Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Muito bom dia. No Contracorrente de hoje fazemos um balanço do ano que agora termina e antevemos 2026. E há muitas perguntas a pedir resposta. Haverá orçamento aprovado no final do ano? O Chega, agora líder da oposição, vai entrar no Tribunal Constitucional? O Ministério Público vai continuar no centro das polémicas? E quem vai suceder a Marcelo em Belém? E como pode essa escolha dos portugueses condicionar o futuro do país? Bom dia, Helena Matos.

Bom dia.

Que grande caderno de encargos para 2026.

É não, hein? Sobretudo, o que é muito interessante quando nós estamos a ver, é como de repente há coisas que se tornam uma urgência absoluta num determinado momento e depois desaparecem completamente, depois deixam quase que esquecemos. E às vezes quase que temos dúvidas sobre em que ano é que aconteceram. Nós levámos um período do nosso ano de 2025, tornámo-nos todos eletricistas, teóricos de correntes elétricas. O que foi o apagão, João, não faças essa cara.

Ah, o apagão.

Já te esqueceste do apagão.

Já me esqueci. Sabes que a memória é efêmera, não é?

O apagão, não é?

Pois.

Pronto, foi o apagão. Tivemos também a questão do elevador da Glória, em Lisboa.

Sim.

Em que de repente a questão dos cabos das manutenções ocupavam boa parte dos noticiários. Tivemos os incêndios, também muito a marcar a atualidade. Agora, nós temos daquilo que ficou politicamente deste ano, que é um ano marcado por sucessivas eleições e em que tivemos as legislativas, tivemos as autárquicas e agora já estamos na corrida das presidenciais. O ano de 2025 começa-nos muito sobre a questão de Spinum Viva. Foi quase que um spin-off, Spinum Vivofilático em que estivemos e em que, de repente, todos os cenários que nós fazíamos eram desfeitos no momento seguinte. Nós começámos 2025 a achar que muito provavelmente Gouveia e Melo ia ser o vencedor indiscutível destas eleições presidenciais que agora estão em campanha. Achávamos que o resultado das legislativas, que foram convocadas na sequência do caso Spinum Viva, que Montenegro sairia provavelmente beliscado. Não foi esse o caso. Ou seja, é difícil nós dizermos se Montenegro tivesse ido para eleições naquele período, por outra razão qualquer, e se não houvesse caso Spinum Viva, se ele, por exemplo, não teria tido uma maioria absoluta. Agora, a verdade é que quem acabou a demitir-se foi o líder do Partido Socialista. Portanto, isto acabou a ser muito diferente. Nós vemos à esquerda uma reconfiguração das esquerdas com novas lideranças, no caso do Partido Socialista, também no bloco de esquerda. À direita temos o crescimento para patamares que há alguns anos não auguraríamos desta natureza e desta dimensão do Chega. Eu acho, aliás, que 2026 vai ser, e agora começando a falar do que acho que poderá acontecer nesta espécie de dados que estão lançados, o Chega vai dar mais um passo ou alguns passos na sua institucionalização. O Chega tornou-se o líder da oposição.

Portanto, já é um partido do regime.

Tem de ser um partido do regime. Eu percebo perfeitamente a questão do Partido Socialista querer dizer que não se consegue com o Chega, que não se fala com o Chega, mas isso é uma coisa tática para o Partido Socialista, que sabe perfeitamente não só que não pode, mas também que não deve. Não se pode deixar ficar um partido com a dimensão do Chega, esta é a minha opinião, fora do quadro institucional. E, portanto, o Chega tem de estar no Tribunal Constitucional, tem de estar nos outros organismos e instituições do regime, no qual sempre existiu uma representação dos diversos partidos. E, portanto, que o Partido Socialista, e não apenas o Partido Socialista, tenha aberto aquela destravada ideia das linhas vermelhas que acabaram a virar-se contra o próprio Partido Socialista. Às vezes quando se concebem táticas muito perfeitas, cenários muito perfeitos, em geral isso tudo se desfaz, porque a realidade depois não é nada assim. Eu acho que foi isso que aconteceu ao Partido Socialista, com aquela tática de Santos Silva, muito inspirada por Augusto Santos Silva, de achar que iam fazer uma tenaz em torno do PSD, insuflando um partido que estava a surgir à direita, que é o caso do Chega, mas, na verdade, isto acabou por se virar mais contra o Partido Socialista do que contra o PSD. Nesta fase. Depois, outra coisa será mais lá pra frente, a possibilidade do Chega crescendo mais um pouco, acabar a subalternizar o próprio PSD, mas esse é outro assunto. Para já, em 2026, nós, em princípio, não teremos eleições, ou seja, teremos as presidenciais com uma segunda volta, quase de certeza, mas não mais do que isso. Mas depois eu tenho perguntas. Por exemplo, vamos ter orçamento em 2026? Toda a gente, quando este orçamento foi aprovado em 2025, este ano, era dado como certo que íamos ter orçamento. Nós íamos mesmo ter orçamento. Agora, em 2026, vai haver orçamento, não vai haver orçamento? Pelo lado do Partido Socialista, foi muito uma coisa de que esta aprovação em 2025 tinha sido uma coisa excecional. Aprovação, quer dizer Na prática, o ter deixado passar o orçamento, que é diferente de votar favoravelmente o orçamento. Em 2026, o PS vai fazer isso e pode fazer isso, ou seja, José Luís Carneiro pode viabilizar um novo orçamento. É que viabilizar um novo orçamento pode ser desviabilizar-se a si como líder do Partido Socialista. O Partido Socialista está numa cura de oposição, que nunca é fácil para um partido de poder, e muito mais difícil para o Partido Socialista, que não tem grande experiência desse assunto, e que sempre se viu como o partido fundacional do regime, o que em parte é verdade.

E dono.

E dono do regime, diz a Maria João. E agora está neste exercício particularmente difícil. Aí chegamos a um ponto que me parece ser também muito importante, que é o próximo presidente da República. Marcelo está em final de mandato, vamos ter, certamente, muitos artigos, muitos temas, muitos programas sobre a avaliação do seu mandato. Eu não tenho uma apreciação positiva daquilo que foi o desempenho de Marcelo como presidente da República, e de alguma forma, os traços mais negativos dos mandatos de Marcelo acabaram a refletir-se no perfil das pessoas que estão na corrida. Ou seja, alguns é a necessidade de não ser Marcelo, que eu acho também, e que explicam, por exemplo, até a emergência da própria figura de Gouveia e Melo. E a necessidade de se demarcar de Marcelo, daquele que durante muito tempo foi visto como um Marcelo dois ou um possível Marcelo dois, que é o caso de Marques Mendes. Agora, o resultado das presidenciais nunca será neutro também nos equilíbrios políticos. Ou seja, o PS vai continuar fora de Belém? Na minha opinião, o PS vai sempre continuar fora de Belém, mesmo que António José Seguro se torne presidente da República. Diga, Maria João.

Não sei.

Depende de que PS estamos a falar.

A minha grande dúvida é essa.

Pois.

Como é que é o PS versus Seguro em Belém? Mas não seria tão rápida a dizer que o PS ficará sempre fora de Belém.

Ou pelo menos uma parte do PS ficará.

Uma parte, sim.

Uma parte do PS ficará.

Mas a outra muito lá dentro.

Pois, claro.

A querer manipulá-lo, a querer influir, a querer estar lá, a querer ter lá um lugar perto, a querer aconselhá-lo. Isso não tenho dúvida.

É que a chegada de António José Seguro a Belém.

José Manuel.

Não, eu estava só a dizer, acho que para o Partido Socialista.

Quem chega a Belém. Diz, Zé.

Não, eu estava a dizer, para o Partido Socialista, penso que está a tornar claro que pode ser um futuro muito diferente ter ou não ter Seguro em Belém.

Claro.

Quer dizer, a questão é: há um Partido Socialista pragmático, no sentido de ser um Partido Socialista habituado a alguns aspetos, habituado a governar, minimamente as autarquias, que é a base principal do partido hoje em dia. E depois há o outro Partido Socialista que tem enquistado no grupo parlamentar. E esses dois partidos, digamos assim, não são exatamente os mesmos, até em termos de base sociológica, e não sei como é que eles vão acabar o ano.

Divididos como estão.

Pedro Nuno Santos anda por aí.

Exatamente. Essa é uma das questões. Ainda não falando de António José Seguro, mas do Partido Socialista. Nós acabamos este ano com o Partido Socialista que pode estar numa fase muito crucial da sua vida, porque há uma parte do bloco que está mais ou menos órfã, ou que se sente mais órfã, que sente que aquele pode ser um projeto sem futuro e que, portanto, vê, porque são partidos que sempre se alimentaram, como o Bloco, o Livre, sempre se alimentaram da fraqueza do Partido Socialista. E portanto, pode ter chegado o momento de considerarem que pode haver um espaço para uma redefinição das esquerdas. E isso espelha-se muito na forma como essa parte do Partido Socialista olha para José Luís Carneiro e como agora também está a olhar para António José Seguro. Ou seja, para José Luís Carneiro, claramente visto como um líder a prazo, este senhor que está aqui a fazer este tempo, que é um tempo difícil, mas depois quando chegar a hora da verdade, nós avançamos.

Absolutamente.

Esse Partido Socialista está agora muito com Alexandra Leitão na Câmara Municipal de Lisboa, onde se vê até, temos notícias da contratação da mulher de Pedro Nuno Santos. Portanto, há aqui uma criação de círculos de influência e é um PS que claramente está à espera que chegue o seu momento. Eu acho que aí a aprovação ou não viabilização do orçamento para 2027 pode ser um momento crucial. Esse PS não terá, certamente, imaginando que não existem muitos incidentes ao longo do ano, não terá muito tempo nem muita paciência para continuar à espera da sua hora, porque sofrem de uma terrível impaciência. É um dos problemas dessa ala esquerdista do PS, é a impaciência. Eu percebo perfeitamente, que eu também sou uma pessoa impaciente. O tempo tem me feito mais paciente, mas mesmo assim, como eu era muito impaciente, ainda falta muito para ser uma pessoa paciente. Mas em política, a impaciência...

