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Bom dia.
Surpreendido com o que aconteceu nas Nações Unidas?
Não fiquei surpreendido com a moção ter sido aprovada, porque as Nações Unidas há muito tempo que se tornaram um lugar onde a maioria pertence a países que não são democráticos, não são liberais e que procuram instrumentalizar aquele corpo para os seus fins próprios, com a cumplicidade, devo dizer, do secretário-geral António Guterres, que, de resto, fez quando a moção foi aprovada, uma intervenção absolutamente lamentável. Às vezes António Guterres faz intervenções que nós podemos discordar. Aquela não é de discordar, é uma opção absolutamente lamentável. Quem ouvisse António Guterres ficaria a pensar que a escravatura foi inventada no século XVI pelos portugueses e depois acabou misteriosamente, não se sabe por influência de quem, e foi o maior crime até hoje cometido contra a humanidade. É uma mistificação absoluta. Só pra teres uma ideia, quem aboliu e combateu a escravatura no mundo começaram por ser os ingleses. Nalguns casos, os ingleses tiveram, já no princípio do século XX, de combater a escravatura no Gana. O Gana foi o país que propôs aquela moção na Assembleia Geral das Nações Unidas, como tu referiste, de resto. Quando os ingleses, depois de algumas guerras, ocuparam o Gana, estiveram lá durante 50 anos, ao princípio tiveram que encontrar uma lei gradual, porque senão haveria revoltas populares por causa do fim da escravatura. De resto, neste momento, ainda há escravatura em vários países africanos, ainda há escravatura na Mauritânia, ainda há escravatura no Mali, e não estou a falar de escravatura moderna, que é uma coisa que se fala muito. Falou-se muito quando, por exemplo, foi o mundial no Catar e a forma como os estados estavam a ser construídos, falou-se isso. Não estamos a falar de escravatura moderna. Estamos a falar daquela escravatura à moda antiga, digamos assim. Só pra teres uma ideia, o Irã aboliu a escravatura em 1928, o Iêmen em 1962, a Arábia Saudita em 1962, a Turquia em 1964, Omã em 1970 e a Mauritânia em 1980, mas ainda lá continua. Portanto, e são alguns destes países que têm a supina desfaçatura de apresentar uma moção nas Nações Unidas. E o que é que está em causa? Olha, no caso concreto, que está mais avançado, que é os processos contra o Reino Unido, que também corajosamente se absteve, como Portugal, aliás, com muita coragem. No Reino Unido, há um processo no Tribunal Internacional de Justiça, um processo em que é pedido 18,8 trilhões de libras. 18,8 trilhões de libras é seis vezes, pensa bem que eu não estou enganado no número, é seis vezes a riqueza do Reino Unido. Seis vezes. Em Portugal, podemos estar a falar nem sei quanto. Nós tivemos um império colonial mais pequeno, mas em número de escravos levados para as Américas, não ficamos muito abaixo do Reino Unido. E a nossa riqueza per capita, a nossa economia é bastante mais pequena do que a do Reino Unido. Estamos a falar de quê? Da riqueza portuguesa de 10 anos, 20 anos? É disso que estamos a falar? É sobre isto que o Estado português se abstém nas Nações Unidas? Eu acho que isto é vergonhoso, é uma cobardia e é um sinal de que parece que se perdeu a capacidade de discutir as coisas. Nós quando falamos de crimes contra a humanidade, é evidente que a escravatura foi um crime contra a humanidade. É evidente que a escravatura e o tráfico internacional foram um crime contra a humanidade. Sobre isso não há nenhuma dúvida, mas há já inúmeras dúvidas sobre, por exemplo, vamos pensar assim: quantos portugueses há de descendência africana? Esses portugueses vão pagar indenizações aos oligarcas de Angola? É isso que faz sentido? Vão pagar indenizações a descendentes de líderes tribais que também comerciaram escravos, eram eles que os capturavam. Aliás, no caso concreto do Gana, por