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O Contracorrente está de regresso depois da interrupção na última semana do ano passado e nada melhor do que entrarmos em 2022 a falarmos de 2022. José Manuel Fernandes ouviu a mensagem de Ano Novo do Presidente da República e encontrou nela um bom pretexto para abrir o ano. Encontraste três palavras muito específicas, não foi, José Manuel? Bom dia.
Bom dia novamente. Exatamente. As três palavras da expressão "virar a página". Dá pra tudo. E de repente, de facto, estamos a discutir o que quer dizer isso de virar a página. Deixa-me dizer, primeiro que tudo, que não gosto da expressão, porque ela está associada àquilo que eu acho que é uma das maiores mentiras políticas dos últimos anos, que é uma das grandes mentiras dos anos de José Sócrates, que foi e continua a ser a ideia de que é só com o PS e só com António Costa, que se virou a página da austeridade. A página da austeridade já tinha sido virada antes, de resto, já se tinha passado essa fase. Dava para passarmos aqui um programa todo a discutir esse assunto, mas hoje quero sobretudo olhar pra frente. Não vamos olhar pra trás. E sinceramente, pareceu-me, parece-me sempre, de resto, como Marcelo Rebelo de Sousa, que ele usou a expressão de forma tão maldosa como equívoca. Maldosa, porque deixou no ar a ideia de o feitiço poder virar contra o feiticeiro, isto é, que agora virar a página era mudar de governo, mudar de políticas. Aliás, foi isso que o PSD veio logo dizer, que ele queria dizer. A interpretação autêntica ou parecida. Eu não estou seguro, precisamente porque a formulação do presidente foi equívoca, o que de resto permitiu logo a António Costa e ao Partido Socialista, por exemplo, António Costa divulgar ontem um pequeno vídeo em que também ele se apropriou da ideia, mas para dizer que virar a página é virar a página da pandemia.
Mas o que o Marcelo disse exatamente? Recorda-nos lá, José Manuel.
Se calhar, de facto, é o melhor. E o melhor é citar tudo. Vou citar tudo: "O ano que findou prometia ser um fim e um recomeço, mas não foi. Espussou esse recomeço tarde e timidamente. O ano que hoje iniciamos tem de virar a página, consolidando, decidindo, reinventando, reaproximando. Retomemos a caminhada juntos." Às vezes parece que está só a falar de pandemia, outras vezes parece que está a deixar recados críticos ao governo. Quer dizer, isto é críptico. O ano passado prometia ser um fim e um recomeço, mas não foi. De quem é a culpa? É da pandemia? É do recomeço tardio e tímido, como ele falou? Marcelo não esclarece. E falar de consolidar e decidir parece ser falar de dar força ao governo, mas depois quando acrescenta a necessidade de reinventar e reaproximar, já é como se estivesse a dar a entender que as coisas afinal podiam ser feitas de outra forma. Sinceramente, esta mensagem pode ter sido muito poética, como acho que ele tentou que fosse, mas foi muito pouco esclarecedora. E esse ponto é muito importante. Quem se lembra das mensagens de outros presidentes da República, sabe que as coisas não têm de ser assim, não tinham de ser assim. Portanto, Marcelo podia ter sido mais direto, podia ter sido mais claro, mas acho que continua a ser Marcelo, o que é uma pena. Nesta altura, era bom ter ouvido palavras diferentes.
Mas achas que o presidente podia ter ido mais longe a vender eleições no final do mês?
Eu acho que precisamente por isso, ele devia ter ido mais longe. Não são eleições rotineiras, são eleições que ele convocou. No final do mês, os portugueses vão ter que fazer escolhas e o presidente podia ter recordado o que está em causa nessas escolhas. O que o Marcelo disse sobre as eleições? Coisas com pouco sentido para ser franco. Primeiro, que delas sairá um governo com legitimidade renovada, o que não é propriamente uma novidade pra ninguém. Claro, há eleições, há um governo novo e com nova legitimidade. Depois, que a Assembleia da República dará voz ao pluralismo de opiniões e soluções. Bem, já sabemos, na Assembleia da República há vários partidos. O mais longe a que chegou, e foi pouco, foi quando disse que era bom que o próximo governo garantisse a previsibilidade para pessoas e para os seus projetos de vida. Quer dizer, isto é mais ou menos a mesma coisa que dizer que ele deseja estabilidade. Só que não o disse. Nem disse como. Não disse como é que se consegue estabilidade. Nem tornou, e esse aspecto eu acho meio importante, claras as opções que os portugueses terão pela frente. Afinal de contas, o presidente podia ter dito alguma coisa sobre o que foram os últimos seis anos e colocar abertamente o dilema a todos nós, que é um dilema simples: querem mais disto ou querem algo diferente?
Mas como é que ele podia fazer isso, José Manuel?
Olha, eu acho que há tantas formas. Vou dar alguns exemplos, pegando em passagens da sua própria mensagem. Por exemplo, a certa altura, ele pede mais atenção ao custo imediato de vida, da energia e dos bens básicos. A frase aparece assim, no meio de outras, sem mais, dita à pressa. Mas de que ele está a falar? Está a falar de uma coisa muito concreta, que as pessoas conhecem, que é inflação. O que ele podia ter falado? Podia ter falado das consequências da inflação, porque se vier a inflação, isso pode levar a uma alteração de muitas coisas que nos habituamos nos últimos anos. Taxas de juro baixas, por exemplo, o que isso pode significar pras pessoas que têm empréstimos, para o país, que tem um endividamento brutal. Era uma boa ocasião para recordar o peso que a nossa dívida ainda tem, por exemplo, uma boa ocasião pra lembrar a todos que é bom ter os pés na Terra. Outro exemplo: ele disse que era preciso reaproximar, nos seus termos, e reaproximar para cuidar dos mais sacrificados pela pandemia, pelo desemprego, pela insolvência, pela paragem de vida. Ótimo objetivo. Eu diria que estamos todos de acordo, mas talvez fosse boa altura De lembrar, os números que mostram que Portugal foi um dos países, nalgumas áreas foi até mesmo o país, que menos apoio deu precisamente a muitos dos sacrificados da pandemia. Nós comparamos mal com a Europa nesse aspecto. Isto para não falar do que se passou e ainda passa nas nossas escolas, em todo o nosso sistema de ensino, quer dizer, que foi o que esteve mais tempo fechado. Aquilo que se sacrificou nesta área não tem comparação, mesmo com países que tiveram períodos de confinamento mais rigorosos que os nossos em alguns aspectos e até com leis mais draconianas. O nosso presidente, de resto, mostrou-se mais preocupado, sinceramente, apesar de ele ser doutor, tentar fazer um tweet, mais preocupado com os idosos do que com os mais novos. Eu diria, acho que era bom que os mais novos estivessem mesmo no radar das próximas eleições.
O que queres dizer com isso, de estar no radar?
Quero, por exemplo, dizer que este era, porventura, um bom momento de recordar, e eu vou usar uma frase muito conhecida, que é: "Uma sociedade é uma comunidade de almas", ou de pessoas, se quiseres, para não usar o termo almas, pode ofender algumas pessoas, enfim, "que reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram". Isto é uma ideia, não é minha, é uma ideia defendida por um grande filósofo, político, antigo, Edmund Burke, e é a ideia de que nós, os vivos, no fundo, quem cá está, quem decide, quem vai votar, temos de respeitar, por um lado, o lugar dos nossos mortos, não arriscar tudo e achar que tudo é feito de um momento para o outro, perspectiva revolucionária. Mas pensar, sobretudo, no futuro, porque não é só deixar o planeta, é deixar o planeta, a economia, a forma como as coisas funcionam aos nossos filhos. Portanto, numas eleições não podemos estar a pensar apenas, por assim dizer, no nosso umbigo, nos nossos interesses mais imediatos, naquilo a que tantos por aí chamam direitos adquiridos, porque nada é adquirido para sempre e nunca. Temos de pensar nos que vieram depois de nós. Eu tenho falado muito disso aqui. E esses já serão menos, já sabemos que serão menos, mas vêm depois, porque há muitos anos que estamos com problema de natalidade. Portanto, já temos aqui um problema. Nada disso falou o presidente. Depois temos também ainda de pensar nos que estão a estudar, que já nasceram, mas ainda estão a estudar, mas ainda não chegaram ao mercado de trabalho. E muitos desses sentem que não estamos a ser justos com eles. Ora bem, nós sabemos uma coisa, sabemos que é fácil os mais velhos votarem, porque a participação eleitoral é mais elevada, e votarem a pensar nos seus interesses imediatos. Há muita campanha para eles. É mais difícil, também sabemos isso pela participação eleitoral, levar os jovens a votar. Por isso é bom que, pelo menos nós que votamos, votássemos a pensar nos mais jovens, nos mais novos, nos que ainda não nasceram, nomeadamente, e no país que lhes vamos deixar. É fácil dizer que queremos salários mais altos, mas, por exemplo, é difícil acrescentar que nunca teremos esses salários mais altos por decreto, por milagre, porque alguém assinou isso numa lei qualquer. Porque basicamente o problema é o seguinte: o problema é que não se distribui uma riqueza que não existe.
Mas achas que o presidente podia fazer um discurso assim, quase de oposição?
Não sei por que isso é um discurso quase de oposição. Falar em crescimento e em criação de riqueza é oposição? Bem, isso implica uma leitura do que tem sido a situação, digamos assim. Então, se é oposição, nesse caso, se a leitura da situação é essa, é uma oposição que o presidente deve fazer, ou pelo menos para que o presidente deve abrir. O presidente não está em Belém apenas para assinar de cor uso o que lhe chega do governo e para evitar disparates maiores, por exemplo, leis mal feitas, como agora aconteceu com a lei da eutanásia, não é só para isso. O presidente, se quer realmente exercer aquilo que em tempos chamavam de ministério de influência, pode ser que ele não ache que isso tenha importância, mas que era uma função vista como importante para um presidente, e não ser apenas um presidente popular e senhor dos afetos, então deve usar um dos poderes que tem, que é o poder da sua palavra, e se calhar usá-la com mais parcimônia, mas quando a usa, lembrar aos portugueses que as nossas dificuldades não se resolvem só fazendo mais força ou tendo mais vontade de as resolver, ou acreditando que os problemas se resolvem como tudo se resolveu nos nossos 900 anos de história, as coisas são um pouquinho mais complicadas. As nossas dificuldades resolvem-se com políticas e as políticas que são seguidas têm sempre consequências económicas e consequências sociais. E por isso, já que vamos ter uma oportunidade para escolher políticas, é bom que os portugueses tenham algumas noções. Por exemplo, querem mais esta política? Quando se fala de salário mínimo, têm noção de que o salário mínimo sobe mais depressa do que a economia e que um dia destes estamos todos a receber o salário mínimo. Já somos o país da Europa em que percentualmente mais pessoas recebem o salário mínimo. Querem mais desta política que se mostra, ao mesmo tempo que sobe o salário mínimo, praticamente incapaz de fazer subir os salários médios e que agora é que descobriu, de repente, que temos um problema com os salários médios e acha que talvez por lei se resolva. Os portugueses querem também mais de uma política que tenha permitido a Portugal ser ultrapassado em termos da riqueza produzida, que é a riqueza que depois se pode distribuir, em termos também de poder de compra. Portanto, para não falarmos só do PIB, que faz confusão a muita gente, mas em termos de poder de compra, aquilo que são as condições de vida das pessoas, por países que ainda há poucos anos estavam tão atrás de nós. Os portugueses preferem continuar a falar de direitos adquiridos em vez de falar de reformas? Eu acho que é boa altura de fazer essa questão. Até pode ser que os portugueses prefiram continuar a falar de direitos adquiridos. Olhando para as sondagens, parece que é isso que preferem. Mas Portugal Aliás, porque lá quase só se fala de direitos, fala-se muito pouco de deveres. Mas este presidente, até porque já nem pode ser reeleito, podia lembrar aos eleitores que há outras escolhas, que pode haver outros caminhos, que pode haver outras formas de olhar para a realidade. E depois, também acho que podia ter ido mais longe naquilo que disse sobre a pandemia.
