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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta" e hoje para falar de uma figura histórica incontornável. Há 200 anos, 5 de maio de 1821, morria numa ilha remota do Atlântico Sul, Napoleão Bonaparte. Ele estava lá exilado já há praticamente seis anos e tinha tido um final de vida triste. Tinha aproveitado para escrever as suas memórias, tinha tentado aprender inglês sem grande sucesso, mas não é essa parte da vida que conta. O que conta foi o que ele fez na sua passagem meteórica, mas marcantíssima pela vida pública, primeiro francesa e depois europeia, no final do século XVIII e princípio do século XIX. Napoleão é uma figura que fascina, sem dúvida nenhuma. Divide um pouco as opiniões, apesar de hoje ter, porventura, mais admiradores do que pessoas que o contestam, o que não deixa de ser algo extraordinário pra alguém que, no fundo, levou a guerra a todos os cantos da Europa, de Portugal até Moscovo. Portanto, Lisboa a Moscovo e até ao norte de África. Em muitos aspectos, ele percorreu quase os mesmos caminhos que Hitler percorreria no século XX e cometeu quase os mesmos erros que Hitler cometeria no século XX, porque fez alianças que depois desfez. Caminhou pra Rússia, onde se perderia como Hitler se perdeu, também rompendo uma aliança ou uma paz, pelo menos, era com o czar da altura, Alexandre I. Esteve no Egito, onde as coisas também não correram bem. Hitler não chegou ao Egito, mas tentou. Portanto, há aqui paralelos, de alguma forma, mas a imagem dos dois não é de forma nenhuma comparável, a imagem de que os dois beneficiam. Este é um dos aspectos que tem um lado de paradoxo, porque exceto, porventura, na literatura anglo-saxônica, em que alguns escritores e historiadores anglo-saxônicos continuam a ser muito críticos da figura de Napoleão, Napoleão e o bonapartismo continuam a beneficiar de uma imagem muito positiva. Alguém que fez o que ele fez pela Europa fora, porque fez, de facto, muitas guerras, alguém que era um chefe indiscutivelmente genial, mas ao mesmo tempo tinha muito pouco respeito pela vida dos seus soldados e os conduzia muito facilmente para situações de morte e de sofrimento enorme. Isso parece hoje não ser tido muito em consideração e mais depressa encontramos pessoas a lembrar, por exemplo, a forma como ainda hoje muitos países europeus seguem a herança dos códigos legais que ele deixou um pouco por todo lado, designadamente nós cá em Portugal. Algumas das nossas leis são, de alguma forma, inspiradas naquilo que são os códigos napoleônicos. José Manuel Garapinho, bonapartismo, herança napoleônica, esta ideia de um homem genial que transforma o mundo tem razão de ser?
É muito interessante porque Napoleão deve ter sido, os outros grandes conquistadores da antiguidade também pensavam nisso, mas Napoleão nos tempos modernos e até porque já havia meios de comunicação, jornais, Napoleão era um cauteloso cuidador da sua imagem, porque desde aquelas proclamações que ele fazia até às famosas imagens de Épinal, essa fábrica das gravuras de Épinal, portanto, aquelas glórias todas das conquistas francesas, ele cuidou muito disso. E como o José Manuel estava a dizer, ele ditou as suas memórias ao Las Cases e teve o cuidado de fazer a sua própria história a partir do seu exílio e presídio de Santa Helena. É muito interessante, porque a grande literatura francesa dos princípios do século XIX, eu estou a pensar no Stendhal, estou a pensar em Balzac, por exemplo, e até o próprio, um bocadinho mais tarde, Zola, Victor Hugo. Quer dizer, toda a grande literatura francesa acabou por consagrar a figura e o mito de Napoleão e dos tempos napoleônicos. Se a gente for ler, por exemplo, e vale a pena, porque é um romance fabuloso, "O Príncipe de Cartucha de Parma", do Stendhal, é aquela entrada dos franceses. A entrada em Itália. A invasão de Itália, a passagem dos Alpes, aquela magnífica A planície do norte da Itália a desenhar-se toda, as vitórias. O Sandal era um grande admirador de Napoleão, aliás, ele fez parte da intendência dos exércitos bonapartistas. Mas, por exemplo, o Balzac, é muito interessante o caso do Balzac. O Balzac, que politicamente era um reacionário, que foi várias vezes até candidato pelo partido monárquico legitimista, aliás, perdeu sempre, o que ele com bom humor dizia que só mostrava o bom senso dos eleitores, que não o elegiam. Mas o Balzac, por exemplo, também acabou por fazer, na comédia humana, um grande elogio e consagrar a figura do Napoleão. Enfim, Victor Hugo também vai no mesmo caminho.
