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Bem-vindos. A viajante desta semana é uma inspiração, como são todos os viajantes que por aqui passam e vão passar. Mas esta é mais. Faz-nos ver o mundo através do seu blog e confronta-nos com o nosso egoísmo coletivo quando fechamos o mundo à diferença. A nossa viajante desloca-se em cadeira de rodas, vive em Setúbal, boa terra, está aqui hoje para nos contar por onde tem andado e até onde quer ir. Olá, Sofia Martins.
Olá, João, obrigada pelo convite.
E até onde é que tu queres ir, Sofia?
Não tenho limites.
Não? Assim mesmo é que é, o mundo.
É o mundo, o mundo é o limite.
Também fazes parte daquele clube de pessoas sonhadoras que querem conhecer o mundo inteiro?
Não.
O mundo todo, não.
Não tenho tempo para isso. Tempo, dinheiro.
Sim.
Não é impossível, mas também não é muito fácil, em cadeira de rodas, ir a todo o lado. Mas não é impossível, quem sabe?
Claro que não. A cadeira de rodas, de resto, não é uma limitação.
Não é uma limitação. Torna tudo um pouquinho mais complicado e mais difícil, mas não é uma limitação. Aliás, é ela que me permite ir a todo o lado.
Muito bem. Olha, entre os ciclistas há um fetiche a nomear as suas bicicletas. Tu tens nome pra tua cadeira de rodas? Não.
Não.
Nem nunca te passou pela cabeça isso, sequer? Nada.
Nem nunca me passou pela cabeça. É uma boa pergunta, João. Vou pensar nisso agora.
Quem sabe?
Nunca é tarde.
Nunca é tarde. Muito bem. Sofia, por onde tens andado a viajar e a contar histórias no teu blog, o "Just Go"?
Tenho andado por vários sítios. Nova York, Canadá, Toronto, Quebec, Europa por muitos sítios, Ásia, China, Dubai. Dubai mais de passagem. E em breve, ao Japão e à Coreia.
Vais ao Japão?
Espero que sim.
E à Coreia?
Espero que sim.
Muito bem.
É um sonho ir ao Japão.
Por quê?
Não sei.
O exotismo, a diferença.
Eu acho que sim. A primeira vez que fui ao Oriente, fui à China e gostei muito. E portanto, depois houve este desejo de ir até ao Japão e espero que seja em breve. Pelo menos está planeado.
Muito bem, vamos torcer para que vás então ao Japão e à Coreia do Sul.
Sim.
Tragas de lá boas histórias para contar.
Espero que sim.
Tens boas histórias para contar da China?
Da China. A China foi uma viagem que gostei muito. Foi outro sonho, que foi ir à Muralha da China também. Não foi fácil lá chegar, mas cheguei.
Não é fácil.
Se calhar não é fácil pra ninguém.
Pra ninguém.
Mas sim, fomos de carro até certo ponto, depois tivemos que apanhar um autocarro, onde também não foi fácil entrar, até porque eles entraram todos antes de mim e quase que já não havia sítio pra eu me sentar.
Caramba, lá não há políticas de inclusão?
Eu acho que eles são tantos, que eles têm este desenrasque, que quando eu os confrontava de frente, eles eram delicados e afastavam-se e davam-me o lugar. Mas ali, de repente, eu acho que não me viam. É o desenrasco, acho eu.
Pois, toda gente é invisível ali, não é?
Talvez, talvez sim.
Que horror!
Mas são simpáticos. Não, eu não tenho razão de queixa.
Eu já tive aqui um viajante que disse que na China nem sequer as filas pro multibanco ou pro autocarro respeitam.
Eu fiquei mesmo com essa sensação, que é a maneira de eles se desenrascarem, porque depois quando eu os confrontava, eles eram muito simpáticos e davam-me a vez e, portanto, eu acho que deve ser cultural, creio eu.
Deve ter a ver com a maneira com eles olham para o espaço e gerem o espaço, porque deve ser totalmente diferente para um-
São muitos
...para um português. Exato. Para um português ver o mundo à sua volta do que para um asiático, onde há uma grande densidade populacional.
Sim, atravessar as estradas não era fácil. Eram muitas motas e eu ali no meio deles, às vezes metia medo mesmo.
Mas o que é que achaste da China, Sofia?
Eu achei duas realidades diferentes na China: aquele lado moderno e desenvolvido e depois um lado já ainda muito lá atrás.
Portanto, uma China tecnologicamente muito avançada, já muito urbana versus uma China muito rural.
Sim. Nota-se, por exemplo, falar inglês com as pessoas mais novas. Com as outras não falam muito inglês. Portanto, eu acho que se nota uma grande diferença das camadas mais jovens para as camadas mais velhas e também na própria cidade, em termos de acessibilidades.