Então, ele agora diz que já podemos ter entrado em endemia.
Olha, aleluia.
Imagino que devesses gostado dessa parte.
Essa parte gostei. No último dia do ano, o presidente apareceu com alguns números a sossegar os portugueses, que é uma coisa extraordinária. Ele trazia números para sossegar os portugueses, num momento em que o governo parece mais apostado em assustar-nos, uma estratégia do medo. Basta ver as interpretações da Ministra da Saúde. Nesta última semana apareceu nas redes um documento interno do Ministério da Saúde, que é autêntico, porque o link dava para o site do Ministério da Saúde, que defende mesmo a necessidade de meter medo às pessoas. Numa altura destas, eu acho que é muito bom que o presidente tenha palavras sensatas. Eu não vou repetir aquilo que já disse aqui mil vezes sobre esta variante Ómicron, sobre como não devíamos continuar a olhar só para os números de infectados, em vez de olhar para os outros números todos. E por isso, quando vi Marcelo finalmente falar dos outros números, só podia ficar felicíssimo, como tu dizes, e achar que se calhar também já estamos mesmo na fase endémica, porque de certeza o nosso virologista ou epidemiologista em chefe também o diz. Agora, era importante ele ter deixado mais do que isso. Era importante ele ter deixado uma mensagem semelhante a esta que ele deixou de passagem, numa audição, já nem sei bem de onde. Ter, sobretudo, indicado que se empenharia, por exemplo, numa coisa que preocupa, que ainda há bocado estivemos aqui a discutir no "Explicador". Que o presidente se empenharia em garantir que o direito de voto não será prejudicado se houver demasiada gente obrigada a ir para isolamento. Eu confesso que fiquei um bocado preocupado com aquilo que ouvi aqui no "Explicador". Não fiquei nada sossegado sobre essa matéria. Será que o presidente está preocupado com isso? Será que o presidente está a tentar tomar medidas sobre isso? É uma preocupação, neste momento, de muitos portugueses. Dos portugueses que já estão em isolamento, ou que já têm, ou que têm medo de ficar em isolamento. E eu acho que isso devia ocupar as autoridades, porque era bom que o presidente não esquecesse o sistema. Bem, eu podia continuar, mas para mim é quatro semanas de medições tão importantes, até para ele, porque de alguma forma vão definir o resto do seu mandato. Acho que o Marcelo, de facto, podia ter sido mais directo, para dizer o mínimo.
O que disse o Presidente da República e o que mais poderia ter dito na mensagem de Ano Novo. É isto que vamos analisar neste regresso do "Contra-Corrente" em 2022. O que significa, afinal, o virar de página que Marcelo Rebelo de Sousa pediu? Queremos ouvir os nossos ouvintes neste Ano Novo e o nosso primeiro convidado é o politólogo e colunista do Observador, André Azevedo Alves. Bom dia, André Azevedo Alves.
Bom dia, bom ano.
Bom ano também. Foi equívoca a mensagem de Ano Novo do Presidente da República?
Foi. Eu diria que foi deliberadamente equívoca. Acho que Marcelo Rebelo de Sousa, se há característica que toda a gente lhe reconhece, é a sua inteligência. Portanto, Marcelo não foi equívoco por acaso. Eu acho que as próprias interpretações que o José Manuel Fernandes referia há pouco, que tivemos o PSD, o PS, o Chega, até, quase toda a gente a subscrever as palavras do Presidente da República, acho que isso acontece porque a mensagem foi deliberadamente construída para, tocando em alguns pontos que Marcelo achava que era oportuno e que seria popular neste momento realçar, ao mesmo tempo não se comprometer e deixar em aberto essa possibilidade de múltiplas interpretações, todas elas, de alguma forma, apoiando as palavras do Presidente da República. E acho que é pena. Como o José Manuel Fernandes também referiu, Marcelo está no seu segundo mandato. Daqui a pouco estará a meio do segundo mandato, não falta muito. E arrisca-se a deixar, basicamente, como principal legado, uma espécie de obsessão quase doentia com a sua própria popularidade. Acho que isso não é bom para a democracia, não é bom para o próprio Presidente da República, e acho que se calhar este é o momento de o próprio Marcelo Rebelo de Sousa refletir se é esse o legado que quer deixar das suas duas presidências, porque me parece que, mais uma vez, esta mensagem acaba por ser em linha com a atuação do Presidente da República em momentos anteriores, um desperdício de uma oportunidade. E é uma espécie de medo constante, de receio, de arriscar, de perder popularidade, uma tentativa de tocar em todos os pontos para satisfazer quase todos os possíveis públicos. E o que resulta daí é uma espécie de favorecimento, acredito que aí não deliberado, de Marcelo Rebelo de Sousa, mas numa situação quase que pantanosa. Vimos isso quando foi a própria crise que Marcelo tentou evitar e acabou por potenciar. E acho que continuamos a ver isso. Arriscamo-nos a ter agora um Parlamento mais fragmentado ainda, uma situação política ainda mais pantanosa e Marcelo não só não está a ajudar a clarificar essa situação, como me parece que até pode estar a piorar.
Mas André Azevedo Alves, o que o Presidente da República pretenderá com isso? É não fechar portas num eventual diálogo a 31 de janeiro?
Sim, eu acho que Marcelo procura, para além da questão da popularidade, que eu arriscaria dizer que me parece ser sempre a primeira preocupação, acho que Marcelo Rebelo de Sousa procura também preservar o seu próprio papel a 31 de janeiro. Ou seja, sendo previsível, ainda que não certo, que não vá haver uma maioria absoluta, pode haver, mas para já os dados que temos não apontam nesse sentido Acho que Marcelo está também a procurar colocar-se a si próprio com a maior margem de manobra possível e com a possibilidade, com uma perspectiva, que Marcelo Rebelo de Sousa certamente apreciará, de o presidente da República poder ter também depois um papel importante na tentativa de construção de equilíbrios, de entendimentos, de soluções governativas, que quanto maior for o cenário de fragmentação, em princípio, mais activo terá de ser e maior margem terá o presidente da República para actuar aí. Mas parece-me que é uma postura muito centrada no próprio papel e na própria imagem do presidente da República e muito pouco centrada na tentativa de marcar alguma posição, de exprimir preocupações concretas, de exprimir um rumo concreto, que nós assistimos bem ou mal, concordando ou discordando, em presidentes da República anteriores até de diferentes orientações políticas. Que procuraram explicitar aquilo que julgavam ser a orientação geral que deveria prevalecer e quais eram as suas preocupações políticas. É um caminho diferente do que Marcelo Rebelo de Sousa tem seguido e continua a seguir.
E, portanto, o efeito prático desta mensagem em que nos ocupamos a perceber o que significa a expressão "virar de página", faz com que todos os partidos, e é só escutar os debates de ontem, todos os partidos a apropriarem-se desta expressão com a interpretação que lhes é mais conveniente e que preferem.
Exatamente, e com razão. Eu também não me sinto em condições de dizer que alguma dessas interpretações está errada, porque me parece que essa expressão e que a forma como foi transmitida foi deliberadamente passada nesse sentido. Ou seja, pode ser visto como o virar de página da pandemia, pode ser visto como o virar de página de alternar, deixar a governação socialista passar por uma governação liderada pelo PSD, pode ser visto até como o virar de página pro PS ter uma maioria absoluta. Pode ser visto como o virar de página pra novos partidos reforçarem a sua posição. É um virar de página que é quase tautológico. Vamos ter eleições, vamos ter uma situação nova. Sim, vai ser diferente. À partida, seria altamente improvável que a situação ficasse exatamente igual à que existia antes. O virar de página definido nestes termos tão gerais é mais ou menos garantido e é natural que os vários partidos e os vários líderes, aliás, prevejo que nos próximos debates iremos assistir mais ou menos ao mesmo, que praticamente toda a gente reclame essa expressão e exprima a sua concordância.
E a julgar por esta forma mais discreta de intervenção pública, é de esperar que Marcelo, nesta fase de pré-campanha e de campanha eleitoral, se recue e se recolha?
Sim, eu não acho mal que o presidente da República, neste período de campanha, se recolha. Acho que o momento de ter deixado mais clara quais são as suas principais preocupações e como é que vê a situação do país e o que é prioritário em termos gerais, obviamente, não fazendo apelos ao voto partidário, não é nada disso que acho que estamos a falar, mas o momento teria sido até nesta mensagem. Marcelo optou por não o fazer. Optou por uma mensagem que, repito, me parece ter como primeira prioridade a preservação de popularidade do próprio Marcelo. E deixar uma mensagem que permite que, de uma forma geral, desde os partidos mais à esquerda aos partidos mais à direita, todos, se quiserem, possam reclamá-la como sua ou pelo menos exprimir publicamente o seu alinhamento com ela. Ao fazê-lo, acaba por autoanular, do ponto de vista político, o próprio impacto que podia ter com essa mensagem. E como dizia, parece-me que fica essencialmente reduzido a uma gestão da popularidade do próprio presidente da República.
E, portanto, de nenhuma forma marca aquilo que podem ser temas de campanha eleitoral. André Azevedo Alves, fique conosco mais um pouco, porque, João Miguel Santos, está na altura de começarmos a ouvir os nossos ouvintes.
Já temos alguns em linha. Vamos recordar o número de telefone, é o 910 024 185. Pode deixar a sua opinião aqui em direto na Rádio Observador e também nas redes sociais e no site do Observador. Já escolhi alguns comentários, já vou dar conta deles. Posso dizer, no entanto, que os nossos ouvintes eleitores entraram neste novo ano mais focados. Temos comentários mais curtos, mas mais incisivos e lacónicos.
Muito bem. Vamos ver se vai ser assim também a intervenção do Miguel Canhoto, que é consultor e que está a ligar do Barreiro. Bom dia, Miguel Canhoto.
Muito bom dia. Antes de mais, queria aproveitar pra desejar um bom ano a todos os ouvintes do Observador. Eu ouvi com particular atenção a mensagem de Ano Novo do nosso presidente da República. Aliás, até tenho total liberdade para dizer que nunca tendo votado no professor Marcelo Rebelo de Sousa, acabo por me rever em muitas das posições que ele mencionou na sua mensagem, designadamente a questão do virar da página. Eu acho que tal como em 2015, nós resolvemos, enquanto sociedade, virar a página da austeridade. Neste momento, nós temos sobretudo que virar a página da austeridade sanitária, virar a página da pandemia. E isso faz-se através da melhoria das condições de vida dos portugueses, designadamente a habitação, a melhoria dos salários. E eu interpreto a mensagem do presidente Marcelo Rebelo de Sousa como um apelo à estabilidade. À estabilidade no prosseguimento da recuperação dos salários, a estabilidade no combate à pandemia através do reforço das estruturas de saúde pública e sobretudo, nós devemos encarar este desafio para o novo ano, enquanto sociedade, numa perspectiva de normalizarmos o mais possível a pandemia. Acho que enquanto cidadãos e enquanto portugueses, demos uma enorme prova de resiliência na forma como aderimos de forma massiva à campanha de vacinação, sem esquecer os excelentes profissionais de saúde que compõem o nosso Serviço Nacional de Saúde, mas precisamos de mais. Precisamos de recuperar a economia, continuar a recuperar o emprego, que aliás, já atingiu níveis de pré-pandemia. Não chega, ainda assim, é suficiente pra nós conseguirmos encarar este novo ano com otimismo, mas sobretudo com a consciência e a responsabilidade que só um caminho de estabilidade nos poderá ajudar. Basicamente, em traços gerais, foi assim que interpretei a mensagem do nosso presidente.