Tens um grande passivo nessa matéria.

Mas em política a impaciência paga-se caro.

Mas deixe-me só dizer que ponto tem razão. A impaciência deles é tão eloquente, tão visível, tão notória, que vai-se evidentemente virar contra eles, penso eu

Claro, porque o grande problema de Pedro Nuno Santos foi a impaciência. Era preciso uma pessoa não ter muita noção para mandar um país para eleições como ele fez, e achar que podia ganhar as eleições e tudo aquilo. Esta impaciência pode voltar a manifestar-se e eu creio que terá alguns aspetos, alguma visibilidade, algum protagonismo no ano de 2026, porque essa ala do Partido Socialista não se vê a continuar tanto tempo à espera. Tem, por outro lado, que é sempre um risco, uma visibilidade mediática várias vezes superior à sua real implantação e apoio. Autoenganam-se as suas palavras. Nós às vezes dizemos que os políticos enganam, dizem o que não é verdade. O grande problema é quando os políticos se convencem que é verdade.

Sim, enganam.

E acreditam nas próprias não verdades ou ilusões que estão a dizer. E essa ala esquerda do Partido Socialista sofre um bocadinho desse problema. Eu creio que vamos ter que falar do Partido Socialista e depois, claro, se o presidente da República for António José Seguro, nós temos aqui uma viragem. Nós vimos como, por exemplo, Mário Soares usou Belém para alavancar um Partido Socialista que não estava em boas circunstâncias, mas Mário Soares foi um agregador e era um líder. Eu não acho que António José Seguro seja um líder. Tenho estima, consideração, valorização da sua pessoa, mas não acho que seja um líder. É uma pessoa mais facilmente acossável, porque Mário Soares acossado transformava-se num animal de guerra. Uma máquina de guerra quando era acossado. E não é o caso de António José Seguro, e portanto, quando eu pergunto quem é que vai com ele para Belém, sim, temos agora todas estas pessoas a procurarem colar-se, essas pessoas que não lhe vislumbravam qualquer perfil ou capacidade.

Deixe-me só um pequenino parêntesis. Não, de facto, não se sabe o que há de se pensar de Augusto Santos Silva, que foi quase brutal a dizer que Seguro não atingiu os serviços mínimos, é o mínimo que se pode dizer, é a linha antes do zero. E neste momento já vem dizer que afinal tem os requisitos parecidos com os serviços mínimos, numa trapalhada de uma frase. Mas mostra, primeiro, um sinal de desespero, segundo, da enorme necessidade que o Partido Socialista, mesmo dividido, mesmo agradando só a uma parte do Partido Socialista, a outra quererá a pele de António José Seguro, mas a importância fulcral que teria para o PS ter o chefe de Estado em Belém.

Claro, porque o PS não só não tem mais nada, como está longe de Belém há muito tempo. Não tem estado efetivamente na corrida a Belém. Quando se diz que um primeiro-ministro não está em campanha, porque há esta questão de Montenegro ir ou não à campanha de Marques Mendes, e irá. Mas é que se nós olharmos para trás, percebemos porque é que não temos há tantos anos um primeiro-ministro na campanha de um presidente da República para as presidenciais. A sério. Por quem é que José Sócrates ia fazer campanha? Por quem é que António Costa ia fazer campanha? É também isso. Ia com o Sampaio da Nova? Houve este desencontro e eu acho que esta questão ganha aqui particular acuidade. É claro que é tudo muito determinado pela figura que vai chegar a Belém. Como isso pode influir nos partidos. Não creio que se quem chega a Belém for Marques Mendes, isso tenha o impacto no PSD, que terá, se for António José Seguro para o Partido Socialista, o impacto não é de modo algum o mesmo. Depois temos duas candidaturas que podem, uma porque é o André Ventura, que pela sua própria natureza. Eu acho que Ventura chegar a Belém é o pior que pode acontecer ao Chega. Porque o Chega com André Ventura em Belém não é nada alto.

Eu creio que essa possibilidade está mais do que remota.

É remota, mas tem de se colocar. Tudo era muito remoto com o Chega. Tudo era tão remoto, não é, José Manuel? Portanto, se calhar temos também de a pôr em cima da mesa.

Ele ficar à frente da primeira volta pode acontecer. Mas ganhar a segunda volta, acho que neste momento é muito difícil. É uma situação parecida com a francesa. Quantas vezes ficou já Marine Le Pen em primeiro lugar e depois não consegue ser eleita?

Pois é, mas provavelmente o Bardella vai ganhar as próximas.

Sim, mas deixe-me só dizer uma coisa.

Já não se chama Le Pen.

O que estás a dizer, José Manuel, é que apesar de ter um bom score eleitoral, André Ventura tem uma taxa de rejeição alta.

Justamente é o que tinha.

É o que é obvio.

Mas deixe-me só lembrar que André Ventura ganha o Totobola. Se for derrotado na segunda volta, é um derrotado com 49%, seja o que for, é o que ele quer. O partido dele vai levar um empurrão fabuloso e ele chegará não a Belém, que não quer, mas a São Bento, que é o que quer. É o Totobola.

Portanto, dá-lhe munição para alimentar o discurso: "Foi o sistema que se uniu contra mim."

Claro. E em parte é.

E em parte é.

Mas o sistema também tem de funcionar. Agora, porventura, a candidatura que me coloca mais questões do seu impacto no quadro partidário que temos não é a de André Ventura. André Ventura tem um partido, está no quadro Mesmo dentro do sistema. Agora, qual é o impacto de uma vitória do Gouveia e Melo? O que isso quer dizer para a área política que vai do Partido Socialista ao CDS e ao próprio CHEGA?

O impacto é uma desgraça.

Poderemos ter uma tentação macronista?

Helena, acho que, porventura, uma das surpresas desta campanha até agora, pelo menos para mim, e ao mesmo tempo isto mostra a intuição política de André Ventura. Num primeiro momento, o Gouveia e Melo ia buscar muitos eleitores fora do sistema, os eleitores do Chega. E porventura, Ventura percebeu isso e percebeu que ele não podia ficar a ver a corrida de fora. E portanto, meteu-se ele na corrida para fixar o seu eleitorado. E por isso, de repente, o almirante ficou ali sem saber se era mais PSD ou mais PS, que é um barco que perdeu o leme e, portanto, anda um pouquinho à deriva, um dia vai mais para um lado, outro dia vai mais para o outro, mas deixou de ter aquela base tão forte dos eleitores zangados. Zangados, desafetados com o sistema, porque isso André Ventura, aparentemente, está a conseguir fixar.

Deixe-me só dizer qualquer coisa. Já acabaste, Zé? Eu gostava de dizer qualquer coisa do Gouveia e Melo.

Já, era só uma nota.

Já, o Gouveia e Melo, porque sempre me espantou, eu nunca o disse e escrevi que nunca o disse, sempre me espantou a quantidade, os batalhões de nossos colegas que davam na primavera do ano que hoje finda, Gouveia e Melo, eram semanas e semanas disso, já está eleito à primeira volta, é natural que seja eleito à primeira volta, com uma grande certeza. Isso era a farda e a lembrança das vacinas. Assim que o senhor almirante tirou a farda e começou a falar, eu sei que o papel do Ventura é importante e estou de acordo com o que acabaste de dizer, mas não era preciso quais o Ventura. O senhor almirante destruiu-se ele próprio, foi visível demais que não era uma vulgar e politicamente normal busca de eleitorados fora de um perímetro partidário definido, que era o desespero de ver se arranja aqui, se veja lá, tão depressa era do PS, sendo desmentido pelo líder do PS, José Luís Carneiro, de que ele não representava o PS, eu não conheço maior humilhação política. E depois cada vez que lhe era colocada uma pergunta que contivesse em si a exigência de alguma substância, algum critério político, algum conhecimento do que é ser presidente da República, era quase constrangedor para quem ouvia, ver uma soma de ignorância, de trapalhação, e depois a ausência da farda emoldurava isto ainda de uma maneira talvez mais grave ou mais cruel. E portanto, eu não excluo, quer dizer, não excluo, porque na política nada se deve excluir. Excluo ou sou mais levada a dizer que ele não passará a uma segunda volta e se passar, eu como cidadã e observadora da política portuguesa, mas também como cidadã, não fico completamente descansada. Não é que haja medo, não acontece nada, não somos presos. Agora, ele é uma personalidade que se percebeu que pode ser manipulável, até pela sua própria desà-vontade com que estará, pelo menos de início, no cargo, e vai querer muita gente, por isso mesmo, ir para Belém para o ajudar, para o aconselhar, para o fazer ver, para dizer que para esta área há aqui esta pessoa que é fantástica, para a área económica, para a área jurídica, etc. E portanto, não percebo como é que ele foi dado como ganho à primeira volta durante semanas e semanas pela maior parte dos meus colegas.

À primeira volta, não sei se tinham à primeira volta.

Zé Manuel, eu creio que ainda houve uma fase mais eufórica em que era mesmo à primeira volta.

Desculpe, eu ouvi nesta mesma casa. Eu ouvi aqui, não direi neste programa, mas ouvi aqui muitos colegas meus, com responsabilidade, dizerem certamente que passará à primeira volta e escreverem. E eu ficava sempre muito espantada porque eu só via uma farda. E portanto, gostava de chamar a atenção que a vitória do Gouveia e Melo seria com certeza a mais, a palavra é um alçapão, e portanto eu não queria dizer perigosa. Seria a mais problemática, disruptiva, complexa, a exigir mais atenção, não seria nada aconselhável.

