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Muito bom dia. Na semana passada ou na passada tarde de sexta-feira, a notícia de um aluno de 11 anos que foi sodomizado por oito colegas numa escola no Vimioso, tornou-se rapidamente uma das mais lidas e partilhadas do dia. A cada linha surgiam questões ainda mais incômodas sobre a funcionária que nada fez, o possível envolvimento do irmão na agressão ou o clima de terror que se vive na escola. E todas as dúvidas sobre este caso ou outros que não têm este destaque, levam invariavelmente a perguntas que merecem atenção. O que será que está a acontecer nas escolas portuguesas? Helena Matos, bom dia.

Bom dia.

A violência está mesmo a aumentar? Por que foi necessária uma agressão brutal para que olhássemos para este tema?

Bom dia pela segunda vez. Se a violência está a aumentar ou não, poderemos falar disso ao longo deste programa. Há, sobretudo, uma questão a ter em conta. Independentemente de estar a aumentar ou não, o que houve foi uma saída para fora do radar das atenções. Isso claramente. E como acontece, em geral, para todos os assuntos que saem do radar da atenção e sobre os quais os responsáveis, os políticos, a sociedade civil se vão pronunciando, acontece que somos despertos por factos, que pela sua natureza brutal, nos vêm lembrar que existe esse problema e que ele está ali. Esta notícia, para lá da brutalidade do fato em si mesmo, da agressão, tem depois, para quem já foi aluno e também para quem já foi professor, lidou com a realidade das escolas, coisas que parece que não encaixam. O que é, por exemplo, a questão da funcionária que, citando o documento que tem sido várias vezes referido, de denúncia que vem do presidente da Junta de Freguesia de Vimioso, que é a funcionária que nada fez, por exemplo. Depois, a hora da agressão pelas 12h30. Esta é uma hora muito movimentada nas escolas, porque se tivesse sido o que acontece algumas vezes no fim do ciclo de aulas ou mais cedo, nem sempre há muita gente, mas às 12h30 há muita gente dentro de uma escola, há funcionários, há professores, há todo um movimento, por exemplo, das refeições. Há muita coisa a acontecer. Por outro lado, o fato da funcionária que estava mais próxima nada ter feito, segundo aquilo que é dito, e isto ainda não se sabe se é verdade, se não, não quer dizer que não haja mais pessoas que pudessem ter reparado, porque naquele ruído de fundo das escolas, em movimentação, e há sempre alguém, uns que estão a brigar, outros que estão a falar, outros que estão a rir, outros que estão a conversar. E nós já temos até aqui falado como esse ruído tem agora diminuído, dada a atenção e o tempo que eles perdem de volta dos telemóveis, dos ecrãs, como se costuma dizer. Mas é como com os nossos filhos, nós percebemos a certa altura que há ali um silêncio ou um ruído que não são comuns. Ninguém deu por isso. Há mais funcionários nas escolas, há professores, há até muitas vezes funcionários de secretaria, funcionários de refeitório, há outros colegas. Porque não estamos a falar de uma agressão ou, por exemplo, de uma situação muito violenta entre dois miúdos. São só dois. Nós estamos aqui a falar de um miúdo que é agredido por oito colegas. Isto tem muito ruído à volta. Era 12h30. Ninguém deu por nada, ninguém achou estranho. Depois também é estranho não só o tempo que se demorou a conhecer o fato, porque ele terá acontecido numa sexta-feira à tarde, depois só é reportado na semana seguinte e a denúncia vem de um presidente de junta de freguesia, que por acaso também está na Comissão de Proteção de Menores. Mas é o presidente da junta de freguesia que tem tido o papel mais ativo nesta denúncia e, portanto, ele aliás, reporta também vários casos de violência neste agrupamento escolar entre alunos e entre alunos e funcionários. Portanto, sobre este caso em si mesmo, nós neste momento sabemos muito pouco. Não vamos saber, certamente mais ao longo deste programa, mas percebemos que há muita coisa para perguntar e que nos dá conta de algum disfuncionamento. Agora, alargando, porque é isso que teremos de fazer, temos de entender que realmente a violência nas escolas saiu do foco da discussão. Andamos a discutir casas de banho. Também discutimos muito a questão dos resultados escolares, os resultados das provas de aferição, os resultados PISA, mas a questão da violência na escola propriamente dita, claro, também temos aquelas ações, sabemos que são feitas ações de prevenção e tudo isso. Mas o que é curioso, eu acho que aconteceu em relação a este assunto, algo que tem acontecido em relação a outros, não apenas na sociedade portuguesa, mas em geral, e que é quando nós deixamos de falar de um assunto, porque consideramos que pode ser inconveniente, ou seja, que pode favorecer o partido A, o partido B, o partido C, e então vamos tratar de outros assuntos. Isto tem a ver, nós temos tido casos de violência, por exemplo, em 2023 tivemos, isso foi muito referido, uma professora Que tinha sido agredida com um golpe de mata-leão por um aluno, mas pra mim o mais chocante não era isso, é que a turma tinha reagido com risos e aplausos. Tivemos também uma notícia de uma professora que tinha sido agredida na Miguel Torga, em Bragança, também com particular violência, ela era professora de educação física. Mas no meio disto, também notícias de agressões entre alunos, agressões entre alunos a funcionárias e familiares a funcionárias. Estou só referindo a 2023. Mas houve uma notícia que pelas suas características, deu conta que se calhar havia alguma coisa de substancial a acontecer, e que é a agressão a um professor. Esta agressão a um professor aconteceu numa escola de Felgueiras, e eu escuso de explicar porque é mais fácil agredir uma professora que um professor.

Felizmente, quem está a dizer isso sou eu.

Pois, mas curiosamente, nas agressões, por exemplo, a professoras, nós temos aqui a professora da Escola Secundária Miguel Torga, em Bragança, que foi agredida com um pontapé na cara, foi agredida por um miúdo do sétimo unificado.

12 anos.

Ela era uma professora efetiva, experiente, ela tem 40 anos. Porque muitas vezes acontece, quem já foi professor, como é o meu caso, pensa quase invariavelmente: "Achou a escola há pouco tempo, está nisso há pouco tempo, não percebe que se tem que manter alguma distância quando as coisas estão complicadas." Não, é uma professora com 40 anos, que já lecionava há vários anos e não estamos a falar de alguém inexperiente. E não estamos a falar de um aluno, por exemplo, no nono unificado ou no décimo, pode ser uma torre. Há uns que de repente crescem mais que os outros todos, e alunas também, e são uma torre, de repente, mas não é o caso, estamos a falar de um miúdo do sétimo unificado. Isto dá conta aqui de algumas alterações, mas nós tivemos uma agressão a um professor, eu sei que foi feita por um aluno de 16 anos, mas com uma barra de ferro. Aliás, ele foi acusado pelo Ministério Público, depois foi feito um inquérito, claro, de tentativa de homicídio involuntário. Teve um percurso criminal, esta agressão. Portanto, há aqui algumas alterações que nos deviam ter feito pensar, pra lá daquilo que é sempre muitas vezes apresentado como uma rixa. Mas entre discussões e andar à pancada e alguns episódios que têm acontecido, nós percebemos que há contornos que nos deviam preocupar e, sobretudo, que nos deviam levar a pensar mais no assunto. Contudo, eu acho que em Portugal há uma extraordinária falta de solidariedade com os professores e com os funcionários que são agredidos, parece-me ser evidente.

Encontra explicação pra essa falta de solidariedade, Helena?

A falta de solidariedade é de sempre. Sabes que estas matérias, os sindicatos, em geral, estão muito centrados nas defesas de questões de carreira, vencimentos, progressão, essas coisas. E este assunto vive-se com algum incômodo, entre um misto de fazer de conta que não acontece, de humilhação, porque é muito complicado. Uma pessoa está ali a dar aulas e agora de repente leva um par de chapadas de um miúdo, pra não ser pior. Os próprios sindicatos não lidam muito bem com estas matérias, os professores não lidam bem, até porque eles foram perdendo algum protagonismo nesta matéria. Protagonismo no sentido de exercício de figura de autoridade. É claro que sempre houve situações que escapam ao normal funcionamento do que deve ser uma escola, mas em geral, isso resolvia-se dentro da própria escola. Nós, neste momento, vemos o chamar dos agentes de autoridade para aquilo que há algumas décadas um continuo resolvia, uma funcionária resolvia, ou então o conselho diretivo, que era assim um momento terrível da história.

Ninguém queria ir ao conselho diretivo.

Ninguém queria ir ao conselho diretivo. Ou o diretor de turma. Isso agora parece já não ser suficiente. E politicamente, eu acho que há aqui uma data que é importante, que é 2022, quando uma professora de educação física foi agredida na Figueira da Foz, quando saía do Centro Escolar de Vila Verde. Ela foi agredida por um grupo de 10 pessoas, maioritariamente mulheres, e o ministro João Costa, quando veio a ser confrontado com isto na Assembleia da República, declarou: "É tão grave a violência e a agressão, como é grave utilizar os casos de agressão e violência para fomentar discursos de ódio." E o que aqui está? Fim de citação. Caímos naquilo que é habitual. Não vamos falar disto.

Há uma minoria envolvida e não se pode falar de minoria.

Nesse caso devia haver, sim.

Quer dizer, devia haver, com certeza, portanto, isso tornou-se um tabu. As pessoas têm que ter noção do seguinte: esses tabus só são tabus pra quem está longe.

Claro, mas nota uma coisa.

Pra quem vive perto, considerar o tabu é uma violência contra os próprios.