Miguel Canhoto, e obrigado por ter partilhado essa interpretação aqui conosco. Bom ano pra você também.
Obrigado. Bom ano.
O Miguel Canhoto a dizer que virar a página deve ser da austeridade sanitária e é preciso normalizar a pandemia. A Diana Sousa liga de Lisboa. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia.
O meu nome é Diana, eu sou estudante em 20 anos e por isso eu estou um bocadinho ansiosa com estas eleições, são muito importantes pra mim. E ontem eu vi o debate e gostei muito.
Qual deles, Diana?
Peço desculpa, o debate entre o António Costa e o Rui Tavares.
Sim.
E enquanto estudante, eu senti-me muito ouvida, porque para além do primeiro-ministro falar constantemente da parte da estabilidade, o que honestamente eu concordo, porque eu fui notando ao longo dos últimos tempos um constante consenso entre o presidente e o primeiro-ministro. Também me senti ouvida na questão do desenvolvimento ecológico, dos salários. Eu estou prestes a entrar no mercado de trabalho. E toda aquela questão de aumentar os salários, tanto o salário mínimo como o médio, fez-me sentir mais confiante pra entrar numa vida mais autónoma pela primeira vez. Também a questão da habitação, acho que é constantemente bem defendida por ele. Gostei muito do Rui Tavares. Contudo, achei mesmo que o primeiro-ministro me transmitiu uma mensagem de estabilidade e de confiança. Sinto que posso confiar nele enquanto jovem.
Diana Sousa, portanto, já tem sentido de voto escolhido à partida. Diana Sousa, muito obrigada pelo seu telefonema. Um bom dia e um bom ano também para si.
Bom ano.
Chamamos agora o médico Jacinto Gonçalves, que está também em Lisboa. Bom dia.
Bom dia. Antes de mais, queria desejar um bom ano a todos os participantes e profissionais do Observador.
Muito obrigada.
E gostava de dar a minha opinião sobre estes assuntos que estão em causa. Antes de mais, a mensagem do senhor presidente faz-me lembrar da mensagem das pitonisas de Delfos. Eram sempre mensagens dúbias, com várias interpretações. E o que aconteceu? A mensagem do senhor presidente é uma mensagem que tem tantas interpretações que serve pra pouco. Cada um veste conforme lhe apetece, conforme as suas tendências. Portanto, é uma mensagem que não tem outro significado a não ser a obsessão que o senhor presidente tem em manter a sua popularidade. Isso é uma tendência que ele tem, não se pode criticar, cada um é como é. Agora, eu acho que o virar de página, tocar nesse assunto, é uma coisa muito séria. Virar de página, ser uma viragem de página de fundo, porque as pessoas, os jovens, sobretudo, não estão contentes com o nosso país. Vão-se embora, não acreditam que possam ter futuro aqui e é isso que tem que se mudar. Tem que haver caras novas na política, tem que haver novas vagas de fundo para que se mude a política em Portugal, tal como aconteceu noutros países. Tem que haver mudanças, tem que haver alterações profundas no esquema político e os partidos tradicionais não estão a dar resposta satisfatória às necessidades e ansiedades dos portugueses. E, portanto, acho que devia haver uma reflexão dos próprios partidos pra se renovarem, pra renovarem as suas ideias, pra renovarem os seus objetivos. E o que eu acho espantoso é que com uma pandemia, que quanto a mim teve muitos erros de gestão, ninguém chamou a atenção pra isso, quer dizer, ultrapassaram-se, fizeram-se atitudes discriminatórias, ninguém chamou a atenção pra esses fatos que são graves, de discriminação de pessoas, de fatos que até certo ponto eram inconstitucionais, nenhum dos partidos chamou a atenção pra isso. Portanto, eu acho que é preciso dar de novo aos portugueses um país que eles gostem, que eles gostem de permanecer e que não fujam pro estrangeiro. É essa a minha mensagem. Não se pode distribuir riqueza antes de a criar. Portanto, a primeira coisa que era preciso fazer era criar emprego através de apoios às empresas, através do fomento de novas atividades e de novos, como noutro dia falou o senhor presidente da Câmara, quer dizer, criar novas grandes empresas que criem emprego e que criem emprego de qualidade, emprego de diferenciação. Portanto, o que eu acho é que a mensagem do senhor presidente serviu pra ele manter ou tentar manter a sua popularidade, foi dúbia como de costume, e não acrescentou nada a não ser que todos nós podemos cada um vestir a sua mensagem conforme quiser. Cada um faz a sua mudança, vira a página conforme lhe apetece.
Jacinto Gonçalves, muito obrigada pela sua análise. Um bom ano pra si, um bom dia e um bom ano. Este ouvinte a dizer que a mensagem de Ano Novo do presidente da República revelou mais uma obsessão que o próprio tem pela popularidade. João Miguel Santos, já tinhas prometido mensagens incisivas nas nossas plataformas digitais. Vamos a elas.
Vamos a elas. Ana Cristina Borges escreve no Facebook do Observador, onde estamos a transmitir em vídeo este Contracorrente: "Nada no professor Marcelo é ingênuo ou equívoco", e mais não diz. João Castelo Branco escreve: "Fez bem o professor, apenas disse que a democracia desta forma não serve." Pedro Silva escreve: "O Marcelo é um acadêmico por excelência e esse é o problema. Não podemos esquecer que ele faz aquilo que sabe fazer bem, que é falar de Direito e vai pensar sempre que o Estado vai resolver o problema." Já Paula Moura Ribeiro escreve que o professor fez um discurso de desejos, parecia a carta ao Pai Natal. Algumas das opiniões transmitidas pelos nossos ouvintes e leitores na rede social Facebook podem entrar em direto na Rádio Observador através do número 910024185.
Muito bem, e vais continuar atento a essas mensagens que vão chegando. Helena Matos, bom dia também. A mensagem de Ano Novo do presidente da República dá de fato para todas as interpretações, até pela pequena amostra de ouvintes percebemos que sim.
Como é óbvio, penso que isso é propositado. É aliás sempre muito referido o fato de termos um presidente muito inteligente. Nós temos que perceber uma coisa, o presidente da República não é alguém que nós tenhamos contratado pra vir resolver uns enigmas ou uns daqueles testes, ou daquelas coisas que até se costumam dar no Natal às crianças, pra ver os adolescentes, e que nós depois ficamos obsessivamente a tentar resolver, e ver qual de nós é que é mais inteligente. Era mais importante mesmo era que ele fosse um bocadinho mais corajoso E isso é um déficit muito grave em relação a Marcelo Rebelo de Sousa. Ou seja, talvez a inteligência seja importante no cargo, mas parece-me que a coragem da qual ele está manifestamente faltado, também seria relevante. E aí já chegamos, se quisermos, há ali uma naïveté, quase que um lado lúdico em relação às coisas. A própria imagem do virar de página, eu tenho que dizer, o virar de página é uma coisa que funciona na ficção. Nós estamos no capítulo, passamos para o capítulo seguinte. Mas a vida não é bem como a ficção. Quando nós trabalhamos em ficção, por exemplo, sabe-se que as personagens, há muitas coisas que não coincidem, mas as pessoas têm, isto está explicado, suspende-se a descrença. Se nós formos averiguar todas as coisas de uma ficção, sabemos que não pode ser assim. A realidade não é assim. E na vida real e na vida dos povos, as páginas não se viram. O que as pessoas chamam geralmente virar de página, e em Portugal chama-se muito virar de página, é tentar enterrar lá para trás aquilo que nós não temos a coragem de resolver. É acreditarmos que há um gesto qualquer de pensamento positivo que nos livra de todos aqueles assuntos que nós não temos querido resolver. E nós, se assistirmos às comunicações do nosso atual presidente da República, percebemos que há um discurso dele profundamente político, que foi o primeiro, em 2017. Nós temos aqui, em 2017, um discurso no qual ele acreditou que se tinha virado a página, de fato, em que ele diz que o país, tudo estava maravilhoso. A dada altura, diz que aquela recuperação já tinha começado no executivo anterior, mas há um discurso de uma adesão em que ele, de fato, parece acreditar que as coisas estão bem. Temos uma imagem mais confiável, acabou-se a crise política, acabou-se o espectro do fracasso financeiro. Ele desenha diante dos portugueses um oásis. Estávamos em 2017.
Essa é a fase da descrispação.
Da descrispação, sim. Em 2018, nós tivemos, porventura, o discurso mais vergonhoso de Marcelo Rebelo de Sousa. Eu acho que é mesmo um discurso que envergonha qualquer um e tenho muita dificuldade de perceber como é que um presidente da República pode ter feito um discurso destes. Ou seja, tinham acontecido os incêndios, o presidente faz um discurso no qual diz que se o ano tivesse ido até junho, até o dia 16 de junho, teria sido tudo uma maravilha, porque nós tínhamos ganho isso, tínhamos ganho aquilo, era o Festival da Canção, era sucesso. E depois aconteceu o 17 de junho, e depois ele refere também aqueles dois dias de outubro. Repassa sobre isso, sobre os mortos dos incêndios, de tal forma a correr, como se eles tivessem sido uma nódoa, um parêntesis num país em que estava tudo a correr bem. Ou seja, ele nem consegue refletir sobre as alterações que tinham sido feitas nas estruturas de combate a incêndios numa altura em que não se disse: "Tal não devia ter acontecido". Nada. É como se houvesse ali, de repente, uma nódoa num país que estivesse a correr muito bem. Curiosamente, quando ele faz o discurso no Corvo, e ele faz o discurso no Corvo em 2020, se não estou em erro, ele refere com muito mais detalhe os mortos. Porque este discurso não foi feito por acaso no Corvo, passavam 40 anos sobre o grande tremor de terra nos Açores, que tinha causado várias vítimas mortais. Ele dedica mais emoção, mais ênfase e mais atenção a estes mortos do tremor de terra nos Açores do que àqueles que eram contemporâneos dos seus mandatos. Porque nós temos um problema com Marcelo Rebelo de Sousa, ele tem, de fato, muita dificuldade em lidar com as dificuldades da vida. Tudo se resume a uma espécie de reiteração de um discurso, de um pensamento mágico, de um pensamento positivo, que se repetido várias vezes, aquilo há de surtir o seu efeito. Acabando nós, depois, neste tipo de discurso, é curioso que o José Manuel a dada altura na intervenção, referia ali a questão da forma críptica, e depois o presidente, ele neste momento tem um estilo de discurso que é uma espécie de, ele diz três, quatro termos, que podem ser justiça, solidariedade, desigualdades. E depois tem estes três ou quatro itens, isto já aconteceu também no discurso anterior, se eu agora me puser aqui a dizer guerra, paz, fome, injustiça, está claro, as pessoas ficam à espera que eu diga alguma coisa. Guerra, coisa horrível. Paz, o desejo de todos nós. Quer dizer, ninguém me consegue atacar, pois está claro, nunca mais quem ia dizer nada. Ele já não formula, como fez em 2017 e fez em 2018, e depois vai fazer em 2019 ainda, que é frases, que de alguma forma refletem sobre o país. Não, neste momento ele lança três, quatro palavras e depois sobre cada uma dessas palavras, assuntos, produz um raciocínio que é obviamente incontestável, quer dizer, porque nenhum de nós vai ali sentar e dizer: "Desigualdade. Quer desigualdades? Vamos ser desigualdades". Está claro que não. Há um problema O presidente confundiu sempre popularidade com legitimidade. O exercer o seu cargo com legitimidade implica, às vezes, sacrificar a popularidade. Marcelo tem indiscutivelmente legitimidade, mas ele não usa essa legitimidade, porque ele sobretudo pretende preservar a sua popularidade. Portanto, há ali um lado de não exercício do cargo. Ele seria o mais brilhante dos comentadores se aqui estivesse neste estúdio. Eu pelo menos arrumava a mala completamente. O José Manuel não sei se falaria, porque não valia a pena. Mas não foi bem para isso que ele se candidatou. Ou seja, ele talvez tenha acreditado que foi para isso que se candidatou, mas não é isso que se espera dele. E nestes momentos, isto gera-nos um vazio terrível. Sem mais me adiantar, porque da observação dos diversos discursos presidenciais ainda haverá mais para dizer, eu quero apenas fazer agora aqui também uma anotação. Uma mesa é uma coisa que faz muita falta.