Mas são franceses.
São franceses.
É natural, porque alguém que diga, uma vez ouvi o José saveu, até foi Adriano Moreira, dizer: "Não compreendo tanta admiração pelos franceses, que desde Napoleão que não ganham nenhuma guerra". É um bocadinho falso, porque de alguma forma os franceses tiveram protagonismo na Guerra da Crimeia.
Sim, mas de fato, a partir de 1870, 1871 foram uns desgraçados. Tiveram umas certas glórias no Além Mar, na Indochina, mas depois acabaram por perder. Agora, de fato, o fenômeno do Napoleão é muito curioso, porque o Napoleão, por exemplo, na imprensa inglesa, nos anos a seguir às guerras napoleônicas, é tratado como uma espécie de Hitler. Agora, o que o Napoleão beneficia muito, e nisso beneficia—
Exceto, porventura, para os polacos.
Sim, é tratado pelos ingleses, o resto, não. E é beneficiado, depois, por uma coisa muito importante, que eu acho que vale a pena pensarmos nisso. É que o Napoleão nasceu, de fato, numa pequeníssima, uma família de pequena nobreza, de uma origem da Toscana, eles tinham alguns pergaminhos e puxavam um bocado por isso. Ora, esse homem, que nasceu aí, ter conseguido chegar a ser o maior das conquistas todas na Europa. Além disso, consagrar a sua entrada na boa sociedade, casando com a filha do imperador da Áustria. Ligado sempre àquela coisa da Áustria, do Sacro Império. E ter conseguido isso tudo, como um relâmpago. Aliás, o Napoleão tem aquele desabafo, que é o "Quel roman ma vie". De fato, o romantismo todo foi buscar no Napoleão, como aliás o Dickens faz também, o Dickens também no fundo tem referências ao Napoleão. Quer dizer, aquela ideia do homem que nasce desconhecido e oculto e que depois é uma espécie de senhor do mundo. Essa ideia de glória, o Nietzsche aponta Napoleão como um super-homem, como modelo super-homem, refere-se a isso. Eu acho que é tudo isso. E a gente passou a usar, por exemplo, o nome Napoleão para um homem que tem grande sucesso nas finanças, dizia-se um Napoleão da finança, um Napoleão da construção, um Napoleão da indústria. Acaba por ser, sobretudo, uma figura de sucesso.
José Gama, este lado paradoxal. Quer dizer, pode-se transportar as ideias de uma revolução no fio da espada? Porque no fundo, era um bocado aquilo que dizia a propaganda de Napoleão, porque os exércitos de Napoleão, no início da sua carreira, a sua missão era defender a França, que estava acossada pelos Estados do antigo regime. França revolucionária acossada pelos Estados do antigo regime. Mas há um momento a partir do qual Napoleão já não tem que fazer a guerra. A partir do qual a França, mesmo quando faz a paz, mesmo quando chega e vai ganhando batalha atrás de batalha, campanha atrás de campanha e estabelece a paz, há sempre uma altura em que ele recomeça as campanhas, recomeça as guerras contra os seus inimigos, sejam quais forem, a Prússia, a Áustria, eternamente a Grã-Bretanha, o Reino Unido. Ele não é só apenas classicamente expandir um pouco as fronteiras. Ele procura transformar os países, transformar tudo, transformar as leis, transformar os Estados, fazer regimes novos, mesmo que ponha lá formas de regimes antigos. Porque põe lá seus membros da sua família ou os seus generais com novas famílias reinantes.