Na cidade?
Das cidades. Xangai.
E Pequim.
Sim. E Hong Kong, que também já é chinesa. Em termos de acessibilidades, eu notei que elas existem, mas como estive nestas cidades mais desenvolvidas, se calhar, se nos afastarmos um bocadinho, talvez seja mais complicado em termos de acessibilidades. Ali não tive grandes dificuldades de andar na rua. Portanto, mas há bocado, como explicava, depois de conseguir entrar no autocarro, que não foi fácil.
Sim, na tal ida à Muralha da China.
Na tal ida à Muralha da China. Depois ainda tivemos que entrar no teleférico, que não parava e portanto eles arranjaram tudo para quando ele passasse, o Fernando, meu marido, me conseguisse empurrar lá para dentro. Mas houve uma pessoa que decidiu entrar antes de mim. Só para veres que eu estava ali, não sei como é que ela não me viu. Ou seja, eu tive que lhe dar um empurrão para não a magoar com a cadeira, porque ela pôs mesmo à minha frente. E depois, sim, lá cheguei. Eram muitos.
Na Muralha da China.
Na Muralha da China. E assim que cheguei havia degraus, porque a Muralha da China é muito em degraus. Mas foi um privilégio enorme estar ali e conseguir ver aquela obra tão grandiosa.
Aquilo é incrível.
É incrível.
Como é que é possível ter-se feito uma coisa daquelas, com aquela dimensão? É inimaginável. Nem sei, teria que ir procurar quanto tempo terá demorado a construir a Muralha da China.
Sim, algum tempo.
Muitas décadas.
Ou mais.
Ou mais. O que é que sente? Foste lá mesmo acima, mesmo à Muralha?
Sim, estive mesmo na Muralha, estive lá em cima, consegui ver, não consegui percorrê-la, porque havia logo degraus, mas consegui ver e consegui apreciar e foi fantástico.
Um privilégio.
Sim, muito grande. Foi muito bom. Por isso não há limites, é só querermos. Podem me dizer: "Mas não percorreste." Não me interessa. Estive ali, consegui ver, consegui apreciar. Por isso é mesmo just go.
Ir, simplesmente.
Não deixar de ir, sim.
Claro. É isso que te motiva a ir por ir?
Sim. É ir. Claro que quando chego também tenho uma sensação de vitória e de superação, porque às vezes também não é fácil fazer estas coisas. Às vezes, mesmo quando as viagens não correm muito bem, quando eu chego, a sensação de ter ido e de ter conseguido. Aliás, é isso que me faz logo marcar a próxima viagem. É. Eu se pudesse desistir de todas as viagens que marco, que metem avião, eu desistia na véspera.
Por quê? Porque para uma pessoa que viaja em cadeira de rodas é um martírio, não é?
É um martírio mesmo. É muito complicado.
Desculpa abordar a coisa assim com palavras fortes, mas é.
É.
O mundo não está mesmo preparado, infelizmente.
É como eu digo, eu se pudesse desistir das minhas viagens todas, na véspera de fazer uma grande viagem de avião, eu desistia. Aliás, eu estou em pânico neste momento.
Por quê? Mas não se nota.
Estou aqui entusiasmada a falar de viagens.
Boa. Mas estás em pânico por quê?
Porque vou fazer uma grande viagem, portanto vão ser muitas viagens de avião.
Pois, mas explica-me como é que é, para quem nos ouve. Viajar em cadeira de rodas é um martírio?
Viajar de avião.
De avião. Por quê?
Se pudesse, eu ia de carro a todo lado. Porque o carro dá-nos uma independência muito maior. Eu acho que a qualquer pessoa, mas a nós muito mais. Entrar no avião é ficar completamente dependente de outras pessoas, até porque não consigo entrar sozinha. Portanto, antes de entrar no avião, eu tenho que me passar para uma cadeira mais pequenina que entra no corredor do avião e que eu não posso levar sozinha, tenho que me empurrar, porque não tem rodas. Quer dizer, tem rodas, mas não que eu possa manobrá-las. E portanto, a partir desse momento, eu estou dependente de outras pessoas e é realmente muito desconfortável.
Pois. E depois a tua vai para o porão e às vezes perde-se. Já se perdeu ou não?
A minha não.
Não, ah boa.
Felizmente, não tenho nenhuma história desagradável, mas sim, muitas pessoas têm.
Caramba!
Partem as cadeiras.
Oh, não.
Sim, é muito complicado. Eu acho que há pessoas que deixam de viajar por causa disso. Eu, felizmente, ainda não aconteceu nada.
Ainda bem.
E portanto espero que não venha nunca a acontecer.
Não vai.
Eu pelo menos vivo nessa esperança.
Mas olha, há pouco dizias que houve viagens que já correram muito mal. Já tiveste assim grandes desastres?