E também aqui o presidente não é ingênuo nesta matéria.
Pois, não é ingênuo, mas digamos que o último discurso teve uma postura digna, que foi exatamente o feito no Corvo, até porque era um muro de pedra atrás dele e havia ali aquele contraste entre a brutalidade da pedra e não sei o quê. E o presidente estava com uma postura mais ou menos sossegada. Enquanto teve uma mesa à frente. Eu sei certamente o problema que ele tem, porque eu tenho exatamente o mesmo problema, além dos braçeiros, mas eu não me candidatei a presidente da República, nem vou candidatar. Ponham lá a mesa outra vez, nós ainda vamos ter mais alguns anos disto, e basta comparar com o que foram as primeiras intervenções. A certa altura, ele já parecia que estava a olhar para dentro da câmera, visualmente aquilo estava mal concebido. Há em tudo isto um lado que é pensar a inteligência, a simpatia, os afetos não fazem necessariamente um bom presidente da República. Podem fazer uma pessoa amada, uma pessoa de quem as pessoas gostam, mas há uma certa diferença entre ser presidente da República e ser Miss Simpatia, e entre ser comentador e entre ter se submetido ao voto dos portugueses.
André Azevedo Alves, ouvimos aqui a Helena Matos a recordar outros discursos oficiais, outras intervenções institucionais do Presidente da República, e parece que Marcelo é mais Marcelo quando fala na rua e vai respondendo a interpelações quer dos jornalistas, quer de outros portugueses. Há aqui quase uma dessintonia entre aquilo que é a figura do Presidente da República e aquilo que é o próprio Marcelo Rebelo de Sousa.
Eu acho que há alguma sintonia ou há bastante sintonia nas várias intervenções de Marcelo Rebelo de Sousa, no sentido em que ele prossegue sempre esta preocupação com a popularidade. Acho que provavelmente, e nisso concordo com a Helena Matos, o perfil de Marcelo Rebelo de Sousa provavelmente é um bom perfil, todos os dados que temos apontam para isso, para ser uma personagem, uma figura popular. Tenho sérias dúvidas que seja um bom perfil para ser presidente da República e para ser presidente da República nestas circunstâncias, e temo que o exercício de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo do primeiro mandato e até ao momento que estamos a ver no segundo mandato, esteja a confirmar isso. Infelizmente, nós na história política e na história das instituições políticas, não temos escassez de exemplos de figuras que foram extremamente populares no seu tempo e que deixaram um péssimo legado no exercício das funções que fizeram. Não creio que o Marcelo vá deixar um péssimo legado, por padrões históricos, infelizmente há exemplos muito piores, mas creio que está tudo a ponto para que não vá deixar um bom legado.
Mas Marcelo vai, aparentemente, e de acordo com aquilo que as sondagens nos vão mostrar, vai encontrar uma situação ou vai ter um Parlamento e condições de governabilidade que lhe poderão exigir um papel menos popular.
Pois, e isso devo dizer que me suscita alguma preocupação, porque se continuarmos a ter, Marcelo pode ainda, creio que ajustar a sua própria trajetória e até pensar no legado que vai deixar, como eu referi na minha primeira intervenção. Mas se continuarmos a ter esta obsessão do presidente da República com a sua própria popularidade e alguma retração sempre que sente que a tomada de uma posição num sentido ou noutro sentido pode desgastar essa sua popularidade imediata, eu temo que venhamos a assistir, e o papel que o presidente da República venha a ter nesse tal cenário de maior fragmentação e de dificuldade de encontrar soluções governativas estáveis, que se pode colocar, não é certo que se coloque, mas que se pode colocar, que Marcelo Rebelo de Sousa não esteja à altura das circunstâncias. Se o que vamos assistir nos próximos tempos, e se esse cenário de fragmentação se colocar, e se o que formos assistir for uma continuação deste registo, eu creio que aí Marcelo Rebelo de Sousa não estará a contribuir para a estabilidade que o próprio refere como sendo importante e, pelo contrário, será um fator de instabilidade do próprio regime.
André Azevedo Alves, obrigada por ter estado conosco no Contra Corrente. Reforço os votos de bom ano e continuamos aqui, agora com o José Manuel Fernandes, com esta ideia que Presidente da República vamos ter se o Parlamento que sair do dia 30 de janeiro não trouxer uma maioria estável, como diria António Costa. Vai ser difícil para o perfil de Marcelo Rebelo de Sousa gerir uma situação dessas?
Eu acho que sim, e acho que as coisas começam a ficar um bocadinho difíceis. Acho que, de facto, a mensagem é muito equívoca, por exemplo. Eu reparei que agora o Partido Socialista fez um cartaz de campanha, que começa a estar aí pelas ruas, com a ideia de que de alguma forma prosseguimos juntos. E como é que acabou a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa? Foi com a seguinte mensagem: "Retomemos a caminhada juntos." Depois de ele falar em consolidar, decidir, reinventar, reaproximar, acrescentou: "Retomemos a caminhada juntos." O que ele está a querer dizer com isto? Vamos lá ver. Nós estamos a caminho de eleições e um momento de eleições é um momento de escolhas. Haver várias opções em democracia não é mau, é bom. Portanto, se todos pensássemos o mesmo é que era mau. E os países que têm sempre os mesmos governos, já sempre são países que são, no mínimo, pouco democráticos. De resto, o grande critério para saber se um país é uma democracia é o facto de ele conseguir substituir governos de forma democrática. Parece incrível, mas às vezes é bom recordar. Portugal, durante dois séculos de eleições, nós temos eleições há quase dois séculos, as pessoas esquecem-se disso, umas mais democráticas, outras não democráticas, mas portugueses vão votar há quase dois séculos. Em quase dois séculos, a primeira vez que um primeiro-ministro em funções, eu vou repetir isto que é um bocado alucinante. A primeira vez que um primeiro-ministro em funções perdeu umas eleições, foi Santana Lopes. Depois a seguir foi José Sócrates, mas primeiro foi Santana Lopes em 2005. Antes, nunca nenhum primeiro-ministro em funções tinha perdido umas eleições, o que mostra que a monarquia constitucional, depois a Primeira República e depois os primeiros anos da democracia portuguesa, de alguma forma, foram um regime democrático imperfeito, no sentido em que nunca foram capazes de substituir o primeiro-ministro em funções. Às vezes houve alternância democrática, sobretudo no regime democrático. Mas na nossa democracia atual, alguns chamam de Terceira República, não gosto muito dessa expressão. Mas a verdade é que tinha havido mudanças de governo, mas nunca quando o primeiro-ministro se estava a candidatar. Habitualmente, o primeiro-ministro saía e depois havia a possibilidade de haver mudanças. Cavaco saiu, Guterres saiu, Soares saiu, Sá Carneiro morreu.
Se calhar os eleitores gostam mesmo da estabilidade que António Costa está a pedir.
Não há dúvida que os eleitores gostam de estabilidade, mas também nem sempre o fazem por gostarem de estabilidade. Quer dizer, vamos lá ver. Muitas vezes entendem que é necessário mudar de políticas e por isso é que mudaram de políticas em 2005, voltaram a mudar em 2011, contra os primeiros-ministros que estavam e que se recandidatavam. E de alguma forma podemos considerar que fizeram o mesmo em 2015, apesar de umas circunstâncias um bocadinho diferentes, originais, digamos, em termos de resultados e sequência desses resultados, mas que eu não vou dizer que não deixaram de ser democráticos. Portanto, houve mudanças de protagonistas e de políticas. E tudo isso para dizer o quê? Que é bom que isso aconteça. O Presidente da República não tem que ter medo disso. Eu sei que o maior pânico do Presidente da República é, de repente, ficar na situação em que ficaram alguns dos seus antecessores, Mário Soares, Jorge Sampaio, o próprio Cavaco Silva, em que tiveram que lidar com governos de maioria absoluta. Numa altura em que têm que lidar com governos de maioria absoluta, a gestão dos equilíbrios é muito mais complicada, porque o Presidente da República fica com menos margem de manobra, claramente. E para um presidente como o Marcelo, isso é um bocadinho aterrador, porque fica com a ideia de que tem mesmo que exercer uma estrutura de influência e não esta forma de atuar tão ativista que ele tem. Aparentemente ativista, porque é um ativismo daqueles jogadores de futebol que a gente chama brinca na areia, fazem muitos dribles na areia da praia e depois quando passam pra um campo relvado não jogam a sério, digamos assim, não são capazes de fazer passes longos, não fazem uma jogada desequilibradora.
Vi que sabia os termos, estou aqui admiradíssima, porque eu então não sei nada.
Apesar de tudo.
Saber mais do que eu não é nada difícil.
José Manuel é um falso médium. Sem ofensa.
Calculo que isso passe completamente ao lado. Nem médium, nem semi-médium.
Eu recordo-me, por exemplo, que houve intervenções de Mário Soares, houve intervenções de Jorge Sampaio, houve intervenções de Cavaco Silva, que deixaram na altura, quem estava a exercer o cargo de primeiro-ministro Particularmente desconfortável, porque punham o dedo em algumas feridas. E isso não aconteceu só com governos de partidos diferentes de onde eles estavam. E não estou a dizer que fizeram sempre bem, atenção, não é isso que eu estou a dizer. Pode haver alturas em que eu estive de acordo com o que eles faziam e outras vezes em que eu não estive de acordo, mas estou a dizer que eles têm margem de manobra para isso e têm margem de manobra para uma posição em que possam passar aos eleitores mensagens mais assertivas. Mas como dizia a Helena, para isso é preciso coragem, é preciso correr riscos, é preciso, sobretudo, correr o risco, um risco se calhar insuportável para Marcelo Rebelo de Sousa, que é eu ao fazer isto, vou desagradar a uma parte dos portugueses. De facto, não se pode nunca estar de acordo com toda a gente, não se pode nunca agradar a toda a gente, não se pode nunca ser totalmente consensual. E é isso que, na minha perspectiva, faz a beleza da democracia, é que há diferentes opiniões, há diferentes opções, as pessoas podem escolher e os actores políticos não estão lá apenas para fazerem figura de corpo presente, estão lá para exercerem, de facto, os seus poderes, nem que os seus poderes sejam apenas falar, o magistério da palavra.
