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Hora de conhecermos o tema do Contracorrente com o José Manuel Fernandes. Para participar, só tem que ligar 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp. Carla. O petróleo chegou ontem aos 120 dólares por barril, o que significa que muito provavelmente iremos pagar mais pela gasolina e pelo gasóleo na próxima semana. Isto no dia em que se soube que Donald Trump falou com a sua equipa sobre a necessidade de manter o Estreito de Ormuz bloqueado durante mais tempo do que o previsto e não se vê qualquer luz ao fundo do túnel no que respeita a negociações. Quanto tempo é que os economistas de todo o mundo aguentam esta dieta de petróleo e quanto tempo aguentam as nossas carteiras se a inflação acelerar, como pode acontecer? Estes são os pontos de partida para o Contracorrente de hoje, onde vamos tentar perceber até que ponto estamos todos reféns do que se passar ou não passar em Ormuz. José Manuel, bom dia. Já falámos no programa da importância deste estreito. Falta saber quem é que está a sofrer mais. Tens alguma ideia?

Para já penso que quem está a sofrer mais, aparentemente, são os próprios iranianos porque a sua economia está praticamente quase paralisada. A inflação já está nos 50% e começa a haver também muita gente, estima-se que possam ter ficado desempregadas um milhão de pessoas devido ao impacto da guerra e daquilo que lá tem afetado algumas infraestruturas. E com a impossibilidade de exportar o seu próprio petróleo, de ter receitas, as coisas vão seguramente piorar. Agora, isso não quer dizer que seja determinante e seja o único fator que vai impor uma solução ou a possibilidade de chegarmos novamente à mesa das negociações, porque por um lado o regime iraniano não se preocupa muito com o sofrimento do seu povo e há muitas indicações de que ele tem uma capacidade de sofrimento, como se costuma dizer, superior, por exemplo, às opiniões públicas ocidentais ou dos Estados Unidos. De resto, tu disseste aí uma coisa, que o petróleo tinha chegado ontem aos 120 dólares. É verdade. Durante a noite chegou aos 126, neste momento está em 122. Portanto, está aqui numa ascensão que não se sabe exatamente onde é que vai parar, precisamente por causa de algumas declarações de ontem de Donald Trump ou de algumas notícias de ontem relativas ao presidente dos Estados Unidos ter avisado a sua equipa que o bloqueio do Estreito se poderia manter por mais tempo. Ora, aquilo que vale a pena analisar é até que ponto é que aquele lugar do mundo, que nós já falámos bastante aqui no programa, mas que talvez poucas pessoas tivessem noção do que aquilo era antes, pode tocar toda a economia mundial. Porque nós falamos muito, como tu disseste, do petróleo, mas há outras matérias-primas que estão muito dependentes daquela via marítima. Aquela é uma via marítima que se fala. Repara, estamos a falar da via marítima por onde passava grande parte do abastecimento ao Extremo Oriente, portanto ao Oriente, não é só ao Extremo Oriente, à Índia também. A Índia, a China, o Japão e a Coreia do Sul, e por aí adiante, são das regiões, por um lado, mais povoadas do mundo, com mais habitantes. Por outro lado, onde o dinamismo económico é maior, não em todas elas, mas em algumas delas. E onde a dependência daquela região também é maior. Mas há muitos outros produtos que afetam o mercado mundial. Só para dar uma ideia, 50% da amônia passa pelo Estreito de Ormuz, 34% do óleo, portanto do petróleo, 19% do gás liquefeito, 19% dos produtos refinados, 13% dos fertilizantes, por exemplo, 10% de alumínio. Isto é um impacto enorme e mesmo que tenhamos dados recentes do Banco Mundial que indicam, por exemplo, naquilo que respeita à quebra da passagem, da circulação por ali de barris de petróleo, estamos a falar de uma quebra na ordem dos 10 mil milhões de barris por dia. Portanto, essa quebra pode ser quase toda compensada com alternativas. E quando digo quase toda, é porque é possível compensá-la através da utilização de pipelines alternativos, através do recurso às reservas que estão disponíveis e por aí adiante. Mas mesmo assim, aquilo que seria um impacto global de cerca de 10%, ficaria sempre na casa dos 4%. Quer dizer que estamos perante uma crise energética. Há muitos países no mundo que já declararam mesmo crise energética. As políticas têm sido muito nacionais, mesmo na União Europeia. Há países que congelaram os preços, há países que aplicaram subsídios, há países que modificaram a política fiscal, é o caso do nosso, uns de uma forma mais agressiva, outros de uma forma menos agressiva. Há países que estão a racionar o uso de combustíveis e não apenas de jet fuel, também nas bombas de gasolina. Aliás, isto não é novo. Aconteceu, por exemplo, quando foi a crise de 73, eu ainda me lembro dissoPortanto, há aqui muitos efeitos. Agora, há algumas coisas que também são, não diria surpreendentes, mas quase contraintuitivas. Por exemplo, com aquele bloqueio, quem beneficia em termos de exportações são os Estados Unidos, que já eram o principal produtor mundial de derivados de petróleo e de gás, e que, devido sobretudo à tecnologia dos chamados shale gás, gás de xisto e petróleo de xisto, tornaram-se exportadores. Não só não dependem do Médio Oriente, como exportam e desse ponto de vista, estão a ganhar. E depois há outra coisa cujos efeitos vamos tentar discutir neste programa, que é a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP. Os Emirados Árabes Unidos eram dos grandes produtores, sobretudo era um daqueles grandes produtores que funcionava como almofada do sistema, porque não tinha toda a sua capacidade em produção e, portanto, a OPEP também funcionava como regulador, quando havia mais procura ou menos procura, ao produzirem mais ou produzirem menos, alguns daqueles países, nomeadamente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, funcionavam como amortecedores de choques e a saída dos Emirados da OPEP, à primeira vista, enfraquece a OPEP, poderia até ajudar a baixa do preço dos combustíveis, porque os Emirados estavam condicionados por cotas de produção abaixo daquilo que eles próprios desejavam, mas se não tiverem meios para fazer sair o seu produto, isso não serve para nada. Portanto, temos aqui muitos fatores e temos ainda outra questão, que é saber se aquilo que, como disse, na Europa, cada país tem tido as suas políticas. Em Portugal tem-se tido uma política prudente, ainda ontem foi muito tema do debate quinzenal, em que se mexe apenas no ISP, o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, não se está a mexer nos impostos ambientais, nas taxas que são aplicadas em nome da transição energética, quer naquilo que é o grande tabu, que é o IVA. E portanto, acabamos por ter um preço das bombas de gasolina que não é o mais elevado, mas está entre os mais elevados da Europa. E a questão é saber se esta política deve ser só assim ou se deve fazer outras coisas. Também é um tema interessante de discussão, porque é uma daquelas questões que tem que se perceber num tempo que se adivinha imprevisível, o que é que fazemos quando temos dívidas elevadas, e Portugal tem menos dívida do que já teve no passado, mas como quase todos os países europeus, está muito bloqueado por níveis de dívidas muito elevadas, o que dá a todos estes países uma margem de flexibilidade muito menor. Mas falemos, são muitos temas.

Muitos temas, muitas leituras.

Vamos tentar trazer outros nossos especialistas para falar disso depois das 10:00.

Até já, José Manuel. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no "Contra Corrente". Tem também as nossas redes sociais, o nosso site, e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 91 002 41 85.