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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje queres falar sobre os protestos contra o preço das casas. O que é que realmente estes protestos querem dizer, na tua opinião?
É um bocado como aquele título de um livro do Raymond Carver, de que falámos quando falámos de Moore.
Exato.
Exatamente. Eu vou começar hoje de uma maneira bastante prosaica e dizer que almocei com uma amiga, mas isto é apenas um pretexto para poder contar a história dela, porque acho que pode ter algum interesse. E vou contar a história de forma naturalmente muito resumida. A minha amiga foi durante muito tempo simpatizante e eleitora do Bloco de Esquerda, inclusive já era minha amiga nesse tempo, o que de resto até acho que só atesta o meu caráter ecuménico. Em 2023, ela mudou o voto do Bloco de Esquerda para o Livre, o que vai dar ao mesmo, não há grande diferença, de facto, e continuou a ser minha amiga e eu continuei a ser amigo dela. O problema é que em 2023 aconteceu o 7 de outubro e as circunstâncias alteraram a estabilidade ideológica da minha amiga. Para dizer a verdade, antes de 2023, ela já tinha tido alguns contratempos com gente do Bloco de Esquerda por causa da posição dela acerca do Médio Oriente. Convém explicar que a minha amiga, que não é judia, não é religiosa de credo nenhum, já foi à Cisjordânia e a Israel mais de 20 vezes, conhece a região como poucos, acreditava que um dia poderia haver paz entre judeus e árabes e conseguia, porque é uma pessoa invulgarmente culta, boa e otimista, conseguia perceber os dois lados. Ora, mesmo antes de 2023, perceber os dois lados ou mostrar equidistância não era coisa tolerável nos círculos da extrema-esquerda em que ela se movia. E depois disso, a coisa piorou. O 7 de outubro, naturalmente, abalou-lhe o otimismo. E não foi por causa da reação israelita, foi por causa do 7 de outubro propriamente dito e da absurda selvageria daquele dia. Como a minha amiga não aprecia a tortura e o assassínio a sangue frio de inocentes e todo o culto da morte que define o Hamas, que estrutura o Hamas e o fundamenta, ela fez questão de o dizer em textos publicados nas redes sociais. E aqui é que começa mais ou menos a história, porque isso não caiu bem em muitas das pessoas com quem ela julgava ter uma ideologia em comum, com quem ela julgava partilhar valores e até amizade. E num instante, a generalidade dos amigos e conhecidos do Bloco de Esquerda deixaram de lhe falar. E alguns não se satisfizeram com o desprezo e foram mais longe, adotaram a intimidação pura e dura. Houve gente que lhe era próxima a ponto de lhe conhecer a morada. E pintou-lhe a parede exterior de casa com os seguintes dizeres, e estou a ser literal: "Fuck you, se tens coração, estás pela Palestina." E por aí fora. A intimidação não parou por aí, foi muito mais longe do que isso, mas eu não tenho autorização da minha amiga para revelar os extremos a que os defensores caseiros do Hamas ou militantes do Bloco de Esquerda chegaram para a prejudicar. E ela acabou por se cansar da perseguição e deixou de partilhar em público opiniões sobre o Médio Oriente e opiniões políticas em geral. Isso não a impediu de um dia destes ter curiosidade. Venceu, com certeza. E ela foi discretamente espreitar o acampamento de ociosos que se instalou na Baixa do Porto. E foi aí que ela viu que os principais agitadores ou alguns dos principais agitadores lá do acampamento na Praça Dom João I, que pelos vistos são acampamento intermitente, alguns desses principais agitadores são as mesmas pessoas ligadas ao Bloco de Esquerda de quem ela foi amiga ou nalguns casos conhecida apenas, e que depois a perseguiram e intimidaram. São os mesmos filhos de classes privilegiadas que estão ali a fingir que defendem ou representam o povo. E foi aí que ela ouviu diretamente os discursos que as televisões, imagino eu, não passam. Um dos campistas afirmou de megafone em punho ou microfone ou o que eles têm, afirmou que o 7 de outubro foi um ato de resistência e recebeu uma salva de palmas dos participantes da manifestação, uma manifestação alegadamente pela habitação. E outro dos campistas que tomaram a palavra gritou, também com a ajuda da aparelhagem de som: "Morte a Israel e morte aos israelitas." E os aplausos foram ainda mais vigorosos. Quando os media e certos políticos continuam a tratar estes acampamentos no Porto e em Lisboa como protestos contra a dificuldade em aceder à habitação, convém não alinharmos nisso e chamar-lhes aquilo que realmente são. São manifestações de fanáticos, de radicais de esquerda empenhados em acabar com as nossas sociedades. E por isso há por ali bastantes bandeiras da Palestina e os lencinhos a condizer. As declarações de amor a Gaza, que eu acho que muitas daquelas pessoas nem sabem onde fica, nem sabem bem o que é, mas são uma versão em código, são uma coisa que se grita, uma cifra, um código do ódio que essa gente dedica ao Ocidente enquanto obviamente usufrui das vantagens e das virtudes ocidentais. Aquela gente não quer casa, aquela gente quer destruir o Ocidente. E hoje, em larga medida, a primeira linha da defesa do Ocidente é Israel. E seria bom que não fosse a última e não fosse a única. Esperemos que não seja.
Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo. Um abraço.