Sim, o poder da palavra.
Aliás, só para completar, há uma instituição na qual este activismo egocêntrico de Marcelo conduz, neste momento, se quisermos, a uma degradação da imagem da instituição, e estou a falar das Forças Armadas. Aquilo que está a acontecer com as Forças Armadas portuguesas, os sucessivos casos, e é claro que não se pode dizer que um presidente da República ou um chefe de Estado-Maior, ou ministro da Defesa, sejam responsáveis pelo mau comportamento de umas tropas que estão deslocadas no quadro de uma missão oficial. Mas tudo o que tem acontecido com a substituição dos chefes de Estado-Maior, começando naquele infausto episódio de Tancos. Toda esta sucessão de casos, parece que estamos a ver um filme em que aquilo que os personagens dizem não bate com o mover dos lábios, as sucessivas e atrabiliárias declarações do ministro da Defesa, depois as intervenções do presidente, depois as fugas de informação do diz que disse, nomeadamente a forma como, por exemplo, nós temos visto o semanário "O Sol" transmitir informações sobre o sentido de voto e as opiniões que vêm da Presidência da República, nomeadamente de alguns protagonistas e pessoas com cargos em Belém, das pessoas da entourage do Presidente da República. Isto tem a ver com a substituição de Gouveia e Melo, o desembaraço descalado. Tudo isto, Marcelo, é óbvio, não estou a falar aqui no caso da intervenção do discurso de Ano Novo, embora é sempre uma coisa ritual. Ele repete sempre: "As nossas forças de segurança, os nossos militares que estão no estrangeiro" e depois é como se estivesse tudo sempre no melhor dos mundos possíveis. E, portanto, no caso das Forças Armadas, eu acho que já são patentes as consequências deste legado de Marcelo, de confundir a Presidência da República com o comentariado e de estar, sobretudo, focado na questão da popularidade e não na questão do exercício da sua legitimidade. Eu acho que faz parte dos seus terrores o chegar um dia à rua e ter uma manifestação que lhe seja hostil, de pessoas que lhe chamam nomes, que aconteceu a todos os outros presidentes da República. O querer ir cumprimentar uma pessoa que lhe vira as costas. Essa possibilidade é, de facto, algo que eu acredito que lhe deve surgir como dramática, como viceralmente contrária ao seu ADN.
Vamos ouvir mais ouvintes inscritos para participar no Contracorrente, olhando para essa mensagem de Ano Novo, é o ponto de partida para perceber o que pensa Marcelo e o que queria efetivamente dizer. O Armando Faria, economista, está a ligar de Lisboa. Bom dia.
Muito bom dia. Bom dia a toda a equipa, que eu admiro muito e um excelente ano, um novo ano para todos.
Muito obrigada.
Eu gostaria de ser um pouquinho mais abrangente no posicionamento que tem sido posto até agora. O que é ser mais abrangente? É mostrar que está em causa um novo paradigma a breve trecho nos próximos meses e que o Presidente da República, por isso eu vou separar duas coisas, o que ele disse e o que ele devia dizer. E o que ele disse foi estabilidade, não sei para quê. Virar a página, não sei para quê. É totalmente vazio de conteúdo, tendo em vista Portugal, os seus desafios e os desafios da Europa. Por isso, e para terminar aqui já e para falar no que eu gostaria que um presidente dissesse, eu vou dar-lhe uma notazinha, que vocês dão aí habitualmente, dou-lhe sete, que é para ele não ir à oral, porque ele tem é que estar calado agora. Bom, se ele fosse estadista O que eu gostaria que ele fizesse? Que chamasse a atenção para o novo paradigma que vai estar em pauta, que a Europa está a ter comparativamente ao bloco chinês e ao bloco dos Estados Unidos. A grande competitividade que estão a ter um com o outro. E a Europa está a ficar de fora, porque não é competitiva. E não só os países mais pobres vão ficar muito mais de fora, como os mais ricos não conseguem sozinhos formar um bloco. Sendo assim, eu quero recordar uma carta que o Macron e o Mário Draghi, Macron, o presidente francês, Mário Draghi, primeiro-ministro de Itália, acabaram há duas semanas de assinar e entregar, em que se fala neste novo paradigma. Eu lembro que a França tem uma dívida pública na ordem dos 116% do PIB. A Itália tem 156% do PIB. A Espanha tem 120% do PIB. A Alemanha tem só 70. Não falo Portugal, porque Portugal aqui neste campeonato não conta, mas tem 130 e tal. Por isso, o que está em causa? E nessa carta, que eu aconselho a todos a lerem e refletirem sobre isso, e que o presidente da República, não sei que assessores é que tem lá econômicos, que eu acho que devem ter faltado algumas aulas de economia. O que propõe esta carta? Que tem que ser repensada a Europa, a situação da dívida, do endividamento, sem o aumentar mais, mas sendo competitivo, procurar ser competitivo, sem utilizar as políticas socialistas de aumento de impostos ou as políticas socialistas em relação a todas as áreas básicas sociais, em que distorcem tudo e só o fazem através de endividamento. Esta é uma carta de reflexão que foi apresentada por Macron e Draghi. O chanceler não a assinou, e fez bem, para deixar que o problema estivesse em cima da mesa, e este é que vai ser o ponto focal nos próximos meses. Eu estou aqui, daqui a uns meses falarei e vocês vão ver que isto está em cima da mesa.
Muito bem.
Porque a China e os Estados Unidos vão fazer uma guerra em que a Europa, se não for competitiva, vai ficar de fora. E o que é ser competitiva, no meu entendimento, que o Draghi e Macron estão a propor? É haver reformas estruturais. Então, reformas estruturais significa para a competitividade, porque não é só a Alemanha. Um país que está no topo, consegue levar a reboque todos os outros países europeus. Tem que ser um bloco em si. Isto é que significa reformas estruturais. Chegando aqui, o presidente devia ter chamado a atenção para isso e dizer: "Tanto o PS vai ter que no futuro fazer tudo contrário do que diz, e o PSD vai ter que fazer quase tudo contrário do que diz", porque eu não sei ainda bem o que é que ele diz, mas diz muito pouco. Mas o que é o contrário? É uma atitude de reformas estruturais, que já não são os governos aqui que irão dizer que sim ou não, o nacionalismo, etc. Isso vai deixar de existir. Vão dizer: "Esqueçam isso, ponham isso de lado e vamos criar na Europa todo um conjunto de reformas que nos façam ser competitivos em bloco contra o bloco chinês e contra o bloco americano."
Edmundo Faria.
Não vou me estender mais, mas isto é uma visão que eu gostaria que um estadista, se ele fosse estadista, devia chamar a atenção.
Era sobre esses desafios da Europa que gostava de ter ouvido o presidente da República.
Não é da Europa, é de Portugal.
Exatamente, claro.
Portugal aqui é uma autêntica peça, seja o PS, seja o PSD, que só tem que vir a fazer aquilo que for decidido na Europa. E quem é que vai liderar isso? Posso já adiantar, na minha opinião, é a Itália, é a França e é a Espanha, porque tem a maior dívida, como eu falei ainda há pouco. Bom dia para todos. Muito obrigado.
Muito obrigada. Um bom dia e um bom ano, Edmundo Faria. Aqui a lamentar uma mensagem vazia de conteúdo que deveria ter olhado para outros aspectos aqui enumerados. Maria Margarida Estevão da Silva, liga de Albufeira. Bom dia.
Bom dia, minha querida. Muito obrigada por me darem esta oportunidade. Desejo-lhes um bom ano e vou ser muito rápida. Aquilo que me pediram foi para eu comentar. Para começar, eu devo lhe dizer, e eu dei o nome de Estevão da Silva, porque sou filha de um homem que foi sempre opositor ao regime do professor Salazar. Lembro que meu pai contou-me, eu claro que não me lembro, que fui com ele a uma primeira sessão do Liceu Camões, que ele foi candidato com o general Norton de Matos e teria sido seu ministro da Educação se ele tivesse ganho as eleições, o que já sabemos que naquele período não ganhava. Eu vou ser muito sucinta, só vou dizer isto. Mais tarde, quando foi da candidatura do general Humberto Delgado, eu já tinha 20 anos e colaborei com a Rita Rolão Preto nessa campanha de base, portanto, de panfletos, tudo isso. Não precisei de roubar um avião Para espalhar panfletos. Fomos para cima do elevador de Santa Justa, andámos de autocarro e espalhámos os panfletos por toda a cidade. Mas isto foi só um resumo. Toda a vida trabalhei realmente contra o regime. Sempre votei, sabendo que o meu voto não servia de nada, pois já sabíamos quem ganhava as eleições. E agora vou comentar o que se passou em 2011, muito rápido.
Muito rapidamente, para conseguirmos chegar à mensagem deste ano do Presidente da República.
Exatamente. Quem ganhou as eleições, como nós sabemos, mas está ligado, foi o Dr. Pedro Passos Coelho, e sabemos o que o Presidente da República sancionou e o que fez o governo do PS com as restantes forças políticas. Vamos agora ver o que se vai passar nestas eleições. Para mim, a saída do presidente, o virar a página, tem muitas interpretações. Pode ser o virar a página da nossa vida pessoal, pode ser o virar da página de muitas coisas. Da pandemia, por exemplo, da vida pessoal de cada um. Para mim, o virar da página, e atendendo que ele está numa função política, foi exatamente em relação à política. Portanto, será o pormos o socialismo completamente de lado e que as forças políticas se entendam para que o socialismo acabe de uma vez. Foi esta a minha opinião, foi assim que interpretei. Ouvi falar aí muito, pessoas que falaram nessas coisas, mostraram uma cultura muito grande, mas a mim o que me interessa é o meu país. Todos nós sabemos que estamos integrados na CIG, na União Europeia, mas para mim o meu país está acima de tudo. Eu estou me borrifando com o que se passa com o Grady, com o Bolsonaro, com toda essa gente, embora acompanhe. E pronto.
Maria Margarida, obrigada a nós. Aqui ficou também mais uma-
Foi politicamente para que os portugueses votem exatamente num governo que nada tenha a ver com o socialismo. Eu estive em Cuba, corri Cuba com carro, chofer e guia, e vi o que é a miséria do comunismo lá.
E por isso, o virar de página ficou entendido. Maria Margarida, muito obrigada. Um bom dia para si e um bom ano. Obrigada, vou já passar à próxima ouvinte que está inscrita, a Madalena Correia de Sá, que é reformada. Liga de Lisboa. Bom dia.
Bom dia, meninos. Bom ano. O virar de página do nosso presidente é igual a ele próprio. Ele só pensa nele, só vive para ele e está se borrifando para o virar de página da vida dos portugueses, porque senão nunca teríamos chegado a este ponto, nesta ocasião. Isto é uma vergonha, o que se passa neste país, e ele nunca virou página nenhuma. Pelo contrário, ajudou sempre. É a minha opinião. Espero bem que destas eleições saia qualquer coisa que seja um virar de página.
Madalena Correia de Sá, muito obrigada também por ter partilhado conosco a interpretação sobre esta expressão, que acaba, de alguma forma, por marcar essa mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Convidámos para este Contracorrente o professor de Economia, Pedro Pita Barros, é especialista na área da saúde. Bom dia, Pedro. Bem-vindo.
