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Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. Recebemos esta semana uma viajante solitária. Gosta de viajar sozinha e a pensar nos solitários até escreveu um livro, um guia para o mundo. A vida da nossa viajante tem sido feita de mudanças constantes. É, de resto, esse também o nome do seu blog. Sempre com as viagens no centro da vida. Inês Amaral, bem-vinda às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, muito obrigada.
Ora essa. As viagens são mesmo o centro da tua vida, não é?
Sim, eu tenho planeado a minha vida já há algum tempo, sempre à volta das viagens.
É o grande objetivo da tua vida, Inês?
Sim, conhecer um cadinho mais deste mundo. Não estou propriamente a contar países, mas tentar ver o máximo possível, conhecer muitas pessoas, falar com muitas pessoas e andar por aí a ver tudo o que acontece.
Tudo o que acontece. O que te move enquanto viajante, Inês? O que procuras?
Procuro conversas que me tragam perspectivas diferentes. Gosto muito de ir a sítios que às vezes são representados de uma forma não tão positiva nas nossas notícias e tentar perceber a realidade dos locais, qual é a cultura, como é que estas pessoas cresceram e o que levou a que as coisas às vezes não corram tão bem. Porque em todo lado há uma história e há motivos para que as coisas tenham acontecido.
E todas as histórias têm dois lados, não é?
Exatamente. Ou mais.
Ou mais. Muito bem. Nesse sentido, já foste onde, Inês?
Já estive em muitos sítios do Médio Oriente. Se for assim, a países mais polêmicos, digamos, já estive no Irão, no Iraque, no Líbano e já fiz alguns da Ásia Central também. Já estive no Paquistão. Esses diz que às vezes vêm com um certo tremor e que as pessoas me dizem: "Para que vais para aí?"
Pois. Por quê?
Porque é isso mesmo, é tentar perceber. E na verdade, são sítios onde eu encontrei culturas extremamente simpáticas, de partilha, em que quem é convidado e quem chega de fora tem sempre um lugar à mesa, tem sempre um lugar no carro. E que são sítios que eu tenho pena que as pessoas acham que são perigosos, porque na verdade, o maior perigo é sempre uma pessoa ficar cheia de comida, porque as mães e as tias e toda a gente nos quer oferecer comida e os seus pratos preferidos.
Pois. Mas não é uma região que respeite muito as mulheres, não é? Como é que se resolve este paradoxo de ser uma região onde se convidam os viajantes a sentar à mesa, mas depois discrimina as mulheres?
Isso é muito verdade, e eu tenho sempre muito essa consciência que tenho sempre um privilégio gigante quando vou a esses sítios, porque me dão acesso a lugares que as mulheres locais não têm acesso. Portanto, são sempre sítios que eu gosto de visitar, mas tenho sempre a consciência que para viver não seria o meu destino de escolha.
Pois.
Mas é uma luta que as mulheres e muitos homens também estão a fazer nestes sítios e que todos nós já passamos por essas situações. Em Portugal, há 50 anos, as mulheres também não tinham as vidas mais fáceis. E eu acho que são caminhos que cada país vai ter que traçar até chegar a uma igualdade de direitos que reflita ou que sirva as suas culturas também.
Eu acho graça, porque tu escreves sobre esta região do Médio Oriente no teu blog, o Mudanças Constantes, que tens desenvolvido uma paixão pouco saudável pela região.
Sim. Tem sido ligeiramente obsessiva.
Ai é?
Sim.
Até ao ponto de, Inês?
Não, é só porque tem sido uma região que eu tenho voltado e tentado ir a quase todos os países da região, principalmente os mais históricos. Não tenho assim muita curiosidade ali pelo Dubai, pelos Catars e isso da vida. Porque ainda por cima também a história é incrível. Por exemplo, no Iraque, é dos sítios onde as primeiras palavras escritas apareceram. E então é assim, uma pessoa é tipo, é tudo primeiro. Então é muito interessante de ver esses sítios e pra além disso, estão vazios. É sempre um privilégio andar por esses sítios sem ter ninguém em filas e poder explorar aquilo por nós próprios. Mas sim, diria que a parte pouco saudável tem sido mais ligeiramente obsessivo, mas tem dado muito boas histórias.