Contra os próprios e, no caso, sendo que muitas vezes há minorias e isso, sem qualquer problema, eu referi, deveriam ter sido ciganos, mas muitas vezes, e falo disso porque meus filhos frequentaram a escola pública. Sendo isto verdade, também não é verdade, porque o tabu faz isso, faz agigantar uma situação. Não só não é verdade, como são frequentemente pessoas dessa minoria que conseguem, até porque são muito preocupados com a situação dos seus filhos, são presentes como pais e mães, que conseguem introduzir alguma racionalidade em situações que estão a sair fora de controle. Portanto, se sairmos dessas bolhas ideológicas, confrontar-nos-íamos com uma realidade que, como todas as realidades, é plural. Agora, foi se criando aqui uma questão. E o ministro, nesta intervenção que fez na Assembleia da República, fez logo questão de dizer também que as participações por violência nas escolas tinham descido significativamente, mas mesmo muito significativamente, e que, por exemplo, no ano letivo 2019/2020, tinham sido reportadas 1263 ocorrências, mas que, e aqui estávamos a referir-nos ao ano de 2022, só tinham sido reportadas 698. E aqui chegamos a uma questão que é importante e que nós vamos ter hoje aqui como convidado quem talvez nos consiga explicar isto muito melhor, e que é, e agora estou aqui a citar um artigo do "Público", que o número de ocorrências em ambiente escolar comunicado às forças de segurança é 48% superior aos casos que depois surgem contabilizados nos relatórios, os chamados relatórios de segurança interna. Ou seja, nós estamos aqui perante um caso em que, de alguma forma, os mecanismos que são usados para reportar acabaram por nos criar uma imagem 48% inferior àquilo que será a realidade.

Distorcida?

Sim, completamente distorcida e, portanto, como todas as realidades, está distorcida. Se nós não estamos suficientemente informados, não sabemos agir. Portanto, é como se se criasse uma imagem da escola que corresponda àquilo que nós gostávamos, que qualquer pessoa de bom senso gostava que a escola fosse, mas não é aquilo que a escola é. E, portanto, sobre este manto de afã dos números trabalhados ou de alguma forma tornados mais simpáticos de um assunto que vai saindo fora do radar, há uma realidade que continua e, como sempre acontece quando se ignora a realidade, vai evoluindo de forma menos adequada, até que um dia, de repente, a uma tarde de sexta-feira, um título como este: "Aluno de 11 anos sodomizado por oito colegas em escola de Vimioso na presença de uma funcionária que nada fez" nos faz efeito como um murro. Portanto, é um pouco disto que eu acho que gostava que falássemos hoje aqui.

Vamos falar, sendo que a pergunta que estamos a colocar aos nossos ouvintes é o que está a acontecer nas escolas portuguesas. Helena Matos dava conta há instantes de um dado, 48% dos casos de violência não são contabilizados. É uma conclusão a que chegou o Miguel Rodrigues, é investigador do centro do Instituto Superior da PSP, editou em setembro passado um livro precisamente sobre a violência nas escolas, tem estudado o tema. Aliás, já trabalhou até na qualidade de agente do programa Escola Segura, lidou com muitas escolas da área metropolitana de Lisboa. Deixe-me só, antes de irmos para o fenômeno da violência generalizada nas escolas ou para uma visão mais geral do problema da violência nas escolas, sobre este episódio no Vimioso. Estamos perante um episódio isolado ou não?

Bom dia, antes de mais, como disse a Helena, infelizmente, estas situações de violência em ambiente escolar mais brutais são naquelas que nós vamos tendo conhecimento de tempos a tempos. É uma problemática muito pouco abordada, infelizmente, e eu vou ao encontro da parte da investigação científica. Não há muita informação, logo, a partir daí, também não há muita informação que passe para a comunicação social sobre a realidade que temos no nosso país.

Portanto, todas as respostas que podem ser dadas a este problema são todas enviesadas.

De certa forma, acabam por ser, porque não conhecendo os números reais, e nunca serão reais, temos os números oficiais, que são disponibilizados no nosso relatório de segurança interna sobre os ilícitos em ambiente escolar, é assim que caracterizam essa variável deste tema, mas são apenas os dados que são transmitidos oficialmente às polícias, ao programa Escola Segura da PSP e da GNR, que está sob a tutela do MAI. No entanto, acreditamos na parte da investigação e esta obra "Violência Doméstica" que a Pactor lançou recentemente, mostra-nos também a visão de cerca de 200 atores das escolas a nível nacional, de todos os distritos, incluindo dos nossos dois arquipélagos. Professores, diretores de turma, assistentes operacionais, que são sempre um profissional que nós por vezes não falamos, falamos do professor, da direção, mas esquecemos este profissional que certamente tem um papel não mais importante, mas é complementar aos outros e é de extrema importância. Elementos do programa Escola Segura da PSP e da GNR, também profissionais dos chamados GAF, Gabinetes de Apoio à Família e Aluno, que existem em algumas escolas e em alguns territórios a nível nacional, nomeadamente nos territórios de intervenção prioritária.

Os chamados TEIP.

Os chamados TEIP, que atualmente penso que são 139 que existem a nível nacional. Entrevistamos estes 200 profissionais técnicos e especialistas nesta área, e eles reiteram que estes dados oficiais serão apenas uma ponta do iceberg da violência que existe em ambiente escolar. E relembro, penso que ainda não disse, existem 9051 ocorrências em ambiente escolar nos últimos 13 anos em Portugal, em média. Esta é a média. Há pouco falou em 600 e tal num ano letivo, não sei de onde é que foi, porque só em questões de agressões existe sempre um valor acima dos 600, agressões entre alunos. Por isso, não sei onde é que foram buscar esse valor. Só se estavam a referir àquele caso em concreto e àquela tipologia que estavam a descrever.

Eu penso que o que acontece é que o ministro João Costa estava na Assembleia da República, estava a ser confrontado por diferentes partidos com o episódio que tinha acontecido na agressão àquela professora quando saía do Centro Escolar de Vila Verde, e é nesses momentos que terá escolhido ali um número para apresentar, para dar a ideia de que se estava a diminuir a violência nas escolas. Aliás, eu achei curioso, porque num estudo que também já escreveu sobre a violência doméstica, e numa das referências que encontrei, tem exatamente também esta questão, por exemplo, procurou criar-se a ideia de que na pandemia os alunos portugueses tinham aprendido muito bem, que nas escolas tinha corrido tudo muito bem, mas uma das referências que é feita é exatamente à questão do aumentar da violência, para já dentro das casas durante a pandemia, e depois no pós-pandemia.

Sim. A questão da violência doméstica, infelizmente, e quem trabalha estas matérias da violência em ambiente escolar e da violência doméstica percebe que há uma grande interligação. As questões do agressor, do jovem delinquente, muito provavelmente, grande parte dos casos têm a ver com questões de ambiente familiar nefasto, em que há a violência doméstica. Isso é uma constatação que não é fácil de provar cientificamente, mas quem trabalha estas matérias no âmbito da investigação das polícias, percebe que há aqui uma interligação.

Eu, aliás, tenho aqui uma citação que penso que é exatamente do seu livro "Os Filhos da Violência Doméstica" que diz: se há um ilícito criminal em ambiente escolar por cada 67 alunos. Portanto, nós temos cada 67 alunos, um ilícito em ambiente escolar, mas o valor dispara 11 vezes se a análise for feita a filhos, portanto, neste caso, que vivem em contexto de violência doméstica. É como se fosse aqui uma cadeia.

Podemos olhar para esse facto, isso era um estudo que estava em desenvolvimento, mas que agora está terminado. Infelizmente, não é 11 vezes, mas passa para 23, agora que foi estabilizado. Ou seja, "Os Filhos da Violência Doméstica" é um estudo que irá sair no final deste ano, muito provavelmente, que realizei com 1052 crianças e jovens que viveram em ambiente familiar de violência doméstica. Não são vítimas secundárias, esse termo já não existe, são vítimas diretas da violência doméstica. Estes jovens têm entre os 15 e os 22 anos e foi-lhe questionado dentro de um inquérito que foi realizado. É um estudo que tem quatro anos já de investigação. Não é fácil chegar a este tipo de amostra, filhos da violência doméstica, mas em relação ao ambiente escolar e o ambiente que eles viveram em casa, ou seja, todos eles foram vítimas de violência doméstica, percebe-se que existe a possibilidade destes jovens terem cometido algum tipo de ilícito como agressores, como delinquentes em ambiente escolar, 23 vezes mais do que a comunidade e os dados oficiais que existem. E outra questão que ainda não tinha nessa fase em que saiu essa primeira abordagem ao estudo.

São, como acabamos de ouvir, esses dados oficiais, distorcidos.

Distorcidos, pelo menos não estavam atualizados.

E não estão atualizados, por quê?

Eu desconheço qual a razão. Esta obra decorre de um pós-doutoramento em Educação.

Esta obra, o seu livro "Violência nas Escolas".

"Violência nas Escolas" da Pacto, que saiu recentemente, mas ele provém de um pós-doutoramento em Educação realizado na Universidade Lusófona com o meu querido professor Carlos Poiares. E nós pedimos ao MAI para nos dar mais informação sobre os ilícitos que existem em ambiente escolar, que estavam nos relatórios anuais de segurança interna. Por quê? Porque havia alguns dados nos relatórios anuais de segurança interna que não discriminavam de ano para ano exatamente as mesmas variáveis. Então nós pedimos uma atualização. Por exemplo, havia um ou dois RASIS que não nos mostrava os distritos onde tinham ocorrido essas ocorrências, e na maior parte deles havia. Então pedimos essa atualização. Enviaram-nos esses dados para esse pós-doutoramento e a partir daí nós comparamos com os dados do RASI, naturalmente.

RASI é o Relatório Anual de Segurança Interna.

E eles informaram que aqueles dados eram os que estavam agora consolidados, ou seja, foram atualizados e eram 48% superiores àqueles que estavam disponibilizados.

Mas segundo percebi, há um momento, creio que em 2010, em que as autoridades deixaram de contabilizar e deixaram de fazer uma análise fina dos dados da violência nas escolas. É assim, Miguel Rodrigues?

Em 2010, 2011, até esse momento existia o chamado Observatório de Segurança Escolar, que nos lançava como fonte aberta um relatório das ocorrências de ambiente escolar, que era um documento científico Em que quem fazia investigação e trabalhava também a nível de políticas públicas na área da educação, era a partir daqui que sabia os dados. As ocorrências de violência ocorriam no espaço do intervalo, na cantina, em sala de aula, contra o professor, contra o aluno. Havia essa panóplia de informação neste relatório que este observatório fazia.

E agora só sabemos por escola, distrito e cidade.

A partir desse momento, sendo extinto em 2010, 2011, esse observatório, que tinha estes relatórios muito pertinentes, terminaram e apenas no relatório anual Segurança Interna temos estes dados: tipo de ocorrência, quantas foram, criminal, não criminal e por distrito. Não temos mais informação.