Mina, bom dia, bom ano a todos.
Bom ano também para si, Pedro Pita Barros. Com esta mensagem que, como temos percebido ao longo deste Contracorrente, tem servido para várias interpretações. Este primeiro trimestre do ano, que o Presidente da República apresentou agora como um novo espaço temporal para fechar o tal capítulo, virar a página, pode ser mesmo um novo olhar sobre a pandemia? Será que o Presidente da República se prepara mesmo para tratar a pandemia de uma outra forma?
Não sei se poderá fazer isso. É provável que ele tenha essa vontade. Lá uns meses atrás, também já tinha anunciado o princípio do fim da pandemia e depois disso já tivemos esta nova variante, que nos veio trazer uns passos para trás. E portanto, dizer que vamos ter menos pandemia e há mais a fazer, não é algo que nós consigamos escolher, não está na nossa mão, não está na mão do Presidente da República, não está na mão do Governo. Estará na mão de uma biologia que nós não controlamos. Portanto, o que nós podemos preparar, ou preparar o melhor possível, é como é que vamos lidar com as incertezas que ainda permanecem associadas a esta tensão entre pandemia, economia, a sociedade, como é que vamos conseguir navegar dentro da incerteza. Portanto, vamos precisar de ter flexibilidade, vamos precisar de ter jogo de cintura para se as coisas continuarem a evoluir bem, no sentido de passar esta vaga e não aparecer outra, tomarmos um caminho, mas se houver uma outra letra grega a designar uma nova variante que venha a seguir a esta, estar preparado para lhe responder. E nós temos três ou quatro desafios em cima da mesa, que vão lá estar, qualquer que seja a vontade do Presidente da República. E não sei se a expressão virar a página acaba por ser a mais feliz, porque no fundo nós vamos ter que continuar a ler este livro da pandemia durante mais algum tempo. Ele tem razão em um aspecto, que é a importância de ter alguma estabilidade governativa. Não faz sentido ter eleições para depois não ter alguma estabilidade, que pode ser obtida, como nós já vimos, com muitas configurações eventualmente possíveis. Vamos ter que esperar esses três meses para ver. Mas depois disso, qualquer que seja a configuração que saia, vamos ter, como sociedade, de preparar alguns elementos. Primeiro vamos ter que perceber muito bem como é que são utilizados os fundos do PRR e em condições, e no sentido de que contribua para a produtividade e transparência do processo, são talvez as duas características que nós podemos preparar agora, qualquer que seja a situação política que depois venha a emergir. Vamos ter que claramente não deixar de lado aspectos da sociedade que muitas vezes tomamos como garantidos e que estes últimos três anos nos desafiaram. A escola presencial, qual vai ser a melhor forma de não a interromper, de continuarmos a ter vagas de pandemia mais ou menos benignas que possam vir. E já agora, apenas um aparte, não sendo eu especialista na parte da biologia e do vírus, parece muito complicado assumir que qualquer nova variante vai ser mais benigna do que esta e não pior. Portanto, parece-me complicado não nos prepararmos para tudo o que possa acontecer. E vamos ter incertezas de decisão com toda a parte económica das várias vulnerabilidades que foram detectadas no funcionamento. E temos nos preocupado muito, e agora entra a minha parte mais de economista mesmo, em não deixar cair os mecanismos econômicos que dão apoio às pessoas e às empresas durante este período. Agora, mas esses apoios não podem ficar eternamente. Nós temos, em geral, nas economias, todos os anos, renovações de empresas, empregos que desaparecem, empregos que surgem, e não sei se essa dinâmica empresarial não ficou demasiado parada durante o último ano e meio, para agora necessitar de uma certa alteração, de uma certa limpeza, digamos assim, de empresas que não sendo viáveis terão que desaparecer e não ser sustentadas artificialmente, e que agora poderão surgir em catadupa. E isto vai criar tensões adicionais do ponto de vista econômico, que já não tem a ver apenas com o programa da resiliência e da recuperação, que já não tem apenas a ver com garantir os rendimentos de atividades interrompidas, como foi o caso da cultura, mas a própria forma da economia funcionar pode estar a ser alterada. No fundo, há um ajustamento econômico que todos os anos se verifica, que ficou suspenso de alguma forma, e que agora deverá ter que ser retomado de algum modo. E preparar esses desafios não é um virar da página, são mecanismos que nós já tínhamos antes, que nós conhecíamos, que vão ter que ser feitos num contexto de maior incerteza agora. E não sei se nós temos os mecanismos de aprendizagem suficientes para saber como lidar com esta tensão de pandemia e economia e continuar em frente. Portanto, lidar com a incerteza é talvez a parte mais preocupante, e nesse aspecto, o discurso do Presidente da República não veio trazer nenhuma linha clara quanto a isso. No fundo, como tem sido dito e reconhecido por muitas pessoas, ele acabou por ter um discurso em que todos podem encontrar algo com que concordar. O que muitas vezes não é a melhor forma de definir o que é o caminho que nós queremos preparar pro futuro.
Sendo, Pedro Pita Barros, que há depois este contexto deste mês, que é uma campanha eleitoral, um debate de ideias, onde será que essas questões que são incontornáveis, independentemente da evolução da pandemia, será que elas terão o momento, a oportunidade para serem discutidas com a serenidade que precisam?
Desejavelmente, deveriam ser discutidas no meio da campanha eleitoral. Não sei se teremos a serenidade para isso ou se não teremos até um certo enviesamento, ou não haverá um enviesamento natural na situação atual, para discutir sobretudo questões da redistribuição, que vai ser inevitável falar das vulnerabilidades de vários grupos e das vulnerabilidades econômicas, sociais, que estão a ser criadas pela pandemia. E portanto, estaremos a falar da redistribuição e falar menos da forma de como criar mais riqueza, como melhorar a produtividade da economia, de como fazer com que todos, a prazo, tenhamos um melhor nível de vida. E quando se fala muitas vezes no modelo de baixos salários que devemos rejeitar, o modelo de baixos salários está associado sobretudo à baixa produtividade. E nós para mudarmos a produtividade temos que ter não só o investimento, que tenha depois consequências a esse nível, como também frequentemente temos que passar pessoas, ou realocar pessoas, trabalhadores, de áreas onde têm pouca produtividade para áreas onde têm mais produtividade. Portanto, haverá setores, que é difícil adivinhar quais são, que terão uma produtividade crescente e portanto se verá ter um aumento de emprego, e teremos setores de baixa produtividade onde deveremos ter uma redução do desemprego. E estes movimentos, que têm sido sempre presentes, muitas vezes de uma forma quase invisível para o grande público, estão associados a forças econômicas que não são normalmente discutidas. E neste momento eu não sei se nós vamos ter a serenidade para pensar como é que a prazo criamos as condições para que os setores que possam ser mais produtivos possam emergir naturalmente, sem ser por escolha, ou como é que nós conseguimos evitar medidas que bloqueiem esse caminho para setores mais produtivos. Há pelo menos um bom sinal. A preocupação de que o plano de resiliência não seja apenas destinado a atividades ditas do setor não transacionável, um jargão econômico para dizer setores que dão muitas vezes menor produtividade e virados pro interior da economia, que sejam mais atividades voltadas para a possibilidade de exportação, e hoje em dia antigas atividades que seriam vistas como não sendo exportadoras, podem ser exportadoras. Um exemplo claro é, neste momento, os serviços de educação e como foram os serviços de turismo nos últimos anos. Nós temos que pensar como é que neste contexto novo conseguimos fazer com que isso aconteça. E não é fácil. Agora, o discurso político Certamente vai estar mais à volta da redistribuição do que à volta da capacidade da economia gerar riqueza e, consequentemente, um melhor nível de vida.
E faltou aí também ao Presidente da República redirecionar essa discussão e tentar colocá-la mais nesse patamar.
Ane, do meu ponto de vista, sim. Eu gostaria bastante que o Presidente da República tivesse tido uma preocupação com essa componente da economia, não ser apenas o equilíbrio das desigualdades, que certamente é importante, mas pensar que muitas vezes a melhor forma de ultrapassar as desigualdades é fazer com que haja mais para distribuir. E esse aspecto também tem que ser construído e preparado hoje de uma forma diferente do que era há dois anos, antes da pandemia, porque agora temos essas incertezas todas e temos que ajudar os próprios agentes económicos, empresas, trabalhadores, investidores, a pensarem como é que lidam com essas incertezas que estamos a ter e que algumas provavelmente irão permanecer mais tempo do que aquilo que o presidente gostaria de ter.
Pedro Pita Barros, obrigada pela análise, não só ao discurso e à mensagem de Ano Novo do Presidente da República, mas para desafios concretos que vamos ter perante este cenário ainda de incerteza. Um bom dia para si e bom ano, Pedro Pita Barros. Vamos continuar a recolher opiniões. João Miguel Santos.
Vamos sim. Nas redes sociais, olhando para o que os nossos leitores escrevem e vão dizendo. O nosso leitor e ouvinte Carlos Santos diz que um virar de página só acontecerá quando o povo puser os interesses do país à frente dos interesses do futebol. Para Pedro Pinto, este presidente é aquele que quer agradar a Deus e ao Diabo. Sublinha Mário Cruz que, como comentador, Marcelo Rebelo de Sousa era um espetáculo, como presidente só serve para tirar selfies, não consegue assumir uma posição firme. "Portugal não é nosso", escreve este leitor, "já foi vendido há muito tempo". Maria do Carmo Rodrigues considera que à altura das circunstâncias temos de estar nós, portugueses, temos de saber o que queremos e escolher bem. O presidente, escreve esta ouvinte, tem sido um grande fator de estabilidade. E a partir da expressão usada pelo Presidente da República na mensagem de Ano Novo, Rui Ribeiro recorre ao humor negro para deixar uma pergunta: para virar a página é preciso teste? Até quando?
A pergunta vai ficar e vamos ouvir já o Manuel Lopes Pereira, que está em Vila Nova de Gaia e que é professor e agora está no Contracorrente. Bom dia.
Muito bom dia. Quero começar por vos desejar um feliz Ano Novo a todo o auditório e a todas as pessoas que têm participado. Queria só, relativamente ao tema que o José Manuel Fernandes lançou hoje, e muito bem, acrescentar o seguinte: Helena Matos e os restantes convidados já disseram o essencial tudo. E acrescentando às pessoas que falaram até agora, virar a página só vai acontecer quando virarmos a página por inteiro, ou seja, varrermos toda a classe política que temos atualmente, porque não se vira a página com os mesmos protagonistas. E um dos erros de casting que nós temos, em quem eu votei como eleitor na primeira votação, é o nosso Presidente da República. Por isso, muita demagogia, completa pena nossa. E os interesses de Portugal não são os interesses dos portugueses, ou melhor, são os interesses de algumas classes e alguns lobbies. E por isso não se vira página nenhuma. É poeira para os olhos, demagogia. Como diria alguém, feito à maneira, é como queijo numa ratoeira. Um bom ano.
Um bom ano também para si, Manuel Lopes Pereira. Obrigada pelo seu telefonema. O José Batista é ex-militar, está ligado do distrito de Setúbal. Bom dia.
Olá, Carla. Bom dia.
Bom dia.