Não. Quer dizer, tive uma viagem que correu muito mal.
Conta.
Primeira viagem que tive o acidente e que fiquei paraplégica e numa cadeira de rodas. Essa foi a primeira, porque foi em viagem que me aconteceu. E a segunda foi também em Londres. Eu enfiei a roda da frente da cadeira no buraco e caí e parti o colo do fêmur e tive uma série de complicações de saúde por causa disso. Devia ser o único buraco em Londres que eu fui lá enfiar.
É sempre assim, não é?
Dizem que os buracos são em Portugal. E pronto, essas foram as duas maiores desgraças que eu tive em viagem. E acho que já tive a minha dose, já não vou ter mais desgraças.
Claro que sim. Não, batemos na madeira para não voltar a haver desgraças. Olha, Sofia, e grandes vitórias em contexto de viagem?
São todas.
Todas?
Todas. Eu acho que todas as viagens em que eu vou e venho são uma vitória. Grandes vitórias. Posso falar aqui da viagem da Islândia.
Fala.
Viagem da Islândia, quando chegamos, estava um frio de rachar, como deve estar quase sempre lá. Era agosto, portanto, não deve ficar muito melhor do que aquilo. E o vento. O vento é tanto, que assim que cheguei também me arrependi de ter ido para a Islândia e cheguei a pensar em ficar os dias todos no hotel e não sair do hotel. Porque o vento era muito mesmo. Eu tive dificuldade de sair do hotel até entrar no carro. Portanto, foi uma pequena deceção. E achei: "Pronto, isto vai ser uma desgraça".
Mas depois aproveitaste, viajaste pelo país, não é?
Foi maravilhoso.
É outro mundo, não é?
Em termos de beleza natural, é espetacular. Aconselho a todas as pessoas. E a Islândia tem duas situações, uma Islândia de inverno e uma Islândia de verão. Eu acho que são completamente diferentes, apesar de eu nunca fui no inverno, mas aquilo que eu vi foi tudo verde, tudo muito bonito. No inverno deve estar tudo branco, deve ser outra realidade diferente. Essa eu não irei conhecer.
Não voltas à Islândia? Não está nos teus planos?
Poderia voltar, mas no verão, porque não aguento muito frio. E até porque para mim, quem vai no inverno é para fazer outras atividades que para mim serão mais complicadas. Portanto, eu aconselho no verão. É lindíssimo.
Na Islândia tiveste a oportunidade de sair de Reykjavik, andar por lá?
Sim, fizemos o Golden Circle, que é um dos percursos mais turísticos e mais conhecidos. Alugámos o carro.
É uma estrada que eles têm lá na Islândia, que circunda a ilha, porque na verdade aquilo é uma ilha gigantesca, mas é uma ilha.
Sim, mas é muito bonito, vale muito a pena, é lindíssimo. E ver o iceberg. Cada esquina tem uma paisagem diferente, portanto é lindíssimo.
E os islandeses são muito simpáticos e acolhedores, não são? Ou não tens essa opinião?
Não tivemos grande contacto.
Apesar de ser um país muito caro, não é?
Caríssimo, muito caro mesmo. Sim. É ir ao supermercado comprar qualquer coisa para comer e levar no carro, porque é mesmo muito caro.
Pois. Mas ias a dizer, não tiveste a oportunidade de interagir com islandeses.
Não interagimos muito porque nós fomos dar a volta de carro. Aliás, nós íamos parando naqueles pontos mais turísticos e íamos encontrando as mesmas pessoas, mas eram turistas que também andavam como nós. Normalmente é o que a maior parte das pessoas faz, ou vai em excursão ou aluga um carro e fazem o percurso como nós fizemos. E não houve grande interação. Em termos de acessibilidades, também não foi a melhor experiência que tive.
Não?
Não, um dos hotéis que alugámos, que era suposto estar adaptado, também não estava. Ainda nos trocaram depois para outro quarto só porque era maior. Mas não, também não foi o melhor.
Já tiveste muitas surpresas, suponho.
Tenho muitas.
Hotéis a garantir serviços para pessoas com mobilidade reduzida e depois chegas lá e bam, nariz na porta.
Tenho muitas, a última foi ano passado.
Conta.
Foi o ano passado em Salzburgo.
Olha quem diria.
Quem diria mesmo, eu não ia à espera.
A superdesenvolvida e respeituosa Áustria. O que fizeram?
Eu reservei um quarto adaptado num hotel novo, de quatro estrelas e eu pedi o quarto adaptado e não fiquei à espera de resposta, porque com a minha experiência, algo me disse que não era preciso, porque ia estar adaptado de certeza.
Se eles o anunciavam.