Miguel Rodrigues, vamos ter a oportunidade de continuar a conversar consigo até ao meio-dia. Temos já vários ouvintes inscritos para participar no Contracorrente, sendo que a pergunta que estamos a colocar aos nossos ouvintes é: o que é que está a acontecer nas escolas portuguesas? Um dos convidados do Contracorrente é o Ricardo Barroso, é psicólogo, consultor de entidades públicas e privadas no âmbito de processos de intervenção em comportamentos de agressão e violência. Por motivos de agenda, não pôde estar presente em direto. A Helena Matos conversou bem cedo com o psicólogo esta manhã. É essa conversa que vamos ouvir agora no Contracorrente.

Temos hoje conosco o psicólogo e também professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Ricardo Barroso. Por razões da sua agenda pessoal, tivemos de fazer este testemunho e esta opinião gravados, mas é mesmo isso. Vamos então avançar para as perguntas. Ricardo Barroso coordenou, participou num estudo que apresentou os resultados, se não estou em erro, em 2023, em que se concluía que 68% dos adolescentes portugueses entre os 12 e os 18 anos foram vítimas de comportamentos agressivos em contexto escolar. Ricardo Barroso, nesta expressão, vítimas de comportamentos agressivos em contexto escolar, há, contudo, graus do que é essa agressividade ou não. O que aconteceu na escola de Vimioso, de alguma forma, é excepcional dentro destes 68% dos adolescentes portugueses que terão sido vítimas de comportamentos agressivos em contexto escolar.

Sim, sem dúvida. Dentro desse continuum de gravidade que nós vamos falando dos comportamentos, esses números e esses dados que nós recolhemos nessa investigação que foi feita ao longo de alguns anos, mostrava-nos uma violência interpessoal quotidiana, nomeadamente psicológica, do ponto de vista da pressão, das humilhações. Enfim, havia um conjunto de comportamentos quotidianos em que, aparentemente, e pelos dados que nós recolhemos, era muito banal, era muito comum. Este tipo de comportamentos, e estou obviamente a considerar o caso em abstrato, este tipo de incidentes ocorrem, são casos graves e a mim parece-me que estamos a falar de comportamento antissocial e até já delinquente e eventualmente este é o culminar de um percurso problemático que poderá eventualmente já decorrer desde há algum tempo.

Isso quer dizer que acha que, por exemplo, nas escolas, se deveria estar mais atento exatamente a essa evolução daquilo que começa por ser, às vezes, uma brincadeira parva, depois já fica uma coisa um bocadinho mais séria. Acha que deveria haver uma maior atenção a esse tipo de comportamentos?

Sim, creio que sim. Há aqui dois aspetos importantes. Obviamente, eu percebo, e até pelo contacto que vou tendo com as escolas, as escolas deparam-se com jovens provenientes de vários contextos, com vários problemas, uns com mais ou menos fatores de risco, risco social, familiar, de abandono escolar, enfim, não é uma tarefa fácil. Mas há um aspeto importante, é que tem que haver um comportamento ou uma atitude mais especializada, na minha opinião, em relação a este tipo de casos. Imagine, em muitos casos, ao haver uma provável trajetória delinquente, se não há uma ação rápida e eficaz, é muito fácil passar uma eventual perceção de impunidade. Eu recordo, por exemplo, este tipo de casos, vai-se sucedendo. Foi feito dentro de um contexto escolar, dentro de uma escola. Às vezes acontecem estas coisas nos contextos fora da escola e outros contextos que vão rodeando a vida das pessoas, mas aqui é um elemento importante. Eu creio que tem de haver mecanismos e existem esses mecanismos. São difíceis, é verdade, mas existem mecanismos que permitem, em alguns casos, até a retirada da escola de agressores, enfim, uma análise de alguém que está claramente numa trajetória de risco. Eu dizer isto pode parecer um pouco básico, mas já há algumas medidas que podem ser feitas e uma delas passa simplesmente por chamar a entidade policial da área, PSP ou GNR, e logo tomar ocorrência de uma primeira situação. Não deixar que o problema escale a tal forma que evidentemente depois é muito mais difícil controlar. Há pessoas que às vezes dizem: "Não, mas esta participação policial não dá em nada." Pela minha experiência, primeiro dá logo início a um processo e que pode servir de regulador comportamental. É óbvio que em alguns jovens isto pode não funcionar tanto, mas para muitos funciona. E vai-se tentando implementar este trabalho. Isto é tudo a propósito da questão que colocas deste trabalho de intervenção mais especializada. Eu creio que sim. É óbvio que tem que haver uma especialização dos próprios trabalhos, das ações, de quando é que se deve agir, cumprindo, evidentemente, todos os regulamentos. Mas parece-me que há aqui uma necessidade de haver um trabalho mais especializado e se calhar mais rápido em muitas das ações que se fazem nos contextos escolares.

Mas de qualquer modo, eu percebo o que me está a dizer e percebo o efeito psicológico que tem o chamar-se à escola quando se começa a perceber que alguma coisa está ali, provavelmente, a degenerar para algo mais grave, chamar as equipas policiais, até porque têm elementos habituados a trabalhar com estes casos. Mas de qualquer forma, nós temos aqui uma espécie de progressão, porque há algumas décadas isto resolvia-se dentro da escola. Com professores, com funcionários. Neste momento, chamam-se as autoridades policiais. Há também aqui uma perda de capacidade de intervenção por parte dos professores, por parte dos funcionários das escolas. Neste caso, no Vimioso, há até uma referência um pouco estranha de que havia uma funcionária que teria percebido o que estava a acontecer e nada fez, mas nada fez é uma citação de um texto. Mas de qualquer forma, independentemente do que pode ou não ter acontecido neste caso, há aqui uma espécie de substituição como figura de autoridade dos professores pela entidade policial.

Mais uma vez, em abstrato.

Em abstrato, sim.

Isabel, eu creio que estamos a falar de casos que excedem a normalidade de um quotidiano escolar. Por isso é que eu estava a dizer esta questão de chamar e fazer uma participação policial e iniciar um processo, estamos a falar de algo excecional. Eu acredito, e tenho pela minha experiência, que na grande maioria dos casos, não é preciso fazer esta participação. Há um conjunto de medidas internas da própria escola que podem minimizar ou até resolver as coisas. Eu não colocaria a questão do ponto de vista de uma perda de autoridade por parte dos professores. É provável que exista em muitos contextos, em muitas situações. Enfim, há aqui um conjunto de problemas sociais que às vezes dificultam o próprio processo. Mas eu chamaria a atenção mais para uma especialização ou uma formação intensiva neste tipo de casos. Mas eu vou lhe dar um outro exemplo, começando ainda antes, até nos trabalhos de prevenção, em geral. Portanto, quando nós fazemos esse trabalho que mencionou desses resultados, decorrem de um programa de intervenção, o Previ20, que está a ser testado nas escolas, em várias escolas portuguesas. E uma das questões que nós passamos, e estamos a falar ainda, volto a reforçar, de ainda antes dos problemas acontecerem. Mas a indicação que nós damos às escolas é elas organizarem-se, ou seja, não fazerem uma intervenção avulso. "Agora vamos colar uns cartazes contra o bullying, depois vamos convidar a figura pública A, B ou C, que vem nos falar sobre a violência". E aquele dia é muito animado, mas do ponto de vista da eficácia, essas coisas se calhar têm algumas dúvidas que eventualmente resultem. Portanto, o que eu quero dizer é que tem que haver um plano integrado, com vários níveis de risco, da própria escola, dos agrupamentos, em que percebam: nós até aqui, este é um trabalho de prevenção primária, prevenção secundária, trabalhamos determinados pontos. A partir daqui, o nível de risco, pelas características que este e este adolescente têm, vai ter de haver outro tipo de medidas mais apertadas, em que eventualmente, nesses casos, pode eventualmente haver a participação policial. Portanto, eu estou a salientar isto. A mim parece-me que este tipo de casos que nós vamos tendo conhecimento, são casos em que claramente devia ter havido uma participação policial rápida, mais eficaz, numa tentativa de regular o comportamento de algum destes jovens. E isto parece-me importante ficar claro. É nesse sentido que me refiro.

Professor Ricardo Barroso, apenas mais uma pergunta. Este programa, o Previ20, era entre 2018 e 2022, é um programa de prevenção da violência interpessoal, que na altura abrangeu mais de uma centena de escolas, se não estou em erro, mais de 20 mil estudantes ou 20 mil estudantes. E agora, continua, está no terreno, como é que vai ser?

O programa está no terreno, continua, mantém-se a ser implementado em várias escolas do contexto nacional. O programa tem aqui uma vertente: é um programa curto, de curto prazo, e centra-se unicamente na prevenção da violência interpessoal. No fundo, aquilo que nós passamos, o objetivo do programa é fazer ver os adolescentes como é que funciona o comportamento de agressão, o comportamento de violência. Isto é, ele tende a ocorrer inicialmente de uma forma insidiosa e vai escalando e em determinado momento pode eventualmente tornar-se mais grave. Isto ocorre nas relações de intimidade, nas relações familiares, nas relações laborais, enfim, há um conjunto de contextos mais tarde, em que depois se faz esta ponte, e em que se procura demonstrar o modo de funcionar do comportamento violento, que tende a ser mais ou menos o mesmo em vários contextos. Deixe-me só dizer que no programa nós damos formação aos agentes escolares, portanto a psicólogos, alguns professores e outros técnicos do próprio contexto escolar, são eles próprios que implementam na sua escola. E depois esta equipa escolar, os formadores, transmitem um conjunto de competências específicas para os alunos reagirem a esse comportamento de agressão, que pode passar por Pode passar por não fazer nada. Isto é, se ele perceber que o comportamento dele de não reação até pode resolver as coisas, mas ele vai perceber que a culpa não é dele. Ou pode, eventualmente, avançar já com outro tipo de medidas, como participar a adultos mais velhos ou resolver o problema de outra forma. Trabalham-se aqui um conjunto de competências específicas para lidar com esse dia a dia. O programa tem funcionado bastante bem. Mais uma vez, ele trabalha na prevenção da violência interpessoal e procura incidir essencialmente num ou outro ponto que nós achamos determinante, mas é um programa de prevenção primária e secundária. Por exemplo, não é um programa direcionado para este tipo de problema já, na minha opinião, mais delinquente, etc., como por exemplo, ouvimos falar, nestas algumas destas escolas. Portanto, tem outro nível de ação.