Habitualmente diz-se que as maiorias presidenciais se desfazem no dia em que o presidente é eleito. E não só não é verdade, nós temos visto isso em alguns casos, mais do que noutros, mas aqui esta maioria presidencial é constituída nas pessoas que estão à volta de Gouveia e Melo, por pessoas que de alguma forma têm uma espécie de ressentimento.

Exatamente, é uma coligação de ressentimentos.

Em relação aos seus partidos de origem. E portanto, poderemos ter como resultado, porventura tão incerto quanto aconteceu em França, a constituição de uma maioria presidencial, que depois não se prolongando, não se consegue constituir como uma maioria política, com um corpus político, mas destrói o que existe.

Aumentando a mágoa e o ressentimento.

Veja-se o caso francês, quer dizer, não há dúvida, estou a comparar o perfil político de Macron e tudo aquilo que ele representava, até em termos de pensamento, com Gouveia e Melo, e nós vemos o beco sem saída a que Macron conduziu, destruiu o gaullismo, destruiu o que havia e agora, o que há?

E o que ele construiu? O que é que vejo?

Não construiu nada. Nós temos de olhar nesse sentido, nós podemos estar, pegando aqui naquilo que o Zé Manuel estava a dizer, que a Maria João também já disse, de alguma forma André Ventura, ao fixar o seu eleitorado, está a garantir o sistema. Quando fixou o seu eleitorado, está a garantir o sistema como nós o conhecemos. Estas coisas são assim simples.

É muito interessante.

Temos de entender quem é que neste momento o está a conseguir fazer. E por fim, eu gostaria muito de chegar a uma coisa que me parece que em 2026 algo acontecerá nessa matéria. Por fim, não, isto aqui o por fim é uma figura retórica, mas há aqui algo que a mim me parece ser, ou seja, nós estamos a viver assim, mas nós não podemos ou não devemos, porque poder pode sempre, mas não devemos continuar assim, que é este clima de suspeição completo. Tudo.

Obrigada, Helena. Era o meu tema.

Temos neste momento, novamente, um procurador na corda bamba, Amadeu Guerra, e não há ninguém, à exceção, claro, de António Filipe, que foi funcionário do Partido Comunista Português e fez vida na política, e depois deu umas vagas aulas nas universidades. Ou seja, todas as pessoas estão sob suspeição. E não se distingue já o grande corrupto do pequeno corrupto ou do não corrupto. Ter passado uma fatura é igual pra quem passou uma fatura falsa.

Ou quem assalta um banco, quase.

Exatamente. Quer dizer, discutimos coisas absolutamente ridículas. E isso aí até tem a ver com Gov@mail, quer dizer, ser considerada uma compra urgente de material de escritório pra uma fragata que vai partir.

Como a Helena dizia ontem, não há paralápis, nem lápis no meio dos oceanos.

Pois, manda-se um drone com os post-its pra deixar cair na fragata? Não sei, estou a perguntar, não sei como é que é. E portanto, acho que há aqui, seja porque a legislação em Portugal obriga o Ministério Público a investigar tudo e mais alguma coisa e todas as queixas, mas há uma absoluta falta de proporção, de razoabilidade em tudo isto.

Até pode investigar. Poder não noticiar, não tornar pública a investigação.

E há outra coisa que é, de repente, passou a ser uma coisa à qual se tem que atender com a maior das seriedades e das urgências, uma denúncia anônima. A denúncia anônima entrou nas nossas vidas como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Parar a vida do Ministério Público, dos funcionários, trabalhadores, sei lá de quê, do mundo da justiça, devido a uma denúncia anônima, também é uma coisa que dá que pensar.

Houve um período em que se valorizou imenso, e valoriza, a denúncia anônima, mas eu percebo perfeitamente e percebo a figura e o instituto da denúncia anônima. Agora, não é a mesma coisa fazer uma denúncia por narcotráfico, que é claro que existem os riscos que nós sabemos, por determinado tipo de agressões, suspeições. Agora, de repente, a denúncia anônima tornou-se um instrumento. E não há um candidato a nada que de repente não tenha a sua vida vesculhada, por atos absolutamente simples. E isto também nos deve levar a uma outra pergunta. Diz.

Helena, eu acho que há aqui uma coisa que é assim: hoje em dia, estava a ver aqui uns comentários, não temos líderes. As pessoas não estão pra isso. Reparem bem, o que é que hoje pode motivar alguém a ir pra secretário de Estado? Não é preciso mais nada, ou ir pra deputado. Ou são pessoas que não têm grandes horizontes, ou o seguinte que acontece: vão ganhar pior se forem bons, porque fora do Estado ganha-se mais dinheiro, se se for bom, claro. Até uma multa de trânsito por pagar é capaz de lhes aparecer à frente. E depois, como se isto não fosse suficiente, há a percepção de que chegam lá e não conseguem fazer nada. Estão nas mãos de um enredo burocrático e de uma máquina do Estado que não funciona. E portanto, para que eu vou estragar a minha vida pra não conseguir fazer nada? A não ser que tenha outros objetivos que não os mais nobres, digamos assim. É evidente que eu estou a dizer, isto é muito pessimista, mas eu já encontrei pessoas que me disseram isso abertamente. Pessoas que estão até no fim das carreiras profissionais, a aproximar-se da reforma, numa boa altura em que já podiam, os que já tinham os filhos fora de casa, não tinham problemas de ter que ganhar mais ou ganhar menos, porque até já podiam aplicar uma parte salarial, e depois diziam: "Mas pra quê?"

E não é só isso, e os mais novos. Repare-se, uma pessoa está a começar a sua vida profissional, e acho que esta questão até foi hoje também já aqui aflorada no Vencedores, se não estou em erro, ou num dos outros programas aqui de Rádio Observador manhã. E que uma pessoa está a começar, é arquiteto, é advogado, é médico, é qualquer coisa, tem uma atividade privada, tem 30 anos, 35. Quer dizer, eu não sei se nós não chegaremos a uma fase em que as empresas, elas mesmas, vão procurar se resguardar de contratar pessoas nas quais veem algum interesse ou alguma coisa pela política. Qual é a empresa que está interessada por ter tido um seu colaborador, alguém que os serviços contratou, e que depois, de repente, vai pra política e a empresa vê a sua vida. Mas contratou? Quanto é que pagou? Por que pagou?

Mas Helena, deixa eu perguntar, esse discurso também não tem sido alimentado por um certo partido e por um certo líder?

Está a falar do Ventura?

Estou.

Não, mas não só

A desconfiança permanente em relação aos políticos e aos agentes políticos.

A desconfiança permanente, sim, mas não é de modo absoluto.

Aliás, está nos cartazes, não é?

Sim.

"Vamos acabar com a corrupção." Sem nunca ter denunciado um caso de corrupção.

Claro. Houve aquele cartaz em que estava o Montenegro, o Sócrates e mais não sei quem.

Uma vergonha.

Sim, uma vergonha, como diz o André Ventura. Verdadeiramente uma vergonha. A suspeição e esta ideia da suspeição sempre existe, mas o que nós temos neste momento é a justiça, a investigação, de algum modo, em alguns momentos, nós percebemos que temos meio país sob investigação. Temos um antigo primeiro-ministro em tribunal, comprovadamente em tribunal, o José Sócrates, com processo.

Há 15 anos.

Nós um dia teremos de fazer o que isso custou à saúde da nossa democracia, todo este processo.

Exatamente.

Há 15 anos.

Porque isso corroeu de uma maneira que ainda hoje não temos noção, ainda não fizemos o balanço. E não acabou, porque está para acabar tudo muito mal por causa das manobras dilatórias.

Eu acho que há um antes e um depois de José Sócrates.

Absolutamente.

E aquilo que nós tivemos a seguir foi criar-se aquele magma em que tudo é igual a tudo. De repente, é tudo um José Sócrates. Mesmo que sejam € 500 para comprar post-its para uma fragata. Isso é uma tática habitual de quem está acuado e de quem está verdadeiramente incriminado. É dos livros. Se uma pessoa é acusada, e com razões, a melhor forma de se defender é espalhar a suspeição sobre todos os outros.

Mas Helena, eu gostava só de também dizer uma coisa, que é o seguinte: não sei como é que se sustém, como é que se combate o ar do país estar absolutamente infetado. Basta ouvir um dos candidatos fazerem campanha na rua. Ou aparece a palavra suspeita, ou estão se a defender de uma suspeita, ou estão eles próprios a lançar uma dúvida sobre: "Consta que seria melhor observar, saber." Ou seja, há uma contaminação que pode ser perigosíssima. O sistema já está, mesmo que a Helena tenha feito bem em sublinhar que o André Ventura antissistema aguenta o sistema. Isso é muito bem observado. Só que também não é ele que vai conseguir que o sistema desenfraqueça. O sistema está doente e fraco, fraquíssimo. Nós não podemos dar munições para que ele fique cada vez mais fraco a ponto de se poder liquefazer ou desfazer. Quem for o presidente da República, por isso é que é tão interessante nós não termos a mais pequena ideia, de facto, de quem é que é. Eu não tenho a mais pequena.

Também não.

Como é que vai também lidar com a liquefação da confiança, da credibilidade, da seriedade da política, do entendimento do que é e para que serve a política, dos comportamentos que são feios, agressivos, insultuosos. Claro que no Parlamento, uma coisa é a vivacidade e a agilidade de um combate político, outra é o insulto como arma e como argumento. E é a isso que a gente está a assistir. Portanto, este clima tão contaminado do sistema vai enfraquecê-lo ainda mais. E depois há o outro aspecto. Eu acho que nós estamos, vejam se percebem o que eu quero dizer, cansados uns dos outros. Há um cansaço. Eu nunca deixarei de acreditar, nem na democracia, nem no poder enorme que eu própria tenho com o voto. O poder no sentido de poder melhorar, acreditar e combater pela democracia, etc. Mas se não se começa a olhar disto para isto com uns olhos um bocadinho diferentes de como olhávamos até aqui, ou se não começamos a meter no nosso computador mental que há este cansaço, que há esta suspeita, este clima de desconfiança, eu acho que não estamos muito bem. Deixe-me só acabar. Para além da dúvida pertinentíssima, que é esbarrarmos com um gigante de Amastor, que é a não passagem do orçamento. Mas isso é do domínio do jogo político, se quiser. Eu estava a falar mais quase civilizacionalmente, socialmente, o clima que se vive no país, que eu acho que nunca assisti em 50 anos.