Com certeza. Quando cheguei na recepção, paguei, perguntei se o quarto era adaptado, disseram que sim. Subi ao quarto e eu nem sequer passava entre a cama e a parede para chegar à casa de banho, portanto não era nada adaptado.
E tinha um quarto adaptado ou nem tinham?
Não, eles quiseram-me dar o dinheiro e que eu me desenrascasse. Nem sequer me queriam ajudar e eu não saí do hotel enquanto não me ajudaram a arranjar outro hotel.
E tu engrossaste a voz e apertaste com eles.
Eu engrossei, o Fernando engrossou ainda mais do que eu.
O teu marido.
O meu marido. Mas não foi nada simpático, não foi uma experiência nada simpática. Quem diria, na Áustria.
É verdade.
Portanto, é uma dor de cabeça organizar uma viagem para quem está numa cadeira de rodas.
É uma boa ponte para a pergunta que tenho: como é que se organiza uma viagem destinada a uma pessoa que se movimenta em cadeira de rodas, Sofia? É preciso ver tudo, checar tudo, prever tudo, não é?
É. Se quisermos ter tudo garantido, não vamos.
Há sempre surpresas.
Há sempre surpresas. Aliás, como a que acabei de contar. Temos dois grandes problemas: um é o alojamento, o outro é os transportes. Normalmente eu vou com o alojamento marcado, porque ir à aventura ainda é mais complicado. Garantir que o hotel e que o quarto é adaptado é mesmo isto, é marcar, mandar mensagem, ficar à espera de resposta. Normalmente, a resposta é que não têm. Isto por quê? A garantia de ter um quarto adaptado normalmente é maior em hotéis de quatro, cinco estrelas. Se bem que agora em hotéis de menos estrelas também já se vai conseguindo arranjar quartos adaptados. Isto porque, só aqui um à parte, nos últimos anos houve uma grande evolução nesta questão das acessibilidades, em tudo. E os últimos anos é mesmo os últimos anos, é mesmo há muito pouco tempo. Eu há relativamente pouco tempo ainda viajava com uma tábua para pôr na banheira para eu conseguir tomar banho. Há pouco tempo. Depois de eu pedir se o quarto é adaptado e se está disponível, porque os hotéis normalmente têm um a dois quartos, também pode existir e não estar disponível, já estar reservado pra outra pessoa. É ficar à espera que respondam. Quando respondem, normalmente não há ou não está disponível, é ir reservar outro hotel, fazer a mesma pergunta. Depois de ter isso tudo garantido, e aquilo que estou a fazer neste momento pro Japão, é pedir fotografias, que eu nem sempre peço. Normalmente eu não peço.
Ou seja, pra teres mesmo a certeza.
Pra ter mesmo a certeza.
Claro, do que vais encontrar.
Do que vou encontrar.
No Japão não pode haver surpresas. Quer dizer, em lado nenhum pode haver surpresas.
Em lado nenhum. Qual é a vantagem que tenho? É que não viajo sozinha, viajo acompanhada e portanto quando as coisas não estão preparadas, eu tenho sempre ajuda.
Tens um super-homem ao teu lado.
Tenho um super-homem ao meu lado.
Muito bem. Sofia, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o teu álbum de viagem. Qual é o objeto que guardas em casa, que seja especial e tenhas trazido das tuas viagens?
É um colar da primeira viagem que fiz com o Fernando, que ele me ofereceu e guardo com muito carinho.
E colar é esse e onde é que ele te foi oferecido?
Foi na República Dominicana. E é um colar muito simples.
É banal, mas tem um grande significado pra ti.
Tem um grande significado pra mim.
Usa-lo ou está guardadinho?
Está guardadinho.
Está guardadinho.
Pra não estragar.
Muito bem. Final da primeira parte das Conversas do Fim do Mundo desta semana. Regressamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com Sofia Martins, autora do blog "Just Go", que poderíamos traduzir como "vai simplesmente". E ir é o que a Sofia tem feito nos últimos anos. Sofia, já tiveste a oportunidade de confrontar cidades e lugares que conhecias antes dos teus 23 anos e à altura em que tiveste o tal acidente rodoviário, e que te colocou na situação de andar de cadeira de rodas. Já confrontaste esses dois mundos? O que é que nos podes dizer sobre isso? Estamos a evoluir ou não?
Olha, nem que seja em Portugal.
Sim, em Portugal, sim.
Em Portugal confrontei. Já que vivia cá antes e vivo cá depois. E como eu dizia há pouco, houve uma grande evolução nos últimos anos. Em termos de espaço público, de rua, de passeios rebaixados. Por exemplo, na minha cidade.
Setúbal.