Professor Ricardo Barroso, espero que o programa seja bem-sucedido, porque se for bem-sucedido, nós não teremos notícias como esta, que chegaram da escola de Vimioso. E uma boa manhã.

Muito obrigado.

E é a partir desse caso que estamos a questionar os nossos ouvintes sobre o que está a acontecer nas escolas portuguesas. Temos vários ouvintes inscritos. A primeira é a Madalena Correia de Sá. Bom dia, Madalena.

Bom dia.

Estamos a ouvi-la.

Estou?

Madalena Correia de Sá, estamos a ouvi-la.

Sim. Bom dia. Olhe, para mim, este caso é o culminar da miséria moral a que se chegou neste país, em todos os sentidos. É perfeitamente inadmissível que isto possa suceder numa escola e que ninguém faça nada. Não há palavras que descrevam o estado a que nós chegamos em Portugal, a miséria moral, a miséria de tudo. Não há valor, não há princípios, não há educação, porque isto são coisas que certamente não acontecem. Miúdos fazerem atos destes são coisas que nunca pensei na minha vida poder assistir. É uma vergonha. E tudo isto mostra bem ao que se chegou. É o espelho do país que temos.

Obrigado, Madalena Correia de Sá, pela sua opinião.

Bom dia.

Bom dia. Reformada, ligava de Lisboa. Miguel Rodrigues, no início deste "Contra Corrente" associava a prática da violência nas escolas à violência doméstica e havia uma relação direta entre a violência doméstica e a violência nas escolas, uma vez que a segunda podia potenciar a primeira. O meio explica tudo ou não?

O meio é sempre uma variável muito importante. Temos também a questão não só da dimensão da localização, mas também da questão temporal. Temos que pensar sempre nessas duas vertentes. Poderemos estar a interligar que existem mais situações de violência em ambiente escolar, por exemplo, em zonas de bairros sociais, em escolas que estão inseridas em âmbito social. Os dados disponibilizados não nos permitem identificar essas questões como questões de maior pobreza, de maior capacidade socioeconómica, de maior literacia. Todas essas variáveis não nos são possíveis de analisar, também porque este observatório foi extinto em 2011, o Observatório de Segurança em Ambiente Escolar, que nos davam esta caracterização a algumas variáveis para podermos trabalhar esses temas de forma mais competente. E quem não conhece efetivamente estas variáveis, não consegue trabalhar e direcionar uma política pública no âmbito da educação muito mais capaz, porque não tem esses dados para os poder dinamizar. Estes dados têm que estar em algum lado. As escolas sabem quem é o agressor, quem é a sua família, por exemplo, uma questão ligada a uma ocorrência em ambiente escolar. Mas esses dados transportados para a comunidade científica e para quem os possa trabalhar, eu não sei até que ponto é que eles serão disponibilizados e infelizmente acredito que muito possivelmente esses dados não serão trabalhados. Existe essa possibilidade, mas eu desconheço essa particularidade, não faço ideia. Mas a nível científico, nós não os conseguimos saber, não estão cá fora em fontes abertas para os podermos trabalhar. Como disse há pouco, íamos sempre bater no RASI e é o único documento que nos dá algumas informações. Eu estava-me aqui a direcionar para a tipologia dos crimes, dos tais 9 mil que há pouco falei, que acontece em média em Portugal nos últimos 12, 13 anos letivos, e a tipologia de ofensas sexuais é a oitava mais incidente. Existem anos em que passa para sétima, para sexta, mas só para vos dar nota, as ofensas sexuais em ambiente escolar, de 2021 para 2022, ano escolar, aumentou 54%. Estamos a falar do ano anterior em que estávamos em fase pandémica. Também poderá muito ter a ver com essa situação, porque os jovens não se encontravam efetivamente o ano letivo a nível presencial, de forma como no último ano letivo se encontraram, mas houve esta subida de 54%. Para terem uma ideia, as ofensas sexuais nas escolas em Portugal, a média é de 174 casos por ano Aqueles que são conhecidos. Nós tivemos agora conhecimento de uma situação, mas existem mais 173 por ano nas nossas escolas que não chegam à comunicação social.

Significa uma em cada dois dias. Estamos a falar de ano letivo, enquanto as escolas estão a funcionar, talvez três vezes em cada semana.

Um ano letivo, efetivamente, nós estamos a falar de um caso por dia.

Um caso por dia.

O ano letivo tem 200 e picos.

Por dia de aulas.

Um caso por dia de aulas. Isso é uma estatística muito impressionante, de facto.

Um caso de ofensas sexuais nas nossas escolas por dia, conhecido.

Miguel Rodrigues é um dos convidados do Contra-Corrente de hoje, investigador no Centro de Estudos do Instituto Superior da PSP. Tem dedicado parte da sua vida acadêmica ao estudo da violência nas escolas e editou, de resto, um livro em setembro do ano passado sobre este fenômeno, chegando à conclusão que sabemos apenas metade, ou a violência doméstica pode ser o dobro daquela que é estatisticamente conhecida através dos dados oficiais. Miguel dizia no final da primeira parte que o número de ofensas sexuais aumentou. Registaram-se o ano passado 174. Eu fui ver, entretanto, no intervalo do Contra-Corrente, há 180 dias de aulas, o que significa que há uma agressão sexual nas escolas portuguesas por dia. Consegue perceber por que estão a aumentar as ofensas sexuais nas escolas portuguesas?

Efetivamente, não existe uma resposta taxativa para isso, mas as questões da violência, de ofensas sexuais em ambiente escolar, vai também ao encontro das outras situações de violência em ambiente escolar. Ou seja, estas situações têm aumentado nos últimos anos, isso é taxativo, e nas 10 tipologias que nos são disponibilizadas, agressões, furto, roubo, estupefaciente, consumo ou tráfico de estupefaciente, têm aumentado todas elas. E juntando estes dados, eu gostaria de lançar aqui também esta informação que está muito interligada aos temas que nós estamos aqui a falar. Dos dados mais recentes em comparação com o ano homólogo anterior, ou seja, os dados de 2022, ainda não temos dados de 2023, a criminalidade grupal com jovens aumentou 18%. Jovens agressores de violência de namoro aumentou 38%. Os jovens detidos entre os 16 e 20 anos em Portugal aumentou 14%. E os jovens com pena de internamento em centro educativo, no âmbito da lei tutelar educativa, aumentaram 32% nos últimos três anos. Tudo isto está interligado com a violência em ambiente escolar. Todos estes dados aumentaram. A violência em ambiente escolar também aumentou no último ano letivo, em comparação com o anterior, fase pandémica, 35%. Ou seja, todas as situações criminais interligadas às crianças e jovens do nosso país aumentaram de forma abrupta no último ano letivo. E não podemos usar a pandemia como interação ou interligação para tudo isto. As situações estão a acontecer, no meu entender, porque não estamos a trabalhar de forma competente as políticas sociais ligadas à educação, essencialmente à educação, de forma competente. A direção poderá, isto não é de agora, eu acho que é algo que já não é trabalhado de forma competente ou tão competente como devia ser, já há muitos anos. Isto vai muito ao encontro, no meu entender, da falta de meios humanos e materiais de quem trabalha nestas matérias. Nós quando olhamos para os rácios, por exemplo, de uma assistente operacional em ambiente escolar, que é um profissional de extrema importância nas nossas escolas, e penso que isto é uma informação que todos temos essa noção, percebemos que quando vamos a países, por exemplo, da nossa Europa mais evoluída, digamos assim, percebemos que estes rácios são superiores e temos uma população que a nível de delinquência juvenil tem dados muito inferiores. Ou seja, logo aqui poderemos ter essa noção que seria importante apostar, e estamos a falar de uma coisa que me parece relativamente simples, apostar em termos de assistentes operacionais, mulheres ou homens, o termo assistente operacional não tem sexo, digamos assim, nas nossas escolas. Eu já trabalhei em ambiente escolar, já fui aluno, todos nós já fomos alunos, em tempos diferentes. Temos que olhar para os tempos atuais. Quando nós vamos a um liceu e vemos uma zona de intervalo, de recreio, que tem centenas de metros quadrados, e se nós olharmos para homem conseguimos perceber que encontramos uma assistente operacional ou um assistente operacional em determinado ponto-chave, ou direcionado, ou indicado pela direção da escola. E é claro que em escolas muito grandes, e as secundárias, por norma, têm uma parte de jardim, depois depende muito de cada escola, mas tem partes em que facilmente se oculta situações, como por exemplo, se calhar, aconteceu com esta. Temos a informação que terá sido assistido por uma assistente operacional. Custa-me a crer que isso tenha acontecido, não sabemos. Espero bem que não tenha sido essa a realidade efetiva. Não estou a ver alguém a ver um jovem a ser sodomizado por outros oito jovens e que não tenha feito nada.

Desculpe interromper. Colocam-se aqui várias questões que, aliás, eram referidas frequentemente até por esse observatório, pelas pessoas que estavam à frente, esse observatório que foi mais ou menos desativado em 2010, 2011, e que passa pelo seguinte

Quando se anuncia, e em geral os ministros da educação adoram nos governos: "Vamos prolongar a escolaridade obrigatória, a escolaridade obrigatória agora vai até determinada idade e sempre em crescimento", tem de se entender que é muito diferente ter numa escola alunos com 16 anos, 17, ao ter alunos todos que vão ali até aos 14. Por outro lado, a opção pelos chamados grandes agrupamentos escolares, que se faz perceber e que se entende perfeitamente, tendo em conta o que está a suceder em termos demográficos no país, que poderá não fazer muito sentido manter determinadas escolas porque tem poucos alunos, porque manter um quadro de professores e funcionários para essas escolas com poucos alunos não faz muito sentido, mas ao fazer-se a opção pelos chamados grandes agrupamentos escolares, sobretudo em zonas fora das grandes cidades, leva a que os alunos estejam todo o dia fora de casa. Portanto, se têm transporte escolar, saem de casa muito cedo, porque as aulas não começam para todos à mesma hora, mas há um transporte. E portanto, eles chegam à escola às 8h, mais ou menos, e depois estão mais ou menos todo o dia em ambiente escolar. Uns podem sair da escola, têm autorização, outros não têm. Portanto, há uma concentração de muitos alunos dentro do mesmo espaço e alunos com idades muito variadas. A nossa organização, em termos escolares, suscita algumas questões. Há países que, por exemplo, mantêm os seis primeiros anos de escolaridade, o quinto e o sexto ano, junto, por exemplo, com aquilo que nós aqui chamávamos a escola primária. E sobretudo, há uma separação dos mais velhos em relação ao quadro dos mais novos. Em Portugal, a opção tem sido pela construção de grandes agrupamentos escolares, com miúdos que vêm das mais variadas áreas de diferentes concelhos, que vão para um agrupamento escolar. Eu não estou a dizer que isto seja bom, estou a dizer que seja mau.

