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Hoje, na tarde da Indireto, estamos à conversa com a realizadora Cláudia Vargião. Amor Fati é o mais recente filme. Vai ter a estreia em sala no Doc Lisboa amanhã, inserido no programa Deslocações. Chega depois aos cinemas na quinta-feira. Eu ia dizer no domingo, mas não, é na quinta-feira. E, portanto, a Cláudia está conosco. Ainda não tive o prazer de a cumprimentar. Olá, Cláudia, bem-vinda.

Olá, boa tarde. Obrigada pelo convite.

Este filme que teve uma anteestreia mundial online em abril, não foi assim, Cláudia? E portanto, eu imagino a emoção que é agora finalmente isto chegar às salas, porque na altura ia dizendo em entrevista que tudo isto era bastante estranho, não é?

É estranho, é incompleto. Estrear online. O cinema é o cinema, portanto, é uma sala com uma tela grande e os filmes são partilhados com as pessoas dentro da sala, ainda que em silêncio, a observar a mesma imagem. E portanto, faltou de fato isso. Tudo o que nós estamos a viver hoje em dia não é só no cinema, mas é uma vida incompleta. Falta-nos uma certa liberdade e uma plenitude para cumprir a vida no cotidiano. E agora cada vez mais com este recolhimento obrigatório. Porém, os cinemas dão a volta a isto. As sessões anteciparam um pouco os horários, nomeadamente ao fim de semana temos sessões matinais, que é uma coisa incrível que acontece para nós que viajamos pelos festivais de cinema, estamos habituados a ver filmes de manhã e eu diria, deve haver alguma explicação científica, mas o nosso cérebro está realmente mais disponível de manhã. Há uma abertura para receber aquilo que os filmes nos dão. Do que eu sei até agora, pelo menos o Cinema Ideal em Lisboa tem sessões de manhã, sábado e domingo, e o Cinema Trindade no Porto também tem sessões sábado e domingo.

A verdade é que essas sessões matinais muitas vezes, ou em boa parte, eram sessões frequentadas, por exemplo, por quem tinha filhos para ver filmes infantis, alguns especiais, por exemplo, da Cinemateca Júnior. Não havia assim propriamente em Portugal aquela ideia do cinema de manhã, não é? É um contexto completamente diferente que temos agora.

Talvez algumas coisas que estão a ser exploradas durante este período estranhíssimo possam ficar, porque eu acredito que isto passará e outras coisas terríveis virão, naturalmente, mas há alguns caminhos que estamos a explorar que podem ficar. Este das sessões matinais, não sei se, se calhar, os diretores dos cinemas estão a dizer: "Que disparate, não rende nada". Mas quiçá, pode ser algo.

Uma questão de hábito, não é, às vezes?

Talvez. E sobretudo a população mais velha sente-se mais confortável neste momento, por causa das novas regras, do que eu tenho percebido com as sessões de manhã, de sábado e domingo. E é absolutamente compreensível.

E Cláudia, este filme Amor Fati, fati é destino, não é? Nós estamos aqui a falar de dois anos à procura de histórias que iam sempre encontrando esse ponto comum, essa união entre duas partes.

Isso. Amor fati é uma expressão latina que remete para a aceitação do destino, daquilo que nos vai acontecendo ao longo da vida, nomeadamente, por exemplo, a pandemia. Combatê-la de alguma forma, mas integrá-la, viver como tem de ser vivido, com todas as dificuldades. E este título parte ao encontro de pessoas que se completam na vida. E podemos estar a falar de pares românticos, ou seja, casais que partilham a intimidade, ou amigos, ou pessoas e os seus animais de estimação. O filme é um retrato de relações de intimidade, relações de afeto, que são de tal ordem intensas, profundas, prolongadas e partilhadas do cotidiano, que acabam por se revelar num exterior que parece semelhante. Todos nós, de certeza, porque partilho este filme com outras pessoas e que me falam disso. Já reparamos num casal, nos pais que estão juntos há muitos anos e que já respondem quase de uma forma simétrica.

Completam-se quase. Terminam frases, às vezes.