E somos um país com taxas de abstenção muito elevadas, diz José Manuel. Eu só queria chamar a atenção para um aspecto, que eu penso que é um problema de toda a Europa. Sobretudo da Europa, mas também um pouco das sociedades ocidentais, que é

Um ambiente de ansiedade entre as pessoas. Não há um grande horizonte e há a percepção de que podemos estar a viver num mundo que não compreendemos bem, que não dominamos. Nós, ao mesmo tempo, temos muitíssimos mais bens materiais do que algumas vezes imaginamos poder ter, sobretudo aqueles que são mais velhos. Mas sentimo-nos desconfortáveis. Isso só é possível com a globalização, mas sentimo-nos desconfortáveis com a percepção de que já não controlamos as nossas vidas. Uma boa parte destes fenômenos políticos que, sob capas diferentes, têm aparecido em vários países europeus, e agora também temos em Portugal, têm a ver com essa ansiedade, com essa perspectiva de: "Mas isto vai para onde? Vai como? Onde é que eu estou?" E eu creio que é uma reflexão que é preciso ter.

José Manuel, mas o mundo mudou.

Claro que o mundo mudou.

Não é só nós que estamos perdidos no meio de um deserto. Nós estamos um bocadinho perdidos porque não conhecemos.

Nós apenas chegamos tarde a esse deserto.

Exato, estamos velhos em relação a esse mundo que chegou. É verdade.

E apesar de tudo, estamos a chegar com contornos menos dramáticos que os nossos vizinhos territorialmente mais próximos, excluindo o Reino de Marrocos. Estou a falar de Espanha e de França. Nós sendo um país de pequena dimensão, mas nós bastamo-nos desse ponto de vista. Achamos que há coisas que só nos acontecem a nós e isolamo-nos. Nós temos aqui ao lado um país que até poderá ir para eleições antecipadas no próximo ano, 2026, não se sabe se elas estão marcadas para 2027, mas é um país que se está a corroer por dentro. Eu não quero dizer um partido, porque isso não é justo, porque o PSOE foi um grande partido e com grandes dirigentes. Mas em que há um homem ignóbil, que para se manter no poder, faz tudo, até destrói o seu próprio país. E quando eu digo destruir, não é levá-lo à falência ou apropriar-se de algumas coisas, que é aquilo que nós temos na acusação a um antigo primeiro-ministro. Não, é algo muito mais complicado. Isso são os pilares do próprio país que podem estar em causa. E depois, passando para o outro lado, logo ali acima, temos a França. Nós temos, neste momento, aquilo que era a base, um país central na União Europeia, que está num processo também de corrosão, aí não em relação às suas fronteiras. Claro, nisso eles são muito certos, que o Napoleão deixou-lhes aquilo e não há cá discussões. Nos tempos finais do marcelismo em Portugal, havia grandes discussões, porque os franceses tinham ideias muito definidas sobre o que nós devíamos fazer aos nossos territórios ultramarinos. Nós não podíamos ter ultramar, mas eles sim, eles tinham umas ilhas às quais continuavam a chamar ultramar. Ainda têm.

Ainda têm.

Ainda têm. Mas a situação é muito grave. Pode haver um desequilíbrio muito grande daquilo que são os equilíbrios em França. E que nós tenhamos em Portugal desequilíbrios, não tem um impacto na União Europeia. Que a França entre num processo de desequilíbrio, tem um impacto enorme.

Real.

Nós já estamos a viver na União Europeia as consequências do Brexit, da saída do Reino Unido, e da perda da influência do pilar francês, por mais pouco cisado que às vezes fosse o pilar francês.

E toda a indecisão europeia em torno da guerra da Ucrânia.

Sim, mas a questão da França neste momento, nós temos um país que se está a preparar, é quase que uma operação de segurança por causa da Ucrânia, num país europeu, que é a França, que se está a preparar para a passagem do ano como um momento de grande insegurança interna, em que pode haver ali momentos de necessidade de controle de segurança, que não são de mera ação policial. Não é o problema de um foguete ou alguém que deu um bocadinho de chapéu a mais.

Como em São João. Exatamente.

Tudo aquilo. Uma militarização do cotidiano da qual se fala muito pouco. Apesar de tudo isto ser aqui muito próximo, nós vemo-nos sempre com as nossas coisas como se houvesse aí uma excepcionalidade. Isso não é assim. E estes desequilíbrios, a par das outras coisas, das questões do fim dos PRRs, da questão destas notícias sobre o turismo, que é a galinha dos ovos de ouro, como todas as galinhas, nós embirramos com a galinha, tirado o último e decadente imperador de Roma, ninguém se apaixona por galinhas.

Mas o rombo que a galinha levou ontem.

Mas a galinha ontem levou um rombo. E portanto, isto pode querer dizer que 2026 pode ser atribulado deste ponto de vista.

Eu gostava depois que fôssemos ao governo.

Iremos. Temos ainda uma hora pela frente no "Contra Corrente".

Eu agora falarei.

Não, é porque o que aconteceu ontem, considero, já vejo que fica pra outra hora.

Fica pra segunda parte do "Contra Corrente". Guarde tudo, Maria João. Fazemos aqui a habitual pausa, regressamos já a seguir. Até já. Está no ar a segunda parte do "Contra Corrente". O que podemos esperar para 2026? É a questão que colocamos hoje aos nossos ouvintes. Maria João Vilas, já falámos na primeira parte um pouco dos desafios que tem o PS pela frente, o país que tem pela frente com a eleição presidencial e o governo.

O governo vai ter que se repensar, porque uma coisa é Montenegro demonstrar alguma energia, criar alguma empatia quando intervém, quando fala, quando explica, outra coisa é o ato, é o gesto. E o que eu tenho visto é O que me parece ver é os ministros um pouco entregues a eles próprios, tecnicamente às pastas que têm, mas sem grande apoio político. Dou o exemplo da lei laboral, que é indiscutivelmente, Maria do Rosário Palma Ramalho é muito boa tecnicamente, não me parece que tenha sido industriada, preparada ou bacada para aquilo que não se confunde com mais nada, que é uma negociação política. Ao deixar-se a UGT um pouco de parte ou ao transmitir ou sinalizar que havia uma preferência pela CIP, ou pelo menos em política o que parece é, parecia que sim, isso é um erro político de Palmatória, ou que alguém lhe meteu na cabeça, ou ela não foi suficientemente industriada. Onde é que eu quero chegar? Antes de chegar ao caso de ontem do aeroporto, porque isso insere-se noutro tipo de raciocínio. É que não me parece que, ao contrário de outros tantos primeiros-ministros, António Costa, Pedro Passos Coelho, Cavaco, tinham generais políticos indiscutíveis com os quais reuniam e sabia-se que dali saía uma estratégia bem pensada, bem marcada no tempo, bem apoiada por quem dizia o quê, quem fazia o quê, quem se encarregava do quê. Eu posso estar enganadíssima, não vejo, tirando o Hugo Soares, que se desmultiplica, e Leitão Amaro, ministro da presidência, que também se desmultiplica muito, eu teria dificuldade em dizer quem é o grande estratega, pensador político. Paulo Rangel nunca cá está, acredito que pense politicamente as coisas, e vejo o Luís Montenegro muito sozinho. Não é só isso, mas isso já pode explicar que, acabo de saber que foi a União Europeia que veio cá, não gostou do frio. Eu acho que nem era preciso ser a União Europeia. Qualquer ente normalmente constituído que entrasse ali, fugia, desistia de viajar ou ia não sei o quê. Como é que é possível que só tenha sido tomada ontem uma medida de cuja substância eu também me interrogo um bocadinho. Agora, de repente, não há controle. Quem faz o controle? Como é que se faz o controle? Já percebi que é manual, mas o título não era muito convidativo. Suspende o controle. Parece que de repente, agora que entra gente. Pode afligir as pessoas o título da notícia. Mas como é que não foi tomada mais cedo, independentemente da visita desagradável daqueles senhores que vieram ralhar conosco e dizer que não podia continuar as coisas assim, como é que não se precaveu? Eu não acredito que não se pudesse arranjar máquinas melhores, gente mais desembaraçada, montar uma coisa de guerra, que era o que aquilo era.

A Maria João tem muita experiência a analisar governos. Parece-lhe que é porque é inação ou é uma má avaliação dos problemas?

É uma péssima avaliação e é uma falta da disciplina política no governo. Isto é uma questão política.

Eu chamo a atenção que foi por causa destas inoperâncias que se foi buscar Gouveia e Melo. Vocês lembram-se das vacinas?

Eu sei exatamente.

E a dado momento, foi-se buscar Gouveia e Melo. Não sei quem é que este governo agora irá buscar. E ele também já não poderá entrar na questão.

É mais fácil, não é?

Como?

Quer dizer, quando digo que é mais fácil, é assim, ninguém ia contestar, a não ser uns lunáticos, a prioridade máxima das vacinas. Por um lado, tens um Estado absolutamente inoperacional. Já tens. Em todo lado. Depois, nem sequer consegues contratar quando precisas contratar pessoas para as áreas críticas. Isso é tão verdade como contratar PSPs para o aeroporto, como contratar médicos para o Serviço Nacional de Saúde.

É verdade. Eu estaria a ser um cadinho injusta. Sim, é verdade.

