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Sejam bem-vindos. Quando a pandemia nos fechou em casa, os dois viajantes desta semana começaram a tirar o pó a um veículo todo-o-terreno. Começaram com pequenos passeios à porta de casa e a coisa foi crescendo. Lançaram-se depois à conquista de dois desertos em Espanha. Conquistadas as areias espanholas, aventuraram-se pelas areias marroquinas e em 2024, e com mais experiência na bagagem, percorreram 10 mil quilômetros pelo continente europeu e recentemente realizaram uma grande viagem por África. São pai e filho. O filho chama-se Lucas, o pai, Nuno Ferreira. Bem-vindos, aventureiros.
Boa tarde, João. Obrigado por estar connosco.
Vieram de Jeep para esta conversa?
Por acaso, não. Ainda está meio sujo e com as coisas para arrumar.
Está lá arrumado na garagem à espera de tempo, não é?
Está à espera da próxima.
Já há próxima ou não?
Já. Está em estudo. Temos várias hipóteses em cima da mesa. Estamos a pensar ir à Mauritânia percorrer todo o oeste da Mauritânia, entrar para o interior e fazer ali uns milhares de quilômetros só sobre dunas. Não há estradas, não há localidades, não há acessos, há muito pouca coisa e estamos a pensar. Ficámos com muita curiosidade da Mauritânia.
Muito bem. País que vocês já visitaram no vosso veículo todo-o-terreno, certo? Agora nesta viagem que fizeram por África.
Visitámos, exatamente. Foi o segundo país da nossa expedição. Foi um dos países onde estivemos agora e que nunca tínhamos estado. Depois também fomos ao Senegal, onde também nunca tínhamos estado, e estivemos muito perto da Gâmbia. Foi pena não haver tempo para visitar mais um país. Obviamente, quanto mais países se visita numa só viagem, menos tempo conseguimos estar em cada um e ficámos mesmo com essa curiosidade de explorar o país mais a fundo.
Muito bem. Esta viagem por África, que acabou há dias, certo? Levou-vos a quantos países? Quatro, certo?
Em África, três.
Se considerarmos o Sahara Ocidental.
Isso é uma longa discussão.
Sim, exatamente.
Mas totalmente diferente de Marrocos.
O Sahara Ocidental, uma antiga colónia espanhola.
Exatamente.
Tomada em 1975 por Marrocos, mas completamente diferente. Nós que conhecemos já bem Marrocos. Já lá fomos inúmeras vezes. De repente, deparamo-nos com o Sahara Ocidental, que era uma coisa muito tabu. O Sahara Ocidental acarreta uma série de problemas e de riscos fantásticos, pessoas muito mais liberais até do que em Marrocos, muito menos conservador.
É diferente.
Muito mais deserto.
Nos anos 80 e 90 era mais hardcore, não é? Porque havia os guerrilheiros da Frente Polisário.
Possivelmente, sim.
Entretanto, a luta independentista também amaciou, digamos assim.
Mas tivemos um episódio curioso numa localidade em Al-Aaiún.
Sim, precisamente.
Que íamos na rua e as pessoas cumprimentavam-nos e: "Então são de onde?" "Nós somos portugueses." "Eu sou Polisário." Um senhor com alguma idade a fazer questão de assumir a sua nacionalidade.
Ou seja, não se define como marroquino. Então vá, Portugal, Marrocos, território do Sahara Ocidental, Mauritânia, Senegal.
Junto à fronteira da Gâmbia. Percorremos muito o Senegal e regressámos.
Já agora, uma curiosidade.
Conta, Lucas.
Uma coisa gira, que não foi gira na altura, mas nós, para dar um nome redondo a esta viagem, denominámos a viagem de Alverca a Dakar. Partimos de Alverca, nós já sabíamos que não íamos só até Dakar.
Que é onde vocês vivem, não é?
Exatamente. Já sabíamos que não íamos só até Dakar, que íamos mais para sul, mas para não estarmos a dizer uma treta que ninguém conhecesse, "Ok, Alverca-Dakar". E depois fazemos mais uma volta. Curiosamente, Dakar foi o único sítio da viagem e dos únicos sítios em África e onde estivemos nestas viagens, que eu não gostei. Odiei Dakar.
Por quê?
Foi uma péssima experiência.
Uma grande densidade populacional.
Gigante, enorme, imensa.
Tivemos a experiência humana mais incrível, que posso contar em 20 segundos.
Conta.
