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O Tiago Dores escreve no Observador, deu também voz ao pinguim Capitão no filme "Madagascar" e reinventou a letra da música "A Mulher Gorda" para a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, ou pelo menos lançou esta proposta: "A mulher que ingere carnes vermelhas, para mim, não me convém. Eu não quero andar na rua com uma apreciadora de A100". O Tiago escreveu para o Herman e para a Maria Rueff, fez parte dos Gato Fedorento e é o nosso convidado de hoje. Agora sim. Olá, Tiago. Bem-vindo.

Olá, como estão? Tudo bem?

Olá, Tiago. Obrigado por teres vindo.

Muito obrigado pelo convite. Foi um pouquinho em cima da hora, porque falhou o vosso que já estava previsto.

Nós tínhamos convidado uma pessoa.

Eu vou rondando o edifício, sempre que for preciso, vocês ligam.

O Tiago está sempre por perto para alguma eventualidade.

Exatamente.

Não, não é verdade.

Sou aquele tipo o sexto jogador na NBA, sempre o sexto, o mais utilizado, digamos, dos suplentes.

E que estás pronto.

Cá estás. Tiago, a Tuna já aceitou esta proposta ou não? Nem por isso? Ficou em aberto?

Não sei, mas já há uns anos tivemos problemas com Tunas. Eu preferia não me aprofundar muito em polémicas com Tunas, porque é o tipo de assunto que ofende muita gente. E hoje em dia é tão fácil ofender pessoas.

Era isso mesmo que eu te ia perguntar. É muito fácil hoje as pessoas ficarem ofendidas, não é?

É mesmo muito fácil.

O que se passa?

Não sei. Acho que estamos todos muito sensíveis, não sei.

Só achamos graça quando é o nosso grupo a fazer a piada?

Isso sem dúvida. É sempre engraçado quando qualquer desgraça acontece a qualquer outra pessoa que não nós. E sempre foi assim, mas eu acho que hoje em dia, se calhar, não sei, as pessoas estão um bocadinho mais susceptíveis. Não sei.

Será porque têm um ecrã à frente e é tudo muito mais fácil quando não temos de confrontar?

É possível. Isso também, sem dúvida. Acho que sim. Acho que isso tem um peso significativo. Acho que as pessoas e as redes sociais produzem um bocadinho esse efeito. Anonimamente é muito mais fácil ser desagradável com pessoas do que na cara.

E tu sentes-te de alguma forma condicionado por essas reações quando escreves ou quando tentas fazer uma piada?

Não, porque eu, para já, não tenho redes sociais.

Logo aí é uma vantagem.

Eu sou um senhor com 93 anos. Sim, não tenho. É muita coisa.

Cuidado com o teu bengala, Tiago.

Sim, hoje trouxe o andarilho. É muita coisa, não tenho tempo, a sério.

Tempo e paciência?

Sim, as duas coisas. Eu gostava de ter, acho que era bom sinal, mas acho que não é para mim.

Mas não queres saber se a Margarida foi passar férias à Palma de Maiorca?

Estou interessadíssimo. E são sempre espetaculares as férias, ainda por cima.

Sempre, é tudo maravilhoso.

E depois toda a gente tem vidas muito boas e eu acho que não quero ser confrontado com o facto de ter uma vida deprimente, porque toda a gente tem vidas de sonho.

Mas vão chegando até ti reações aos artigos que vais escrevendo.

Eu não leio comentários, portanto, às vezes leio os e-mails que me enviam, mesmo à antiga. Gosto daquela coisa do e-mail de não haver aquela pressão para ter que responder naquele instante. Fica lá o e-mail e eu quando tiver um bocadinho mais de tempo para me dedicar a isso.

Recebes muitos?

Não, não recebo. Eu mando mais e-mails. Eu respondo a todos, porque são poucos.

Mas são umas cartas daquelas?

Até agora não tive muito ódio, por acaso estou magoado com isso.

Estás a falhar.

Sim, claramente é um indício que não estou a fazer as coisas como deve ser. Mas às vezes algumas que me alertam para factos e para questões que me escapam. Basicamente são todas.

Por exemplo?

Uma pessoa faz uma piada sobre a TAP, que a TAP não sei o quê, tudo a encher o bandulho à conta da TAP, e lá vem um senhor com uma carta muito detalhada.

Com documentos.

Com documentos, fundamentada em documentação sobre o problema, de facto, do leasing destas novas aeronaves que providenciaram o tipo de negócio que aquando da privatização, deveria ter levantado suspeitas.