Então partilha conosco elas, as histórias.
Sim. Por exemplo, no Iraque, quando visitei, primeiro não aconselho ninguém a ir lá em setembro, porque ainda está um calor terrível, apanhamos 50 graus, mas tirando isso, estava a acontecer uma das maiores peregrinações do mundo, em que os muçulmanos xiitas vêm em grandes números do Irão para o Iraque e fazem uma peregrinação entre duas cidades. Acho que são cerca de 60 a 70 km a pé e todo o país se transforma, porque há acho que 20 milhões de pessoas a caminhar. O que acontece é que nas estradas, aquilo torna-se um gênero de um drive-thru gigante, em que há comida por todo lado, mas é tudo grátis. Uma pessoa abre os vidros do carro e simplesmente entra comida, porque eles dão comida a toda a gente, dão água, dão sumos, dão fruta. E foi uma oportunidade de ver o país de uma forma completamente diferente, que nós sabíamos que ia acontecer, mas achávamos que já estava no fim, mas não, estávamos mesmo no meio e foi uma coisa que nunca pensámos ver. E as pessoas também a caminhar debaixo daquele calor, todos vestidos de preto. Desculpa, às vezes falta-me o meu português.
Porque tu vives fora de Portugal já há alguns anos.
Vivo em Inglaterra, sim, já há oito anos.
Estás perdoada, não te preocupes.
Problemas de imigrante. Mas que é uma altura muito triste para eles, porque esta peregrinação é devido à morte de um dos mais importantes imãs do Islão. Estão todos vestidos de preto e todos com um semblante muito negativo.
Ok, mas ainda assim muito dispostos a partilhar comida, não é?
Sim, isso sempre.
Sempre. Há pouco utilizavas a terceira pessoa, “nós”. Significa que aí no Iraque não viajaste sozinha.
Não, aí tem um amigo meu português que alinha em muitas das minhas viagens.
Oi, boa.
Às vezes vou sozinha, às vezes tenho companhia.
Ok. Viajar sozinha é uma coisa que te caracteriza. Viajas sempre sozinha, Inês? Ou vais abrindo exceções?
Não sempre, mas em vários países do Medio Oriente deu jeito ir com um amigo do sexo masculino.
Por quê?
Porque abre muitas portas e as pessoas falam mais rapidamente com ele e depois veem que eu também sei falar e que também tenho coisas para dizer. E depois lá se habituam. Mas realmente é só mais fácil e mais confortável. Eu não acho que seja necessariamente perigoso, mas é daquelas coisas que é simplesmente mais fácil. Mas também gosto muito de viajar sozinha, porque traz-nos uma outra vulnerabilidade e também nos abre um bocadinho mais às outras pessoas, porque estamos sozinhos e temos todo o tempo do mundo e disponibilidade para falar com outras pessoas, para conhecer, para travar amizades em autocarros, para isso tudo.
Ok, e tu costumas fazer isso, é, Inês?
Sim. De vez em quando. Quando estava no Paquistão, sentei-me num autocarro num lugar e depois expulsaram-me porque havia um homem que se queria sentar nesse lugar, e eu “pronto, ok”. São coisas que acontecem.
Nem dá para contestar.
Pois, eu acho sempre melhor não, porque não é o meu país, não é a minha língua e não é a minha cultura, e portanto, aceito só. E meteram-me ao lado de uma outra rapariga, mas foi a melhor coisa que me aconteceu, porque depois começámos a falar e ela tinha sido da turma da Malala.
Uau!