exemplo, naquela altura havia lá um império, o Império Assans. O Império Assans vivia em parte, não totalmente, mas vivia em parte de raids contra os povos vizinhos, guerras artificiais, apenas pra capturar escravos e depois vendê-los. Olha, designadamente naquela Fortaleza de Agedar construída pelos portugueses. Os portugueses, os ingleses, os americanos e os brasileiros. Sempre o Brasil. O Brasil votou a favor, o Brasil está muito entusiasmado com isto. Quando os portugueses saíram do Brasil, os brasileiros continuaram a atravessar o Atlântico para ir buscar escravos. Os brasileiros desafiaram até muito mais tarde que os portugueses a Royal Navy, portanto, a Marinha Britânica, que andava pelo Atlântico à procura de navios negreiros. E os brasileiros andavam a fugir aos navios negreiros. E os brasileiros vão fazer o que agora? Vão pagar? Claro que não vão pagar. Portanto, isto é tudo uma mistificação, isto é uma exploração do sentimento de culpa que se instalou em muitas mentes ocidentais, quando, na verdade, em boa parte, se não há escravatura no mundo hoje em dia, e ainda há um bocado, deve-se a quem agora querem que pague por crimes do passado. Se fosse cometido um crime e se pagasse a seguir, compensar de alguma forma o que se fez, é uma coisa. Agora, numa altura em que inclusivamente quem vai receber já não tem nada a ver com quem foi escravizado ou quem sofreu e quem vai pagar, porventura, são descendentes daqueles que sofreram, isto é completamente absurdo. A escala de crimes, só para teres uma ideia, estamos a falar de quê? Estima-se que entre 10 a 14 milhões, os números variam um bocadinho, apesar de tudo, 10, 12, no máximo 14 milhões de africanos que foram transferidos de África para as Américas. Quando falamos dos africanos que foram transferidos de África para o mundo árabe, também como escravos, estamos a falar de um valor idêntico ou às vezes superior, alguns cálculos chegam a 17 milhões. É evidente, não foram durante apenas três séculos, foram durante 12 ou 13 séculos. Portanto, foi menos intenso, mas foi da mesma dimensão e ninguém fala disso. Sabes porque ninguém fala disso? Porque os escravos que iam para as plantações na América eram escravos que iam trabalhar e muitas vezes permitia-se que formassem família e tivessem descendência e por isso nós hoje lidamos com a sua descendência. Os escravos que eram levados para o mundo muçulmano, e repara a Turquia, o centro do Império Otomano, que foi o grande beneficiário durante muitos séculos deste tráfico. Quem ia para aí, os homens, os rapazes, eram castrados. Na castração, às vezes morriam 90%. Não eram os 15% que morriam na travessia do Atlântico, eram 90%. E as mulheres iam para os haréns. E por isso não tem descendência, e por isso não há descendentes de escravos. Aqueles países foram eliminados, simplesmente, desapareceram. Faz sentido fazer essas comparações? Eu acho que não faz sentido. Não vou dizer que foi pior do que o tráfico transatlântico, mas também não aceito que digam que o tráfico transatlântico foi pior que o outro. Foi pior que o outro e que muitas outras formas de escravatura que duram ainda hoje. É publicado com regularidade reportagens da Mauritânia, do Mali, de histórias de escravos, que ainda são de hoje, e da Etiópia. A Etiópia, por exemplo, está a pedir indenização. A Etiópia nunca foi colonizada. No entanto, na Etiópia saíram muitos escravos, mas curiosamente saíram por onde? Saíram por Mombasa, depois de Omã ter ocupado Mombasa, depois de os portugueses saírem de lá e ter transformado Mombasa, que foi um sítio onde os portugueses estiveram muitos anos, em vez de ser um porto de especiarias, passou a ser um porto de escravos. E agora os portugueses têm é que vão pagar a Omã? Nada disto faz sentido, como é óbvio.
Imagino que tenhas muitos exemplos para dar depois das 10:00. Até já, José Manuel.
Até já.