Setúbal, a maravilhosa Setúbal. Até há pouco tempo não era muito fácil sair sozinha. Neste momento eu consigo sair sozinha e ir a muito sítio, porque está a ficar muito bom. Até as praias estão acessíveis e portanto nota-se uma grande diferença. Em relação a outros países, Espanha foi onde eu tive o acidente. É um país que eu costumo dizer que é um dos países mais acessíveis onde já estive.
Espanha?
Espanha, sim. Quando nós não estamos assim, não reparamos muito nas coisas. Esta é uma realidade que comecei depois a reparar de estar assim.
Mas vale pra tudo. Nós só nos colocamos na pele dos outros quando, de facto, vivemos na pele dos outros.
É isso mesmo. É um bocadinho isso que eu também acho que faço quando saio à rua e quando saio nestas viagens, é também pra chamar a atenção. Esse é outro dos objetivos do meu blog. Um é partilhar as minhas experiências e como é que organizo as viagens. E outro é chamar a atenção pra questão das acessibilidades, porque as acessibilidades são mesmo pra todos. Eu também achava que nunca ia precisar. Eu acho que as pessoas têm que estar despertas e têm que estar atentas, porque todos nós, numa altura da nossa vida, vamos precisar, nem que seja porque temos um pai, temos um tio, temos um familiar.
Ou nós.
Nós próprios, claro.
Porque caímos e nos aleijamos, porque os nossos joelhos começam a vacilar. Isso vai acontecer.
Quando nascem os bebês, os pais vêm sempre falar comigo: "Ah, agora é que eu percebo". É pra todos mesmo. Por isso não há como não ter atenção a estas questões.
Muito bem. Eu acho que cada vez mais estamos todos mais despertos pra isso.
Sim, eu tenho essa noção. Eu acho que sim. Cada vez mais as pessoas estão despertas e por isso é que eu também acho que as coisas vão evoluindo. Também o fato de cada vez mais se ver pessoas, neste caso em cadeira de rodas, na rua, porque há uns anos não se viam, agora começam-se a ver mais. Por exemplo, eu estive num hotel, num turismo rural no Alentejo há uns anos, que estava aberto há dois anos e eu fui a primeira pessoa a pedir um quarto adaptado.
Em dois anos?
Em dois anos.
Pois.
Por isso também o fato de as pessoas começarem a sair e a começarem a pedir as coisas, porque senão também as pessoas dizem: "Ah, eu não preciso, não vem cá ninguém".
Pois é.
Mas também se não tiverem, é claro que não vai lá ninguém. É uma pescada de rabinho na boca.
Não há oferta, não há procura. Também se não há procura, também não há oferta e não saímos daqui.
Também temos que sair. Também temos que sair e mostrar que queremos sair e que precisamos das coisas.
E fazes bem em sair. E tens saído muito. Havaí, conta-me lá.
Havaí foi uma boa surpresa.
Li no teu blog que foi lá que viste o pôr do sol mais bonito de sempre. Mais bonito até do que na Serra da Arrábida.
Não, eu não disse isso.
É verdade, tens razão. Estou a apimentar a coisa.
Sim. Não, eu disse que foi um dos pôr do sol mais bonitos que vi. Não disse que foi o mais bonito de todos. Porque eu acho que isso gera logo uma discussão, porque toda a gente acha que já viu o pôr do sol mais bonito. E toda a gente já viu, claro. Mas sim, foi um pôr do sol bonito. O Havaí foi por acaso, não foi um destino que eu quisesse muito ir, mas surgiu. Foi na nossa lua de mel.
Boa!
Nós decidimos que queríamos ir a Nova Iorque há muito tempo, nunca tínhamos ido e, portanto, Nova Iorque estava na nossa lua de mel. E de repente surgiu o Havaí ali por acaso e por que não? E ainda bem que foi. Não sei se lá voltarei um dia, não me importava.
Quem sabe?
Mas o mundo é tão grande que não podemos andar aqui a repetir muitos destinos. Mas gostei muito. Nós íamos para resorts. Fomos três anos para as Caraíbas, porque eu queria água quentinha, azul-turquesa, aquele paraíso, não é? Só que nos resorts nas Caraíbas, eu não saía muito do resort. Ainda por cima ficávamos sempre na mesma cadeia, era tudo igual. Naquilo nem sabíamos que mudávamos de país. E portanto quando fomos ao Havaí e a Nova Iorque descobrimos: "Espera aí, há aqui um mundo cá fora disponível e acessível e onde eu posso fazer muitas coisas". E portanto, o Havaí foi uma transição de estar ali também num paraíso, mas poder andar na rua e poder fazer tantas outras coisas.
É uma região preparada para pessoas que têm mobilidade reduzida? É sensível a essa realidade?
Sim, estava acessível. Já foi há uns anos, mas acredito que ainda possa estar melhor agora.
Esperemos.
O mundo inteiro espero que esteja todo melhor agora. Por isso, sim, foi uma boa surpresa.