O agrupamento escolar não é obrigatoriamente só uma escola. Às vezes são várias escolas.

Não, pode não ser. Felizmente, pode não ser.

Não é obrigatoriamente só uma escola. Agora, a questão que estás a levantar é saber se as escolas EB2 mais 3 e por aí adiante, fazem sentido na forma como estão, ou se a própria organização do espaço devia ser mais ponderosa.

E obriga a um grande investimento em assistentes operacionais, vulgo que nós chamávamos funcionários ou contínuos ou coisa assim, um grande investimento nesse tipo de funcionários e de pessoas que trabalham nas escolas. É uma enorme discussão sindical, enormíssima, pelo menos nas escolas chamadas básicas, se os professores também devem ou não ir, muitas vezes porque o momento dos recreios é complicado.

Vigiar os recreios.

Devem ou não estar nos recreios, mas a verdade é que não são apenas os alunos que gostam de estar no seu isolamento. Os professores, em geral, reagem muito mal à sua presença no espaço de recreio, os próprios funcionários, aí falo da minha experiência de associação de pais. Ou seja, é como se o contato direto com as crianças fosse a coisa menos valorizada ou da qual muitas vezes as pessoas acham que têm sempre outra coisa mais importante para fazer. E sim, o investimento em assistentes operacionais é fundamental, porque sobretudo essas zonas mortas da escola, essas zonas sombra, as arquiteturas também têm muito que se lhe diga, acabam muitas vezes por propiciar situações, cinco, 10, 15, 20 minutos em que acontece o inimaginável.

Sim, mas eu acho que há aqui duas questões que são mais culturais, e que são, porventura, as mais complicadas de todas. Estava aqui a lembrar-me de um livro que li recentemente, que é "As Três Mortes de Lucas Andrade", que é o livro do Henrique Raposo, que conta muito a história. É um livro que tem uma componente autobiográfica e fala muito do que se passava numa escola aqui nos arredores de Lisboa, num subúrbio de Lisboa. Eu quando vi os números, alguns destes grandes concelhos dos arredores de Lisboa, que nós sabemos que têm uma estrutura social e étnica mais complicada, são aqueles também onde há mais casos. Isto levanta pelo menos dois tipos de problemas. Um, que é qual é a interação entre a escola e as famílias, e outro, que é o nível de disciplina dentro das escolas e o grau de autoridade dos professores dentro das escolas. Essas coisas não podem ser separadas, não pode ser separado aquilo que é considerado tolerável dentro da sala de aula ou na relação entre os professores e os alunos. E depois, o exemplo que aí decorre para outras coisas é: se tudo é tolerável, onde é que as coisas param? E desse ponto de vista, há muitos comportamentos, aquele discurso que eu de vez em quando encontro em artigos de opinião, até em relatórios oficiais, que é: não queremos voltar à escola de antigamente, porque a escola de antigamente era muito repressiva. Ora bem, uma das coisas que nós sabemos é que se não são colocados limites ao que se pode fazer e não pode fazer, e se não houver castigos, não têm que ser corporais, são castigos. Faz parte da nossa natureza, e sobretudo da natureza dos mais novos, ir testando os limites, até onde eu posso ir. Hoje fiz este disparate, será que amanhã consigo fazer um maior? E depois de disparates inocentes, passa-se para disparates menos inocentes. E de mecanismos que são mecanismos de brincadeira, passa-se para mecanismos que são mecanismos de exercício de poder. Tudo isto está de alguma forma descrito nos livros, não há nada aqui de especial. É saber como é que nós O discurso não pode ser apenas: a escola tem que ser isto e aquilo outro, inclusiva, democrática, multicultural. Tudo isso é muito bonito, mas a escola tem que ser um espaço também de regras.

Regras.

Regras, isso mesmo. É uma regra.

É porque se não há regras, há sempre regras, só dependem de quem as impõe, porque esse é que é um dos problemas desse discurso. É que as pessoas acham: então as regras. Numa escola não há ausência de regras. Ou há as regras que se procuram mais ou menos civilizadas, cordatas e adequadas, que são impostas pelos adultos na sala e fora dela, ou então os bullies tomam conta daquilo e impõem as suas regras. Aliás, há aqui um dado também muito preocupante.

Que era o que acontecia muito bem naquela escola que o Henrique retrata naquele livro dele, e as pessoas veem aquilo e aquilo é uma realidade, que provavelmente não encontramos em escolas mais queques e mais próximas das escolas onde andam os filhos da classe média urbana, mas que são as escolas onde boa parte do país está. E depois é necessário ter em consideração que nós não podemos dizer a um professor que é a mesma coisa ter uma turma com: fala-se muito do número de alunos na turma. E por que é que não se fala outra coisa, que é quantos falam português.

Quantos têm necessidades educativas especiais.

Quantos têm necessidades educativas especiais. Isso é, porventura, muito mais importante do que o número total de alunos. Eu posso ter uma turma, porventura, de 30 alunos, sem problema nenhum, e posso ter uma turma de 20 cheia de problemas, se tiver dois TEIP. É assim que se diz?

TEIP é o território. É os NES.

Dois NES ou três línguas diferentes dentro daquela sala de aula.

Ou mais.

Ou mais. Há escolas da região da Grande Lisboa, e agora começa a ser pelo país todo, com dezenas de línguas. Não é uma ou duas, são dezenas. Dezenas de línguas. Isto para não falar de hábitos culturais diferentes.

Sim.

Diferentemente, por exemplo, na relação entre os rapazes e as raparigas.

Sim, e temos aqui também dados que são: os próprios alunos também muitas vezes não deverão percepcionar a escola como segura, ou não devem, certamente, porque o número de armas apreendidas pela PSP nas escolas vem crescendo e deixa uma pessoa a interrogar-se, nem todos aqueles alunos terão levado as armas para a escola para atacar. O argumento de muitos deles é que é também a necessidade que podem ter de se defender. Nós, nestas armas, temos um leque variado do que pode ser. E temos de perceber que uma navalha numa escola é muito perigoso. Não devemos só preocupar-nos se estivermos a falar de armas de fogo. Não, uma navalha numa escola é uma arma que pode ser muitíssimo perigosa. Portanto, há aqui sinais que são-

Ou uma pedra. Depende só da vontade do aluno, não é, Helena? Só disso.

Sim, mas apesar de tudo, a navalha parece-me ser mais perigosa.

A Ruta Gulhas é a próxima convidada do Contracorrente, psicóloga, especialista em psicologia clínica e da saúde, psicoterapia e também psicologia da justiça. Bom dia, Ruta Gulhas. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Partindo do episódio que nos chocou a todos no final da semana passada, que aconteceu nesta escola no município de Vimioso, falando em abstrato ou respondendo em abstrato, isto acontece por quê? O que falhou?

Pois, essa é uma situação que apesar de falarmos dela em abstrato, não podemos esquecer aqui as especificidades desta situação. Estamos a falar de violência sexual entre pares, em gangue. Estamos a falar aqui de uma realidade que nos deixou um bocadinho todos em choque, mas eu queria salientar, primeiro, não é uma realidade única e não é nova. Eu trabalho nesta área há muitos anos, há mais de duas décadas, e estas situações de alguma forma têm vindo a acontecer. Neste momento, talvez a midiatização que é feita da situação acaba por transpô-la aqui um bocadinho para o tema do dia. Mas é importante também salientar que estas situações tendem a ser encobertas, tendem a ser ocultadas, e na maior parte das vezes pelo próprio contexto onde estas situações acontecem.

Mas deixe-me só clarificar, são ocultadas pelas vítimas ou pela escola?

Por ambos. São ocultadas em primeiro lugar pelas vítimas. Sabemos que a violência sexual é pautada pelo medo, pelo segredo, pela vergonha, pelo tabu. As estratégias dos agressores são muitas vezes estratégias, especialmente nesses contextos em gangue, mais violentas, de ameaça, por vezes até com a utilização de armas brancas, por exemplo, que se falava há pouco na entrevista prévia ou na reflexão prévia. Portanto, são aqui circunstâncias que são mais específicas ou encontramos mais frequentemente neste fenômeno em gangue, que é mais frequente em jovens do que em adultos. E portanto, temos logo esta dinâmica que naturalmente reforça o segredo e o silêncio. E depois temos aqui um outro problema, que é muitas vezes estes alunos chegam a casa, contam à família e nem sempre a família também pede ajuda e sinaliza, por medo de represálias, por vergonha, às vezes até desacredita ou tem dúvidas se aquilo que o filho ou filha lhe contaram é verdade. E temos depois os contextos onde isto acontece. Não é só a família que muitas vezes tende a ocultar a violência sexual que acontece no seu seio, mas também os estabelecimentos de ensino ou outras instituições onde estas situações acontecem, nem sempre são devidamente reportadas. Não me cingindo aqui a este caso em concreto, mas sabemos que há estabelecimentos de ensino onde, por exemplo, alguém finge que não vê, onde há um professor que quer sinalizar, mas a direção da escola não quer que assim seja. Às vezes tem-se receio Que a reputação daquela escola ou daquele colégio possa ser colocada em causa. Voltando à sua pergunta: o que falhou? Temos aqui um trabalho ainda bastante significativo em Portugal, não só de sensibilização e de formação para o tema. O que é que cada um destes agentes, porque estamos a falar que isto acontece numa escola, mas a escola é comunidade escolar, e comunidade escolar é muito mais do que os docentes e não docentes que lá trabalham. Temos que sensibilizar, temos que capacitar todos estes agentes para saber identificar, para saber detetar e para saber o que fazer. Estamos a falar de um tipo de violência que não é compatível com uma sinalização, por exemplo, 72 horas depois, ou quatro dias depois, ou uma semana depois. Pode haver até prova biológica que é preciso preservar e recolher, mas temos, acima de tudo, eu acho que esta é sempre a tônica que nós, em Portugal, esquecemos muito, que é prevenir estas situações.