Agora a questão é saber o que é que estás a fazer para mudar isto e que chão é que estás a criar para conseguires mudar isto. Não basta dizer que vais mudar, porque como se provou com a questão da reforma laboral, mesmo havendo uma vontade de mudar, não estava a acontecer nada. Está a ser difícil acontecer, porque a nossa cultura política não é amiga das mudanças. Para dizer o mínimo.

Eu não poria no mesmo plano, de modo algum, a reforma laboral com esta questão do aeroporto, porque aquilo que nós começamos a ter é para lá das questões políticas da mudança, e é claro que há divergências na mudança e depois passa a vida a dizer-se que não se quer reformas enquanto se tenta fazer alguma. "Ah, que meu Deus, que vai cair o Carmen e a Trindade." E isso no caso da legislação laboral, eu ouvi a Maria João dizer a questão da UGT, mas nem tudo depende do governo.

Mas eu escolhi duas coisas que não tinham nada a ver para a falta de política no governo.

A UGT está numa fase em que precisa demonstrar que existe, e portanto, aparecer ali como muito combativa é interessante, embora se espera depois que a UGT venha a ser.

Mas quis greve dois dias durante 24 horas espararatadamente.

Sim, claro, e vai ter eleições no próximo ano. Mas aqui em relação ao aeroporto, eu acho que tal como aconteceu nas vacinas, são questões de mero funcionamento.

Gostava de acreditar que isso fosse verdade.

Eu acho que o símbolo dessa dificuldade deste Estado já assegurar aquilo que são os seus serviços, parafraseando Augusto Santos Silva, os serviços mínimos. Os seus serviços é a questão do boletim de voto com os candidatos presidenciais que já não estão na corrida. Ou seja, quer a CNE, todas as entidades envolvidas dão como que não poderia ser de outro modo. É claro que poderia ser de outro modo, tinha-se pensado, isto era o óbvio que poderia vir a acontecer e, portanto, ou se mexia nas datas, ou se mexia nos procedimentos, ou se arranjava outras formas de impressão e expedição dos boletins mais expeditas. Mas o que eu vejo aqui é de facto um Estado que se habituou a funcionar mal, que conta que os portugueses

São resilientes e conseguem lidar com isso, mas eu acho que o caos no aeroporto, os boletins de voto com três nomes de pessoas que depois acabaram por não estar na corrida presidencial, acaba sendo um símbolo de um Estado que é ele mesmo também um problema pro país, porque não funciona.

Helena, sendo de natureza diferente, também tem a ver com o entendimento do que é governar.

Sim.

Por isso eu não posso deixar de separar o governo daquilo que acontece, daquilo que é o cotidiano de um país. Tem a ver com o governo, em escalas diferentes, de naturezas diferentes. Eu citei de propósito a lei laboral, que nada tem a ver com a história do aeroporto, para dizer que em duas frentes de combate, é evidente que o país não tem que ter todas as urgências de todos os hospitais abertos, mas herdou, de fato, um sistema nacional de saúde muito doente, muito fragilizado, muito despojado, desde material técnico a pessoal, não houve contratações. Nunca ninguém se lembra das cativações brutais que fez Mário Centeno e que um dos organismos mais atingidos foi o Serviço Nacional de Saúde. Mas dentro desse quadro, custa a acreditar que de tanto mês pra cá, segundo governo Montenegro, a organização não possa ser um cadinho menos assustadora, menos inquietante, nascerem menos crianças no chão. Não nasceram muitas, eu sei, não estou dizendo que nasceram dezenas, mas o fato de já terem nascido algumas em ambulâncias, em casas ou em não sei quê, já mostra que há qualquer coisa que não está a ser atendida com a atenção, o cuidado e o critério que mereceria. Eu acho que é uma falta de, como é que eu hei de explicar? Parece que o governo decide as coisas e depois não acompanha ou não cuida.

Deixa escorrer.

Deixa escorrer. Só mais uma coisa. É preciso ver que Montenegro está numa situação quase impossível politicamente. Eu queria muito sublinhar isto, que é quando há três grandes blocos, PS, Chega e AD, e quando nós sabemos antecipadamente que os dois blocos, Chega e PS, se vão unir quase sempre baseados no não contra um governo, é muito difícil que as medidas da lei laboral, ou seja quais forem, cheguem a bom porto. É preciso também ter isto em atenção, porque é uma governação. Montenegro não sabe, de fato, se o Chega vai se juntar ou não. Claro, tem que negociar politicamente, evidente.

Mas por outro lado, pelo menos tem duas opções. Pode escolher um ou outro.

Pode escolher um ou outro, com certeza, mas não poucas vezes temos assistido a que eles preferem, tirando a exceção do orçamento, dizer não. Tem havido muitos nãos. Não sei se vocês dão a importância que eu dou a isto. Eu acho que a governação se tornou quase ingovernável.

Vamos chamar a esta discussão o André Azevedo Alves, é politólogo. Bom dia, André.

Olá, bom dia.

Bom dia. 2026 é um ano cheio de desafios políticos, partilha desta ideia?

Sim, partilho dessa ideia. Acho que vai ser um ano desafiante do ponto de vista político. Vamos ter um novo presidente da República, temos um governo com uma das plataformas de apoio parlamentar mais diminutas de sempre. Como a Maria João Vilas estava a dizer, o fato de termos neste momento, efetivamente, três grandes partidos e de o governo e de Luís Montenegro ter tomado a decisão de governar sem um entendimento estável com qualquer um deles, faz com que estejamos, de alguma forma, permanentemente numa situação de potencial instabilidade. Neste orçamento e em 2025, o fato de termos tido duas eleições, a fragilidade do Partido Socialista, também a percepção de André Ventura de que não seria no seu interesse, nem no do Chega, avançar pra uma nova crise política, acabaram por gerar alguma instabilidade, mas é bem possível que essa seja uma situação de relativamente curto prazo e que o novo presidente da República, seja ele quem for, venha a ter que lidar com mais uma legislatura que não termina.

A eleição do novo presidente da República é o momento político mais marcante do ano? Vai ser, André?

Sim, é arriscado dizer isso no final de 2025, qual será o momento mais marcante de 2026. Certamente que a eleição do novo presidente da República será um momento marcante, até porque a tradição em Portugal é que a eleição é praticamente por 10 anos. Portanto, quem quer que seja eleito, salvo alguma situação excepcional, irá marcar.

Duvido. Apostaria quase tudo. Bom dia, André.

Bom dia.

Estas boas entradas. Vejo com enorme dificuldade que qualquer um dos quatro candidatos que a gente acha prováveis, que tudo passe por eles, repetir o mandato. Mas cá estaremos, se Deus quiser, pra eu lhe pagar um almoço.

Calculado, Maria João. Eu acho que apesar de tudo, não sei se para Maria João é questão da idade.

Não.

A questão da reeleição mesmo

Sim, é a questão de, como é que eu te explicar? Não quero magoar ninguém e no último dia do ano tenho que ser mais bondosa e desejar tudo de bom. Não vejo nenhum dos quatro candidatos municiado com a enorme dose de experiência. Uma coisa é terem tido experiência política, outra coisa é uma espécie de conhecimento que ultrapasse essa experiência de conhecimento de prática política, de construção de processo de decisão. Não vejo nenhum assim particularmente dotado de cultura lato senso para convencer o país a um segundo mandato, mas não quero começar o ano tão pessimista.

Deixa-me terminar, Luana. Primeiro, acho que temos cinco candidatos. Incluiria João Cotrim de Figueiredo, porque a Maria João esteve a excluí-lo. Mas concordaria que nenhum dos cinco me parece ter um perfil excecional. Isto dito, sendo verdade que nenhum dos cinco tem um perfil excecional para o cargo à partida, em Portugal, tradicionalmente, e não só na Presidência da República, isso acontece também, por exemplo, nas autarquias. Quem é incumbente tem uma fortíssima vantagem. E portanto, eu diria que qualquer um dos cinco que assuma a presidência, se somarmos mesmo essa posição relativamente frágil de partida, aquilo somaria ao facto, como aliás escrevo no artigo no Observador que foi publicado hoje, que vamos ter quase de certeza, seja ele quem for dos cinco, um presidente da República eleito que na primeira volta terá uma votação em torno de 20%. O que também é um fator que não belisca a legitimidade formal, mas não é o ponto de partida ideal. Não é a mesma coisa que ser eleito à primeira volta com maioria absoluta. Isto dito, acho que se passar cinco anos na presidência, num contexto político e mediático como é o português, em que o presidente vai aparecer com muita frequência, aparecerá em circunstâncias favoráveis, etc. Acho que o caminho para a reeleição, para qualquer um dos cinco, se calhar Ventura terá muito menos possibilidades de ser eleito numa segunda volta, mas se conseguir ser eleito, se calhar também se aplicaria a regra do improvável é ser eleito desta vez, mesmo passando à segunda volta. Acho que esse caminho para a reeleição fica francamente aberto, sem obviamente estar garantido. E acho também a nossa memória histórica de quem exerceu os dois mandatos, e como consideramos essas figuras, estou a pensar para mim o exemplo mais claro disso é Jorge Sampaio, acho que a imagem com que a maior parte do país ficou de Jorge Sampaio no final do exercício da sua presidência é muito diferente do que se diria quando ele assume a presidência, por exemplo, em relação ao seu próprio perfil. Isso aplica-se também a outros. Portanto, ainda assim, e concordando com a Maria João que não estamos perante o leque de candidatos mais extraordinário que já nos foi apresentado, isso também explica porque é que chegamos a este ponto com tudo em aberto entre cinco candidatos. Mas ainda assim, eu acho que é provável que quem for eleito agora no início de 26 acabe efetivamente por ficar os 10 anos. E voltando à pergunta, ao ficar provavelmente uma década, acaba por ser essa eleição também um momento marcante, até com efeitos para lá da legislatura.

André, só uma coisa. Eu gostava de ouvir os três, tanto o Zé, Maria João e o André, sobre esta questão. Eu acho que numa fase em que nós poderíamos estar a viver uma sensação de deliquescência do regime, aquilo que resta é Belém. E Belém para o melhor e para o pior.