Então mas conta-nos o que é que fizeste no Havaí, Sofia. Não foste só ver as vistas.
Não. Olha, vi uma pessoa em cadeira de rodas, tetraplégica, fazer surf pela primeira vez. Nunca tinha visto.
Tu experimentaste surf adaptado ou não?
Não experimentei. Mas por acaso foi muito engraçado, porque nós tínhamos acabado de chegar e o Fernando foi fazer um passeio. Eu estava muito cansada, fiquei no quarto e depois decidi sair e dar uma volta por ali e ia ali ao longo da praia e de repente vejo, vem uma carrinho na minha direção e começam a fazer adeus. E eu pensei: "Bem, não é para mim". Olhei para trás, de certeza que não é para mim, mas não vinha ninguém atrás de mí, até que percebi: "Não, espera aí, é mesmo para mim". Não conheço ninguém aqui do outro lado do mundo. E de repente eu vi o símbolo do dístico de mobilidade reduzida e percebi: "É para mim". Não que eu alguma vez fosse fazer adeus a alguém numa cadeira de rodas que ia passar por mim, mas pronto. Depois percebi, porque ele realmente era um cromo muito simpático, porque eu fiquei à espera dele, fiquei à espera que ele saísse da carrinho, estivemos ali a conversar um bocadinho e então ele ia fazer surf e eu estive ali a ver como é que ele ia fazer. Foi a primeira vez, já sabia que existia, mas nunca tinha visto.
Surf adaptado?
Surf adaptado. E pronto, e olha, e foi muito engraçado.
Então não te deu vontade de experimentar?
Não.
Então...
Não sou assim tão aventureira.
Deixaste a coragem em Setúbal antes de ir para o Havaí.
Não, não fui por acaso. Tinha sido giro, não é? Mas não, não fui. Mas pronto, olha, vi e já foi muito simpático. Depois alugámos um carro, o nosso Mini amarelo, continua no nosso imaginário, o nosso Mini amarelo, e fomos dar uma volta à ilha. Muito bonito, em termos de paisagem natural também. Muito bonito. Vale a pena.
Muito bem. Olha, e tu como viajante, Sofia, és aventureira, conservadora, como é que é?
Eu não sou nada aventureira.
Não?
Nós levamos tudo muito planeado e muito organizado. Se formos de carro, aventuramos um bocadinho mais, quando vamos para outros sítios de avião, convém ter tudo assim um bocadinho mais organizado. Quando vamos para mais perto, aventuramos um bocadinho mais, porque nem que seja pegamos no carro e vimos embora.
Pois.
Mas não sou muito aventureira. Temos tudo muito organizadinho e muito pensado.
Não há lugar ao improviso nas tuas viagens.
Algum há. Ou seja, o facto também de estar em cadeira de rodas faz com que seja um bocadinho mais cautelosa.
Pois.
Sim. E gostamos muito de destinos de cidades. Eu gosto muito de cidades.
Ah é?
Pronto, já falei aqui do Havaí e da Islândia, não é? Que não são cidades.
Não são cidades. Mas então vamos lá a cidades.
Eu gosto muito. Gosto de me misturar, de andar nas ruas e de ver como é que a cidade funciona. Aliás, detesto cidades ao fim de semana, porque não vejo ali o movimento do dia a dia. Gosto mesmo de andar ali no meio. Se bem que quando fomos à Escandinávia, foi em Copenhague, nós apanhámos as festas da cidade Então também nos misturamos lá nas festas. Estivemos mesmo a fazer um piquenique com eles na rua.
São muito conviviais os dinamarqueses, não é?
Muito. Foi muito giro também.
Juntam-se muito em famílias, em piqueniques.
Sim, e eles têm um festival que nós apanhámos que é o Distortion, que é a maior loucura, porque cada rua tem um palco com banda e com DJs e com tudo. E eles estão todos na rua, literalmente.
É um fim de semana para, como se diz, soltar a franga.
Tudo. Aliás, eles vão naquelas bicicletas que levam os miúdos dentro do carrinho à frente e o cão, vai tudo no carrinho. Também foi muito giro. Portanto, sim, ao fim de semana também às vezes se apanham ocasiões engraçadas.
Olha, e gostas de cidades? A cidade mais bem preparada para pessoas com a mobilidade reduzida?
Essa é a pergunta da frase. Eu tenho alguma dificuldade em responder essa pergunta. Por quê? Como eu já disse, houve uma grande evolução nos últimos tempos. Por isso, um sítio onde eu tenha estado há muito tempo, por exemplo, Rio de Janeiro, onde eu estive há 23 anos, neste momento pode estar muito melhor e eu estou aqui a dizer que se calhar não.
Inverdades.
Inverdades.
Ok. Não, mas assim dos sítios onde já passaste, uma que te deixou mesmo bem impressionada.
Eu costumo muito falar em Berlim, porque realmente me deixou muito bem impressionada. Também é uma cidade que foi reconstruída depois da guerra. Portanto, avenidas largas, passeios largos, passeios em calçada, mas que têm uma faixa lisa para que as pessoas possam andar, não só cadeiras de rodas.
Pois, porque a calçada portuguesa é bonita, mas aquilo é um pesadelo.
É, para nós é um pesadelo mesmo. Não é só para nós. Aliás, vê-se com os percursos agora que existem, ciclovias e os percursos pedonais, e as pessoas vão lá. É por alguma razão.
É verdade.
Por isso há que pensar nisso.
Portanto, Berlim, uma cidade bem preparada.
Sim, eu diria. Eu falo muito em Berlim, é porque tive algum impacto lá. Sempre que me fazem essa pergunta, eu falo em Berlim, não quer dizer que não haja outras. Também em Viena, que estive o ano passado. E até mesmo Salzburgo, que eu fiquei com aquele pesadelo do hotel em Salzburgo, mas também estava preparada para quem se desloca em cadeira de rodas.
Cidade da música. Foste à procura da música em Salzburgo?
A música encontrou-nos, que estava na rua, porque fomos mesmo na semana em que é o festival da música.
Sim.
Portanto, encontrámo-la pelas ruas.
Muito bem, encontrámo-la porque estás a falar do Fernando. O Fernando está aqui. Olá, Fernando.
Boa tarde.
Estava caladinho, ele achava que eu não o ia chamar. Foste apanhado. Então, Fernando, conta-me lá como é que é viajar com a Sofia?
É diferente.
É diferente.
Tem que ser um pouco mais de organização.
Sim. Olha, qual foi a melhor viagem que já fizeram até hoje?
Tivemos viagens muito espetaculares.
Conta.
A Sofia falou das cidades. Nós gostamos muito de cidades. Nós gostamos muito de cidades, é um facto, e cidades ricas culturalmente, mas por outro lado, gostamos da viagem por si, ou seja, andar no comboio, andar no barco. Ela não gosta do avião, para mim não faz tanta diferença.
A Sofia tem medo de voar, tem medo das alturas?
Não, é mais pelo-
É a logística?
É a logística. A logística é que é complicada. Por isso é que nós, por exemplo, quando fazemos uma viagem, gostamos de fazê-la por exemplo, fazer umas três ou quatro cidades, com estas nuances de fazer o comboio, fazer o barco, fazer carro, porque torna mais rico. E por quê? Porque ao fazermos isto, passamos por sítios que geralmente fogem à parte turística.
É verdade. E permite andar misturado com as pessoas. Também vão no comboio e nos autocarros olhar para os outros. "Olha ali, como é que, olha, vê como é que as pessoas fazem isso", a avaliar. Quer dizer, não é a avaliar, mas a observar. Os locais fazem isso.
Sim.
Boa.
E são essas particularidades que tornam as viagens interessantes. Nós, por exemplo, das viagens que eu gostei mais de fazer, quando fomos ao Canadá, estivemos nos Estados Unidos também e fizemos o Quebec, Toronto, Montreal, fomos ao Niagara, fomos a Buffalo e percorremos aquilo de carro, comboio, aviões internos também e tudo aquilo. Ou seja, aquelas deslocações todas por aquelas terriolas, estava-me a lembrar de uma terriola muito engraçada onde produzem vinho ali na zona, aquele vinho daquelas colheitas de inverno, Niagara-on-the-Lake. Encontra-se assim cantinhos giríssimos com as pessoas e coisas giríssimas. Pronto, aqui podíamos continuar, mas eu também não quero estar aqui a...
Não, podes continuar. Eu não sei se reparaste, mas a Sofia está com os olhos todos iluminados a olhar para ti.
Essa, de facto, foi uma viagem que eu achei muito gira.
Boa.
Outra viagem que, por exemplo, que eu gostei muito Foi também à China, que a Sofia já falou um pouco.
Da Muralha da China.
Da Muralha da China e fomos a Macau, Hong Kong. Hong Kong foi também umas peripécias, porque aquilo é complicado, porque às vezes não se consegue passar para as ruas, para o outro lado da rua. Tem que se subir, entrar por prédios para ir para o outro lado da rua, naquela zona central da ilha, que aquilo ali é complicado.
Labiríntico. É labiríntico, Sofia.
É mesmo. Não é assim também tão fácil.
Mas o encanto também é esse, não é? Encontrar dificuldades.
Claro. Nós fartamo-nos de encontrar.
Algumas. Não muitas.
Algumas para poder contar depois.