E eu fiquei fascinada, porque a Malala para mim é uma heroína. Sim, exatamente. E ela teve a me contar a mesma história, porque os Talibã invadiram o Swat Valley, que é de onde a Malala é, e elas tiveram que fugir, porque as raparigas não podiam ir à escola. Entretanto, as coisas resolveram-se e puderam voltar, mas fiquei fascinada com a história de vida dela e tinha sido uma pessoa que tinha sido o avô, que tinha estado muito presente, e ela via-se que era uma mulher super instruída.
Ela, a viajante com quem tu seguias no autocarro.
Sim. E ela até estava a tentar ir para a Austrália, depois não sei se conseguiu. Mas uma pessoa que sabia imenso de história, eu adorei aquela conversa, foi a melhor coisa de sempre.
Boa, essa viagem de autocarro durou quanto tempo?
Durou umas horas, foi de Islamabad para Lahore.
Ok, boa. E depois ficaste com o contato dela?
Sim. Seguimo-nos no Instagram.
Boa, ok. É a nova plataforma de comunicação. Nova, quer dizer, já existe há algum tempo. Hoje em dia, toda a gente está ligada através das redes. Muito bem. Ensinou-te alguma coisa que não sabias sobre o Paquistão, essa amiga de Malala Yousafzai?
Sim, e coisas que eu ainda tenho que aprender, porque ela recomendou vários livros. Mas mais aquela parte de perceber que Mesmo em zonas super rurais, depende tanto da família onde nasces e de quem é que te ensina, porque podes ter sorte e crescer num mundo rural. O Paquistão ainda tem algumas oportunidades, apesar de ser muito desigual e haver imensos problemas. E ela trabalhava numa organização de ajuda a mulheres em situações de violência doméstica.
Não tinha uma vida fácil, então.
Pois não. Mas sim, um sítio onde, mesmo assim, há algumas oportunidades para crescer e para vingar na vida.
Um país grande, não é?
Muito grande.
Muito grande. E muito diverso também, não é?
Sim.
Terá sido o mais diverso onde foste até hoje, Inês?
Não sei, porque eu gosto muito da Argélia e a Argélia é o maior país da África e tem uma diversidade também incrível, porque o norte parece quase aqui o sul da Europa. Estamos só divididos pelo Mar Mediterrâneo. E depois, à medida que vamos entrando mais pelo deserto, há culturas no deserto que são únicas e que estão preservadas de uma forma muito interessante e que vivem a sua religião e sua cultura quase de uma forma em que o tempo não passou por elas. E quando se vai aprofundando, depois há os tuaregues no deserto. Diria que também é um país super diverso, mas certamente haverá outros que eu já devo ter passado e que agora talvez não me esteja a lembrar. Mas sim, esses são dois exemplos de países muito diversos.
Já foste à Índia?
Olha, por acaso fui há muito pouco tempo, fui em trabalho. Mas fui para o sul da Índia, que adorei, porque foi uma explosão de cores e de energia. E é tão interessante ver a diferença. Eu acho que se eles vierem à Europa, devem achar que nós somos uns chatos, porque lá é tudo tão colorido, tantos cheiros, tantos sabores, tão intenso. E apesar de ter ido em trabalho, consegui passar por sítios espetaculares. Parte do meu trabalho era entrevistar pessoas que estavam nos campos e que cultivavam alguns dos produtos que nós usamos. E então foi super giro ver essa realidade de uma Índia mais rural, que talvez não tivesse acesso de outra forma, e ver essa dimensão do país.
Ok, muito bem. Explica só aos nossos ouvintes o que é que tu fazes, Inês.
Agora acabei de mudar.
Sempre em mudança.
Sempre em mudança, sim. Mas durante quase oito anos trabalhei numa empresa de óleos essenciais e suplementos naturais. E então tenho a sorte de vez em quando ir aos sítios onde vamos buscar esses óleos e esses produtos. E agora, daqui a um mês, vou estar na Amazônia, também parte desse trabalho, porque nós vamos lá buscar um óleo essencial ao meio da Amazônia. Vamos ter que andar 10 horas num barco só para chegar ao sítio e acho que vai ser muito fixe.