Napoleão, na verdade, é um produto da Revolução Francesa, mas Napoleão nasce antes da Revolução Francesa. Napoleão é um periférico, corso, a Córsega tinha se libertado de Génova, até tem um certo flerte com a liderança tradicional independentista da Córsega, mas depois as famílias zangam-se. O irmão resolve professar e fazer uma carreira pelo seminário e ele resolve alistar-se numa escola militar ainda no tempo da monarquia. E depois é como militar, no tempo da monarquia, que ele vive A Revolução Francesa. E ele até no princípio navega perto dos jacobinos, mas depois vai se distanciando e é preciso ver que Silves já é um auxiliar importante do diretório e consegue fazer com grande êxito a campanha de Itália, que lhe dá grande popularidade e antes disso consegue ter uma extraordinária vitória afastando os ingleses e os espanhóis de Toulon, porque ele é quem diz um contra-ataque de artilharia às posições dos ingleses em Toulon e isso dá-lhe prestígio. Ele depois vem fazendo um caminho como militar com prestígio, com glória, com sentido de ordem e no 18 Brumário, que é um golpe de Estado, não já político, um golpe de Estado político-militar e militar, muito manobrado pelo irmão, que aliás tinha ideias políticas um pouco diferente das dele, mas que na altura presidia aos Quinhentos, a uma espécie de Senado dos Quinhentos. E Napoleão, aos 30 anos, é primeiro cônsul. Ele antes tinha sido até designado o general brigadeiro responsável pela proteção interna da França e depois até pela preparação da invasão da Inglaterra, porque há um momento em que os franceses pensam em invadir a Inglaterra, e depois ele propõe a alternativa à conquista do Egito, porque era uma forma de bloquear o acesso de Inglaterra à Índia. E na verdade, temos que ver que essa conquista do Egito não teve pleno êxito, porque a esquadra francesa é derrotada por Nelson em Abu Qir e portanto fica coarctada da sua logística e da sua capacidade de regresso. Mas Napoleão é popularíssimo no Egito, ainda hoje, e os franceses são popularíssimos no Egito, porque na verdade, Napoleão representava ali uma alternativa quer ao domínio otomano, quer aos ingleses. E ele quase que se converte ao Islão, ele quase que fica um chefe islâmico do Egito.
Enfim.
Não, mas ele é um criador de impérios e tinha essa teoria, ele dizia: "Eu converti-me ao catolicismo e acabei com a rebelião na Vandeia. Eu, se fosse judeu", ele que teve uma política de grande abertura em relação aos judeus em França, "eu reconstituiria o Templo de Salomão". Portanto, ele tinha a ideia que a relação com essas outras civilizações passava por uma certa aculturação.
Como Alexandre, o Grande.
Exato. Os modelos de Napoleão são Alexandre, César, e portanto, ele tem o modelo do império. E se se vir, ele põe fim à Revolução Francesa.
Mas também a salva, por outro lado.
Certo, é paradoxal, mas salva nos valores que ele achava que deviam ser salvos, não em todos.
Faz uma síntese.
Porque ele acaba com a guilhotina em massa e com o terror. Ele restabelece o culto religioso católico e faz a concordata. Ele faz uma reorganização administrativa profunda com os departamentos e os prefeitos e também o Conselho de Estado e os auditores. Ele reorganiza a justiça e cria a Cour de Cassation. Ele faz o Código Civil e o Código Comercial, que ficam, não só em França, mas em países que eram colônias.
Sim, em boa parte do nosso Código Civil ainda tem a ideia dessa legislação.
E esse Código Napoleônico, apesar da sua doutrina, por exemplo, hoje é muito criticado pelas feministas, porque os direitos das mulheres estão ali numa situação precária.
Não podiam viajar sem a autorização dos maridos. Até houve aqui um decreto por causa disso.
Esse código traz algo da Revolução Francesa, que é o princípio da igualdade perante a lei. E há aí uma mudança nos negócios, na vida civil, na vida comercial, e há uma estabilidade. O sistema educativo, ele cria os liceus, reorganiza a universidade, reorganiza a Escola Normal Superior, o Banco de França, cria depois uma nova nobreza, com os membros da Casa Imperial, com os príncipes, com os duques e com os marechais de França. E, portanto, ele reconstitui uma hierarquia e cria um símbolo para valorizar a glória que é a Legião de Honra. Ele na sua liderança e no comando de tropas em combate, ele ficou celebérrimo quando um dia chegou a um regimento que tinha acabado de travar uma batalha e disse: "Quem é aqui o soldado mais corajoso?" E arrancou a sua Legião de Honra e colocou no peito do soldado mais corajoso daquele regimento naquela batalha.
Ele disse que tinha um particular gênio para contactar com os soldados, porque até se dirigia a eles pelo nome e conhecia-os pessoalmente e até falava, enfim, coisas que hoje em dia se ensina nas academias militares que os líderes militares têm que fazer.
