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José Manuel Fernandes, quero hoje regressar a um tema que já tratou num outro Contra-Corrente aqui há umas semanas, mas parece que descobriste dados novos que te deixaram muito perturbado, José Manuel.

Olha, é verdade, e sinto necessidade, de facto, de falar novamente do terrorismo das FP-25, que é um terrorismo que, como sabes, esteve muitos anos esquecido. Nestes dias voltou-se a falar um pouco dele e agora está-se a falar porque hoje é editado um livro, ou melhor, é lançado um livro que conta a história daquela organização. É um livro do Nuno Gonçalo Possas e a data escolhida é precisamente hoje, porque hoje é 20 de abril e foi no 20 de abril de 1980, portanto, faz hoje 41 anos, que foi anunciada a existência das Forças Populares de 25 de Abril, com grande fanfarra, lançamento de petardos e umas coisas assim. E como hoje é 20 de abril, eu volto ao tema porque estive a ler uma entrevista que o Nuno Gonçalo Possas deu aqui ao Observador e também um capítulo do livro, não tenho o livro ainda, mas um capítulo do livro que o Expresso publicou ontem. Ora, devo dizer-te que eu, que até sabia muitas coisas sobre a organização, fiquei um pouquinho perturbado com algumas dessas leituras.

Já da outra vez que aqui falaste das FP-25, também foi a propósito de um outro aniversário.

Sim, na altura foi quando passaram 25 anos, que é uma data mais redonda, 41, que 25 anos da aprovação da Lei da Amnistia, que limpou a parte dos crimes políticos das FP-25. Na altura, optou-se por não ter o megaprocesso e o resultado foi uma anistia, uma lei aprovada na Assembleia da República, na sequência de um pedido expresso do Presidente da República, que na altura era Mário Soares. A história dessa anistia era toda ela bastante lamentável e tinha sido recordada no ensaio do Observador pelo filho de uma das vítimas, Manuel Castelo Branco. O pai, que se chamava Gaspar Castelo Branco, era diretor-geral dos Serviços Prisionais e tinha sido morto à porta de casa com dois tiros na nuca. Ora, aquilo que eu não conhecia, ou melhor, já não me lembrava, não me recordava mesmo das circunstâncias, era a forma como na altura o Estado português se tinha portado relativamente a Gaspar Castelo Branco e que de facto foi uma forma absolutamente miserável. Foi isso que me chocou ontem ao ler aquele capítulo do livro de Gonçalo Possas, que me recordou não só a forma como se comportou com Gaspar Castelo Branco, como com um conjunto de outros servidores públicos que morreram assassinados pelas FPs. Repara, Gaspar Castelo Branco era um quadro do Estado, era diretor-geral dos Serviços Prisionais, não militava em nenhum partido político, portanto, trabalhava há muito tempo na direção das prisões, era um homem dedicado. Andava a receber ameaças, por isso andava armado, só que não quis mudar completamente de vida, não quis andar em carros blindados, ter segurança, sobretudo para preservar a vida em família. Ora bem, aquilo era uma sexta-feira à noite, ele tinha parado o carro perto de casa, ido comprar um queijo a uma charcutaria, porque tinha convidados para jantar. E foi morto precisamente ao abrir a porta do prédio onde morava, morto pelas costas.

Essa história, José Manuel, já era conhecida. O que é que te abalou, então?

Bem, de facto, a história já é conhecida. O que me abalou foi a reação dos poderes públicos, que foram uma vergonha, um sinal de cobardia pública ao mais alto nível. Eu vou citar o parágrafo do livro, que acho que é bem regulador. "O funeral não teve honras de Estado, como não tiveram os funerais dos agentes da autoridade assassinados. E à exceção do ministro da tutela, não compareceram responsáveis políticos." E agora, repara. Ramalho Eanes, presidente da República ainda em funções, reagiu uma semana depois, por carta. Mário Soares, eleito presidente no dia seguinte ao assassinato, não compareceu. Cavaco Silva, primeiro-ministro, que conhecia pessoalmente Castelo Branco, reagiu através de uma carta remetida pela sua mulher à viúva, já depois da missa de sétimo dia, à qual também não compareceu. Freitas do Amaral, candidato derrotado à presidência, fez também um telefonema através da sua mulher.

