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José Manuel Fernandes quer mudar um pouco de ares no Contracorrente de hoje. Queres ir até onde, José Manuel?
Bom dia. Eu queria ir até os Estados Unidos. Infelizmente, não é para passear no espaço.
Ainda não.
Ainda não. Pode ser que um dia. E também não é para falar do presidente Trump, e também não é para falar do último debate dos candidatos democratas à presidência.
Então não é para nada? Eu prefiro.
Quero ir até aos Estados Unidos para falar de uma estrela da NBA, talvez a maior da atualidade, que se chama LeBron James. Mas não venho cá para substituir o Pedro Sousa, nem para falar de esporte.
Pronto, não vens para falar dessas coisas todas. Vens falar então de quê, José Manuel?
Venho falar de liberdade e também de dinheiro, e de como o dinheiro às vezes se mete por meio da liberdade. A história que tenho para contar é um pouco triste, do princípio ao fim. Vou tentar contá-la brevemente. Há uns dias, um dirigente de uma equipa da NBA, o Houston Rockets, fez um tweet de apoio aos protestos em Hong Kong. Era um tweet bastante inocente, nada de especial. Ele, aliás, apagou rapidamente, e qualquer um de nós faria, pois a luta em Hong Kong é uma luta que deve merecer todo o nosso apoio. Acontece, no entanto, que a NBA, neste momento, tem centenas de milhões de fãs na China. Aliás, há jogadores chineses na NBA também. A China tem investido muitos milhões na NBA, há equipas a fazer tours na China, etc. Resultado: Pequim não gostou do tweet e não esteve com meias-medidas. Retaliou. Cancelou patrocínios, suspendeu a retransmissão dos jogos, havia torneios que ficaram suspensos. Ou seja, agiu às chinesas, isto é, de forma autoritária, brutal. Aquilo é uma ditadura, e as ditaduras são assim.
E onde é que entra aqui o LeBron James?
O LeBron James, em vez de ficar calado, entrou porque resolveu atacar o dirigente do Houston Rockets. Na sua opinião, ninguém tinha o direito de expressar opiniões que pusessem em causa a NBA e prejudicassem outras equipas. Por outras palavras, que prejudicassem os negócios das outras equipas com os chineses. Portanto, ele foi ao ponto mesmo de defender que ninguém devia pronunciar sobre assuntos que só dizem respeito ao povo chinês. Onde é que a gente já ouviu isto? No fundo, LeBron James veio, na prática, dar razão a Pequim. Até parecia o Xi Jinping a falar. Veio defender objetivamente a censura, ou a autocensura, se preferirmos, e veio fazê-lo quando estão em causa os interesses da NBA, sobretudo os bolsos da NBA. O que ele no fundo disse é que é preciso ter cuidado com as palavras quando criticamos quem tem bolsos fundos, como é o caso dos chineses, porque eles têm os bolsos, de facto, muito fundos.
Mas vale a pena parar aqui e olhar para o LeBron James, porque é um atleta sempre muito envolvido na vida política norte-americana e a criticar o presidente Trump.
Pois é. Aliás, os seus ataques ao presidente Trump são famosos, várias polêmicas, só que há uma diferença entre o Trump e o Xi Jinping. Portanto, a gente pode detestar o Trump, mas o Trump, apesar de tudo, ainda não é um ditador. E depois, o Trump pode ser muito rico, mas não controla o poder econômico de um Estado, como o Xi Jinping controla, e, portanto, não tem a capacidade de fazer mal à NBA, nem a qualquer outro esporte, de resto. E a China de Xi Jinping tem essa capacidade e usa, como se está visto. O comportamento de LeBron James é mais chocante ainda, porque trata-se de um atleta que ganha mais de 30 milhões de euros por ano. Não é um pobrezinho que anda ali a necessitar de esmolas chinesas. Mesmo assim, acha que é importantíssimo dobrar-se ao poder do dinheiro chinês. Eu acho que isto explica que ele esteja onde esteja. Ou melhor, isto explica que para ele esteja tudo bem quando diz mal de Trump, e tudo mal quando se critica a China, porque toca-lhe no bolso. E assim se vê como é que o poder do dinheiro influi mesmo quem tem muito dinheiro.
E parece que o dinheiro da China é infinito.
Olha, eu não sei se é infinito, mas nós também em Portugal sabemos que ele, pelo menos, já está por todo lado. E de resto, não devemos ter ilusões porque a China não brinca mesmo em serviço. Por exemplo, ainda esta semana, soube-se que quem quiser ter telefone ou acesso à internet, vai ter de se submeter a um scan facial. Estás a ver? Mesmo um scan facial. Já não é só a impressão digital. Isto num país que em 2020, para o ano que vem, vão haver 800 milhões, repito, 800 milhões de câmaras de videovigilância. É quase uma por habitante. Isto no país que possui também a mais desenvolvida tecnologia de reconhecimento facial. Só para teres uma ideia, na China já foi possível identificar, por reconhecimento facial, um devedor do Fisco no meio de uma multidão de 50 mil pessoas. Apanharam-no. Portanto, é a essa China, é a esta China e é ao dinheiro desta China que nos estamos a submeter. É, portanto, por isso que eu digo que um dia destes, quase sem darmos por isto, damos por nós a ser todos chineses.
A opinião de José Manuel Fernandes, no Contracorrente das manhãs 360, à conversa com Carla Jorge Carvalho.
Correia de Campos.
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