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José Manuel Fernandes, bom dia. Queres iniciar a semana a falar de milhares de milhões? Queres falar no contracorrente do plano de Costa Silva ou queres falar da Cimeira Europeia do fim de semana?

Bom dia, eu quero falar das duas coisas, porque acho que as duas coisas estão ligadas. Como sabes, no final desta semana vamos ter a primeira cimeira europeia ao vivo, com todos os presentes, desde o início da crise do coronavírus. É a cimeira para discutir o megapacote destinado a financiar a recuperação económica, chamado pacote Covid. Para Portugal, fala-se muito deste fundo, fala-se muito dos fundos estruturais. Somando tudo, diz-se que pode chegar a 50.000 milhões de euros. Cinquenta mil milhões de euros é, de facto, muito dinheiro. Desta vez é que nós estamos mesmo a falar de uma pipa de massa. Só que suspeito que pelo caminho que as coisas estão a levar, esse dinheiro pode desaparecer mesmo antes de chegar cá. E pior que isso, pode chegar cá e servir para muito pouco.

Mas pode desaparecer como?

Pode desaparecer, em primeiro lugar, porque já há quem esteja a cavar buracos tão rapidamente que o dinheiro pode sumir num instante. Imagino que já estejas a pensar na TAP, porque a TAP tem lá já um buracão para levar muito deste dinheiro, mas a TAP se calhar nem vai ser o pior dos nossos problemas. E eu digo isto porque este fim de semana estive a olhar para o plano do António Costa e Silva, o famoso plano do consultor que o António Costa, não Silva, foi buscar. E foi uma leitura que eu aviso que foi superficial, um bocadinho em diagonal, portanto, aquilo são cento e poucas páginas, mas o que eu vi deu para ter uma ideia, e a ideia que tenho não é muito positiva. Devo dizer que, para ser franco, pareceu-me sobretudo um envelope de palavras destinado a embrulhar, nalguns casos, projetos que são megalómanos, para dizer o mínimo, e projetos que já andavam na cabeça dos governantes, que era preciso vender em Bruxelas, bem embrulhadinhos, e por enquanto é sobretudo isso.

Sobretudo isso como?

Sobre tudo isso porque não encontrei no documento um esforço para identificar, por exemplo, aquilo que eu acho que neste momento era muito importante nós identificarmos, que são os grandes bloqueios da sociedade portuguesa. Quer dizer, aquilo que é preciso ultrapassar para o país se desenvolver. Porque nós andamos nisto há anos, anos e anos, e sabemos que há algumas coisas estruturais que sem as resolver, Portugal não cresce nem se desenvolve. Basta ver que nos últimos anos tivemos todo o vento a favor, mesmo assim crescemos menos que os países da nossa dimensão, digamos, do nosso campeonato. Podia estar aqui horas a falar desses problemas, mas acho que não vale a pena, porque como eles não estão no documento, não vou fazer essa comparação. Agora, aquilo que surpreende é que António Costa e Silva achar que se pode transformar a crise numa oportunidade, que é uma expressão que ele usa, só gastando basicamente dinheiro, porque isso foi o que a gente fez durante muitos anos, fizemos com muitos fundos e não deu muito resultado. E agora este documento fala de muita coisa, fala de gastar de facto dinheiro, mas eu acho que não se pode falar verdadeiramente em investir, porque para falar em investir, eu acho que era necessário ter bem claras as prioridades. Eu acho que elas não estão claras.

José Manuel, mas quando falas em gastar dinheiro, estamos a falar de gastar dinheiro em quê?

Algumas coisas que estão no documento. Construir um TGV entre Lisboa e o Porto e secretamente entre o Porto e Vigo. Exatamente por quê? Diz que para não ser necessário viajar de avião. Eu não sei se viaja assim tanta gente de avião entre Lisboa e o Porto para ser necessário um TGV. Fala de construir novos terminais em Sines para minérios, nomeadamente para o lítio. O lítio parece que é em Trás-os-Montes, vamos ter o terminal em Sines, não estou a ver a lógica. Naturalmente que se fala no novo aeroporto de Lisboa, não se diz se é no Montijo, não é no Montijo, fala-se só no novo aeroporto de Lisboa. E depois fala-se do famoso projeto Hidrogénio, que neste momento, pelo que eu sei, é uma megalomania do secretário de Estado João Galamba, só isto não me assusta, que pode custar 7 mil milhões de euros. Só aqui iam logo 7 mil milhões de euros, que é uma barbaridade, para uma tecnologia que não está testada, que não se sabe se funciona, que não se sabe bem para que vai servir. E isto entre muitas outras coisas, algumas delas até podem fazer sentido e até fazem falta, não contesto. O metro ligeiro de Lisboa, por exemplo. Agora, eu olho para aquilo tudo e o que vejo é aquilo que eu sei que Bruxelas quer, que é uma justificação para o dinheiro, portanto, um embrulho de palavras para apresentar aos burocratas, justificar os financiamentos, mas que eu duvido que muitos deles sejam prioritários e que aquilo tenha lógica. Além de que há uma coisa muito importante: não há um único que conta, não há um só número em todo o relatório Aliás, eu suspeito que se houvesse e se depois no fim nós somássemos os números todos, íamos ter uma surpresa desagradável, porque aquilo ia nos assustar mesmo, porque ia dar um número estratosférico. Mas o pior, se calhar, nem é isso. O pior é olhar para todo aquele programa e ver que há o Estado sempre no centro de tudo. Ora, nós sabemos o que acontece em Portugal quando é o Estado que comanda tudo.

Mas se o dinheiro vem da União Europeia, o Estado tem que ter sempre um papel.

Sem dúvida. Uma coisa é ter um papel, uma coisa, por exemplo, é o Estado ser um facilitador, um regulador, outra coisa é ser o Estado a comandar. Portanto, se olharmos para trás, vemos que as melhores experiências que tivemos em Portugal foi quando abrimos a economia, quando deixamos os portugueses criarem empresas, quando os portugueses foram inventivos, quando os portugueses tiveram, no fundo, de lançar-se ao mar, por assim dizer, sobretudo quando os portugueses tiveram que se virar para fora, para o mundo. Foi assim na década de 1960, foi assim na década de 1980, voltou a ser assim por incrível que pareça, nos anos duros da troika. Ora, um plano muito centrado no Estado, muito com o Estado a dizer para onde é que se vai, para onde é que não se vai, é necessariamente um plano muito virado para dentro, sobretudo se for o Estado a fazer encomendas, por exemplo. Primeiro, até porque neste momento todos os ministerios já só se pensa onde é que se vai gastar o dinheiro e só se pensa o que é que vem daí. Depois, há outra coisa que também me deixa preocupado, é que temos associações empresariais muito clientelares, associações empresariais demasiado habituadas a viver destes dinheiros.

José Manuel, depois disto tudo, vês-te com pouca esperança?

Se for por aqui, não tenho de facto muita esperança, até porque os sinais de crise da economia são infelizmente cada vez piores, cada vez maiores, e os sinais de que tão cedo não nos vemos livres da Covid também não são nada animadores. Portanto, mesmo assim, olho à volta e vejo tudo tranquilo e tudo convencido que esta chuva de dinheiro da Europa nos vai salvar. Isto não é bom para uma segunda-feira, mas eu começo a achar que da maneira como isto começa a estar, com o buraco que estamos a cavar, não vai haver milhares de milhões que nos salvem. Se calhar, eles nos vão enterrar mais. José Manuel Fernandes no Contracorrente da Rádio Observador, à conversa com Miguel Cordeiro nas manhãs 360. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.