Não tenho nada essa ideia. Não creio nada que a gente possa ser salvos por Belém.

Mas eu também não acho que possamos ser salvos por Belém.

Não era isso que a Helena estava a dizer.

O que eu estou a dizer, o que é muito diferente de eu dizer que acho que isso seja positivo, que não acho, mas poderá haver, por um lado, o Presidente da República não ser preservado desta acrimónia que está instalada nos outros níveis de poder, nomeadamente no executivo e no parlamentar, e nesta sensação de que os partidos, nomeadamente partidos estruturais, estão aqui numa fase difícil da sua vida, e pôr a certa altura, por um lado, a expectativa em Belém e também o ônus em Belém, o que pode levar a que nós, que temos esta rotina das eleições presidenciais, dois mandatos, vejamos de repente essa rotina alterada, porque é só isso que falta. E como é só isso que falta, é aí também que podem estar as maiores expectativas, que eu repito, José Manuel, não estou a dizer que considere isso uma boa coisa. Não considero mesmo.

Não é só por ser boa coisa, eu já vou tentar explicar porque acho isso, porque acho que não é possível com estas lideranças políticas, mas já lá vamos.

Vamos ouvir o André à questão suscitada pela Helena. André Azevedo Alves.

Parece-me que é bastante provável que nos próximos anos esse ônus recaia sobre Belém. Acho que também aí Marcelo Rebelo de Sousa não deixa um bom legado. Começando com um enorme capital político, acaba por ser ele próprio um fator de instabilidade e acabou por também desgastar a própria função presidencial. Portanto Qualquer um dos cinco que venha a assumir a presidência terá esses dois desafios. Por um lado, tentar restabelecer-

A gravitas.

A gravitas, exatamente. Obrigado, era essa a palavra que eu estava à procura do cargo, que é fundamental também para ter uma intervenção política eficaz. Sendo que uma intervenção política eficaz não é de todo a mesma coisa que uma intervenção política frequente. E depois, por outro lado, porque para além da questão da gravitas do cargo e dessa possibilidade de intervenção eficaz, é muito provável, voltando à questão dos três grandes partidos que temos neste momento e das condições de instabilidade, que o regime seja confrontado com situações francamente difíceis. E portanto, qualquer um dos cinco que seja o presidente, ou qualquer um dos quatro, mas eu aqui excluiria André Ventura pela improbabilidade de ser eleito desta vez, terá pela frente esse desafio, sendo que me parece pouco provável que uma solução, seja qual for essa solução, venha de Belém.

Portanto, independentemente de tudo, inicia-se um novo ciclo político. Isso é pacífico, André?

Sim, sem dúvida. Inicia-se um novo ciclo político, um ciclo que será particularmente desafiante também para quem estiver na presidência da República. E eu concordo com a Helena, acho que o regime está, de facto, numa situação de desgaste acentuado. Acho que muitos dos principais protagonistas políticos, e talvez até mais da área do PSD, porque estão no governo, enfim, o poder tem sempre um efeito inebriante, não estão plenamente conscientes dessa situação.

Pois não.

E é bastante possível que nos próximos anos sejamos confrontados enquanto país com uma situação de rutura.

Perante esse desgaste, André, o ano de 2026 é mais desafiante para que protagonistas políticos?

Eu acho que talvez destacaria dois. Primeiro para o governo e para Luís Montenegro, por razões que aliás a Maria João estava a elencar e com as quais eu concordo. Há um conjunto de áreas centrais, desde logo a saúde, também a habitação, relativamente às quais eu acho que o governo está obrigado a apresentar resultados. Ou seja, nas eleições de 2025, Luís Montenegro conseguiu agarrar-se, e bem, e com alguma legitimidade e justiça ao argumento: "Deixem-nos governar, estamos há relativamente pouco tempo, não seria justo exigirem os resultados." À medida que o tempo passa, e portanto entrando em 2026, se chegarmos a 2027 com este governo, esse argumento vai perdendo peso e portanto o governo está obrigado, a meu ver, a apresentar resultados. Se não apresentar resultados, arrisca-se a deslizar dos resultados já não brilhantes que tem neste momento nas sondagens, muitas delas abaixo dos 30%, para pior ainda. Depois, a meu ver, o outro grande desafiado é claramente José Luís Carneiro e o PS. O PS está numa crise profundíssima. Teria, a meu ver, nestas eleições presidenciais, uma oportunidade de ouro para recuperar a presidência da República, que se prepara para esbanjar com a extrema hostilidade a António José Seguro de dentro do próprio Partido Socialista.

E que se mantém.

E que se mantém. Aliás, eu ainda ontem comentava isso noutro contexto, numa entrevista para a concorrência, que alguns dos apoios que temos visto, apoios entre aspas, dentro do Partido Socialista, de figuras destacadíssimas, não é de militantes a quem não possa ser pedido responsabilidade. Estou a pensar nomeadamente em Ana Gomes e Augusto Santos Silva, são apoios que são apoios assassinos. Ou seja, Augusto Santos Silva dizer: "Ninguém cumpre os mínimos, mas enfim, se calhar Seguro é o menos mau." Ana Gomes dizer qualquer coisa, já não me recordo as palavras exatas, mas que apesar de ser uma mulher de esquerda ou de ser uma pessoa de esquerda, votem em António José Seguro. Quer dizer, parecem apoios feitos à medida para desmobilizar o voto em António José Seguro. E portanto, o PS está numa crise que pode ser uma crise existencial. O PS arrisca-se, se não recuperar rapidamente, a seguir o caminho de alguns dos seus congéneres europeus e de ver o seu espaço ocupado, nomeadamente no caso português pelo CHEGA, o seu espaço eleitoral. E portanto, acho que o governo, por ter obrigatoriamente que apresentar resultados, por ter uma maioria frágil e por não ter dado até agora nenhum sinal substancial reformista, e o PS pela crise existancial em que se encontra, são os dois principais desafiados. E depois temos André Ventura à espera e a perceber, com a sagacidade política que o caracteriza, que está cada vez mais perto, tudo continuando assim, o momento em que Ventura será primeiro-ministro.

Aliás, André, há aqui o apoio de Ana Catarina Mendes a António José Seguro, que ela declarou. Ela consegue declarar o seu apoio sem dizer uma palavrinha só, só uma palavrinha, de elogio ao candidato. Ela declara o seu apoio ao candidato, para defender o regular funcionamento das instituições, mas não diz que é ele. Ela diz que estamos num momento crucial para a democracia em Portugal, e portanto votando António José Seguro, candidato às presidenciais de 18 de janeiro. A segunda volta não pode ser disputada apenas pela direita. Ela dá como adquirido que vai haver uma segunda volta e que não pode ser apenas a direita. Agora, dizer o António José Seguro vai levar a esquerda a Belém, isso não se lhe consegue ouvir um elogio, ao menos.

A ninguém, a nenhum.

Eles não elogiam, é uma coisa horrível.

É extraordinário.

O Zia está ali, acreditem bem, diz.

E tem sido um padrão, ou seja, não é uma figura que fez isso Tem sido um conjunto de figuras dentro do Partido Socialista, sendo que do ponto de vista de indicação de voto não acrescenta muito, a partir do momento que é apoiado oficialmente pelo Partido Socialista. Agora, do ponto de vista de mobilização, tem efetivamente o efeito contrário, que é para quem esteja na dúvida entre votar ou não da área socialista, bem sei este o entusiasmo que as principais figuras do partido têm pelo candidato, que é mais vale ficar em casa.

O arrebentamento.

José Manuel Fernandes, querias dizer?

Não, eu queria dizer uma coisa que não tem exatamente a ver com o Partido Socialista, mas tem a ver com a relação do futuro presidente com o estado do país e com aquilo que pode ou não pode fazer. Eu vou recuar 45 anos. Há 45 anos havia um slogan claríssimo e a Maria João está aí, não me deixa mentir, que é uma maioria, um presidente. Um governo, uma maioria, um presidente. Sá Carneiro não tinha medo de dizer que para mudar o país, que o país estava a sair de uma revolução, era preciso alinhar os astros. Qual é o principal argumento da Toni Seguro e de outros candidatos? É não vamos por todos os ovos no mesmo cesto. Não vamos permitir que os astros se alinhem. E agora eu pergunto: mas valeria a pena que os astros se alinhassem? Valeria a pena que houvesse um alinhamento, não maioria, porque não há maioria, mas governo presidente ou maioria possível presidente? Eu creio que para isso existir era preciso existir uma coisa que eu não vejo em várias frentes, que é uma ideia para onde é que queremos ir, para onde é que o país queria.

E para fazer o quê?

Para fazer o quê? Exatamente, para fazer o quê? Por exemplo, esta má discussão que houve sobre a reforma laboral é muito típica. Não houve discurso político sobre isso. E essa ausência de discurso político começou a notar-se em Marques Mendes. Marques Mendes devia ter alinhado neste discurso com o governo, mas meteram um tosco, como é óbvio. Não ia fazer ele as despesas.

Mas por que é que é óbvio? Não devia ser óbvio?

Não devia ser óbvio.

Não devíamos aceitar como óbvio.

