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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente, Luís.
Até porque falta pouco mais de uma hora para começar esse debate das rádios. É um debate que vai durar duas horas e onde os oito candidatos que já estiveram também nos debates das televisões vão trocar argumentos. Por isso mesmo, não haverá o Contracorrente do horário habitual depois das 10 horas, mas o José Manuel Fernandes e a Helena Matos vão estar aqui na rádio para avaliar o debate das rádios, mal ele termine por volta das 11h30, num programa especial que vai prolongar-se até à 13h. Antes disso, José Manuel, bom dia, bom ano.
Bom dia.
Queres partilhar conosco algumas das tuas expectativas para este debate, estas duas horas de debate?
Primeiro de tudo, nós habituamo-nos muito aos debates na televisão, são os debates hoje em dia mais comuns, em Portugal, em todo o mundo, mas a existência de debates nas rádios permite um tipo de palco e, por regra, também um tipo de discussão diferente. Isso está relativamente bem estudado, até porque há quase 65 anos que há este contraste entre debates na rádio e debates na televisão e como é que uns e outros podem funcionar, mesmo sendo aparentemente iguais. Por que eu digo isto? Porque há duas diferenças substanciais neste tipo de debates. Na televisão conta muito a imagem, conta muito a expressividade dos candidatos, sobretudo nestes tempos em que nós temos sobretudo debates a dois, o ecrã está dividido, estamos a ver o rosto dos dois candidatos, inclusivamente a forma como reagem ao que o outro vai dizer. Portanto, há todo um teatro, mais bem executado, pior executado, que é importante e pode influenciar o resultado junto de quem está a seguir o debate, de quem venceu, quem perdeu, quem convenceu mais, quem convenceu menos. Os debates na rádio não têm este lado, não têm imagem, naturalmente. Há quem possa seguir no YouTube, nós vamos também retransmitir com imagem, mas a maior parte das pessoas está a ouvir apenas o som. E no som, o uso da palavra, a capacidade de articular a palavra é mais importante. A argumentação, no limite, pode ser mais importante, menos que a imagem. Isso está, de alguma forma, consolidado, até por alguns estudos académicos, relativamente a outros debates históricos. Eu vou citar os dois que são habitualmente os mais referidos, que é por um lado, e é o caso mais famoso, o debate presidencial Kennedy-Nixon, na campanha presidencial americana em 1960, portanto aquilo aconteceu há muitos anos, onde as sondagens realizadas às pessoas, quer dizer, os estudos permitem apurar que no debate nas televisões, isso ficou famoso, de Kennedy terá ganho, e terá ganho porque era mais novo, estava mais bem vestido, não suava, portanto não dava um ar cansado e pesado, como sucedeu com Nixon. E no debate das rádios, as pessoas que seguiram apenas pela rádio teriam dado mais vantagem, ou pelo menos uma derrota menor a Nixon. Há estudos mais recentes que contestam um pouquinho esta ideia, mas de uma forma genérica é esta a ideia que resultou. E nós também temos um caso parecido em Portugal, não tão bem estudado, que é o do debate numa eleição que esta parte lembrar, uma eleição de há 40 anos, a segunda volta de 86, Freitas do Amaral, Mário Soares. E aí, a ideia geral é que na televisão, Soares, que foi muito combativo, muito aguerrido, muito presente, terá ganho. E na rádio houve maior equilíbrio, porque Freitas do Amaral, que era professor universitário, estava habituado a argumentar, tinha uma voz mais pausada, terá convencido mais pessoas. Ou pelo menos tantas como Mário Soares. Houve pelo menos um maior equilíbrio. Isto quer dizer que nós partimos para este debate com, porventura, algumas situações diferentes das anteriores. Eu não sei quem vai conseguir sair-se melhor dele, mas diria que quem conseguir falar mais pausadamente e de forma mais articulada, porventura vai ter mais vantagem e não vai haver os problemas, por exemplo, que houve nalguns debates nas televisões, que é tirar e por óculos, olhar muito para as notas, porque isso ninguém está a ver. Esses problemas não se colocam. No entanto, à partida para este debate, o que nós temos, e agora passamos para a parte mais política, é uma campanha presidencial indiscutivelmente muito aberta. Nós não temos nenhuma segurança nesta altura ou nenhuma certeza pelo andar da carruagem das sondagens sobre quem possa inclusivamente estar na segunda volta, e fala-se muito de poder já haver voto útil, no sentido de não se votar no candidato preferido, mas votar-se no candidato menos preferido apenas para evitar que outro candidato mais detestado passe à segunda volta. E portanto, desse ponto de vista, nós vamos ter aqui dois tipos de debate: um debate que eu diria que é a cinco e depois um debate