Mas tu achas que nós, portugueses, já fomos mais bem dispostos do que somos ou isto é uma tendência mundial?

Isso é uma pergunta mesmo muito difícil.

É para isso que peço desculpa.

Sim, que nos chamam.

Queremos ouvir a tua opinião.

Palma de ouro ao homem, vamos lá.

Senão teríamos ligado a um sociólogo alemão.

Claro, qualquer coisa. Não sei. Eu acho que sempre houve pessoas a ofenderem-se com todo o tipo de coisas. Hoje em dia, como acho que todos temos acesso a tanta coisa a mais, somos bombardeados por tantas opiniões, por tanta informação, é possível que haja mais potencial para ofensas.

E há mais palco para quem é ofendido.

Há muito mais, e quem se dá ao trabalho de procurar muita coisa, e quem está permanentemente ligado e quem é bombardeado por mais informação e por mais humor também, é natural que vá descobrir mais coisas, se se der a esse trabalho e tiver tempo para se reliar com isso, que vá descobrir mais coisas com as quais acha que se deve maçar.

E se estivesses hoje a começar com os Gato Fedorento, seria diferente? Também não foi há tanto tempo. Ou já foi?

Não, mas já foi há tempo suficiente.

Tem um stand bem.

Já foi há quase o quê?

Foi há 15 anos.

Foi em 2003, mais ou menos.

Faz toda a diferença, não havia YouTube nem Facebook em 2003. Nesse aspeto, fazia toda a diferença.

A nossa vida era uma tristeza, não era?

Era uma pasmaceira de primeira. Eu acho que hoje há uma coisa que é mais difícil quando se escreve humor e que é quase impossível de controlar, que é há uma produção tão grande de conteúdos. Quando o humor a que tínhamos acesso era produzido basicamente para a rádio ou para a televisão, era relativamente fácil, pelo menos, sabermos o que é que estava a ser feito e conhecermos mais ou menos A generalidade das coisas que estavam a ser feitas no humor. Hoje em dia com internet, com as redes sociais, é absolutamente impossível estar a par de tudo o que está a ser feito e logo é um bocadinho de pressão adicional nesse aspecto, porque é difícil, é quase impossível.

Mas achas que, por exemplo, sketches como eu estou a lembrar-me aqui de alguns, o fitness fascista, por exemplo, ou o Forcado Fernando, achas que hoje em dia isso era possível? Ou que vocês teriam o mesmo sucesso que tiveram na altura?

Eu estou a perceber. Teríamos muito mais ódio, isso sem dúvida. Sucesso não sei. Sim, por exemplo, o fascismo hoje em dia está muito na moda. Há para aí muito fascista e para aí muitos Hitlers a cada esquina.

Mas isto não é uma tendência normal também? E corrige-me se eu estiver errada, mas eu estava a pensar, por exemplo, no Herman, que já disse várias vezes que as piadas que ia fazendo há muitos anos, que não poderia ter feito hoje ou que não fazia sentido. Portanto, isto não será uma tendência?

Sim, é possível que sim, porque as reações são muito mais violentas. Uma coisa é as pessoas ficarem ofendidas por uma piada, por uma ideia, por o que quer que seja, e têm todo o direito a ficar ofendidas. Outra coisa é um pouco esta cancel culture. Falta-me uma palavra em português. Esta tendência que vemos hoje em dia, que não basta ficar ofendido com o que alguém diz, é preciso impedir que essa pessoa diga o que quer que seja, que ofenda quem quer que seja.

Ou que apareça. Exactamente, que apareça.

Que tenha consequências.

E que isso tenha consequências na sua vida profissional. É verdade que as palavras magoam, podem magoar e aleijam que se fartam, às vezes. Agora, a questão é: qual é a alternativa? Nós não temos uma alternativa boa para uma sociedade que não seja a da liberdade de expressão, porque se nós começamos a criar regras para limitar a liberdade de expressão, primeiro é preciso descobrir quem é que dita essas regras. E depois, quem é que estabelece o que é que se pode dizer e o que é que não se pode dizer. Se não se pode dizer nada que ofenda quem quer que seja, para já temos que, de alguma forma, juntar toda a gente. Toda a gente faz uma listinha das coisas com as quais fica ofendida e depois a partir daí definimos o que é que se pode dizer. Vamos acabar com o não se pode dizer rigorosamente nada.

Tu entendes que não deve haver um limite?