Íamos na autoestrada em direção a Dakar e parámos numa portagem e eu ia pagar com cartão. Estávamos no Senegal há dois dias, tínhamos feito as praias, toda essa parte de deserto pelas praias e entretanto, para dirigirmos a Dakar, tínhamos que apanhar a autoestrada. E chegámos a uma portagem e ia pagar com cartão as portagens. Não se pode pagar com cartão. Aliás, não se usa cartão no Senegal, nem para levantar dinheiro, nem para pagar. É raro.
Só para levantar dinheiro, mesmo.
E desviamos 40 ou 50 quilômetros para chegar a um multibanco. Entretanto, estávamos ali na portagem. É um país muito policiado e muito militarizado e tivemos ali uma série de tempo, eu a falar com o portageiro. "E agora, como é que nós fazemos?" Porque só tínhamos 50 euros. Cinquenta euros era uma imensidão de dinheiro, o troco não era possível, não dá para pagar com cartão, o que é que fazemos? E não tínhamos moeda senegalesa. Vem a polícia e o portageiro foi connosco. Tirámos os carros da portagem, metemos junto à beira da autoestrada, o portageiro veio connosco e pagou-nos essa portagem e as portagens seguintes, duas ou três portagens seguintes, que equivalia a um décimo do seu ordenado, sem nos conhecer de parte nenhuma.
Uau.
Exatamente.
E não vos cobrou, não vos pediu dinheiro?
No dia seguinte combinámos, nós fizemos questão e pagámos-lhe muitíssimo mais do que ele nos tinha emprestado, foi ter connosco a Dakar e nós devolvemos-lhe o dinheiro em quatro vezes.
Estávamos a correr riscos sérios, porque efetivamente já estava ali a polícia, que é: "Estão aqui umas pessoas que não podem pagar a portagem". Nós já não tínhamos moeda local porque é dificílimo de arranjar e porque tudo tem que ser pago em cash, ou seja, nem um abastecimento do carro. Por exemplo, um abastecimento do carro é logo uma fortuna de moeda local que vai à vida, não dando para pagar com cartão. E então estávamos na iminência de ter que ir para uma esquadra de polícia ou qualquer coisa, porque não íamos conseguir pagar a portagem.
Já agora, o combustível é muito caro em África ou não?
Pelo contrário.
É barato.
Muito barato.
O em África é relativo. Depende dos países. Na Líbia é um cêntimo por litro.
É verdade, um cêntimo por litro.
Uau.
Mas aqui por onde andámos, eu diria que era, tanto na Mauritânia como no Senegal, entre 1 € e 1,20 €. Mais até para 1 € na maior parte dos sítios.
Bolas.
Não se recomenda é ir de gasóleo.
Estão a dizer isso e eu só vejo 2 €, foi o que paguei.
Atenção.
No fim de semana.
Na altura em que estávamos a pagar 1 €, aqui custava 2,15 €, 2,20 €.
Ui.
Agora já baixou ligeiramente aqui, se calhar lá também terá baixo, provavelmente.
Muito bem. Gostaram desta viagem?
Fantástico. Uma experiência de vida incrível.
Quanto tempo andaram pela estrada?
26 dias.
26 dias?
25 ou 26 dias.
Quase um mês. Boa.
E foi giro, porque nós saímos daqui com a ideia de: "Nós somos malucos, vamos estar um mês em viagem." E dizemos a qualquer pessoa e o impacto é: "Tantos dias, como é que é possível?" Quando chegamos lá, todos os viajantes com quem nos cruzamos e começamos a falar de onde é que vimos, para onde é que vamos, de onde é que eles vêm, chegamos à conclusão que o nosso é um tirinho, porque é: "E vocês?" "Nós estamos há três meses na estrada, vamos estar mais." "E vocês?" "Só tenho que estar em casa no Natal." E depois nós dizíamos: "Nós temos 20 e tal dias, porque o trabalho não permite mais." "Então foi mesmo uma rapidinha, vieram aqui num instante à África e já vão voltar para casa." Portanto, é uma questão de perspectiva.
Porque há muita gente a viajar, não é?
É incrível, João.
Muita gente a viajar e com muito tempo.
Com muito tempo. As coisas mais incríveis, e temos um privilégio esta viagem, em que tu sais fora da tua zona de conforto e do normal, digamos. Conhecemos pessoas incríveis, conhecemos um casal com dois cães que encontrámos precisamente no Saara Ocidental, que iam para a África do Sul. Conhecemos um francês.
Também em veículo todo-o-terreno.
Um veículo todo-o-terreno.
Um veículo de 23 toneladas, se me permitem, um caminhão com oito rodados ou qualquer coisa do gênero.