Então não vai? Claro que vai. Depois tens que partilhar connosco essa viagem mais tarde aqui nas "Conversas do Fim do Mundo". Olha, Inês, eu vou querer saber na segunda parte quando é que isso tudo começou, por onde é que tu andaste nos últimos anos. Enfim, já nos deste aqui algumas pistas sobre os locais onde tens viajado, mas na reta final agora da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Inês Amaral, guardas algum objeto contigo que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?
Sim, foi difícil de escolher, porque tenho alguns, mas olha, tenho um cãozinho.
Um cãozinho?
Um cãozinho daqueles que se mete no tabuleiro do carro, que abana a cabeça.
Não é do teu tempo, isso é mais do meu tempo, nos anos 80 punha-se na chapeleira dos carros um cãozinho cuja cabeça ia abanando. Também acho que havia um touro ou o que era. Mas conta. Um cãozinho, trouxeste-o de onde?
Trouxe de Mossul, no Iraque, porque entrei num táxi e reparei no cão e disse ao condutor: "Olha, que cão tão fofinho". E é sempre um problema dizer estas coisas nesses sítios, porque eles depois oferecem logo.
Ok.
Eu ainda disse: "Não, não é preciso." Mas ele insistiu tanto, que lá trouxe o cãozinho, que se chama Timur, que veio comigo. Ainda se esfrangalhou um bocado, que eu só tinha uma mochila, mas guardo com muito carinho, porque é mais um símbolo da generosidade que nós vivemos nestes países. E foi o que eu escolhi.
Sabem receber bem no Médio Oriente, é isso?
Sim, tão bem. É daquelas coisas que eu vivendo na Inglaterra, há coisas que eu penso: realmente podíamos aprender com eles.
A sério? Os ingleses são assim tão frios?
Não, mas são capazes de te convidar para a tua casa e oferecerem-te um takeaway. Em vez de cozinharem.
Lá está, é o gesto que conta.
Pronto, está bem.
Se calhar eles levam muito à letra esse princípio. Mas sim, estou contigo, podiam se esforçar um bocadinho mais.
Pois.
Muito bem. Estamos à conversa com Inês Amaral. Fazemos aqui uma pausa nas "Conversas do Fim do Mundo". Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com a viajante Inês Amaral, portuguesa que vive há vários anos no Reino Unido. Inês, como é que começou esta tua obsessão pelas viagens? É bem dito, não é? É uma obsessão, é isso?
É um pouco uma obsessão, sim. Olha, não sei bem. Eu acho que é um pouco culpa dos meus pais e dos meus tios, e de uma família de gente curiosa.
Eles eram também grandes viajantes?
Mais pela Europa, também pelas posses econômicas. Mas mesmo os meus avós já, que eram de uma altura em que não se viajava muito, de vez em quando iam nas suas excursões a Paris e a Veneza, e lá começavam. E os meus pais desde muito jovens que com o que tinham, iam de tenda às costas de carro para França e onde conseguiam chegar.
E tu ias atrelada, não é?
Pois, a minha primeira viagem foi a Paris, acho que tinha seis anos.
Sim? Sorte.
E fiquei logo fascinada. Não era para ir à Disney, era mesmo para andar pela cidade. E depois fomos começando a ir quase todos os anos, fazíamos uma viagem fora. Depois, quando tinha 16 anos, fiz um Interrail por Portugal com uns colegas.
Boa. Ou seja, fizeste o país todo de comboio.
Exato. Sim.
Já conhecias Portugal ou não?
Sim, os meus pais sempre foram de me levar por aí.
Te levar aos sítios.
Sim.