Não pode, porque qualquer alternativa é pior. É verdade, como estavas a dizer, as palavras podem aleijar muito. No outro dia, o Jordan Peterson estava a falar, acho que em Harvard, sobre isso, porque um aluno lhe colocou mais ou menos essa questão. O aluno dizia que foi vítima de bullying inúmeras vezes e que lhe chamavam isto e aquilo, e que isso foi complicadíssimo na vida dele. É evidente que isso é problemático, mas o que ele respondeu, e eu acho que bem, é: "Mas qual é a alternativa?" Se formos explorar as alternativas, não há nenhuma, ainda assim, que faça menos mal à sociedade como um todo e aos indivíduos, do que a possibilidade de nós podermos dizer o que nos apetece, de termos o direito de dizer o que nos apetece e das pessoas terem o direito de ficar ofendidas com o que quiserem. E depois, se acharem que é o caso, vão para tribunal e os tribunais decidem. Mas não há uma alternativa melhor do que a liberdade de expressão.

Era isso precisamente que te ia dizer, porque há mecanismos para resolver isso.

Sim, por exemplo, no Gato Futuro nós fomos processados mais do que uma vez por pessoas que não gostaram de coisas que nós dissemos.

E como é que acabaram esses casos?

Não foram a lado nenhum, mas foi uma experiência engraçada.

Mas chatearam, aleijaram?

Não, não chatearam nada.

Uma experiência engraçada? Explica-nos isso.

Engraçada no sentido em que a pessoa fica a saber como é que as coisas funcionam.

Como é que funciona.

Exatamente.

Portanto, foste constituído arguido.

Sim, exatamente. Uma pessoa sabe o que é ser constituído arguido, ser ouvido por um juiz e saber como é que isso funciona.

E portanto, nunca te aconteceu escreveres uma piada e pensares: "Bom, este tema se calhar não."

Já me aconteceu, mas não acho que haja temas dos quais eu não possa falar, mas muitas vezes acontece-me evitar falar sobre determinadas coisas em relação às quais acho que precisava de mais informação para fazer uma boa piada. Ou em que acho que precisava de ter uma perspectiva mais abrangente do assunto, perceber mais vertentes desse assunto para achar que posso fazer uma boa piada. Isso acontece-me sempre.

Isso, por acaso, é uma dúvida que tenho há muito tempo. Muitas vezes nós vemos piadas e temos humoristas a fazer piadas, mas com pendor mais político. Temos uma clássica que é lá no Parlamento, ninguém faz nada, não é?

Sim, exatamente.

Tu achas também que o humorista para fazer uma boa piada tem que sustentar bem a piada que vai fazer?

Acho que sim.

E isso acontece?

Tem que ter uma lógica interna a piada. Estás a perguntar a mim pessoalmente? Espero que aconteça.

As tuas são ótimas.

Muito obrigado, agradeço imenso. É realmente uma bondade da sua parte.

Estou a perguntar em relação aos outros. O que é que tu achas?

Eu acho que nem sempre. Acho que uma piada para funcionar precisa ter uma lógica interna. Não tem a ver com o tipo de humor. Mesmo uma piada nonsense tem que respeitar uma lógica interna que a faça ter sentido. Era isso que eu me referi. Às vezes, ao abordar determinados sistemas que eu não domino, eu sinto que me falta um bocadinho de perceber a lógica do problema para conseguir construir uma piada que faça sentido nesse contexto e às vezes evito, ou então procuro mais informação e procuro perceber como é que eu posso fazer.

E aí entra, se calhar, o senhor da TAP, não é? No e-mail. Para quem se está a perguntar, o e-mail do Tiago está no site do Observador. Pronto, é isto.

Exato. Muito obrigado. Lá está. Às vezes, sim. Por acaso, nesse caso, fiz uma piada, acho que não tinha. Como é que eu hei de dizer? Nem para todas as piadas eu sinto essa necessidade de me informar, mas se acho que tenho uma piada muito gira sobre o leasing destes aviões. Sinto que se calhar precisava de perceber um bocadinho melhor como é que exatamente funciona esta questão do leasing, para que a piada tenha alguma coerência interna, então evito e faço outra piada qualquer.

Parecida?

Sim, parecida, mas sem sentido nenhum. Se calhar mais fácil, não sei, talvez seja o termo.

Estamos à conversa com o Tiago Dores, é o nosso convidado de hoje.

Estamos aqui em plena campanha eleitoral, temos figuras estranhas.

Já decidi em quem é que vou votar. Querem saber?

Diz lá.

Pode dizer ou não?

Pode.

Iniciativa Liberal.