Terminam frases, mexem a cabeça da mesma forma. Já começam a escolher os mesmos tons de roupa. Os meus pais estão assim. Até a altura, com a idade, um era mais alto, o outro era mais baixo, e agora já têm a mesma altura. E de fato, quando se partilha muito a vida de uma forma muito permanente, há coisas que se começam a partilhar, nomeadamente o nosso exterior. Mas o filme é muito vasto nesta interpretação do que é o amor. O amor, felizmente, hoje em dia, numa sociedade mais aberta, mais contemporânea, mais livre, pode ser entendido de uma forma mais aberta e no filme não encontramos só pares românticos heteronormativos. Temos pares homossexuais, temos grupos de pessoas, temos uma família inteira, que é uma família armênia de músicos, partilham todos esta ligação à música e também uma fisionomia muito particular. E as pessoas e os seus animais. Tanto que não estamos a falar só dos cães, nem dos gatos. Estamos a falar, por exemplo, de uma personagem que temos que é o Emanuel e o seu cavalo, ou do Duarte e o seu falcão. É muito vasta esta teia de afetos.

E é engraçado, é bastante irônico. Estas histórias foram reunidas ao longo de dois anos, Cláudia, mas há um momento também muito particular. Nós já tivemos o prazer de ver o filme, em que há, por exemplo, um adepto de um clube que vai a um estádio. Nunca viu, neste caso eu posso dizer, nunca viu o Benfica jogar, mas tem essa ligação. E isso também é muito engraçado, esse tipo de coisas que hoje em dia nós estamos muito limitados, mas que estão também neste filme. É irônico, não é?

É um filme pré-pandêmico. Já tem este rótulo. Há situações no filme que já quase estranhamos, ou há um lado saudoso de um cotidiano. Nesse caso, nessa cena em concreto, o Ringo, que é a personagem em questão, ele já tinha estado num estádio, mas ele é cego. E toda aquela experiência também é muito ampliada e é exalada toda aquela alegria. Eu, pessoalmente, nunca tinha ido a um estádio de futebol. E para mim, acima de tudo, é que foi uma primeira vez e talvez essa emoção esteja nas imagens. Ainda por cima, o Benfica marcou uma série de gols. Não sei se foi assim, um jogo com cinco gols. Eu podia repetir os takes à vontade, que é uma das dificuldades do filme, dos documentários em geral. Estamos a falar de um género de cinema que vive muito pouco da encenação e da repetição. E este jogo de futebol foi um luxo. Poder repetir o ringue de pé com os braços no ar, o ringue sentado com a mãe, o ringue num plano aberto, o ringue de plano fechado. Isso foi um privilégio.

É engraçado porque há sempre esta procura pela união. Quando se está a trabalhar neste tipo de cenas e quando se tem esta questão de não ser nada ficcionado, isto também é algo muito interno? É uma procura também de algo muito interno ou há sempre um afastamento em relação àquilo que se está a passar, Cláudia? Ou será que isso não é possível sequer?

É uma pergunta interessante.

Houve algo que descobriu ao longo destes dois anos que nunca tinha pensado em relação a este tipo de uniões?

São várias perguntas. Uma delas é da proximidade e da distância de quem filma. Neste tipo de cinema, que ainda por cima conta muito com a colaboração do outro. Não há um guião, eu não peço a ninguém para representar nada. Aquilo que eu peço é para poder acompanhar as pessoas no seu quotidiano, e num quotidiano muito íntimo. E portanto, é uma relação que se vai construindo como uma relação de amizade. É uma relação de amizade e de confiança.

E essa confiança e essa relação mais próxima, não há propriamente aqui um método perfeito, nem há propriamente aqui também um momento em que se sabe que há essa aproximação. Vai variando muito com quem estamos a lidar também. O facto de ter demorado seis meses com determinado casal, por exemplo, não significa que o próximo não possa demorar dois anos ou mais.

Ou um.

Ou nunca se chegar a conseguir sequer esse grau de proximidade, não é?

Completamente. Varia muito das pessoas, da entrega das pessoas, da disponibilidade, da curiosidade das pessoas e sobretudo da espontaneidade. Pessoas que estão muito conscientes do que é ser filmado. Pessoas que estão muito em contacto com imagens. Nós, quase todos hoje em dia, com as redes sociais, sabemos o que é a nossa representação. Esta consciência altera muito a nossa espontaneidade quando estamos diante de uma fotografia.

É um filtro. É verdade.

É um filtro.

Estamos mais alerta, mais de sobreaviso, mais dificilmente nos apanham em falso?

Somos quase como as divas do cinema de Hollywood. "Não, fotografe mais deste lado esquerdo, porque este lado não funciona tão bem". Nós conhecemos já de outra forma. Quando eu encontro pessoas que não têm esse constrangimento, o grau de intimidade é muito mais fluido, as coisas aprofundam-se com muito mais facilidade. Eu diria que o método aqui é o tempo, mas isto é para tudo na vida. As coisas feitas com tempo, como a comida da avó, sabe de outra forma.