Pois, não devíamos aceitar como óbvio. Nas circunstâncias em que estamos, ele ainda por cima é um taticista, olhou e não vai se misturar com esta gente a comer por tabela. Porque já se percebeu que eles não vão defender isto como deve ser. E desse ponto de vista, eu acho que este ano vai ser importante para perceber uma coisa relevante, que é nós temos, como disse o primeiro-ministro, volto a recordar, esperava que tivesse discutido mais isso e menos o Ronaldo. Temos três anos e meio pela frente, mas a culpa é dele, ele não tinha que ir falar por Ronaldo. Podia muito bem fazer um discurso à Kennedy: "Não venham pedir o que é que o governo pode fazer por vós, vejam o que é que vós podem fazer pelo país", em vez de ir para o Ronaldo. Mas foi por ali. O problema não é motivacional, o problema são os exemplos. E a forma como isso capturou a discussão. Agora, a ideia que podemos ter três anos e meio pela frente só faz sentido pensar nisso se esses três anos servirem para alguma coisa. Nós não podemos chegar ao fim. Vamos supor que chegamos ao fim destes três anos e temos a mesma discussão sobre não se contratar gente para o Serviço Nacional de Saúde, a mesma discussão sobre a degradação dos serviços públicos, etc. Todas as discussões que estamos a ter, que são cíclicas. E depois também temos que perceber que vivemos num mundo diferente, então todas as discussões são mais difíceis, como é óbvio. Ainda há bocado recebi um e-mail com uma informação do Ministério da Saúde, aparentemente satisfeito, e o Ministério das Finanças que vão ser canalizados neste final do ano, dia 31 de dezembro, 600 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde. Para quê? Para pagar dívidas em atraso, dívidas vencidas. Dívidas que não foram pagas para além do prazo. O que isso significa? Que é impossível gerir a nossa casa. Ora, ponham-se nos sapatos de uma dona de casa, dizendo sistematicamente, comprometendo-se quando precisariam fazer as suas compras, que vamos pagar no dia 20 e depois não pagamos no 30, nem no 40, nem no 50 e a próxima vez, quando lá formos, no mínimo, as coisas vêm mais caras. No mínimo vêm mais caras, porque vai haver uma desconfiança em relação à nossa capacidade de pagar. E é isso que se passa no Serviço Nacional de Saúde, porque não se faz um plano de gestão no princípio do ano. O dinheiro já estava cá. O ministro das Finanças não descobriu um pote de ouro com 600 milhões de euros para entregar ao ministro da Saúde. O dinheiro estava cá. Mas há esta mentalidade que passou por vários governos, que é se apertarmos a tarraxa aos gestores hospitalares, isso no final vai ficar melhor. E os gestores hospitalares do lado dele é se cada vez que há um bocadinho de tarraxa desapertada, vamos a isto. E isso assim não se vai a lado nenhum. Agora, isso só se vai a um lado, se houver regras diferentes das regras da administração pública. E ninguém tem esta discussão. E essa discussão só fazia sentido pensando os próximos três anos e tinha que haver aqui sintonia entre pelo menos o governo e o presidente. E depois os portugueses queriam ou não queriam, podem eleger outro que digam: "Não, senhor, não queremos ovos na mesma galinha." É a escolha dos portugueses, mas ao menos eles sabiam o que escolher. Assim não vão saber.

Antes de lhe dar a palavra, não sei se o André quer...

Está lá.

O André está ainda conosco? O André Azevedo Alves.

Estou. Concordo com o José Manuel. Essa questão do Serviço Nacional de Saúde e da suborçamentação que é sistemática, não é nova, é algo que existe há muitos anos, é algo com que nenhum governo até agora lidou, é uma péssima prática de gestão. As próprias administrações hospitalares sabem ao longo da execução do orçamento ao longo do ano que o orçamento não é real, e que chegamos ao final do ano e que as contas têm que ser pagas e os salários não podem deixar de ser pagos, etc. Mas isso fragiliza, como o José Manuel referiu, o próprio Estado nas negociações com fornecedores, em toda a sua atuação do ponto de vista da gestão, acho que é um bom exemplo. E eu diria, acrescentaria que é mais uma área ou mais um exemplo na área da saúde em que não vimos até agora, do ponto de vista do governo, qualquer ímpeto reformista significativo.

Muito bem. André, agradeço-lhe. Muito obrigado e votos de um feliz 2026. Votos de um bom ano, é para esse ano que estamos a olhar. Queria acrescentar, Maria João Vilela.

O José Manuel falou também do Estado e a Helena já aqui falou, e o André. Por exemplo, eu ontem ouvi um político muito experiente e muito inteligente na televisão, Nuno Morais Sarmento, dizer com certeza que há um bom ministro na reforma do Estado, mas deixando um pouco subjacente que já se devia ter uma perceção em que setores, como é que ele está a mexer ou a pensar essa reforma. E o próprio Nuno, com a experiência que tem e o bom critério político que tem, disse: "Por que não se começa por uma coisa que a mim me pareceu ultra óbvia, que é: que funções queremos para o Estado? Quais as funções do Estado?" Uma vez isso definido, era mais simples, provavelmente, mexer em cada uma dessas funções que passariam a constar como as grandes funções do Estado ou as indispensáveis funções do Estado, era talvez mais simples tratar delas do que começar a olhar para uma espécie de uma nuvem ou de uma mancha de nevoeiro tremenda, pesada, que não se sabe como furar, como avançar. E eu não sei, sinceramente, acredito que ele seja bem-intencionado, o que é que o Gonçalo Matias está a fazer. Mas pareceu-me que esta história de quais as funções do Estado, enunciadas de forma tão simples e tão clara, provém de uma pessoa que percebe o que é política. Era aqui que eu queria chegar, porque eu acho que há falta de política e de entendimento do que ela é no governo.

E quem acompanha a política por dentro é o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto do Observador. Bom dia, Miguel.

Bom dia a todos.

Já estás há algum tempo a ouvir.

Eu pensei que ele estivesse aqui, estava à espera de eu o ver.

Não, hoje o Miguel está à distância, mas tem estado a ouvir. Miguel, o que é que podemos esperar do ano de 2026, para além deste ato eleitoral que vamos ter já em janeiro e possivelmente também em fevereiro, as presidenciais?

Parece-me interessante começar por acompanhar aquilo que foram dizendo o José Manuel, a Maria João, a Helena e o André, e fazer uma pequena reflexão. Este ano começou com uma vitória inequívoca e objetiva de Luís Montenegro. E não deixa de ser revelador que terminemos o ano com uma nota de alguma, não lhe chamaria pessimismo, mas de algumas reservas em relação à forma como o governo tem gerido as expectativas. É evidente que este governo já tomou medidas que considerava importantes, quer no aumento de rendimentos, quer na redução de impostos, na questão da imigração, mas no que respeita, e parece-me ser esta a segunda fase da avaliação do governo, no que respeita à reforma do Estado, ao acesso à habitação e, sobretudo, ao acesso à saúde, parece-me que o governo tem tido algumas dificuldades nesta fase final do ano, neste segundo ciclo de avaliação, de corresponder às expectativas que criou. E isso também explica um pouco a forma como todos aqui terminamos o ano com algumas reservas em relação à capacidade de Luís Montenegro, de facto, de dar um novo impulso ao país. E isso será um desafio enorme para o governo em 2026, mostrar que está à altura das expectativas que criou. Terá uma primeira batalha importante, que é sobre a reforma laboral. Como creio que o José Manuel Fernandes dizia ou a Maria João, não quero estar errado, faltou um discurso político para suportar esta ideia de reforma laboral, uns concordarão mais, outros menos, mas faltou, de facto, esse discurso político que justificasse este impulso que o governo queria dar. O governo, a meu ver, geriu mal a comunicação em torno da necessidade de reformar a lei laboral e terá essa primeira batalha logo no arranque do próximo ano. Será muito difícil chegar a acordo em sede de concertação social. No Parlamento, já percebemos que o Chega, antecipando que muitas das medidas seriam impopulares, também já está a retirar o tapete ao governo e portanto será muito difícil para o governo conseguir aplicar a sua reforma laboral sem cedências significativas e isso será um grande desafio para Luís Montenegro.

Miguel, ia perguntar se o governo não estaria à espera de fechar o capítulo presidenciais para depois iniciar um novo ciclo mais exposto a controvérsia. Poderá ser isso?

Essa também é uma questão interessante. O próximo presidente da República será necessariamente um player determinante na estabilidade política. Nós temos ouvido de todos os candidatos à Presidência da República a ideia de estabilidade. Mas é objetivo, e acho que não cometo nenhuma injustiça ao dizê-lo, que de todos os candidatos, Luís Marques Mendes é aquele que estará mais alinhado com os objetivos do atual governo. Todos os outros me parecem que serão ou quererão ser uma espécie de antagonista de Luís Montenegro. Luís Marques Mendes, naturalmente, por ser da família política do primeiro-ministro, estará mais próximo de Luís Montenegro. São muito próximos, conhecem-se há muitos anos. Luís Marques Mendes foi determinante na ascensão política de Luís Montenegro, é uma espécie de padrinho político do primeiro-ministro. Portanto, conhecem-se bem e seria sempre mais fácil a relação entre os dois. Não quero com isto dizer que Luís Marques Mendes será um mero uma continuidade de Luís Montenegro no Palácio de São Bento, mas acho que é objetivo dizer que são mais próximos. Isso aí, pelo menos, não comete nenhuma injustiça. Mas todos os candidatos a Presidente da República também já disseram uma coisa, que é o próximo orçamento do Estado, ou melhor, um chumbo orçamental não significa, nem deve significar necessariamente uma dissolução da Assembleia da República. Isto é bom pra todos, porque nos dá um horizonte de estabilidade, mas ao mesmo tempo também liberta a oposição, nomeadamente o Partido Socialista, da amarra de estar sistematicamente com receio de que um chumbo no orçamento signifique ir a votos. O Partido Socialista, acho que é evidente pra todos, não está ainda preparado pra ir a votos, mas com um presidente da República que diga claramente que um chumbo orçamental não significa dissolução e consequentemente eleições, o Partido Socialista venderá mais cara a aprovação do próximo orçamento do Estado. Isso também cria ou pode criar uma dificuldade acrescida ao governo, que terá de negociar de outra forma o próximo orçamento do Estado.

Posso só acrescentar uma coisa ao que está a dizer. Assim como Marques Mendes não vai ser o continuador ou o amplificador de Luís Montenegro, o candidato que se for presidente mais terá dificuldade, indiscutivelmente, mais terá dificuldade política em lidar com o governo é António José Seguro. Não sei se está de acordo com esta minha percepção.