Mas aos 16 anos ninguém quer saber dos locais, quer saber das companhias e da aventura, não é? Digo eu. Os meus 16 anos já foram há muito tempo. Mas se calhar não mudou assim muito. Diz.
Não, foi supergirro, porque estávamos sozinhos, 16 anos, fomos de comboio por aí. Acabamos por ir a sítios muito giros e conhecer um cadinho melhor também o nosso país.
Boa. Então dizias que depois fizeste um Interrail, não é? Aí já é a sério. Já é sair do país.
Essa foi a primeira grande viagem.
Que idade tinhas?
Tinha 18.
Boa.
Foi ali numa das primeiras férias da faculdade, que nos metemos por essa Europa adentro e foi do gênero: "Ok, é mesmo isto".
Ok, boa. E isso depois condicionou o teu percurso profissional também, Inês Amaral?
Um pouquinho.
O facto de gostares de viajar e de conhecer o mundo.
Sim, porque eu depois decidi ir para a Turquia quando acabei a faculdade e acabei por estar um ano em Istambul a trabalhar. Também foi uma oportunidade para ficar mais imersa num país.
Isso é interessante. Como é que uma portuguesa encaixa na vida turca?
Olha, não sei se encaixei muito bem. Porque, ainda por cima, naquela altura, já foi há 12 anos, ninguém falava muito inglês. Aliás, acho que foi por isso que eu consegui arranjar trabalho muito rápido, porque mandei o meu CV para umas agências de viagem e acabei por ficar a escrever conteúdos para os sites deles. Mas foi difícil, principalmente por causa da língua. O turco é uma língua dificílima. E em geral, também a nível de ser mulher e trabalhar nestes sítios, e simplesmente viver. Uma pessoa tem que sempre pensar o que é que leva vestido. E então diria que apesar de ter sido uma experiência que me deu imensa coisa e eu agora olho para trás e digo: "Uau, fui com 21 anos para um país em que só conhecia uma pessoa." E então deu-me muita bagagem. Eventualmente, depois decidi que não ficaria, porque para construir uma carreira não seria o melhor sítio.
Ok, e acabaste por regressar, foi?
Sim.
Muito bem. Aproveitaste para conhecer a Turquia também um pouco, ou não, Inês?
Sim, aproveitei. Tive sorte por através do meu trabalho conseguir ir à Capadócia. E depois também eu tinha um namorado lá e antes de me ir embora fizemos duas semanas de mota pela costa da Turquia, sempre ou acampar ou ficar em hostels. E foi muito giro. Eu acho que meter-se em cima de uma mota sem grandes planos é uma grande aventura. E então há mesmo aquele sentimento de liberdade que eu sinto muito agora ao sul da Turquia.
Ok. Portanto, fizeste ali aquela zona-
De Antália a Izmir.
Isso, exatamente. Muito bem, espetacular.
Sim.
Boa. Portanto, regressaste depois para Portugal, mas não paraste de viajar. No teu site, o Mudanças Constantes, destacas três experiências inesquecíveis. Uma delas envolve arrozais. Ora, deixa-me lá ver se eu não me perdi aqui nas minhas notas. Filipinas, não é?
Sim, é isso mesmo.
Então, por que é espetacular fazer três dias de trekking pelos arrozais das Filipinas, Inês Amaral?
Porque tens acesso a umas vilas perdidas no fim do mundo, em que só dá para chegar andando durante três dias. É uma zona muito remota, muito calma, com paisagens super bonitas, porque os arrozais quando estão muito verdes, aos socalcos, fica uma paisagem espetacular. São sítios onde a vida decorre mais lentamente, com grande paz. E lembro-me de um caril de frango espetacular feito por uma senhora, quando chegamos ao fim do dia, com os pés ensopados de lama, toda suada, porque naqueles climas tropicais uma pessoa sua o dia inteiro. E de chegar, de ver uma paisagem espetacular e ter um caril de frango à minha espera, foi uma coisa inesquecível.