Exatamente. Mas houve essa descoberta interior de alguma coisa que não-

Não respondi, exato. Houve muitas descobertas, muitas perguntas que ficaram por responder, sobretudo o mistério. Por que as pessoas se encontram, de facto? Por que estão vocês os dois aqui a trabalhar juntos e não outro colega? Poderão responder: "Porque eu concorri, porque a mim convidaram".

Mas há sempre um grau de aleatoriedade.

Absolutamente. O filme é muito aleatório também nisso. Há até, diria eu, alguma estranheza no início do filme, que é: parece que as cenas saltam de umas para as outras e não percebemos qual é a lógica. Parece uma aparente falta de sentido, mas a vida é isso mesmo. E portanto, aquilo que começou por ser uma curiosidade de querer fazer um filme sobre pessoas que são parecidas, acabou por cair por terra. E o filme acabou por ser um filme sobre a vida e sobre as relações e sobre a impossibilidade de definir o que isso é. No final do filme, o que percebemos é que esta é uma celebração da vida e dentro deste processo todo morreram pessoas, nasceram outras. Isso também o filme acompanha. E isso para mim é a grande maravilha de fazer filmes com a realidade, porque a vida acontece lá dentro e é real. E quando vemos, é diferente percebermos que aquela senhora que morre no filme morreu de facto, do que vermos uma atriz que morre ou que faz que morre. Há aqui uma ligação afetiva do público, de mim própria. E talvez o público seja a extensão também do meu espanto perante aquelas imagens todas, aqueles acontecimentos, que é muito distinto e eu continuo a ficar muito rendida com o documentário.

E a Cláudia dizia também numa entrevista que eu li algures, que o cinema é o que nos ajuda a fintar o fim.

O cinema e a arte em geral permite-nos a fazer aquilo que a vida não permite. Nós no cinema podemos fazer tudo, podemos ser imortais, podemos não ter doenças, podemos estar sempre pequenos ao pé dos nossos pais, podemos ser sempre o que quisermos. Somos umas verdadeiras crianças. Os realizadores são umas crianças num corpo grande, a brincar à eternidade e a brincar como todos brincávamos. É muito semelhante à forma, com mais peso e com mais dificuldade, porque já não convencemos os nossos amigos da escola a ir brincar assim espontaneamente. E depois mete dinheiro. Mas há esse grau, de facto, de tentar fintar, sobretudo o fim, porque o cinema, de todas as artes, eu diria, primeiro é aquela que se aproxima mais da vida, porque a imita profundamente. E depois porque fica para sempre. Estas pessoas ficam eternizadas neste filme para sempre.

Aliás, essa questão da eternidade, por exemplo, nós temos o caso de muitos atores que entretanto já estão no fim de vida e a imagem que temos deles são as imagens deles em crianças ou em adolescentes quando entraram num determinado filme. E nós só vamos acabar com essa imagem que temos deles, por exemplo, no dia em que vamos ver uma fotografia na internet no dia da morte deles, décadas e décadas mais tarde. Isso é algo que acontece.

E talvez mesmo assim, a nossa memória continue aí por perto.

Vai continuar a ser a mesma.

Porque foi a experiência que provavelmente, biologicamente, quimicamente nos marcou. E eu acho que isso acontece muitas vezes quando perdemos alguém. Passado um período de dor profunda, começam a vir, a emergir as memórias mais belas, as imagens mais fortes, os momentos bons. Pelo menos a mim, tem me acontecido assim ao longo da vida, não sei se é sempre assim, mas nossa memória é muito traiçoeira. Escolhe, e ainda bem que escolhe, porque escolhe bem.

É isso mesmo, senão era tudo muito mais doloroso, diria também. Mas essa questão de tudo isto neste contexto de pandemia, essa situação, esse poder de liberdade que um realizador tem. Dentro deste contexto, lá está, mais uma vez, é muito irônico também Cláudia, já falamos desta questão do fintar o fim. E falamos desta questão da percepção que todos nós temos de imagem, desse filtro que vamos colocando. Qual foi a reação das pessoas protagonistas deste filme quando viram o resultado? Tenho muita curiosidade em relação a isso.

Eu também tenho e só vai acontecer amanhã.

Ah, ok.