Ele, por exemplo, há um soldado que diz dele: "Para este homem, mais importante do que a espingarda, são as nossas pernas de soldados", as marchas, a disciplina de marcha.
O que não era verdade.
A velocidade.
A velocidade, exatamente. A grande revolução napoleónica é o toque de caixa.
Sim, isso não era surpreendente?
Surpreendia a todos.
10 horas seguidas a montar a cavalo. E ele, que é um homem de artilharia, valoriza depois muito bem a infantaria e faz a conjugação perfeita de um moderno canhão, 30% menos pesado que os canhões ingleses e dos seus adversários, que dava uma grande mobilidade à artilharia acoplada às forças de infantaria para abrir os pontos de rutura no campo de batalha. Ele teve vitórias sobre exércitos que eram conjugadamente o dobro, o triplo.
Destruía-os.
Por quê? Porque ele jogava a surpresa, criava zonas de ataque que eram fictícias para depois poder atacar por outros lados e no centro do coração da batalha, ele tinha uma intuição genial para, de repente, colocar em minoria fracções da força armada que ele estava a combater e que globalmente era maior do que a força que ele representava. E depois usava isso da glória militar. Ele tem uma frase que exprime muito bem isso, que é: "O meu poder depende da minha glória, e a minha glória depende das minhas vitórias". Ou seja, ele não recua, tem necessidade sempre de avançar, porque cada vitória é a consolidação do seu poder, porque reforça a sua glória. E a noção de glória, que hoje é uma noção que tem uma grande erosão na sociedade atual, é uma noção que nessa altura tinha o seu valor. Ele também investiu imenso, por exemplo, como primeiro cônsul, na modernização e no embelezamento de Paris, com obras públicas. Porque não nos esqueçamos que a França está totalmente desfeita com a Revolução Francesa, do Terror, e que está à mercê de vir a ser retalhada pelos seus adversários e inimigos. E ele consegue virar algo que estava numa decadência irreversível, numa força que se transforma num poder europeu, como se viu. Mas que podia ter parado em 1805. Ele nunca parava.
Mas já vamos tentar discutir isso.
Invadir a Rússia, depois de ter quase conseguido fazer um tratado com a Rússia. Muito bem.
Vamos retomar esse tema na segunda parte do "Conversas à Quinta". Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao nosso "Conversas à Quinta", estávamos a falar da figura de Napoleão e estávamos precisamente a discutir esta questão: por que Napoleão não parou quando estava no auge da sua glória? Por que ele não parou das várias oportunidades que teve quando a França praticamente já dominava a Europa toda? Havia regiões onde sempre se manteve a resistência, a Península Ibérica, por exemplo, que nunca se submeteu completamente. Sempre teve o problema do Reino Unido, que nunca conseguiu derrotar, porque nunca conseguiu derrotar a Royal Navy, mas o Reino Unido era fora do continente. Mas houve uma altura em que a França tinha incorporado a Bélgica, tinha incorporado a Renânia, tinha submetido a Prússia, tinha submetido a Áustria, tinha praticamente também podemos dizer incorporado grande parte da Itália. Por que uma altura destas em que, de facto, o imperador dos franceses, que era assim que Napoleão era conhecido, porque ele não acabou com todas as instituições da República. A França não deixou de ser uma república com Napoleão, e isso é uma coisa também que deriva da sua habilidade política.
Uma república imperial.
Uma república imperial. O imperador dos franceses, por que ele não foi nunca capaz de parar, Jaime Madeira? Acho que essas figuras às vezes têm este lado.