Inesquecível. Já sabias ao que ias, planeaste ou aconteceu?
Planeei. Eu gosto sempre de, mesmo que não marque tudo, também tenho uma certa obsessão pela parte de planear. Farto-me de ler blogs e de ler reportagens de outros viajantes, passo muito do meu tempo nesse processo.
Ok, de reconhecimento dos locais que vais depois mais tarde visitar.
Sim.
Mas tens, por exemplo, aquela obsessão que há muito, já há alguns anos, que é ir à procura do local certo para tirar aquela fotografia onde tu te colocas e depois partilhas no teu Instagram. Isso faz parte do teu mundo ou nem por isso? Eu pergunto isto sem qualquer preconceito. É perfeitamente legítimo que as pessoas queiram tirar fotografias em sítios belos.
Não, eu adoro tirar fotografias e faz um bocado parte da viagem também, mas eu cada vez mais viajo para falar com pessoas em vez de ver sítios. Mas eu adoro caminhar, adoro ir para montanhas, praias paradisíacas e adoro captar esses momentos e gosto muito de tirar fotografias, mas não, não tento fazer a foto exatamente igual, até porque não tenho paciência. Eu sou daquelas pessoas que para posar para fotos não tenho grande paciência. Então não, essa parte não faz tanto parte dos planos.
Ok, portanto gostas é mesmo de ir aos locais e estar com as pessoas na sua realidade, sendo que muitas vezes os viajantes têm uma visão um pouco cor-de-rosa dos sítios, não é? Não achas isso, Inês?
Acho que sim, acho que definitivamente demasiado.
Romantiza a vida, não é?
Sim, acho que há uma grande romantização da pobreza. Às vezes acham que o facto de não haver regras significa uma grande liberdade, porque nós cá temos que pôr cintos de segurança, não andamos em cima de carrinhas. Mas com essas coisas também vêm outros grandes problemas e eu por acaso não tenho nada a idealização da pobreza nem dessa falta de regras, porque tenho uma grande consciência do privilégio que nós temos na Europa.
É verdade.
E a verdade é que as pessoas saem destes sítios e arriscam a vida para vir para cá. Por isso se as coisas fossem assim tão boas, elas ficavam lá.
Exato. E a vida é muito arbitrária, não é?
Sim, completamente.
Muitas vezes.
Sim, em sítios, por exemplo, como São Tomé, que eu adoro e eu acho que é daqueles sítios que nós vemos como paradisíaco. Depois a falar com as pessoas, a quantidade de pessoas que perde filhos ou com doenças ou quando estava lá, por exemplo, lardeou uma casa, ou às vezes há um barco que se afunda. Então, claro que nós adoramos visitar e que aquilo parece um paraíso, mas há que também perceber a realidade que as pessoas vivem e que dá porque vivem numa praia paradisíaca, não quer dizer que a vida seja paradisíaca.
Exato, é isso. Muito bem. Conta-nos histórias incríveis que te tenham acontecido em contexto de viagem, Inês. Qual é a história mais incrível que tu tens? Juntas um grupo de amigos a jantar em Londres, na Inglaterra, e dizes: "Eu viajo muito, já fui a muitos países." "Boa, e então? Conta lá uma história."
Deixa-me ver. Eu já tive histórias que na altura não foram tão engraçadas, mas que agora olhando para trás, ficamos felizes que correu tudo bem. Mas, por exemplo, no Quirguistão, nós tínhamos planeado fazer duas semanas nas montanhas e andar de cavalo, mas depois percebemos que, como portugueses que éramos, e também como uma francesa, que fomos demasiado otimistas em relação às roupas que levámos. E então não estávamos preparados para começar a nevar em agosto. Estávamos num lago alpino a cavalo, mas a tremer por todos os lados e apesar da paisagem ser incrível, nós só nos queríamos vir embora porque não aguentávamos. Fizemos essa parte da viagem e depois reunimo-nos, eu também com uma intoxicação alimentar.