Boa saúde para todos e boas horas de vida. Vamos em frente. Olhe, a mensagem do senhor presidente da República deveria ser dirigida efetivamente aos economistas, que de fato têm a responsabilidade de investir, produzir e poupar. E de facto, o senhor presidente faz-me lembrar na virada de página, uma garrafa que é lançada ao mar com uma mensagem lá dentro. E quando essa garrafa é encontrada, o que nós encontramos nessa garrafa? Farinha branca, açúcar e saliva. Ouça, não vamos efetivamente virar página nenhuma, porque o estatuto político e social que está embrenhado nisto, os manipuladores de consciência que andam por aí à tona da superfície terrestre, e o senhor presidente da República utiliza muito bem esta tática. Isto está devidamente estudado cientificamente, isso já vem do tempo do comunismo, do Stalin, dessa gente toda que manipulava a consciência das pessoas de outra maneira. E agora o poder político está instalado, efetivamente. O perfil é este. Ouça, quem quer ser inteligente e observar a história e observar os factos, está tudo dito. Quem é que votou neste senhor? Ouça, uma grande maioria, efetivamente. O que é que está na base de tudo isto? Outro mundo. Estas pessoas vivem neste mundo, mas pensam noutro mundo, que é este presidente da República. Tem esta facilidade da vida, tem o direito de viver, pronto, mas é assim. Eu vivo nesta Terra, come e bebe e discursa e não sei mais o quê, mas o pensamento dele, os estatutos políticos dele, ao fim e ao cabo, ele está em outro mundo, está no céu, está em Deus, está na ficção, como a Helena Matos há bocadinho disse. Olha, a Helena Matos, gostei muito de ouvir a Helena Matos, porque de facto ela fez uma análise muito boa. Não tem é que agradecer, Helena, é a verdade. Ouça Quem anda há muitos anos, e eu já sou um veterano da vida e tenho acompanhado a política do antes e depois. Ainda há bocadinho me deu confusão uma senhora chamar efetivamente de fascista o Paulo Menácio, quando o Paulo Menácio foi um opositor ao regime e não roubou avião nenhum, fez o que tinha a fazer, ponto final. E estas pessoas, efetivamente, estão na vida a pensar no quê? Olhe, eu desejo eficientemente que os senhores continuem na vida, boa saúde e que este fórum tenha aproveitamento para uma esperança no futuro, que é efetivamente aquilo que nós todos desejamos, é que, de facto, virada da página seja efetivamente trabalho, bem-estar, distribuição de riqueza e que não seja eficientemente esta política falsa que anda por aqui à volta. Eu fiquei estupefacto, por exemplo, com aquela senhora do Bloco de Esquerda que já fala no Papa. Ouça, muito sinceramente, esta senhora que lança outdoors de oito metros de comprimento por dois metros de altura para mostrar a sua fotografia e que depois vai tudo para o lixo. Ouça, anda a gastar o dinheiro dos portugueses.
É outro assunto. Já é outro assunto e teremos certamente a oportunidade de falar da campanha eleitoral, mas já ficam estes votos. Muito obrigada. Bom dia, José Batista. Helena Matos, consegues perceber este fenómeno de um presidente da República tão popular, o mais popular de todos, eventualmente mais do que foi Mário Soares numa dada altura, provoca depois também o nível de decepção que temos ouvido aqui?
Pois, isso como é óbvio. Porque nós sabemos que até, e certamente tu sabes isso melhor que eu, uma larga experiência em televisão, que há uma altura em que em televisão se diz que deixou de funcionar. Há aqueles apresentadores, sobretudo de programas de grande entretenimento, e que durante muito tempo basta que eles apareçam para que se produza aquele efeito mágico. As pessoas querem vê-los. Em televisão, quando se medem as audiências, há alguns casos em que quase que se consegue perceber o efeito quando entra uma determinada personagem.
É mensurável.
É mensurável e vê-se a subir. Era uma coisa extraordinária. Eu posso dizer aqui em relação a uma pessoa que já faleceu, e que realmente foi uma perda extraordinária, que era o Camões Costa. Quando o Camões Costa entrava, não se sabia por que era assim, mas sabia-se o momento em que ele tinha entrado.
Bastava olhar para os gráficos.
Exatamente. Ele entrou ali. Agora, e há um dia, que infelizmente o Camões Costa nunca viveu porque teve uma morte muito precoce, mas que acontece a outros, que há um dia em que aquilo deixa de funcionar e nós não sabemos explicar por quê. Porque é que é assim. Temos de perceber uma coisa. Grande parte dos nossos atuais protagonistas da política nasceram em estúdios de televisão. E isto condiciona. Na minha opinião, não é necessariamente uma mais-valia, porque de facto, eles ficam tremendamente agarrados à questão da popularidade. Nós vemo-los. Nós vemo-los quando vão fazer comentário e depois ligam para os pivôs uns minutos depois a perguntar: "Como é que acha que foi? Quantas pessoas é que estavam?" Eles não querem saber o que as pessoas acharam da mensagem dele. Eles querem saber quantas pessoas é que os ouviram. Quer dizer, portanto, entram no registro da popularidade. Se nós pensarmos, nós tivemos e temos o caso de José Sócrates, que nasceu a debater com o Santana Lopes, o André Ventura, que era comentador desportivo. O próprio primeiro-ministro teve ali uma fase muito importante a fazer comentário político. Vemos como neste momento, por exemplo, em relação a Fernando Medina, há uma recuperação daquilo que era um candidato derrotado, agora como comentador. Eu citei estes, mas há muitíssimos mais. Até se quisermos, talvez neste momento, o partido que menos beneficia deste procedimento seja o Partido Comunista Português, provavelmente por falta de gente para mandar, porque manda invariavelmente os mesmos. Houve uma altura que tinha realmente gente com outro tipo de espessura para enviar. Esta transformação dos estúdios de televisão numa espécie de berçário daqueles que vão ser os nossos líderes, eu acho que isto de facto condiciona. E eles de facto submetem-se às regras das televisões, e que há um dia em que aquele fator deixa de funcionar. Eu não acho mal que eles vão às televisões. O problema é que tem de haver algo antes. Ou seja, quando Mário Soares chega às televisões, havia uma carreira antes, que Váque Silva havia uma carreira antes. Agora, isso Não existe. Portanto, aquilo que nós temos aqui é um expoente máximo disso tudo, que é um presidente que realmente foi um comentador, porventura o comentador melhor sucedido de Portugal. Tem um dom natural de comunicação, isso tem sem dúvida, mas que também se esmerou sempre em dizer uma coisa e o seu contrário. Como comentador, isso não será muito complicado. Houve uma altura em que segui o comentador Marcelo Rebelo de Sousa, porque realmente me parecia que ele estava a entrar num processo de meia hora antes já tinha dito uma coisa e agora estava a dizer outra. Mas tudo isso no comentário é uma coisa, outra coisa é quando se passa para o desempenho deste tipo de funções. E se nós quisermos, quando analisamos os discursos dele, eu tenho o discurso de 2017 como o mais político, como um discurso político mesmo. Depois temos o tal pelo qual eu tenho uma profunda revolta, até porque estou muito ligada a uma das zonas mais fustigadas pelos incêndios, que é o discurso de 2018, em que aquilo é tratado daquela forma, como uma nódoa num ano brilhante. O discurso de 2019 ensaia, de facto, se quisermos, uma análise de situação. 2020 começa a entrar naquilo que nós vemos nos filmes americanos, que são aqueles concursos do soletrar das palavras. Os brasileiros também têm, nós cá não é assim tão popular, mas que é o tal lançar de tópicos. E agora, em 2021 não houve, por razões que estava candidato, e em 2022, o José Manuel também pegou nesta frase, que é consolidar, decidir, reinventar, reaproximar, virar a página, ou seja, é um lançar de tópicos de alguém que sendo muito hábil no manejo das palavras, neste momento tem medo das palavras. O que eu vejo aqui neste discurso de 2022, é um homem a olhar para o quadro que pode sair das legislativas de janeiro, agora, e pensar: "O que eu vou dizer em 2023?" Essa é que é a grande questão. Com um quadro que não será certamente fácil, o que resultará daquelas eleições de constituição de maiorias, o grande teste de Marcelo é o que ele vai dizer aos portugueses em 2023, porque não podemos voltar à mesma da dignidade da pessoa, de todas as pessoas, liberdade, diferenças, pluralismo, e depois vou por ali fora desenvolvendo os tópicos e a vida das pessoas esboroar-se. Quer dizer, o José Manuel referiu aqui a questão, por exemplo, do preço da energia. Ele não consegue dizer inflação. Pronto, mas há uma altura em que se tem que dizer o nome das coisas. Esta também é uma questão literária. O nome das coisas. Quando é que Marcelo vai passar a dizer o nome das coisas? Ou seja, o momento em que ele vai deixar de ser professor, explicador, comentador, e vai ter de ser presidente da República. Não sei se ele vai continuar a conseguir protelar esse momento.
Será isso, José Manuel Fernandes? Marcelo Rebelo de Sousa ainda não despiu totalmente o fato de comentador, sobretudo nestes discursos mais oficiais.
Eu acho que muito raramente isso tem acontecido. Uma das coisas muito surpreendentes que se nós olharmos com atenção para este presidente e o compararmos com os anteriores, é que todos os anteriores, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, ao final de um ano publicavam o seu discurso em livro. E nós podíamos ler esses livros, bem sabemos que alguns desses discursos não eram escritos pelos próprios, mas podíamos ir ali e-
Até porque eles faziam questão de nos enviar esses livros.
Sim, faziam questão.
Faziam questão de nos enviar esses livros, nós os temos lá em casa.
Todos nós os temos lá em casa, exatamente. Mas podíamos consultá-los, ver o que eles tinham escrito, ter essa memória. Não acontece isso com Marcelo Rebelo de Sousa.
Posso só interromper, José Manuel? Desculpe, posso interromper? O Cavaco Silva passava a vida: "Como eu disse no meu discurso de não sei o quê", passava a vida nessa recorrência. Desculpa.
Exatamente. Isso acontecia, nós podíamos verificar as coisas aí. Já aconteceu muitas vezes que mesmo em discursos escritos do Marcelo, discursos que nós sabemos que foram escritos, porque ele esteve a ler coisas, nem no site da presidência eles aparecem.
Marcelo é muito mais rápido do que o site da presidência, é muito difícil recolher a informação.
Não é só por isso, é porque ele nunca segue exatamente o discurso, depois precisa introduzir mudanças, ele está sempre a introduzir pequenas alterações, está sempre a improvisar em cima disso.
E mesmo a agenda oficial também é muito improvisada.
Mas isso, peço escusa, mas não dá segurança. Nós não sabemos exatamente o que podemos esperar. Perdemos os pontos de referência.
Mas isso, no primeiro mandato, foi uma lufada de ar fresco. Havia muitas pessoas satisfeitas por não ter aquele homem institucional que era Cavaco Silva.
Mas uma coisa é ter uma figura mais institucional, outra coisa é ter uma figura mais convivial, digamos assim. Outra coisa é, de repente, nós não termos referências e, portanto, haver este problema de um dia diz uma coisa, outro dia diz uma coisa diferente, e a maior parte das intervenções são intervenções, eu diria, levezinhas. São comentários à porta de eventos, de passagem, com os microfones espetados, em que diz três ou quatro coisas, às vezes, de repente, fica tudo alucinado, porque são coisas que perturbam e vêm fora daquilo que era esperado. Outras vezes é uma confirmação. E temos de tudo. A pessoa que interpreta as reuniões do Infarmed, tem sido uma das suas funções interpretar, principalmente quando eram à porta fechada, o país ficava suspenso do que o presidente tinha a dizer que se tinha passado lá dentro, num papel quase de regresso a 50 anos atrás, quando ele era jornalista do Expresso e era o seu papel relatar os eventos. O que é que falta aqui? Falta aqui um momento entre ser uma figura muito sisuda e não ter nenhuma gravitas, nenhum dos pontos de referência, há uma latitude muitíssimo grande, há uma grande distância. E eu acho que a medição dessa distância tem variado. Houve alturas em que o presidente já fez algumas intervenções, naqueles momentos mais chave, 25 de Abril, 5 de Outubro, mensagem de Ano Novo, são alguns dos momentos importantes, 10 de Junho, em que se espera que ele diga questões mais substantivas, e ele já tem dito aqui e além. Mas sempre sem romper, sem quebrar, sem dividir águas, por assim dizer. Talvez naquela ilusão de que pode, como eu já referi, ficar sempre bem com Deus e com o Diabo, ficar sempre bem com todos, nunca zangar uma parte das pessoas que eventualmente poderiam apoiá-lo. Agora, isto não fica pra história. Por exemplo, o presidente tem vetado muitas leis, talvez até mais leis do que presidentes antes dele. E já foi feita essa estatística, e diz: "Não, senhor, dizem que eu estou aqui, estou uma muleta do governo, mas eu já vetei imensas leis." Aquilo que falta esclarecer, e eu acho que é um aspeto muitíssimo importante, é qual é o equilíbrio. São duas coisas. Primeiro, habitualmente, os presidentes tinham um papel de bastidores, que não era pequeno na negociação com os governos sobre como é que as leis chegavam lá. E as leis às vezes andavam para trás e para frente, antes de chegarem lá, e chegarem lá com o governo e com os parlamentos. E as casas civis serviam para isso mesmo, para andarem a fazer esse trabalho e muitas vezes para melhorarem a legislação. É difícil saber que papel é que Marcelo teve nesse domínio, porque é tudo tão público que não se percebe bem o que se passa nos bastidores, exceto que ele conversa muito com António Costa, e sabe-se isso. Mas isso é pouco, isso não é tudo, não é aí que muitas vezes se resolvem os problemas. Há leis que chegam para trás, que ele manda para trás, e mandou mais que eventualmente outros. Por quê? Porque este trabalho foi mal feito, porque esta maioria abusou de facto. As respostas são difíceis de dar, até porque, por exemplo, uma das coisas que este presidente praticamente nunca fez foi, mesmo quando ele tinha o entendimento que leis eram inconstitucionais, entender que isso devia ser feito através de um veto do próprio Tribunal Constitucional. Acho que fez uma vez, precisamente com a lei da eutanásia. Não sei quantas vezes mais em que ele enviou leis para o Tribunal Constitucional. Quer dizer, o fato de ele ser professor de Direito Constitucional não lhe dá uma autoridade indiscutível sobre essas matérias, porque nós sabemos que são matérias constitucionais. Praticamente o nosso Tribunal Constitucional, que em princípio é formado por constitucionalistas, tem alguns melhores outros piores, mas já conforme, praticamente nunca decide por unanimidade, são raras as deliberações por unanimidade. Portanto, há margem para discussão, margem para doutrina. E sobre isso o presidente não tem usado esse instrumento, que também é um dos instrumentos que ele tem para fixar o pensamento, para fixar a forma como o país deve ser verdade.
E quando se falava em legado, isso seria interessante.
E quando falamos disso, não é?
Helena Mattos, pergunto se aí se vê, pela primeira vez no nosso regime democrático, temos um presidente da República que não está a ensaiar um segundo mandato com um estilo diferente.
Não, não está. E os outros também, quer dizer, a questão das diferenças no segundo mandato, às vezes animaram mais os jornalistas do que propriamente-
Com a exceção, talvez, de Mário Soares, nunca foi tão marcante como esse.
Nenhum outro teve um segundo mandato tão diferente.
Aliás, esta questão eu acho que é interessante, porque se virmos, às vezes até algumas das coisas mais importantes que Marcelo disse, são ditas exatamente em movimento. Ele a andar, ele vai andar, andar, andar, os jornalistas a correrem atrás dele, ele não consegue mesmo calar-se diante do microfone, que é uma coisa terrível. Aliás, a partir do momento em que diz: "Não faço declarações", quer dizer que vai falar durante mais 10, 15 minutos e vai sempre respondendo, e nunca mais vai parar. Ele lida mal com as situações, se quisermos, mais institucionais, em que tem que fazer aqueles discursos. Muitas vezes, algumas das suas declarações e observações, porque ele é um grande observador. Vai andar a falar, diz a um, diz a outro. Houve aqui também uma perda de gravitas em relação à função presidencial. Note-se que em Portugal, o funcionamento das instituições e o elas terem alguma Alguma gravitas, um ar institucional não é irrelevante e, sobretudo, não pode ser irrelevante num país como Portugal, que o presidente passa a vida a alertar para os nossos longos séculos de história, porque se nós percebermos, há uma certa diferença entre Portugal e o Principado do Mónaco. Ou seja, isto não pode ser um sítio onde a ideia que se tem das Forças Armadas é que vão ali distribuir uns medicamentos e um pau, e depois toca a fanfarra no dia 10 de junho. Depois temos umas instituições que também não se vigiam umas às outras, ou seja, não exercem aquela função de controle. Mas isso também não tem problema, porque nós conhecemo-nos todos, somos todos maravilhosos, somos todos excelentes, somos todos o melhor país do mundo. Eu acho que o país, por exemplo, tem uma dívida em relação a Cavaco Silva, porque no meio daquela crise e da vinda e da chegada da troica e do irrevogável e de tudo aquilo, no meio daquele seu jeito muito austero, e discordando eu até pessoalmente de algumas decisões que ele tomou e concordando com outras, mas aquele seu jeito muito austero serviu para manter uma regularidade das instituições. Ou seja, o obrigar, por exemplo, quando Passos Coelho aparece a dizer que já há uma solução de governo, porque Portas vai continuar. "Não, não é nada assim, aquilo tem que ser escrito e tem que haver compromissos." Depois, a necessidade que houvesse um compromisso por escrito quando António Costa propôs uma solução governativa. Ou seja, este funcionamento institucional pode ser muito importante. O resultado pode não ser muito diferente, mas no transmitir de uma imagem institucional do país. Nós não podemos fazer as grandes paradas da França, a França que é neste momento um país em declínio, não há semana que não faça uma grande parada ou para fazer um funeral ou para assinalar uma data. Nós não podemos fazer as grandes paradas da França. Nós não temos as Forças Armadas da Espanha, nem um rei, nem uma rainha para os fazer desfilar. Portanto, nós temos de preservar muito o funcionamento das nossas instituições.
Faria bem ele ter ouvido a comunicação de Natal da Rainha de Inglaterra.
Exatamente.
Foi um bocadinho mais bem dita, mais bem encenada, mais bem produzida.
Mas é exatamente isso.
E é a Rainha de Inglaterra.
Exatamente. Os grandes países, nós vemos isso nos Estados Unidos, podem suprir muitas vezes até as deficiências, as falhas, até as doenças dos seus presidentes, porque há todo um poderio evidente e um aparato à volta. Portugal, desculpem-me dizer, Marcelo, de alguma forma, ele tem um lado lúdico interessante. E portanto, trouxe para a Presidência da República um lado que não é apenas de aligeiramento, é um lado de futilidade e de futilização das instituições que eu acho, sinceramente, negativo e avalio de uma forma negativa. Ele seria a melhor pessoa do mundo para fazermos uma viagem, para estarmos numa festa, para conversarmos, para ser nosso amigo, para nos ir ver ao hospital. Não considero que seja a melhor pessoa para desempenhar o cargo de Presidente da República. Mais, como disse, tenho muitas dúvidas sobre qual vai ser e acho que ele tem medo do discurso que vai ter de escrever para 2023, porque aí no Natal eu acredito que ele vai ter de dar más coisas. E tenho ainda uma outra dúvida que é o sucessor de Marcelo, se os portugueses vão ou não, e aí vejo, se calhar, aquela espécie de fascínio pela farda do almirante Gouveia e Melo, uma espécie de um país que começa a acreditar que no contraponto de um fardamento militar, talvez faça um bocadinho o reequilíbrio em relação a este lado lúdico de Marcelo Rebelo de Sousa.
E ouvimos aqui alguns ouvintes a falar, nomeadamente, de varrer toda a classe política. Foi uma expressão que ouvimos aqui esta manhã. Mas a varredura nunca costuma correr muito bem nestas coisas.
Não, não parece que essas posições de varrer a classe política parecem sempre complicadas. Não queremos, pelo menos eu não quero, revoluções, prefiro reformas. Penso que em Portugal é difícil. Parece que temos mais jeito para revoluções e para grandes rupturas do que para realizar reformas, mas isso às vezes não acaba bem. Agora estamos mais condicionados, estamos dentro de um espaço mais alargado e, portanto, temos que ter, eu diria, mais juízo, mas de facto, o nosso atual regimento é provavelmente um dos mais duradouros, se excetuarmos a monarquia constitucional. O que é um bom sinal, em breve teremos 50 anos. Portanto, é importante. E este ano passamos a barreira dos míticos 48 anos, que durou o regime, que aliás, foram mais do que um regime, mas digamos, o regime saído do golpe de 28 de maio de 1926. Portanto, temos necessidade de encontrar soluções dentro dos nossos atores políticos. E eu acho que aí, Marcelo Rebelo de Sousa, primeiro pela sua história pessoal. Portanto, alguém que era filho de alguém que teve um papel no anterior regime, que viveu numa família onde havia várias opiniões políticas, tenha papel a desempenhar. Depois, pela própria experiência que tem como uma pessoa que simultaneamente é uma pessoa da universidade, e de uma universidade de Direito e da área do Direito Constitucional, e ao mesmo tempo um político e um antigo jornalista. Portanto, tocou praticamente todas as teclas que muitas vezes são consideradas decisivas e importantes para perceber Como é que este jogo se joga? A seguir, alguém que tem um capital de popularidade e que é ouvido por muita gente, mas que em alguma altura esse capital de popularidade deve servir para alguma coisa. Nós não damos o capital de popularidade, não o guardamos em casa num cofre como sendo algo que não abdicamos dele. O capital de popularidade provavelmente não fica nos livros de história também. Acho que era preciso um pouco mais. Desse ponto de vista, eu diria que este mês que estamos agora a iniciar, este mês de janeiro de 2022, em que há muitas questões que estão em aberto, desde as questões da pandemia, o Pedro Pita Barros recordou-nos aqui de algumas delas, algumas questões que estão indefinidas. Vamos ter esta semana mais uma famosa reunião do Infarmed, ou aparentada com as reuniões do Infarmed, para sabermos qual é o ponto da situação. Em tudo isso, esta ideia de que estamos a ser governados a dois, que é falsa, porque não é verdadeira. O presidente fala muito de juntos, mas na verdade, ele sabe que em momentos decisivos foi de alguma forma apartado de muitas decisões cruciais e queixa-se, por vezes, disso.
É um mês muito interessante.
É um mês muito importante e muito interessante e no final desse mês, os portugueses, espero que todos, e não apenas uma parte que tem ficado em casa fechados por obrigações sanitárias, possam escolher de forma decisiva não apenas a próxima assembleia, mas o tipo de políticas que a próxima assembleia vai ter que implementar.
Vai ser um mês muito intenso e nós sim vamos andar juntos por aqui a olhar para esses acontecimentos. José Manuel Fernandes e Helena Matos, até amanhã em "Contra Corrente".
Até amanhã.
Até amanhã. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.