dos pequenos, digamos assim. O debate a cinco é o debate entre os quatro candidatos que partiram à frente e um quinto que se intrometeu. Temos neste momento com mais vantagem nas sondagens André Ventura e Marques Mendes. Depois temos um segundo pelotão, digamos, muito próximo também uns dos outros, com o almirante Covilhã Melo, António José Seguro e Cotrim Figueiredo, que é um intruso, já que o partido base de Cotrim Figueiredo é um partido que tem uma base eleitoral muito mais pequena do que o Partido Socialista, por exemplo. Mas aqui a personalidade Presente é muito relevante e apesar de, pelo menos na minha perspectiva, Cotrim Figueiredo não ter saído nos debates televisivos tão bem como se esperaria pelas outras casas e pela suspensa parlamentar, neste debate da rádio vamos ver como é que as coisas correm. Se quiser ainda tentar ir à segunda volta e ainda conseguir ir à segunda volta, para ele é muito importante este debate. Há outro candidato para quem este debate também é crucial, que é António José Seguro. António José Seguro está a tentar fazer passar a mensagem de que se ele não passar à segunda volta, a segunda volta será disputada entre dois candidatos, muito provavelmente entre dois candidatos da direita. O mais provável neste momento é que André Ventura, que está a conseguir segurar o seu eleitorado, esteja na segunda volta. E depois a dúvida é quem será o outro, sendo que a vantagem neste momento vai para Marcos Mendes. Desse ponto de vista, António José Seguro precisa de falar para os apoiantes dos outros três partidos mais pequenos: António Filipe, do PCP, Catarina Martins, do Bloco e Jorge Pinto. Estamos a chegar ao fim da campanha e eu enganei-me com o nome de Jorge Pinto, o que também é significativo. Estes candidatos estão muito na campanha para fixar os eleitorados dos seus partidos, que são partidos em dificuldade. Dois deles estão em muitas dificuldades e o outro, que é o Livre, é um partido que está a subir e que inclusivamente as sondagens mais recentes até lhe dão boas perspetivas, mas Jorge Pinto aparentemente não consegue cobrir bem esse espaço e uma das incógnitas da segunda volta é se ele vai manter a candidatura até ao fim ou vai acabar por desistir para António José Seguro, como porventura seria o mais avisado se as sondagens se mantiverem tal como estão. Porque o eleitorado do Livre é porventura aquele que pode ser mais atraído pela perspetiva do voto útil. O eleitorado do PCP é mais disciplinado, o eleitorado do Bloco já está muito minguado, mas mesmo assim aquele que sobra é um eleitorado também com características mais ideológicas e com maior dificuldade em fazer apenas voto útil. Temos aqui um debate que para estes candidatos é relevante para marcar terreno e pode influenciar a posição de António José Seguro. Vamos ver como é que eles se posicionam. De resto, há um último aspecto que eu gostava de sublinhar, que é a minha expectativa relativamente ao espaço que vai ou não ocupar neste debate as questões do chamado combate na lama. A troca de acusações, que nos últimos tempos azedou bastante entre Gustavo Melo e Marques Mendes. Evidente que na bancada a assistir a esta luta está André Ventura, com a perceção de que porventura é ele aquele que pode mais beneficiar com a ida do debate para estes terrenos. No entanto, como eu tenho a expectativa que habitualmente e até historicamente os debates na rádio porque são um pouco mais tranquilos e um pouco mais troca de ideias e onde se pode falar um pouco mais. Estamos a falar de um debate que dura duas horas. É evidente que o tempo por candidato, se formos fazer as contas, é sensivelmente idêntico ao tempo que cada candidato teve nos debates a dois. Os debates a dois eram meia hora, 15 minutos para cada um. Aqui são oito candidatos, o que dá também 15 minutos para cada um em duas horas. Vamos ver como é que isto termina. Eu acho que há aqui alguma expectativa. O dia é um dia em que talvez haja menos pessoas a ouvir rádio nos automóveis, porque há menos gente a ir para os locais de trabalho, mas haverá muita gente a ouvir rádio em casa e a ouvir rádio online. E eu espero que o aumento da expectativa que há relativamente a estas eleições permita um bom debate e permita também audiências significativas, porque as audiências nas televisões não foram excecionais.
E depois das 11h30 vai estar com a Helena Matos também a olhar um pouco para aquilo que foi o debate.
Exatamente. Estaremos cá para olhar para o que cada um disse, como é que argumentou ou não argumentou e que pontos marcou ou perdeu.
José Manuel, até já então.
Até já.
A análise ao debate das rádios dos candidatos à Presidência da República é o tema do Contracorrente de hoje. O debate já sabe que começa às 9h30. O Contracorrente é logo a seguir, às 11h30 da manhã.