Todos eles não viram o filme do início ao fim, viram algumas cenas, que fui partilhando com eles, mas no processo final. Mas o filme, no seu todo, não foi visto pelas personagens. E mais, eles não se conhecem, porque o filme propõe ligar as vidas destas pessoas, fazer esta costura, mas eles não se conhecem. Portanto, amanhã é o grande dia de juntar este puzzle na vida real e estou altamente curiosa, entusiasmada por esse momento, porque os filmes, pelo menos estes, eu diria que todo o cinema, só se completa quando ele é devolvido ao público. No caso dos documentários, são muito especiais as sessões com as pessoas, porque elas atravessaram um deserto, não viram nada, não sabem, confiaram, não perceberam exatamente, mas confiaram naquela pessoa. E é um sentido de seriedade e de responsabilidade esta devolução. Por exemplo, no filme anterior que eu fiz, no "Ama-san", que é um filme que acompanha a vida de um grupo de mulheres mergulhadoras no Japão. Eu fui ao Japão para lhes mostrar o filme feito, já depois de ele estrear numa série de países. E quando partilhei a sessão, as mergulhadoras que eu filmei pertenciam a uma vila piscatória muito pequenina, mas em redor desta vila havia outras vilas piscatórias. Elas juntaram-se todas num auditório, organizaram uma projeção. Eu fui com um amigo, que é o Takashi Sugimoto, que também faz o som deste filme, e ele estava sentado ao meu lado e eu pedi-lhe: "Vai me traduzindo se ouvir alguma coisa". E a sessão toda foi um chiqueiro que não se aguentava. Elas estiveram o tempo todo a falar e eu estava curiosíssima: "Mas o que elas estão a dizer?" E o Takashi foi me dizendo. Elas estavam todas a falar entre elas sobre o método de mergulho umas das outras. "Ai, tu mergulhas assim!" Sempre que havia uma imagem: "Ah, por isso é que ela apanha mais não sei o quê". Aquilo foi uma sessão altamente espontânea e que veio de um lugar que eu não estava nada à espera. Elas estavam a falar do ofício e das suas questões do cotidiano. Isso é muito mais rico do que ir ao Festival X ou Z.

Quase que dava vontade de filmar a reação das personagens. Construir outro filme sobre o filme que já tinha sido construído anteriormente. Quase que dá vontade de partir para um novo projeto, depois já com essa reflexão sobre aquilo que já se viu no filme, no qual somos personagens principais também.

Não tem fim. A possibilidade de filmar o real, de contar, de esculpir o real, não tem fim.

Portanto, essa sessão amanhã, eu já estou aqui em pulgas.

Já estamos emocionados.

É verdade, com aquilo que vai acontecer amanhã no Cinema Ideal. Cláudia, estamos a ficar sem tempo, mas já está a trabalhar em alguma coisa também? Noutro documentário, em alguma coisa que possa partilhar conosco?

Estou agora em São Miguel. Estou nos Açores. Vim para outro tipo de território, para uma ilha, que me é muito querida e estou a preparar uma longa-metragem. Neste caso, vamos tentar juntar o real e a ficção. O filme é uma ficção, há um guião escrito por mim, a priori, mas os atores deste filme são personagens do real. É a comunidade local da ilha que fará os seus próprios papéis a partir de uma linha condutora e é um filme sobre a adolescência na ilha, numa ilha. Podia ser outra ilha qualquer, mas é neste território belíssimo que são as nossas ilhas.

Mas vai estar identificada no filme a ilha de que estamos a falar?

Ainda não sei. Vamos ver, porque também é um filme que, novamente, à semelhança deste, é construído com as pessoas. Vamos ver o que é importante integrar da ilha de características locais ou se isto, de fato, são tudo denominadores universais.

Mas vai ser um filme em construção que no final quase que pode surpreender a própria realizadora?

Todos me surpreendem. Eu chego ao final e nada é parecido ao que eu tinha imaginado. Eu às vezes penso que o filme perfeito é aquele que nós imaginamos. A partir daí, já ninguém tem mão naquilo. De forma vão acontecendo, o contato com o real é que molda o filme, já é para além de nós.

Isso é o que torna as coisas também entusiasmantes. "Amor Fati" é o mais recente filme da Cláudia Varejão. Tem anteestreia em sala amanhã, no Doc Lisboa, no Cinema Ideal e depois na quinta-feira estará também nos cinemas. Cláudia, muito obrigada.

Obrigada eu a vocês. Bom trabalho.

Obrigada.

Obrigado.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada