltar aos hábitos e aos métodos do tempo de Sócrates. Vale tudo. E os protagonistas, que na verdade muitos deles nunca deixaram de ser os mesmos, estão aí de novo. E estão aí de novo por todo lado. Por exemplo, é bom não esquecer que o atual chefe de gabinete de António Costa, um senhor chamado Vítor Escária, já era um dos homens fortes do gabinete de Sócrates. Eu, nestas coisas, não acredito em coincidências.

E no meio disto tudo, como é que fica Marcelo Rebelo de Sousa?

Eu acho que fica muito mal. Eu não vejo, desta vez, forma de ele salvar a cara. Na prática, ele é cúmplice, como já disse, de estar a meter a raposa dentro do galinheiro. Não pode dizer que não sabia, tinha a obrigação de saber, pelo menos tinha a obrigação de se informar, tinha a obrigação de perguntar, tinha a obrigação de telefonar, por exemplo, a Vitória Caldeira e perguntar-lhe porque é que afastou este senhor da posição que ele tinha em fevereiro passado. Não serve de nada ter um presidente que é uma marionete nas mãos do primeiro-ministro. Não serve de nada ter um presidente que nem consegue assegurar que vai conseguir bater-se por aquilo que disse na véspera, isto é, no 5 de outubro, isto é, que vai tentar evitar compadrios, clientelas, corrupções. Nada disso. Para o Tribunal de Contas, vai alguém que o que sabemos é que tem provas dadas como amigo do PS, alguém que em alturas de apertos resolve problemas e não cria complicações a governos do PS. Foi assim em 2009 e o Estado acabou por perder 3,5 mil milhões de euros. É dramático, estamos mesmo entregues aos bichos.

José Manuel Fernandes com o "Contra Corrente" da Rádio Observador. Amanhã a nova edição acontece sempre depois das 20h15. A Caixa Geral de Depósitos apoia o "Contra Corrente".

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.