É muito interessante, porque o Kissinger, no famoso "The World Restored", que é o estudo dele sobre o Congresso de Viena, fala bastante sobre isso e sobre a figura de Napoleão. Ele diz exatamente que era um pouco aquela ilegitimidade. Vamos lá ver, Napoleão faz, de facto, a síntese. Aliás, o Gramsci introduz exatamente a própria linguagem do tal momento bonapartista. O Gramsci fala que é muito interessante porque é dizer exatamente: quando um movimento ou uma força política já, de certo modo, não tem força para se impor mais, mas tem força para bloquear. E de facto, o que a gente tem nos anos 90 da revolução, depois do Termidor, portanto, o fim do Terror, etc, temos, por um lado, para uma importante corrente restauradora monárquica, forte, e temos, de certo modo, uma linha republicana que também pode bloquear essa restauração, mas também já não pode, até porque isso seria uma deriva esquerdista, que houve, mas que também não quer. E, portanto, o Napoleão, de certo modo, faz um bocadinho o que o César fez também na altura da República Romana, quer dizer, faz uma coisa nova, faz uma espécie de síntese, pega numas coisas de um lado, pega noutras. Mas isso também, de certo modo, acaba por ser uma Ele tenta, por uma espécie de legitimidade de exercício, tapar isso. É um bocado como, de facto, no princípio estávamos a dizer, é um bocadinho como o Hitler. O Hitler também são figuras que têm um lado que escapa muito à racionalidade. Ora bem, onde é que o Napoleão, de certo modo, vai exatamente fracassar? Vai fracassar exatamente onde aquilo que ele estava habituado, que era a batalha decisiva, a batalha de grande confrontação, era isso que ele sabia fazer e ganhava sempre. Só perdeu o Waterloo. E ganhava sempre. E é exatamente o que lhe é, de certo modo, recusado, quer na península, onde os grandes levantamentos, quer em Portugal, quer em Espanha, são irregulares, são guerrilhas.
Península onde ele praticamente nunca vem.
Ele nunca vem, ele não chega. Ele chega a uma altura que vai entrar, anda ali pelas bordas.
Sim, mas ele anda pelas bordas, acho que chega a Saragoça e pouco mais que isso.
E depois é a Rússia. Por quê? São os lados selvagens, chamemos assim, da época, porque no resto da Europa, ele ganhava a batalha decisiva e fazia a paz, ocupava e dominava. Tirando no Tirol do Sul, que houve uns levantamentos do Andreas Hofer, na maior parte desses sítios nunca houve guerrilhas, nunca houve nada disso. Ora bem, onde é que é a morte dele? É exatamente, acima de tudo, na Rússia. Por que na Rússia? Uma figura por quem eu tenho imensa admiração, que é o Kutuzov, o zarolho, o general. O Kutuzov recusa-lhe exatamente a batalha decisiva, porque ele sabe perfeitamente.
Ainda há uma grande batalha decisiva que é a de Moscovo.
A Borodino.
Borodino. Mas é uma batalha que se pode considerar decidida. É uma batalha que ele ganha, mas não é uma batalha decisiva.
Eu tenho muita admiração pelo Kutuzov, porque o Kutuzov é muito atacado na altura na Rússia, pelos seus iguais, pela corte, porque dizem que ele é um covarde que está a entregar a Rússia. E ele diz: "O centro vital da Rússia não é território, território é o que a gente mais tem, não interessa para nada. O centro vital da Rússia é o exército russo. Se a gente perder o exército russo, estamos vencidos". E arrastam Napoleão até Moscovo. Depois, por ordem do czar, os russos, aliás, quem executa isso, que na altura era uma espécie de presidente da Câmara, o governador de Moscovo, é o pai da comtessa de Séguier, que por isso depois tem que se ir embora, porque queimou as casas todas dos seus amigos. Eles pegam fogo, obrigam Napoleão a sair. Depois é aquela terrível retirada, que é sinistra, onde morre grande parte do exército. Além disso, os exércitos franceses já na invasão, há coisas curiosas.
Estamos a falar de um exército que tinha quase 160 mil homens e que atravessa o continente europeu até à Rússia com 37 mil, salvo erro.
Mas, por exemplo, uma das grandes destruições desse exército foram os piolhos, o tifo. Na invasão, já nem foi na retirada. Quer dizer, há, de certo modo, essa megalomania, essa hubris do Napoleão, que o Hitler tem exatamente a mesma coisa. O Hitler tem exatamente a mesma coisa com a Operação Barbarossa, que vai invadir a Rússia. Aliás, o Napoleão estava em ótimas relações com o czar, até eram muito amigos, tinham se encontrado em Tilsit, tinham gostado muito um do outro, tinha ali uma espécie de grande amizade. Quer dizer, Napoleão não sabe estar quieto. E quando ele invade a Rússia, ele tem os ingleses na península, a quase entrarem-lhe já em França. O Wellington está a ir atrás dele, dos franceses. Portanto, ele tem essa hubris e essa falta de racionalidade. Talvez seja isso que distingue esse tipo de figuras.
Já me diga, mas ao mesmo tempo que há isto, há, por exemplo, a perceção de que, apesar de tudo, há esta herança. Como disse, alguns povos, o caso mais paradigmático é capaz de ser os polacos. Os polacos são um povo que por razões geográficas, fica num território que tem sido uma espécie de corredor por onde passam alemães primeiro prussianos, depois alemães para um lado, russos para o outro. Coitados, sempre como terra de passagem.
Mau sítio.
E que depois de Napoleão tiveram ali um período de independência. Napoleão é visto como libertador e sempre foi visto como libertador. Mas, por exemplo, aqui em Portugal, as guerras napoleônicas foram uma tragédia imensa. Fala-se que pode ter morrido entre mortes diretas e, sobretudo, mortes devido à fome e à destruição que foi provocada pela passagem dos exércitos e pelas retaliações. Há quem fale em 20% da população, algo que ainda no princípio do século passado, do século XX, as famílias no campo, sobretudo, se recordavam do que tinha sido isso. E no entanto, não muito tempo depois, havia uma memória da figura que não era negativa. E nós tínhamos tido e tivemos generais que tinham combatido no exército napoleônico, que regressaram
Quase em glória para Hegel. Como Gomes Pereira de Andrade, por exemplo, que depois viria a ter um destino trágico, mas influente na nossa história. Isto é aquele lado paradoxal, porque parece que há alguém que está de um lado em que os eventos da história parecem soprar, apesar de usar métodos que não são os métodos mais apropriados.
Sim, se nós formos ver, Napoleão é responsável por dois milhões e meio de mortos, um milhão de franceses e um milhão e meio de outros países. Restaurou a escravatura no Caribe e na Louisianna. Portanto, à luz de conceitos atuais, isso é inteiramente verdadeiro. Mas depois também se vê que Napoleão é a palavra procurada no Google logo a seguir a Jesus. E quando se celebra Waterloo, o Wellington, etc, os gadgets, mesmo os ingleses compram mais gadgets Napoleão do que gadgets de Wellington. Depois temos que ver também a Polônia, porque a Polônia é sanduichada entre a Rússia e a Prússia e, portanto, Napoleão teve ali uma primeira ideia de proteção e de respiração livre. Mesmo toda a parte alemã, que não é a Prússia, viu na hipótese de uma aliança com Napoleão, o modo de contrabalançar a influência prussiana. E todos os povos que eram parte do império austríaco, também regozijaram com o fim do império austríaco, em virtude da ação de Napoleão. A unificação da Itália praticamente é feita por Napoleão e isso também é algo contra. É assim, por exemplo, que se explica que Hegel quando vê Napoleão, Hegel tinha estado a escrever a "Fenomenologia do Espírito", as tropas de Napoleão chegam a Hiena e Hegel vê o imperador. E vê o imperador desfilar e a sair no seu cavalo para fazer um reconhecimento militar. E ele diz: "Bom, vi o imperador, esta alma do mundo, a sair para um reconhecimento. É efetivamente uma sensação maravilhosa, ver esse gigante indivíduo, concentrado aqui sobre um ponto, sentado num cavalo, que se estende sobre o mundo e o domina". Portanto, o Hegel viu-
E o Goethe tem uma admiração por Napoleão também.
Incarnado no Napoleão.
Extraordinário.
E o Nietzsche e vários outros. E, portanto, isso é algo que marca profundamente.
Napoleão também era um grande leitor. Era um grande leitor também, não é?
Ele era um grande leitor desde a infância. E ele até chegou a admitir que pudesse vir a ser escritor para se afirmar e não tanto saliente pela sua glória no terreno militar. Mas ele, quando descobre que a glória militar é algo que está ao seu alcance, embora se note depois nos comentários que ele dita em Santa Helena, está lendo.
Contrário, não, ele ia sempre pra ler.
É impossível querer fazer uma meditação sobre a política, o poder ou sobre a arte militar, sem ler os textos de Napoleão, que são muitíssimo judiciosos, até na apreciação sobre os povos com quem ele teve confronto.
Sobre os russos, por exemplo, quando os russos queimam Moscovo, aquela coisa que ele diz: "São os citas". Ele fica impressionadíssimo com aquela brutalidade, com aquela violência.