Exato. Boas histórias para contar aos amigos. Olha, estamos a chegar ao fim ou quase ao fim do programa. Vamos fazer check-out?
Vamos.
Vamos embora.
Vamos embora.
Então vou pedir para completares as seguintes frases: na minha mala vai sempre...
Olha, vai sempre um stick de selfie que eu nunca uso.
Um selfie stick, aquele pau de stick.
Sim.
O pau de selfie que nunca usas.
Que eu nunca uso e estou aqui com o compromisso de não o levar mais.
Muito bem. Olha, faço parte desse clube também, fica sempre no fundo da mala. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual foi, Sofia?
Talvez a China.
A China.
Talvez a China.
Aquele caos. Não é compatível com o nosso modo de vida e de estar e de analisar o espaço.
Sim, mas é possível, por exemplo, andar de metrô em Hong Kong em hora de ponta, eu consegui.
Conseguiste?
Consegui, tudo organizado. Portanto, é possível.
Claro. Aliás, tudo é possível.
Tudo é possível, claro.
O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter até hoje?
Olha, foi quando fomos ao Canadá e decidimos ir a Buffalo, nos Estados Unidos, e eles acharam muito estranho, o que nós estávamos ali a fazer, o que nós queríamos ir fazer a Buffalo. Fomos revistados, pararam-nos, tivemos que ir explicar o que íamos fazer. Não sei, ficaram assim mesmo a olhar para nós e depois lá nos deixaram passar. Foi o mais difícil, por estranho que pareça.
Pois. Olha, a recordação de viagem mais cara?
A viagem mais cara?
A recordação.
A recordação. Olha, também foi no Canadá.
No Canadá.
Uma mala que eu comprei que também nunca usei. E adoro a mala, mas nunca usei porque é muito grande e não me dá jeito nenhum. Portanto, olha, foi a recordação mais cara, mesmo que não tenha sido muito cara.
Pois, o Fernando abana a cabeça. Ele sabe qual é a mala. É ou não é, Fernando? A refeição mais estranha, qual foi, Sofia?
Foi na China. Quando nós parámos em Macau, nós fomos a um cassino lançar uma moeda e comemos qualquer coisa. E estava um senhor ao nosso lado com um prato cheio de malaguetas e com uns bocadinhos de carne lá dentro e nós pensávamos: "Mas como é que é possível ele estar a comer aquilo? Porque aquilo deve ser uma bomba". Mas nós depois experimentamos e não é assim tão bomba, até conseguimos comer.
Não picava?
Picava, mas não era nenhuma bomba. Mas foi estranho estar a comer um prato cheio de malaguetas.
Não ficaram com a boca como se fosse um lança-chamas?
Um bocadinho.
Um bocadinho. Boa. Gostava de viajar com?
Olha, gostava de fazer uma viagem sozinha.
Sim.
Apesar de eu gostar de viajar acompanhada, e é muito mais seguro para mim, mas gostava de ter essa experiência, de ir um dia sozinha.
Do desafio?
Sim, do desafio. Mais do desafio do que se calhar– ou seja, para ver se conseguia. É mais o desafio, sim.
Tu consegues. Tenho a certeza.
Consigo.
Claro que sim, toda a gente consegue tudo, caramba. Sofia, agora sim, chegamos ao fim. Qual foi a música que trouxeste para fechar a conversa do fim do mundo esta semana? E por quê?
Trouxe o "New York" da Alicia Keys, porque foi a nossa música de casamento e de lua de mel, por isso é que fomos a Nova York. Não, a música vem daí. Por isso é essa a minha escolha.
Uma música de amor, não é?
É isso.
Boa, muito bem. Sofia e também Fernando, obrigado.
Obrigada pelo convite.
Foi um gosto. Alicia Keys a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Estamos de regresso hoje oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.
On the avenue, there ain't never a curfew. Ladies work so hard. Such a melting pot, on the corner selling hot. Preachers pray to God. Hail a gypsy cab, takes me down from Harlem to the Brooklyn Bridge. Someone sleeps tonight with a hunger for more than an empty fridge. I'ma make it by any means, I got a pocket full of dreams. Baby, I'm from New York. Concrete jungle where dreams are made of. There's nothing you can't do. Now you're in New York. These streets will make you feel brand new. Big lights will inspire you. Here in the New York, New York, New York. One hand in the air for the big city. Street lights, big dreams all looking pretty. No place in the world that can compare. Put your lighters in the air. Everybody say yeah yeah, yeah yeah. New York. Concrete jungle where dreams are made of. There's nothing you can't do. Now you're in New York. These streets will make you feel brand new. Big lights will inspire you. Now you're in New York. Concrete jungle where dreams are made of. There's nothing you can't do. Now you're in New York. These streets will make you feel brand new. Big lights will inspire you. Here in the New York