Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes queria começar por prestar uma homenagem. Bom dia, José Manuel. Uma homenagem a quem?

Bom dia. Hoje, havia muita gente a quem se podia prestar uma homenagem, mas eu vou começar por Sérgio Sousa Pinto. E por quê? Porque hoje passam 44 anos do 25 de novembro de 1975. Como eu disse, há muita gente que podia ser homenageada, mas escolhi este deputado do PS precisamente por causa do 25 de novembro, mas não o de 75. Eu escolhi por causa do 25 de novembro de 2019, isto é, o deste ano. Tudo isto por quê? Porque sexta-feira passada, na Assembleia da República, foram aprovados uma série de votos propostos pelos vários partidos. E, na verdade, só houve um voto proposto a saudar mais este aniversário de 25 de novembro, que foi aprovado, os outros foram rejeitados. E esse que foi aprovado, foi proposto pelo CDS e passou, porque desta vez o PS absteve-se. Mas eu acho que essa abstenção, no fundo, foi um bocado uma vergonha. E felizmente que houve sete deputados socialistas que desobedeceram e votaram a favor. Sérgio Sousa Pinto foi um deles.

Mas a bancada do PS também apresentou um voto, passo a citar: "à construção da democracia em Portugal."

Pois apresentou, mas o problema está precisamente aí. É que esse voto tem um texto que é, a meu ver, lamentável. E esse voto é tão lamentável que mereceu a abstenção, precisamente, de Sérgio Sousa Pinto. Mais, ele acabou por ter que pedir a palavra para reagir e para dizer que o seu voto era, e eu vou citá-lo: "Contra a amálgama e o revisionismo histórico." Eu acho que ele fez muito bem, e por isso é que eu lhe estou a prestar homenagem, porque eu acho que há cada vez menos pessoas capazes de ir contra a corrente. E de alguma forma, ele no PS está a ir contra a corrente do que atualmente é uma tendência muito negativa no partido. Também eu aproveito para prestar homenagem aos militares que em 25 de novembro puseram fim àquilo que era um processo revolucionário, que pra quem não se lembra e pra quem não viveu ou viveu, ameaçava tornar Portugal, na Europa, uma nova Albânia, e no mundo, uma espécie de nova Cuba, ou coisa parecida com isso. Estaríamos um pouquinho mais pobres do que, apesar de tudo, estamos, se tivéssemos ido por esse caminho. Bem, mas aquilo que é importante é que também é preciso recordar que entre as pessoas que é preciso homenagear está Mário Soares, porque ele foi o rosto político dessa luta do verão de 1975. E é inacreditável como é que o PS hoje parece empenhado, de fato, em reescrever essa história. É inacreditável, por exemplo, que nesse debate, quem falou pelo PS, que foi o deputado Pedro Bacelar de Vasconcelos, tenha dito, eu vou mesmo citá-lo porque acho que a frase é inacreditável: "Tenho muito orgulho no papel que o PS desempenhou e especial orgulho na intervenção de Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal." Álvaro Cunhal. Eu não sei como é que é possível pôr Álvaro Cunhal nesta lista e no mesmo plano. É que Álvaro Cunhal, até ao 25 de novembro, estava do outro lado da barricada nesta batalha.

Mas José Manuel, no 25 de novembro, Álvaro Cunhal não acabou por dar ordem para os comunistas não se juntarem aos golpistas.

É verdade, no 25 de novembro, Álvaro Cunhal percebeu que tinha perdido. E quando percebeu que tinha perdido, negociou com Melo Antunes pra evitar, no fundo, a contrarrevolução e aquilo que podia ser algo como a repressão dos comunistas ou algo parecido. E de fato, ele mandou que as unidades militares que os comunistas controlavam ficassem nos quartéis. Também mandou os militantes ficarem nas sedes. Aliás, isso vem recordado no livro de memórias de Azita Seabra, é uma parte muito interessante desse livro. Mas até ao 25 de novembro, Cunhal fez tudo o que pôde para que Portugal não ser uma democracia igual às outras democracias europeias. Esta expressão, "não ser uma democracia igual à das democracias europeias", era usada por ele. Ele usou, por exemplo, numa entrevista que deu, uma entrevista famosa à Oriana Fallaci, em que dizia também que não lhe interessavam nada nem as eleições, nem o pluralismo. Disse isso e disse muitas outras coisas parecidas ou piores. Agora, acho incrível como é que um socialista pode hoje dizer que tem orgulho de quem lutou assim contra a democracia no PREC, de quem só aceitou a democracia, no fundo, quando foi derrotado neste processo, de quem ainda hoje não reconhece essa derrota. Pois apesar do texto, que eu acho vergonhoso, apresentado pelo PS, mesmo assim, os comunistas e os bloquistas, na sexta-feira, votaram contra esse texto.

O Bloco e o PCP votaram contra essa saudação à construção da democracia em Portugal?

Pois votaram. Quer dizer, o Bloco e o PCP continuam a achar que o 25 de novembro foi a derrota do 25 de abril. Quer dizer, continuam a achar isso enquanto os democratas acham, e acham bem, que sem o 25 de novembro, o 25 de abril teria levado a outra ditadura, uma ditadura de sinal contrário. Essa clivagem não desapareceu e eu acho que nós não temos que fazê-la desaparecer. Eu acho que é bom que hajam diferenças entre as pessoas. Acho que Sérgio Sousa Pinto tem toda a razão. Não podemos amalgamar o que não pode ser amalgamado. Não podemos mesmo reescrever a história. O PCP e o Bloco continuam sem ter vergonha de terem sido contra a liberdade no PREC, de quererem uma revolução. Portanto, não percebo como é que este PS da Jerónimo de Sousa é que de repente parece ter ficado com vergonha de ter estado do lado da liberdade. É um PS que parece também ter vergonha de Ramalho Eanes, de Jaime Neves, talvez até de Melo Antunes, que foram os heróis do 25 de novembro. Até diria que é um PS que tem vergonha deste dia, que no fundo, foi o dia que salvou o 25 de abril.

Contracorrente com José Manuel Fernandes. A conversa com Carla Jorge Carvalho, aqui no Observador. Amanhã, nova edição, a não perder, sempre depois do jornal das oito. E hoje a sequência dos pod--

Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.