António José Seguro começou esta campanha-

Não começou exatamente.

Mas rapidamente-

Lemos como vai acabá-la, exatamente.

Exatamente.

Vamos ver como vai acabá-la.

Rapidamente radicalizou o seu discurso.

Com grande hostilidade. Sim.

Sobretudo na questão da lei laboral, António José Seguro, talvez por obrigações táticas, porque precisava de chegar à esquerda.

Claro. Era aí que eu queria chegar.

Radicalizou muito o seu discurso e parece-me evidente que se for eleito presidente da República, tenderá a funcionar como contrapeso em relação ao governo.

Como contrapeso, e sobretudo sabendo que tem o seu partido numa péssima maré, fragilizado, divididíssimo, com mau ambiente interno e, portanto, que ele, António José Seguro, é o único que pode dar-lhes a mão, tomar conta deles, tratar deles, da saúde política deles, etc. E isso, evidentemente, será sempre numa perspectiva contra o que representa a AD e o governo. Acho eu.

E será interessante também perceber como é que evolui o Partido Socialista neste próximo ano de 2026. Porque parece-me evidente, e acho que quase toda gente no PS partilha desta opinião, que José Luís Carneiro internamente é percepcionado por muita gente como um líder de transição, um líder a prazo. Fala-se já abertamente da possibilidade de Duarte Cordeiro ser o próximo secretário-geral do Partido Socialista.

Por isso é que ele está há meses, há semanas numa televisão semanalmente.

Exatamente. Acho que é uma espécie de paz podre no Partido Socialista, uma espécie de tréguas à espera de algo diferente. E isso coloca uma enorme pressão a José Luís Carneiro, quer se queira quer não, terá de começar a descolar ainda mais do governo. É certo que tudo que respeita à lei da imigração, à lei dos estrangeiros, o Partido Socialista tem feito oposição a este governo, mas naquilo que é o instrumento essencial de governação, o orçamento do Estado, o Partido Socialista aprovou de olhos fechados. E a pressão interna no PS vai aumentar necessariamente. Nós sabemos, é da vida, os partidos comportam-se assim.

Tu conheces isso melhor do que eu. É uma pressão interna que vem de que setores? Dos chamados pedronistas, da ala esquerda do partido, ou é uma pressão interna que vem das bases que se sentem afastadas dos lugares que estavam habituadas a ocupar e que agora, de alguma forma, estão "desempregadas"?

Eu acho que esse é o maior drama do Partido Socialista neste momento. É um partido de poder, esteve oito anos no poder. Estar na oposição é difícil pra qualquer partido, estar na oposição sem perspectivas de chegar ao poder, porque nenhuma sondagem, mesmo esta última que saiu, que apontava uma descida da AD, deixava o Partido Socialista ainda numa distância bastante considerável da Luís Montenegro. Não há nada no horizonte que indicie que o Partido Socialista esteja em condições de vencer umas eleições legislativas. E pra já, deu-se algum tempo a José Luís Carneiro, que como se recordam, chegou à liderança do Partido Socialista numas eleições feitas de forma muito rápida, sem que a oposição tivesse tempo de se reorganizar em torno de um candidato. E, portanto, há um conjunto alargado de pessoas no Partido Socialista que está à procura de uma nova figura. Não diria pedronistas, porque acho que Duarte Cordeiro, que é de fato o homem a quem se fala, é transversal, ou seja, não é de todo uma criação do pedronismo, é bastante mais transversal do que isso, tem muitas simpatias também no que resta do costismo. E, portanto, essa pressão interna, não quer dizer que seja pra amanhã, nem que seja sequer em 2026, que José Luís Carneiro venha a ser desafiado, mas isso vai começar a condicionar as decisões da direção do Partido Socialista.

Sim.

Não, o José Manuel estava a perguntar de que setores. É que eu acho que há mais que um setor, não se pode só dizer que é a extrema-esquerda pedronunista. Há também os costistas que, para responder à pergunta do José Manuel, quais são os setores onde há mais antagonismo em relação a Seguro ou em relação a um futuro normal dentro do Partido Socialista. Há uma forte reação dos costistas que não se reveem de maneira nenhuma. Lembre-se o que António Costa fez a António José Seguro e o que isso deixou a levar até hoje dentro do PS. Mas há também aquela ala, Alexandra Leitão, Pedro Nuno Santos, etc., muito primos direitos ou mesmo quase irmãos do Bloco de Esquerda e como a Helena logo ao princípio aqui lembrou, e bem, não devemos excluir que possa haver um entendimento mais alargado, quem sabe uma fusão, quem sabe uma reconstrução da extrema-esquerda e de uma pequena parte do PS. Ou seja, ali também haver uma mexida que só aumentaria essa espécie de animosidade em relação ao candidato António José Seguro. Agora, também é verdade que uma vez no poder, o poder não sendo tão inebriante como aqui ouvi chamá-lo, vai concordar para arranjos e entendimentos, como é evidente.

Miguel?

Sim, estou inteiramente de acordo com a Maria João. A questão é: o que fará o Partido Socialista no próximo orçamento de Estado? Parece-me que vai ser um marco importante para percebermos como é que se vai cozinhar o resto da legislatura. Acho que Luís Montenegro, quando falou da questão dos três anos e meio sem eleições, era evidentemente uma forma de tentar condicionar a oposição. O Chega, quanto mais cedo tiver eleições, melhor para André Ventura. Portanto, acho que não pode ser visto como um garante de estabilidade, porque na primeira oportunidade, no primeiro orçamento desta legislatura, votou contra. Portanto, acho que está fora dessa equação. E portanto, a questão vai ser mesmo como é que o Partido Socialista vai olhar para esse orçamento, porque na eventualidade de ser chumbado, e eu não acho impossível esse cenário, todos os candidatos a Presidente da República já disseram que governar em duodécimos não é um drama, não será um drama. Bom, não será um drama, é evidente, noutros países existe.

Olha, em Espanha há quatro anos.

Mas não me parece que seja exatamente um bom exemplo de estabilidade, até em linha daquilo que o José Manuel estava a dizer há pouco, que é preciso ter um horizonte, um rumo, um desígnio. Governar em duodécimos não me parece que permita a algum executivo ter esse tal desígnio, esse tal ímpeto reformista. E portanto, eu acho que as coisas vão começar a acelerar. Não creio que esteja em cima da mesa um cenário de crise política, porque acho que ninguém a deseja, sobretudo, aliás, o Partido Socialista, que teria muito a perder com isso, mas as próprias dinâmicas internas da oposição podem condicionar o líder em funções e portanto será um dos pontos a ter em conta ao longo do próximo ano. Como é que o Partido Socialista se vai relacionar com o governo, sabendo que tem na Presidência da República, um presidente que vai estar com plenos poderes, coisa que Marcelo Rebelo de Sousa não estava neste momento. E no caso de não ser Luís Marques Mendes o vencedor, a oposição terá, vou usar uma expressão exagerada, mas para que se perceba, terá um aliado em São Bento. E isso coloca uma pressão acrescida sobre Luís Montenegro.

Miguel, obrigado e bom ano.

Obrigado e bom ano.

José Manuel Fernandes, perante isto tudo, o ano político passa por Belém e é muito determinado por aquilo que acontecer agora em janeiro. É isso?

Sim, mas já agora gostava de deixar uma nota mais para não ser tudo tão pessimista, digamos assim. Apesar de tudo, temos sol. Está frio, mas temos sol. Eu creio que a possibilidade desta eleição presidencial sair alguma clarificação no alinhamento das forças políticas é relevante. Repara, pode ser que ajude a perceber melhor onde é que estão os portugueses e o que é que eles realmente desejam. Porque para todos os efeitos, sendo uma eleição muito aberta, e não é uma eleição, quer dizer, vai haver voto útil, sobretudo voto útil tanto à esquerda como à direita, tentar que passe um ou passe outro. Eu creio que vai haver muita luta pelo voto útil entre Marques Mendes e Cotrim Figueiredo, muita luta pelo voto útil entre António José Seguro e toda a sua esquerda. Eu acho que o voto útil é capaz de ainda acabar por desgastar mais o almirante, porque ele é voto útil para aqui. Que discurso pode ele fazer de voto útil? Portanto, apesar de tudo, e dito isto, eu creio que uma arrumação do eleitorado, onde fique mais claro quais são as suas preferências políticas, talvez possa ajudar a que haja mais vontade de governar de acordo com as preferências do eleitorado. Em Portugal há um problema que é o seguinte: em Portugal não se faz promessas para representar opções, se quiseres, um pouquinho mais ideológicas, ou só se faz à esquerda, à direita nunca se faz. E portanto, uma clarificação do eleitorado nesse sentido é capaz de abrir algum caminho para isso começar a acontecer. Vocês reparem que não foi preciso António Costa ter maioria no Parlamento para com a geringonça introduzir uma série de reformas em áreas, reformas más, na minha perspectiva, na educação e na saúde, que agora estão a ser desmontadas, que aumentaram o peso do Estado e aumentaram a necessidade do Estado e aumentaram a ineficiência, mas era o plano, era o projeto, era o programa das esquerdas. E agora não há vontade de fazer ao contrário, de assumir que tem que se fazer ao contrário e de usar as maiorias que existem no Parlamento porque existem, com vontade de fazer ao contrário nessa direção, esse saltatismo. Talvez haja uma esperança de que com os sinais desta eleição presidencial, possa haver mais vontade de ir na direção daquilo que o eleitorado claramente está a mostrar que quer.

José Manuel, assino por baixo o que disseste.

Não temos mais tempo. Sei que é uma frase batida, mas é sentida. Bom ano a todos. Estamos cá em 2025. Até para o ano.

Obrigada. Até para o ano.

Obrigado. Até para o ano.