Ó pobre.
Os outros todos cheios de frio. E então decidimos ir para o Uzbequistão, onde estavam 38 graus. Vimos mais um país, temos que voltar ao Quirguistão com outras roupas, mas aprendemos a nossa lição. Mas já tive muitas histórias do gênero. Agora, há pouco tempo, estávamos no Togo e tínhamos que ir pro Benin, mas depois fomos por um sítio que não era fronteira oficial, porque os miúdos que tinham botas não tinham licença e então tivemos que voltar para trás. Depois o senhor da fronteira queria que lhe pagássemos um suborno, porque dizia: "Mas vocês assim podem ser terroristas e andam a se esconder dos sítios oficiais". Eventualmente lá conseguimos que ele desistisse do suborno. Estávamos meio perdidas entre o Togo e o Benin. Mas são coisas que acontecem e depois corre tudo bem, normalmente.
Claro, com muita normalidade, não é?
Exato.
Olha, de todos os países onde tu já estiveste, e tu já foste a quantos, mais ou menos, Inês?
Acho que são uns 59 ou 60. O Egito acho que é capaz de ter sido o 60.
Aquele que te deixou assim de queixo caído, qual foi?
Talvez Socotra, no Iémen.
Ah, que é uma ilha.
Sim. Que entretanto tornou-se um pouco um sítio para foto do Instagram.
É verdade.
Infelizmente. Mas eu fui logo a seguir ao Covid, foi do gênero: "Estou há dois anos aqui meio fechada. Ainda fui a alguns sítios, mas sem aventuras". E lá fui. E é daqueles sítios porque não há infraestrutura e tudo é campismo selvagem.
Pois não tem nada. Eu ia te perguntar isso, o que se vai fazer a Socotra?
Vai-se ver das paisagens mais incríveis que já viste na tua vida. Sim.
Tem grandes dragoeiros, não é?
Exato, tem essas florestas.
Acho que é a imagem de marca da ilha de Socotra, não é?
Sim, tem os dragoeiros.
Mas também se pode ir ali ao Jardim das Estrelas em Lisboa ver um grande dragoeiro.
Um, sim, mas não milhares.
Estou a provocar.
Eu sei.
Obviamente que não é a mesma coisa, mas conta. Tinhas essa fisgada, não é? Ir a Socotra.
Foi uma coisa muito recente. Na verdade, a primeira vez que eu ouvi falar da ilha foi através de um senhor que era espanhol, catalão, e era ultramaratonista. Ele já tinha ido a todo o sítio. E nós conhecemo-nos na Jordânia, no deserto, e eu perguntei-lhe: "Já foste a tanto sítio, onde é que foi um sítio que ficaste boca aberta?", como tu me perguntaste. E ele disse: "Uma ilha do Iémen". E eu pensei: "Mas o Iémen tem ilhas?" Eu nem estava bem a ver, nem fazia ideia. Também estávamos no deserto, não tínhamos internet, não fui ver. E depois um dia apareceu-me no YouTube esta ilha e eu: "Isto era o que ele estava a falar". E então comecei a investigar como é que era possível visitar esta ilha, que só é possível através de uma agência, porque não há infraestrutura.
Exato.
Mas depois chegando lá, é daqueles sítios que parece que não é real, porque há dunas gigantescas formadas pelo vento, depois há os dragoeiros, depois há praias com uma extensão incrível, com água cristalina e que não está lá ninguém. Então é uma experiência muito boa, porque calhou um grupo muito fixe e todos a acampar e a trocar histórias sem internet durante uma semana. É sempre melhor.
Sempre fascinante. Isolados do mundo, não é? Na ilha de Socotra. Muito bem. Inês, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout?
Vamos.
Vamos. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: "Na minha mala vai sempre..." O que é que não falha, Inês Amaral?