Não tinha ideia nenhuma. Lembro-me também um pouco disto e mais, não associava a data do assassinato à véspera da eleição de Mário Soares.

Pois, eu também não. Para ser franco, não tenho memória sequer como tomei conhecimento da notícia. Devo dizer que nessas semanas, antes das eleições, eu estive na campanha eleitoral, nessa campanha eleitoral muito intensa. Jurou que não houve em Portugal nenhuma campanha eleitoral como aquela, mas toda a gente sabe que com aquela intensidade. Portanto, eu trabalhava na altura no Expresso. Nos dias logo a seguir, sei que estive a escrever um trabalho muito longo sobre os bastidores da campanha de Freitas do Amaral e depois logo a seguir parti para a Grécia, onde de resto tive um acidente de automóvel com alguma gravidade e, portanto, foram uns dias muito complicados e por isso não segui este caso de perto. Agora, são coisas que não se esquecem, talvez por isso, isto se passou destes dias, fazem com que não tenha memória do que se passou em torno do funeral de Gonçalo Castelo Branco. Agora, quando verifico o desprezo oficial com que foi tratado, só encontro duas explicações possíveis para o que se passou. E nenhuma delas é uma boa explicação, devo dizer-te. A primeira explicação é que alguns daqueles responsáveis, no fundo, não eram capazes de condenar radicalmente a organização dirigida por Otelo Sara de Carvalho Acho que basta olhar para os nomes e recordar que alguns deles talvez não tivessem cortado efetivamente, totalmente com o Capitão de Abril. A outra explicação não é muito melhor que esta. É uma explicação que, no fundo, é que faltou coragem para, nessa altura, estar claramente do lado daqueles que estavam a combater a organização. Para estar do lado de quem se tinha batido pela lei e pelo Estado de Direito contra uma organização terrorista. As FP atiravam a matar. E em Portugal tem-se muito medo. Eu não encontro outra justificação para se ter tido tão pouco sentido de Estado numa altura daquelas.

E então é por isso, agora respondes, que te sentiste perturbado. Às vezes acontece quando conhecemos melhor a nossa própria história.

Infelizmente, porque quando li aquilo, senti um bocadinho como se tivesse levado um soco no estômago. Ainda acreditava como políticos que às vezes colocamos no pedestal dos nossos maiores depois do 25 de Abril, não tiveram, de facto, a altura das circunstâncias. Quer dizer, estamos a falar de Ramalho Eanes, Mário Soares, Cavaco Silva, Freitas do Amaral. Enfim, senti-me envergonhado por nós todos e também eu próprio, que na altura também não dei importância, não me recordo daquilo que aconteceu. É bom termos noção destas nossas falhas, porque foram falhas como estas que permitiram que anos mais tarde, alguns dos réus do processo FP 25 pudessem dizer que não se arrependeram da violência. Isso também é recordado naquelas entrevistas e naquele livro. Não se arrependeram daquilo que fizeram e até ainda foram capazes de fazer alguns reparos, por exemplo, a figuras como Gonçalo Castel-Branco. Alguns dos que foram amnistiados puderam migrar para o Bloco de Esquerda, até foram dirigentes do Bloco de Esquerda, sem nunca terem pedido perdão. É um bocadinho tétrico recordar essas coisas hoje, mas é preciso, porque infelizmente há radicalismos que estão de volta na retórica pública. Por cá ainda não há violência, só há retórica, como eu disse, mas eu sei como a retórica leva à violência. Aliás, porque eu testemunhei como é que as FP 25 nasceram de uma coisa chamada FUP, onde a retórica era bastante elevada. Enfim, hoje ficamos por aqui, que tudo isto é uma história demasiado pesada para estar sem haver muito mais. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.