E sobre os portugueses, ele diz numa carta ao Junot de 31/10/1807: "O português é bravo". Um grandioso.
E tem razão.
Quando ele analisa, por exemplo, em relação ao que não é o sucesso de Masséna. Masséna era o general querido filho da vitória, não era tão brilhante como o general Ney, mas era no areópage bonapartista, uma das glórias. E foi enviado à península com uma missão específica. E ele descobre, e o próprio Napoleão comenta isso, que a tática usada pelos ingleses, por exemplo, nas linhas de Torres, de não permitir o flanqueamento, porque de um lado está o Tejo, do outro lado está o Atlântico, e de ter feito terra queimada, porque uma das invenções do Napoleão é não ter logística de abastecimento pra andar mais presto e abastecer nos locais. Quando há terra queimada, não pode acontecer. E depois, na península. E depois é guerrilha. Guerrilha popular. E isso é uma coisa que pra um exército tão bem organizado e tão modernizado, tão rápido, é um imprevisto. Isso só se consegue fazer com um bravo, com um povo que não é cobarde e que é combativo
E isso ele aprecia e admira.
Pois.
É uma legião de honra. Esta frase é uma legião de honra atribuída por Napoleão ao povo português.
Mas olhando agora à distância, falta ainda um ponto que me parece importante, Jaime Nogueira Pinto, que é: por que ainda hoje falamos de alguns políticos como sendo bonapartistas? Por que hoje ainda falamos de Macron como sendo alguém que sonha com o bonapartismo, que gostaria de ser Napoleão Bonaparte, que gostaria de ter um tipo-
Mas não marchou 200 mil quilómetros.
Não fez tropa.
200 mil quilómetros.
Não fez tropa, que eu saiba. Ele não fez a tropa, não fez essas coisas todas. Mas não é só em França.
Não, há muito. Vamos lá ver. Até porque não há dúvida que o sistema napoleónico é um ressuscitar moderno do cesarismo, foi a grande ressurreição moderna de cesarismo. É evidente que houve outras ressurreições do cesarismo. O Cromwell foi uma ressurreição de cesarismo, até de certo modo, o nosso Sidónio foi um cesarismo breve, mas foi isso também. Que é aquela coisa que o Napoleão usou muito, que era o plebiscito. É muito curioso, porque o Marx e o Engels são bastante críticos do sufrágio popular e universal, porque dizem que isso dá o cesarismo, dá o Napoleão. Portanto, eles tinham ficado muito mal impressionados. Mas é essa figura que a gente hoje chama muito o tal populismo. Há uma figura em França que encarnou um bocadinho isso, foi o general de Gaulle, de certo modo, reviveu um bocadinho aquela ideia da grandeza da França numa altura que era assim, um bocado contrassistema. De certo modo, até a hostilidade do de Gaulle aos Estados Unidos e aos anglo-saxões em geral, mas sobretudo aos Estados Unidos, é um repetir da coisa do Napoleão, é uma espécie de herança da coisa napoleónica com os ingleses. E a gente é sempre tentado quando vê uma figura, por exemplo, um militar golpista ou um militar que tenha um certo sucesso junto do povo, uma coisa desse tipo, um bocado meia populista, meia cesarista, meia plebiscitária. Também essa figura napoleónica é uma figura de síntese política, quer dizer, já não é o antigo, mas também não é a revolução, é uma síntese, é um meio caminho, mas de renovação e também a questão das obras públicas, que também é uma coisa muito importante. Obras públicas, neste sentido, o tal refazer de Paris ou criar uma nova aristocracia, e muita pompa e circunstância.
É que ele trazia com ele, além do génio militar.
Um certo génio político também.
Desde o princípio ele tinha um génio político, uma vontade reformista, uma vontade de construir Estados novos.
Mas depois uma coisa nietzschiana de ultrapassagem permanente e portanto isso depois foi o que o liquidou. Mas talvez se ele não tivesse sido liquidado, talvez não tivesse entrado assim na história. Se ele ficasse muito tranquilo a partir de 1805 a governar a França e aquela Europa que dominava, enfim, talvez tivesse morrido muito mais velho, mas não tivesse entrado assim na glória da história. Ele também tinha essas preocupações.
Bem, nós entretanto esgotámos o tempo de mais um programa. Encontramo-nos de novo dentro de uma semana para mais um "Conversas à Quinta".