Vão sempre tampões para os ouvidos, porque já passei demasiadas noites em hostels com orquestras sinfônicas de pessoas a ressonar.
Fantástico. Que trauma esse.
Exato, tenho um grande trauma.
Olha, a viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Olha, eu acho que pode ter sido potencialmente aquela do Quirguistão e do Cazaquistão, entre ficar sem fotografias do início da viagem, até termos que mudar os planos.
Fizeste os -ãos juntos?
Foi Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão.
Ok. Qual deles o mais bonito? Consegues dizer?
Provavelmente o Quirguistão.
Ok. Pelas montanhas, não é?
É para voltar. Sim, tenho que voltar com o equipamento certo.
É o contraste, não é?
Sim.
Ok, muito bem. Então, o carimbo do passaporte ou visto mais difícil de obter.
Pois, esta também foi uma peripécia dessa viagem, porque eu sou muito boa a perder papéis importantes. E como tal, perdi um papel que me deram no aeroporto, no Cazaquistão, que depois seria importante para passar a fronteira para o Quirguistão. E então eu não tinha o papel, o homem da fronteira só dizia "big problem". E depois lá consegui, através de uma rapariga que falava russo, que ele percebesse. E ele andou, não sei, dez minutos às voltas e depois eventualmente só me diz: "Thank Cristiano Ronaldo". E deu-me o carimbo, mas acho que só me deu o carimbo porque gosta do Ronaldo. E pronto, o Ronaldo safou-me desta.
É o nosso maior ativo diplomático, não é?
Sem dúvida.
Sem desprimor para os diplomatas de carreira. Mas Ronaldo só abre portas. Incrível.
Sim.
É verdade. A recordação de viagem mais cara?
Eu pensei Socotra porque foi a viagem mais cara que eu fiz.
É caríssimo lá entrar, não é?
É, e acho que entretanto se tornou ainda mais caro. Naquela altura para mim valeu a pena.
É preciso pagar uma licença, um visto especial?
Tens visto, mas o problema é mesmo por causa das agências, porque tem que ter cozinheiro.
Cobram-se bem.
Sim, porque não há nada, então tenho que trazer tudo com eles.
Já agora, podes dizer-nos quanto é que pode custar uma semana em Socotra?
Eu acho que na altura que eu fui era para 1800 ou 2000 dólares, mas eu tenho a sensação que agora pode ter duplicado.
A refeição mais estranha, qual foi?
Talvez no norte de Benin, quando visitei uma pequena comunidade dos Fulani. Eles ofereceram-me um pequeno almoço que era um género de uma papa de cevada com leite. Não era muito saborosa. Mas na mesma comunidade aprendi a fazer um queijo que coagulava muito rapidamente com o uso de uma planta. E foi muito interessante, mas é uma refeição que eu não preciso de repetir.
Para fechar, gostava de viajar com?
Mais tempo.
Muito bem. Já tens viagens planeadas, Inês?
Já. Daqui a dois dias vou para o Malawi e depois também faço Zâmbia e acabamos nas Victoria Waterfalls.
Muito bem, espetacular. Boa viagem!
Obrigada.
Boa. Qual foi a música que escolheste, Inês, para fechar a conversa desta semana?
Foi uma música de um grupo de tuaregues do sul da Argélia, norte do Mali, que se chama Tinariwen. Não vou dizer o nome da música, que é para não me espalhar muito. Simplesmente oiçam.
Mas é a música do deserto, não é?
É a música do deserto.
Muito bem. Eu também não vou dizer o nome, porque senão vou me embrulhar aqui todo. Muito bem. Inês, foi um gosto. Muito obrigado.
Muito obrigada.
Música do deserto a fechar a conversa do Fim do Mundo desta semana. Estamos de regresso dos oito dias, já sabem. Sejam bons e boas viagens. Boa, Inês, obrigado.
Obrigada.