E como é que se pode prevenir?

A prevenção começa no pré-escolar. A prevenção começa quando ainda temos crianças mais pequenas, junto dos pais, junto dos educadores de infância, junto de toda a comunidade, começar a trabalhar exatamente para contrariar aquilo que alguns estudos mais recentes em Portugal, nomeadamente, nos têm dito, que é a forma como os nossos jovens em Portugal, muitos deles, desvalorizam a violência, especialmente quando é violência emocional, quando é violência verbal e mesmo a violência física. Muitos dos nossos jovens consideram normais determinados tipos de comportamentos. Quando chegamos aos 12, 13, 14 anos de idade e se consideram normais este tipo de comportamentos, ou pelo menos não muito grave, significa que estes jovens foram crescendo e foram interiorizando um conjunto de crenças, um conjunto de formas de pensar, que têm que ser desconstruídas, mas que podem, se recuarmos na idade, ser trabalhadas de uma forma diferente, numa lógica preventiva. Trabalhar com as crianças desde cedo e com os adultos onde elas estão inseridas. A questão dos direitos, a questão dos limites, educando para uma relação saudável, sem qualquer forma de violência, ajudando-os a perceber que pode haver diferentes tipos de violência, mas que todas elas são igualmente graves. Ajudando-os também a perceber o direito que têm a preservar a integridade do seu corpo e o dever que têm de preservar a integridade do corpo do outro, e o que podem ser situações de risco e o que fazer nessas situações de risco.

Ruta Culhas, se estivermos a ser ouvidos por pais, ou partindo do pressuposto que estamos a ser ouvidos por pais e por mães que ocasionalmente vão à escola, a que sinais é que devem estar atentos da parte de outros alunos que podem potencialmente transformar-se em agressores, de natureza sexual ou não, em contexto escolar?

Sim, uma criança ou jovem que é vítima ou que é agressora, pode dar alguns sinais, atenção, mas pode também não dar alguns sinais. Ou seja, há crianças mais assintomáticas. Claro que isto significa que os adultos, principalmente os pais e cuidadores, têm que estar especialmente atentos. Na prática, estarem atentos a alguma alteração de funcionamento dos filhos. E essa alteração pode ser uma alteração mais preocupante, por exemplo, alterações de humor, alterações de comportamento, alterações no rendimento da escola. Os pais, muitas vezes, e os professores também, estão mais atentos e ficam mais preocupados, por exemplo, quando as notas descem. E às vezes esquecemo-nos de uma outra franja de crianças e jovens que, quando são vítimas de violência, sobreinvestem na escola para não pensar. É uma forma de fuga. Por exemplo, nos recreios refugiam-se na biblioteca, ficam dentro da sala a estudar, como forma de evitar determinados contextos com os seus colegas, e isso pode levar a um aumento das notas. E às vezes não entendemos um aumento das notas escolares como um sinal de alerta. E pode ser. É menos frequente, mas pode acontecer. Portanto, eu diria que toda a comunidade tem de estar atenta e tem que haver uma cultura de tolerância zero a qualquer forma de violência, porque há muita forma de violência. Antes de escalar e chegar a este limite desta situação que estamos aqui, de alguma forma, a refletir sobre ela, há todo um processo de escalada. E durante esse processo de escalada, muitas vezes comentários, mensagens que os miúdos trocam entre eles no WhatsApp, no Teams, etc, vão sendo desvalorizados. "Ah, foi a brincar, não foi de propósito, não foi com intenção, é muito sensível, leva tudo a mal." E portanto, há aqui uma desvalorização, por vezes, de outras formas de violência mais sutis, aquilo que às vezes também chamamos de microviolência. São aqui microcomportamentos, mas podemos assistir aqui a um processo de escalada, que é importante contrariar o mais cedo possível.

E que hoje em dia é muito potenciado pela convivência no espaço escolar, do telemóvel, das câmeras de filmar e de fotografar, e depois da propagação nas redes sociais. Estamos perante um perigo.

Sim, não há miúdo nenhum hoje em dia, especialmente a partir do quinto ano, mas infelizmente também muitas vezes no primeiro ciclo, que não tenha um telemóvel no bolso. E portanto, quando se tem um telemóvel no bolso, a facilidade com que se usa este meio digital, não só para trocar mensagens, e portanto, muitas vezes com conteúdos menos próprios, compartilhar ficheiros, nos balneários, nas casas de banho, muitas vezes alguém pega no telemóvel e começa a filmar ou tirar fotografias, e depois, naturalmente, isso pode ser divulgado e perde-se o controle total dessas mesmas imagens. Portanto, há aqui, de uma perspectiva organizacional, pensando agora aqui no contexto de escola, as escolas, de uma maneira geral, primeiro, têm que estar alerta para esta questão da sensibilização e da capacitação. E se me permite, deixe-me só dizer que a Direção Geral de Educação nos pediu a nós, enquanto Grupo Vita, e vamos ainda este ano letivo dinamizar algumas ações de capacitação para professores a nível nacional, e são ações que têm que ser necessariamente replicadas e aprofundadas, porque os professores são os primeiros, muitas vezes, a dizer que não se sentem suficientemente bem preparados e capacitados para intervir nesta problemática. Também não podemos esquecer o pessoal não docente, que é muitas vezes quem está no recreio, no refeitório, nos balneários, enfim Contextos onde as crianças e jovens se movimentam. Mas as escolas têm que pensar de uma forma preventiva, ou seja, que riscos, que situações é que podem eventualmente acontecer nesta escola? O que é que podem ser situações de risco? Fazer aquilo que nós denominamos por mapa de risco e depois, em função dos riscos, que são mais elevados numas circunstâncias, menos noutras. Por exemplo, o risco de violência sexual é naturalmente mais elevado num balneário, numa casa de banho, atrás de um pavilhão, do que propriamente no refeitório. Portanto, em função do tipo de violência que estamos a tentar prevenir, identificar os riscos possíveis e antecipar medidas preventivas. Eu sei que as escolas se deparam com grandes dificuldades ao nível dos recursos humanos. Muitas vezes o rácio de funcionários para alunos não permite a supervisão que a própria escola gostaria de implementar, mas nesta perspectiva de tentar com os recursos que existem, conseguir a maior supervisão possível, no fundo, protegendo todas estas crianças.

Portanto, defende um reforço da autoridade, seja ela do professor ou da auxiliar de ação educativa. Dos adultos na escola.

Da presença, da vigilância, da capacidade de supervisão, do estarem atentos, de praticar com as crianças e com os jovens, porque não podemos esquecer que muitas vezes as crianças e jovens têm nas escolas as figuras de referência afetiva, que são figuras privilegiadas no sentido de estabelecerem uma relação de confiança, e é por vezes junto do professor ou de auxiliar, que as crianças acabam por partilhar a situação de violência de que estão a ser vítimas. E por vezes não é na escola, por vezes é em casa. Acho que é importante também capacitar todos estes agentes na comunidade educativa, sempre nesta dupla perspectiva, que é por um lado, a violência pode acontecer aqui onde nós estamos neste momento na escola a trabalhar e é importante pensar de que forma é que essa violência pode ser prevenida e o que fazer se a detetarmos, mas por outro lado, também capacitar estes agentes porque podem ser recetores de um pedido de ajuda. E é muito frequente nas crianças pedirem ajuda ao professor, ao educador ou às vezes a um funcionário da escola que frequentam.

Ruta Goulhes, deixe-me voltar a este caso que conhecemos no final da semana passada. Que medidas deve esta escola do Vimioso tomar para ultrapassar este episódio?

Em primeiro lugar, acho que é importante que não haja um tabu à volta desta situação, que a escola reconheça que isto aconteceu. Não vamos estar agora à procura de quem foi o culpado em termos institucionais, mas pensar o que nós podemos fazer para que isto não se repita no nosso estabelecimento escolar. E o que nós podemos fazer enquanto professores, enquanto funcionários, e que trabalho é que tem que ser feito com estes colegas, com estes miúdos, porque nós estamos a pensar que há uma criança que foi vítima, há X crianças que terão sido aqui alegadamente agressoras, mas depois temos as turmas destes miúdos. E estamos a falar de fenómenos que não têm um impacto exclusivo apenas na vítima direta da violência. Este rapaz que terá sido vítima desta situação tem amigos, tem colegas de turma e aqueles que são alegadamente agressores também têm. E por isso é importante que a escola pense sobre como intervir nestas turmas. Eu diria que é importante um trabalho mais focado ao nível da turma, um trabalho ao nível mais geral da própria escola, para que os próprios alunos também se sintam mais seguros. Imagino que possa haver crianças que no dia a seguir a isto se ter tornado público, tenham dito em casa: "Não quero ir para aquela escola, isso não acontece a mim." Portanto, tem que haver aqui também esta capacidade da escola de transmitir serenidade. Mas acima de tudo, segurança. O que nós enquanto escola estamos a fazer, que medidas é que estamos a adotar para prevenir uma situação destas? Deixando passar também de uma forma clara esta mensagem de tolerância zero. Por vezes fala-se que um funcionário eventualmente poderá ter visto, nada terá feito. Esta dinâmica dos espetadores passivos tem que ser contrariada, sejam eles adultos ou crianças. Nós no bullying assistimos muito a esta dinâmica. Temos o agressor, temos a vítima e temos o bystander, que são normalmente mais ainda do ponto de vista quantitativo. E estes bystanders ou estes espetadores passivos, é um pouco aquela lógica de: "Não é comigo, não me quero meter, não quero arranjar problemas." E esta dinâmica tem que ser trabalhada. Nós temos que trabalhar com as crianças também nesta perspectiva de terem que de facto pedir ajuda, contrariando, porque nos mais novos isto acontece muito, aquela ideia do pedir ajuda é o ser o caixinhas. E o ser caixinhas tem uma conotação negativa no grupo de pares. Não é ser caixinhas, é zelar pelos direitos do próprio, mas também os direitos do outro, independentemente da violência que está a ser exercida de uma forma direta, ser sobre mim ou ser sobre terceiros. Naturalmente, para um funcionário, portanto adulto, tenha ele que função tiver naquela escola, naturalmente que a mensagem que tem que passar de uma forma muito clara é que a denúncia e sinalização é obrigatória. E se tal não acontece, deve haver medidas sancionatórias pensadas para estes adultos que eventualmente sabem, observam ou têm conhecimento de uma situação de violência e nada fazem.