Pronto, vais apoiar a Iniciativa Liberal?

Vou votar na Iniciativa Liberal.

E por quê?

Porque acho que são os únicos tipos que estão preocupados em apresentar um programa de governo. Acho logo um voto impresso, tirando o pano. Mas agradeço ao José Manuel Fernandes o trabalho que se deu de ler o programa e de resumir, de tirar o sumo. Mas mesmo assim gosto mais do programa da Iniciativa Liberal.

Fica aqui o anúncio. Vais votar na Iniciativa Liberal.

Laboral também serve.

Agora enganei-me. Mas pegando na campanha eleitoral, o humorista tem capacidade de influenciar? A influência do humorista vai ao ponto de poder influenciar o voto ou não, numa piada.

Desculpa, deixa-me só perguntar-te uma coisa. Há bocadinho, tu estavas a dar a notícia do António Costa e do ministro da Defesa.

É verdade.

Esclarece-me só uma coisa: o António Costa não sabia de nada. É isso?

Não sabia de nada.

Ou sabia de tudo?

Não sabia de nada. Pelo menos ninguém contou.

Então António Costa não sabia rigorosamente nada do que se passava no seu governo?

Nunca ninguém lhe apontou nada do ponto de vista oficial, das instituições.

Olha, dessa eu não estava à espera. Mas pronto.

Fica essa nota.

Boa. A tua pergunta era, desculpa?

Era sobre a influência dos humoristas na sociedade. Alguém muda de sentido de voto por uma piada que faças?

Sentes-te influente a esse ponto?

De todo. Não, claro que não. Acho que não.

Achas que tinhas mais sucesso se fosses um influencer no Instagram?

Ouvi-se dizer que isso é realmente bestial. Ainda não percebi como é que se faz, mas gostava de experimentar.

Receber coisas grátis e tal. Pois não é? Acho que sim. Começa a pensar nisso.

Mas achas que não tem essa influência?

Acho que não. Acho que é um bocadinho sobrevalorizada essa suposta influência que se acha que o humor tem. Há bons exemplos. Acho que nenhum presidente dos Estados Unidos foi mais satirizado do que Donald Trump, e isso não impediu que fosse eleito.

Em programas como o Daily Show e o Colbert Report.

Todos. Sim.

E isso não espou.

Aparentemente, não. Acho que se calhar dá mais bola. Pois, exatamente. Eu acho que é possível.

Mas quando o humorista expõe ao ridículo certas coisas.

Sim, nesse caso em particular, é muito fácil expor ao ridículo Donald Trump. Agora, se calhar, é mais fácil expor ao ridículo aspetos até da vida pessoal, provavelmente, e aspetos de caráter do Donald Trump do que outros aspetos mais específicos da sua estratégia para a presidência. E se calhar, nalguns casos, era isso que estavas a dizer, se calhar as pessoas às vezes até, de certa forma, eu não sei se não têm um efeito perverso de gerar um bocadinho de compaixão por estarem a ver, de repente, aquele indivíduo há anos a ser ponteapeado por toda a gente. É muito possível que até tenha esse efeito perverso.

E aí tem a influência ao contrário.

Sim, mas mesmo assim, duvido que seja decisiva. Não sei, duvido que seja decisiva, mas acredito que possa ter alguma, sim.

E Tiago, falando aqui em formatos televisivos, o Ricardo Araújo Pereira tem um programa na TVI, a gente que não sabe se estás. Por lá estão muitos dos elementos dos Gato Fedorento, tu não estás. Estás zangado com os formatos televisivos, muito zangado.

Eu estou muito magoado com os formatos televisivos. Estou muito magoado e também com determinados conteúdos televisivos. Não é só uma questão de formato, é também uma questão de conteúdo. Sim, houve uma altura, há uns anos, em que eu decidi, perante a possibilidade que tínhamos na altura de fazer um programa, que eu decidi nessa ocasião não fazer e afastei-me um bocadinho da televisão, mas não estou zangado.

Mas com o grupo está tudo bem?

Sim, não passou por aí, passou mesmo por uma opção minha na altura de me afastar um bocadinho.

Então o que é que tu andas a fazer?

Isso não vou revelar.

Não? Então e formatos radiofónicos? Estás chateado com conteúdos radiofónicos também? Não, pois não.

Por quê?

Não sei.

Não, estou até muito entusiasmado com todo o tipo de conteúdos radiofónicos e não só, e multiplataformas. Isto está tudo a ser filmado, não é?

Não, este agora não.

Não, por acaso não.