Ruta Goulhes, deixe-me perguntar-lhe: o presidente da Junta fez bem em denunciar, em fazer denúncia pública deste caso?

Denúncia pública, partilhando o nome da escola, é isso que me está a questionar?

Estamos a falar de um concelho com 4000 habitantes, portanto, não é muito difícil chegar à escola.

É isso. A questão aqui é que corre-se o risco de haver uma estigmatização. Uma estigmatização não só da própria vítima, como de todo o ambiente escolar, é muito fácil identificar. E esta estigmatização, e estou a pensar noutros casos que já acompanhei, muito semelhantes, em zonas mais pequenas, em que há uma situação que depois de alguma forma é tornada pública, muitas vezes o que acontece é que depois as vítimas não querem ir à escola, têm vergonha, sentem-se estigmatizadas, sentem-se olhadas. É um pouco aquela sensação: "Toda a gente sabe que foi comigo." E aqui os alegados agressores podem também sentir o mesmo, até com medo de represálias Por parte de outros colegas e pode ser até um medo legítimo, porque podem sentir aqui este receio que alguém lhes faça mal como retaliação daquilo que eles alegadamente poderão ter feito. Portanto, eu diria que, por um lado, é importante não esconder isto debaixo do tapete e falarmos sobre estas realidades, mas sempre protegendo ao máximo a reserva e a privacidade de todas as pessoas. Se fosse em Lisboa, no Porto, se calhar era muito fácil isto ficar de uma forma mais subtil, era difícil fazer esta identificação. Num concelho tão pequeno, acho que é bastante fácil que se consiga identificar as pessoas em causa.

Ruta Gulhas, obrigado por ter aceitado o convite para estar aqui em direto no "Contra Corrente". Foi importante ouvi-la. Nós, pais e avós, e membros de todas as comunidades educativas, precisamos de ferramentas para lidar com este problema da violência na escola. O Paulo Torres está a acompanhar o Contra Corrente e enviou-nos uma mensagem de áudio por WhatsApp. Vamos ouvir.

O que se passa nas escolas é o que se passa em todo o país. É a decadência total, a impunidade total, a corrupção que muitas vezes até é premiada. Depois nas escolas há esta cultura woke e as casas de banho mistas, ou seja, interessa tudo menos a formação, quer académica, quer pessoal. Acerca das casas de banho mistas, que penso que isto tem a ver com as escolas, e muito, é uma descontextualização total dos políticos, porque por que não experimentam as casas de banho mistas na Assembleia da República? Acho que se devia começar por aí. Falamos tanto de escola, escola pública. São muito poucos os políticos que têm as crianças em escolas públicas. São muito poucos os políticos que vão a um hospital público. Mas estou a dispersar um bocadinho. O meu ponto de vista, a profissão mais importante do mundo são os professores. São os professores é que vão originar pessoas íntegras, bem formadas, a respeitar o próximo, em todas as áreas, em todas as profissões, vão originar depois outros bons professores. E a gente vê como é que os professores têm sido tratados em Portugal pelos últimos anos. Maltratados, são desvalorizados e era preciso tratar bem os professores, incentivar bem os professores para ajudarem a criar bons cidadãos, íntegros, honestos, a respeitar o próximo. E não acontece nada disso. Pessoas boas e bem formadas vão originar bons políticos, em todas as áreas. E não acontece nada disto. Os professores são a profissão mais importante, deviam estar na base de um país, porque é através deles que se pensa o país a 10 anos e a 20 anos, e uma sociedade boa. E nada disto é feito. Chamo a atenção para o fato, eu não sou professor, e deixámos de ouvir falar completamente nos resultados daquele relatório PISA, que fala sobre o ensino e a aprendizagem em Portugal. É escandalosamente assustador o caminho que leva a nossa escola pública. Obrigado, bom dia.

Obrigado nós, Paulo Torres, ouvinte que nos enviou uma mensagem pelo 91 002 41 85. Miguel Rodrigues, à violência nas escolas nos últimos anos adicionámos aqui uma outra camada a este problema, que é o facto de muitos miúdos terem hoje redes sociais, telemóveis. Há dados sobre cibercrime, sobre cyberbullying. Sabemos o que está a acontecer nas nossas escolas nesta matéria ou não?

Sim, o digital veio trazer aqui outra performance, infelizmente mais negativa ainda, porque é muito mais abrangente conhecendo a difusão deste problema pelas nossas crianças e jovens e depois pelos próprios adultos. Infelizmente são dados que não existem sobre bullying e cyberbullying, sobre estes dois conceitos em ambiente escolar. Não existem estudos nacionais que abranjam e se possam correlacionar a todo o país, extrapolar a todo o país, apenas alguns dados, como por exemplo da UNICEF, em que Portugal também participou e teve uma amostra relativamente alargada de crianças e jovens em Portugal, participaram com outros países num estudo de bullying, mas já tem cerca de cinco anos, em que cerca de 20% dos jovens portugueses se identificavam como vítimas de bullying e cyberbullying e cerca de 10% identificava-se como agressor. Eram estes os dados, mas estamos a falar de uma amostra de dois mil e pouco, que acho que apesar de se poder extrapolar em certo sentido, será sempre muito redutora.

Portanto, não havendo dados finos que retratem a realidade, estamos a dar respostas erradas ao problema, tal como na violência física.

Exatamente. Ou erradas ou pelo menos não tão direcionadas para aquilo que poderá ser o mais importante.

Mas há um dado que me deixa ficar sempre perplexa, porque isto claramente prende-se também com a idade que eles têm, e com o sentimento de impunidade e de invencibilidade, também é característico da idade, que é quando eles filmam a agressão. Ou seja, nós temos algumas agressões que são filmadas e em dois contextos diferentes. Ou porque alguém que não intervém, mas filma para de alguma forma dar um registo daquilo que aconteceu, mas às vezes é filmada

Pelo próprio grupo dos agressores, também como mais uma forma de humilhar aquela vítima.

E às vezes a própria agressão já é propositada e já é levada a cabo para filmar.

O que também dá conta que se uma pessoa está a agredir outra e para mais filma, é porque terá forte convicção que não lhe vai acontecer nada.

Impunidade, infelizmente, é uma das questões que trabalho nesta obra.

Trabalhou nesta situação escolar. Quando há uma queixa e há uma situação de agressão, vocês intervêm e o que é que dizem ou fazem aos miúdos?

No âmbito do programa Escola Segura do Ministério da Administração Interna, fez recentemente 30 anos, em 2022, o programa fez 30 anos.

Já são 30 anos.

Já são 30 anos. Houve uma grande evolução, penso eu, nestas matérias. Eu não vim aqui em representação da PSP, nem do MAI, vim como investigador, mas trabalhei neste programa durante muitos anos e quando há uma agressão, quando é identificado ou chamado a este programa Escola Segura, estes elementos vão identificar as partes, vão informar os pais, agressores, vítimas.

A primeira pergunta que façam é: "Que idade tens?" À criança.

Sim, a questão do ilícito criminal ou o facto qualificado como crime, o menor de 16 anos, depois estas questões também estão sempre interligadas e é absorvida também uma informação relativamente à questão do jovem. É algo que depois vai junto ao expediente que o polícia elabora, que tem a ver em que ano está, com quem vive, essas situações, também depois pelo acompanhamento na própria Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, se for o caso, de sinalizar um agressor. Pelo menos essa informação vai para essa outra parte.

Como é que as famílias reagem quando são confrontadas com essa informação de que o seu filho ou foi agredido, ou é agressor? Presumo que talvez não se distinga muito a reação. Não sei, estou a perguntar.

Sim, cada caso é um caso. Há pais que ficam perplexos, jamais imaginavam que aquela criança ou jovem estaria ou tivesse feito algo daquele tipo. Estamos a falar de questões mais graves, por exemplo, de um roubo. Eu lembro-me de situações de roubo em grupo de jovens, em que aquele jovem até nunca se tinha envolvido em nada, mas estava com aqueles jovens e era amigo deles no trajeto escola-casa, eles fizeram o roubo, ele estava lá no grupo, fez parte daquilo e ficaram estupefactos. Mas infelizmente, na maior parte dos casos da violência em ambiente escolar, e para quem já lá trabalhou, e podem perguntar isso também a diretores de escola, a professores e afins, facilmente percebem que os jovens agressores reiteram a situação. Não é a primeira vez. Um jovem delinquente comete um furto, um roubo, que agride um aluno, normalmente volta a fazer isso mais que uma vez. E é essa a sensação e é essa a informação que eu vos posso dar, porque passei por isso a nível profissional e percebemos isso.

Um jovem que é apanhado a roubar num supermercado por um agente da PSP ou um guarda da GNR, a escola é informada desse facto ou não?

Depende da situação, mas por norma não é interligado, a não ser que haja aqui a questão de trajeto escola-casa, casa-escola, parou, essa questão é informada com os pais. Isto tem muitas variáveis envolventes. Depois também o próprio pai pode informar, mas não será a polícia que irá informar a escola de forma assertiva e direta do que aconteceu um furto no Pingo Doce. Essa informação não é por aí, nem é essa a função.

Quando começou o programa Escola Segura, eu lembro-me de ver muitas viaturas, não sei se estou menos atento ou se vejo menos agora, e de muitas vezes ver as viaturas paradas à porta de certas escolas. Isso ainda se mantém, ainda é uma prática que é comum ou foi-se perdendo com o tempo?

Atualmente, como isto está e como têm percebido, se calhar estava parada porque estava avariada.

A viatura.

Poderemos ir por aí. Mas nesta obra da violência em ambiente escolar também trabalhamos esses dados do programa Escola Segura. Nos últimos anos, houve uma diminuição de cerca de 12% do efetivo de polícias no programa Escola Segura, PSP, GNR, e houve uma diminuição de 20% de viaturas. Por isso é que têm visto menos viaturas a dizer programa Escola Segura.

Mas há alguma razão objetiva para isso?

Não, foi o desinvestimento nas forças de segurança nos últimos anos. O carro-patrulha é aquele que uma esquadra tem que haver sempre para apagar os fogos, que nem nos últimos meses, como têm percebido pela comunicação social, há muitas esquadras sem carro de patrulha, por questões de avarias. A vendesse, se era só da Escola Segura naquela esquadra que haveria ou naquele posto, o da Escola Segura passa para ser o carro-patrulha. São programas que efetivamente têm tido este desinvestimento, mas tem a ver com a realidade no seu todo e não no âmbito do programa Escola Segura, porque acredito, tanto PSP e GNR gostariam de ter mais elementos, mais polícias e mais viaturas para alocar este programa.