Não, este nós dissemos que sim para tu vires, mas não.

Ok. Ainda posso tirar os sapatos outra vez.

Devias ter vindo de calções.

Não, é que eu acho que a magia da rádio era um bocadinho que consistia, para mim, fundamentalmente, na questão de se poder vir de pijama.

E é isso.

Mas hoje em dia o que é que é rádio e televisão? Está tudo mais ou menos misturado.

Sabes que isso incomoda-nos, porque nós gostamos muitas vezes de vir de pijama.

Pijama, mas quantas vezes de manhã não dá jeito passar o banho? Uma pessoa atrasa-se um bocado. Olha, vai mesmo assim.

E vocês não sabem, mas andam a olhar.

Estou a falar sério. Eu sou um homem que acorda de madrugada todos os dias.

Eu conheço casos de pessoas que iam de pijama para a rádio.

Pois, exatamente. Eu acho que isso é a magia da rádio.

O que interessa é o que se diz.

Exatamente.

O que se sente.

Exatamente, sim.

Tenho aqui uma dúvida: tu tens alguma suspeita sobre quem realmente poderá ser o papagaio-mora do reino?

Oh, diabo. Pois, não.

Tu tens uma leitura sempre tão certa.

Não, eu sei quem é, mas não vou revelar. Não sei quem é. Eu sou o António Costa. Não sei. Jogo a minha cartada António Costa.

Achas que é o próprio António Costa?

Não sei.

E amanhã a greve climática, vais participar?

A greve climática. Isto entra naquela área das histerias parvas. Esta questão da Greta, acho que não fui o único. Eu vi aquilo e pela primeira vez fiquei mesmo perturbado ao ver a menina falar. Já tinha visto outras vezes, mas desta vez por algum motivo perturbou mais. Acho que não fui o único, vi muitas reações desse gênero. Houve adultos que meteram coisas na cabeça daquela menina que são totalmente falsas, não têm nenhum fundamento. E agora há outros adultos que estão a explorar aquela menina e o pânico genuíno daquela menina.

Achas que ela está a ser manipulada? Achas que ela está a ser usada?

Ela é uma adolescente. Logo, por ser uma criança, poderá ser mais suscetível do que eventualmente um adulto. É natural que ela aceite como válidas as ideias que os adultos à volta dela ao longo deste tempo lhe foram transmitindo. Acho grotesco expor-se uma menina que acredita em coisas profundamente erradas e que mostra aquele nível de pânico e desespero, e tirar dividendos políticos disso. Acho mesmo muito feio.

Mas não acreditas que a mobilização que ela consegue também pode ter algo de útil?

Eu acho que sim. Acho que é muito útil falar sobre as questões climáticas, mas acho que este grau de histerismo não é nada produtivo.

Prejudica a verdade, é isso?

Eu acho que sim, acho que prejudica a verdade e é uma gritaria. Não é uma forma de se abordar um problema que dizem que é grave.

Não sei se vai ser este o tema da tua próxima crônica no Observador.

Acho que não. Abordei um bocadinho isso na última crônica e não sei. Eu gosto do tema, acho que há muita coisa a dizer sobre o tema e tenho ouvido, lido e tentado me informar ao máximo sobre este assunto. E acho que sim, acho que esta menina está a ser usada para passar uma agenda política e acho que não é nada produtivo lançar este nível de pânico, quando aparentemente não há nenhum motivo para este nível de pânico.

E quando é que te podemos ler no Observador? Estás sempre disponível.

À quarta-feira escrevo uma crônica nova e a partir daí acho que fica. Isso agora nada se apaga, fica sempre tudo na net.

Não, está lá tudo.

Fica para sempre.

Para sempre. Tudo o que se faz fica para sempre na internet.

Fica, Tiago.

Para sempre.

É mesmo assim.

É lamentável, de facto.

E não dá para emendar.

Isto devia ter acontecido tudo 30 anos antes, isto do gato florentino.

Achas que seria muito diferente?

Sim, acho que seria, porque quem teve uma vida pública e fez coisas publicamente na televisão há 30 anos, hoje em dia se não tiver alimentado esse trabalho posteriormente, acho que é muito mais provável que possa ter uma vida mais pacata. Isto já está na hora, se calhar.

Já está, Tiago. O Tiago Dourado foi o nosso convidado de hoje. Pode lê-lo sempre no Observador à quarta-feira. Esta conversa vai ficar disponível já a seguir em observador.pt. Obrigada, Tiago.

Obrigado.

Rádio Observador. Aconteça o que acontecer.