Vamos ouvir uma professora, a Elsa Maneiro, liga de Lisboa. Bom dia.

Bom dia.

Elisa Maneiro.

Elisa, bom dia. Parabéns pelo tema. Bom, isso é um problema que os professores já chamaram muitas vezes à atenção, inclusive também já foram à Assembleia da República, mas eu só gostaria de, na qualidade de professora, dizer que, eu nunca fui agredida, mas já fui insultada e já fiz queixar à polícia, já faz alguns anos, mas o problema depois ficou a saber por aí. Bom, gostaria de chamar a atenção que a violência e a indisciplina afetam as aprendizagens dos alunos. Todos os dias os professores têm que se debater com esta questão, porque na sala de aula também entram as confusões que os alunos têm no intervalo, seja em que lado for. Mas eu também gostaria de contar um episódio na qualidade de encarregada de educação. Os meus filhos frequentam uma escola em Lisboa, é uma escola que está exatamente afeta à carta escolar da cidade de Lisboa, e eu já tive que ir duas vezes à Escola Segura no âmbito de ser encarregada de educação. A primeira vez foi em 2011 Em que o meu filho tinha seis anos e que lhe baixaram as calças no recreio. Eu tentei chegar à fala com a coordenadora do estabelecimento de ensino. O meu filho contou. Quando eu tentei, várias vezes, no horário de trabalhadora e de professora, nunca estava disponível para me receber. Só ao fim de quatro ou cinco dias. Eu expliquei-lhe que iria à escola secondary, exatamente à Polícia. Levei o meu filho à Polícia e apresentámos queixa. Ele fez o seu depoimento e no dia seguinte estava a Polícia às 20h30 para falar com a coordenadora. Ela aí não pode dizer que não tinha tempo ou não tinha horário. E as coisas resolveram. Resolveram-se porque perceberam que não podiam andar a chatear o meu filho. Chatear o meu filho era: despi-lo no recreio, que eu acho que isso é um ato de endoguinhar uma criança. E a mim, na altura, eu achei estranho, que eles acharam que era normal, uma brincadeira. Uma brincadeira todos se divertem, não é só um a divertir-se ou os outros. O outro episódio já foi em 2016, já estava no quinto ano. No quinto ano, ele mudou de escola, já fazia o seu percurso, sozinho, não acompanhado com o pai de um ou com o pai de outro, e na escola foi assaltado no refeitório. Foi assaltado no refeitório e não havia ninguém. Mais uma vez me trouxe para casa, explicou o assunto, jantei e fui a uma esquadra de polícia. Na altura, não me queriam receber a queixa. Eu disse assim: "Olhe, eu não saio daqui sem receber a queixa". Isto foi logo o que eu disse. Só saí da esquadra às 11 da noite. Por quê? Porque não queriam. "Mas é contra crianças de 11 anos". Exatamente. Está um assalto dentro de uma escola e se as escolas não fazem nada, porque a realidade é que neste momento os professores perderam a autoridade, os diretores também. Os diretores, infelizmente, também perderam a autoridade. Não foi só o professor, foi toda a escola que perdeu a autoridade. E então, mais uma vez, eu apresentei queixa. Eu disse assim: "Desculpe lá, mas eu não saio daqui". E não saía. Eu até podia ficar ali a noite toda, mas eu não saía. Com o meu filho ao lado, claro, porque quando os pais querem fazer uma queixa, eu considero que o jovem deve ser ouvido. Eu fiz duas ações, expliquei ao meu filho que qualquer ação que ele tivesse, as consequências que podia ter, porque eu também podia chamar mãe de um agressor ou um delinquente. Até agora não foi necessário. E mais uma vez, a coisa também se resolveu e nunca mais mexeram com o meu filho. É que depois há essa parte benéfica. É que eles sabem, ou eles os agressores, ou a própria conjuntura, combinados com a SAV, que existe uma ação. Em 2021, a minha filha foi insultada.

Rapidinho, Elisa, por favor.

Em 2021, a minha filha foi insultada e eu exigi que levassem um pedido de desculpa. E não foi feito, só ao fim de 15 dias é que foi feito. Eu tive que mandar três e-mails a explicar que se não fosse feito um pedido de desculpa à minha filha, que foi insultada, com a mesma plateia, então eu teria que tomar medidas. Infelizmente, há muitos diretores que não fazem e não preservam a segurança das crianças nas escolas e os partidos ainda não pegaram no tema. Infelizmente, os partidos políticos, nesta questão, preocupam-se muito com a falta de professores, preocupam-se muito com a recuperação das aprendizagens, mas não há aprendizagem sem segurança. E neste momento, a segurança neste país, nestes jovens, nossos jovens, não é preocupação de nenhum partido.

Ficou claro, Elisa Maneiro. Peço desculpa, mas não temos mais tempo e temos ainda outra ouvinte inscrita em linha e o tempo está a contar. Ângela Loureiro é advogada, Liga de Lisboa. Bom dia.

Bom dia. Eu vou ser mesmo muito rápida, mas gostava de vos dizer duas coisas. Primeiro, quando existe uma agressão na escola pública, e há diferença entre a escola pública e a privada, e eu conheço bem as duas realidades. Quando existe uma agressão na escola pública, é uma agressão. Quando existe na escola privada, nada sai para fora e é comportamento tonto e palerma de uma criancinha qualquer. E as coisas são tratadas de forma muito diferente, sendo certo que eu gostava de deixar claro que as escolas não estão preparadas para lidar com este tipo de situações, não sabem lidar com isto. E posso vos dizer que quando é apresentada uma queixa na polícia, porque houve uma agressão, porque essa agressão foi feita por um grupo de gente que gravou, que pôs nas redes sociais, que tudo e mais alguma coisa, aquilo que a escola faz é esconder, principalmente se essa criança, que foi a mandante, ou melhor, que foi a pessoa que fez com que tudo isto acontecesse. O que acontece, e se tiver alguns conhecimentos e os pais tiverem algum peso dentro da comunidade onde está inserida, aquilo que a escola faz é tentar esconder de todas as maneiras. E as nossas escolas tentam esconder o que existe lá dentro e não sabem lidar com isto. E isto é uma situação muito complicada, porque na verdade, aquilo que muitas vezes acontece é que nos esquecemos sempre que aquele que é agredido, o ofendido, na verdade, é ofendido variadíssimas vezes e o agressor passa impune e acha que não lhe aconteceu nada e, portanto, não aprende a lição. Deveria, de facto, haver quem fizesse com que isto tivesse que ter uma lição, tivesse que aprender efetivamente, tivesse que haver, até por parte dos pais, porque muitas vezes os pais acham: "Se a foce desta, agora vamos passar à frente, vamos esquecer que ele fez isto". Não pode ser. Nós, pais, temos a obrigação de Se a escola efetivamente não fez aquilo que deveria fazer, pelo menos em casa, as coisas tinham que ser diferentes. E muitas vezes aquilo que se passa na escola é efetivamente o reflexo daquilo que se passa em casa. E isto é o reflexo do nosso país, porque nós de facto estamos sem rei nem roque. E é só isto. E peço desculpa, mas já sei que estou com pouquíssimo tempo.

Obrigado, Ângela. Obrigado pela compreensão. Ângela Loureiro, advogada, ligava-nos de Lisboa. Miguel Rodrigues, muito rapidamente, vem aí uma campanha eleitoral. Os partidos políticos evidentemente deviam prestar atenção a este fenómeno, deviam dar-lhe eco?

Claro, é óbvio que sim. As crianças e os jovens são o nosso futuro, têm que ser trabalhadas, têm que ser seguras, têm que estudar em ambientes seguros e é claro que as políticas da área da educação têm que ser redefinidas, têm que ser complementadas e têm que ser alocado muito mais meios humanos e materiais e financiamento para se poder ter estas duas variáveis muito importantes para a segurança das nossas crianças e jovens.

Obrigado, Miguel Rodrigues. Obrigado por ter estado no "Contra Corrente". Helena, pela autoridade que me foi investida, notas finais.

Sim, é verdade que as escolas encobrem. Eu passei por isso como professora, vivi isso. É verdade, as escolas procuram sempre encobrir na medida do possível e enquanto for possível. Creio também que temos de equacionar uma questão, que isto não acontece apenas aos filhos dos outros. Nós vemos como os nossos políticos muito frequentemente não têm os filhos nas escolas públicas ou nas escolas públicas consideradas problemáticas, porque isso também é outro assunto, mas existe muita convicção de que isto só vai acontecer aos filhos dos outros, seja como agredidos, seja como agressores. E da desatenção que se tem dado a este assunto, até um pouco se quisermos, da forma como se procurou arredá-lo do centro da discussão, isso só vai levar a que, dentro de algum tempo, outra notícia objetivamente pior do que aquela que aconteceu no Vimioso nos venha lembrar que temos mesmo de tratar desta matéria.

José Manuel Fernandes.

Eu acho que ficou bastante claro que há uma realidade que não conhecemos, uma realidade que não vem nos relatórios oficiais, que os relatórios oficiais só mostram uma parte dela, uma realidade em que tem havido nalguns sítios uma evolução preocupante, vamos lá dizer, depois da pandemia, pelo menos isso. E a perceção de que continuam problemas antigos, designadamente nas zonas urbanas mais desestruturadas e nas zonas onde há necessidades de integração mais agudas. E isto não pode ficar debaixo de um tapete, porque falar do assunto é, por uma razão qualquer, descortés, como às vezes foram as respostas oficiais e fáceis para não falar de problemas que existem e que as pessoas sentem. Sendo que isto começa, em muitos aspetos, pelas regras que se estabelecem ou não, regras sociais, regras familiares e regras dentro da escola. E desse ponto de vista, a disciplina dentro da escola não é algo que tenha a ver com o tempo de antigamente. A disciplina dentro da escola é algo que é necessário para aqueles que têm, eventualmente, até ambientes sociais mais complicados, terem a oportunidade de progredir.

Muito bem, José Manuel Fernandes e Helena Matos. Estamos de regresso amanhã para um novo "Contra Corrente". Até amanhã.

Obrigada.