Conhecemos o Jean, um senhor de 70 anos, de quem ficámos amigos e que agora ele ainda lá está e vem ter connosco a Alverca e vai passar aqui dois ou três dias connosco. Com 70 anos, canta sozinho num jipe, num Toyota, há não sei quantos meses por África, sozinho. É incrível. Conhecemos inúmeras pessoas, todas interessantes, porque, de facto, toda a gente que anda por ali anda a fazer viagens interessantes e é muito giro.
E inspirador ao mesmo tempo, ou não, Lucas?
Completamente. E depois é muito curioso, porque nós sentimos o sair de Marrocos para baixo é a abertura de um mundo novo, completamente. Portanto, aquilo que nós já sentimos quando saímos da Europa para Marrocos, que é: isto é um mundo diferente, aqui é tudo diferente, e saímos do continente europeu, sente-se novamente isso quando se sai para baixo, que é: ok, isto é novamente um mundo novo. Marrocos era super civilizado e já ficou para trás e agora aqui é a abertura da África mais profunda. E então, o que acontece é que enquanto que em Marrocos, ainda se vê bastante pessoas europeias e não é propriamente uma festa cada vez que vemos um europeu, daí para baixo, quando nos cruzamos com alguém que percebemos que é europeu e que anda neste tipo de viagens, nós sentimos logo necessidade ou vontade de ir falar com a pessoa e eles também connosco, porque começa a ser mais raro e são sempre pessoas já mais interessantes, porque quem se mete numa maloqueira destas e tão longa, tem que ter uma história de vida qualquer interessante para poder estar ali e para estar a ir para os países que vai. São sempre histórias interessantes, são sempre pessoas interessantes. É engraçado.
É engraçado. Vocês são músicos. Tu, Lucas, és percussionista e baterista.
Baterista, sim.
E tu, Nuno, guitarrista.
Sim. Sempre foi a minha profissão desde os 13 anos.
Uau, desde os 13, muito bem. A música de alguma forma é também um dos objetivos da vossa viagem ou não?
Sim e não.
Tem alguns temas originais que foram compostos ora em Cabo Verde.
Não é uma razão para viajar, mas estão atentos à música que se vai fazendo.
E levamos os instrumentos.
Nós temos vídeos, levámos três guitarras para nós os dois e um colega nosso que também toca, não é profissional, mas também toca um bocado guitarra, e então chegamos a estar em acampamentos, nós os três a tocar. E depois, mesmo antes de estarmos a tocar, o pessoal parece que o nosso setup tem íman, começam-se a juntar as outras pessoas, outros viajantes. E chegamos a estar a tocar e de repente está um polaco e está um espanhol, e o pessoal todo ali a assistir.
Mas isso onde? Onde estacionam o jipe?
Num espaço. Tivemos num espaço que é o Zebra Bar.
Zebra Bar é onde?
Zebra Bar é no norte do Senegal, junto a Saint-Louis.
Exatamente.
Que é um sítio onde toda a gente reabastece de água, de combustível, resolve uma ou outra situação que haja no veículo. Reabastece de alimentos. Tornou-se um sítio que toda a gente ali para.
Ok, é um entreposto.
É um bocado um entreposto.
É um camping, basicamente, ou seja, aquilo não é um hotel, é um camping, é um espaço aberto com árvores. Estivemos com macacos aí por cima dos jipes de manhã.
A irem comer-nos a comida e o lixo.
E é basicamente um espaço que paga-se qualquer coisinha e é mesmo: "Então onde é que podemos parar?" E eles: "Parem para aí, escolham um sítio que vocês estejam bem." E então há pessoas de todos os países, basicamente.
Então parámos e começámos ali a cozinhar e tal, e de repente vem um polaco engraçadíssimo, o Cris, que vai logo para o pé de nós e tínhamos ali comida e bebida e foi uma noite incrível. Depois veio o Eric, que era um espanhol de Barcelona, e fizemos ali-
Mais uma vez, são tudo casos de pessoas que têm vidas muito particulares. Por exemplo, esses polacos, ele viajava com a mulher, já tinham ido até à Libéria, Serra Leoa, já tinham ido mais para o sul, já estavam a voltar para cima. E são pessoas que nos disseram objetivamente: "Não, nós temos várias empresas, mas daqui para frente, depois desta viagem", já o tinham feito de certa forma para esta viagem e iam fazer daqui para frente, "nós só vamos ter empresas que trabalhem sazonalmente. Portanto, vamos trabalhar seis meses, viajar seis meses."
Que luxo.
Pois, são pessoas que vivem para isto, completamente.
Cada vez mais é o meu sonho.
É?
É, completamente.
Portanto, dar concertos seis meses e andar seis meses por aí a vadiar. A vadiar no bom sentido, claro.
Manter a empresa a funcionar e os concertos a acontecerem, as produções a acontecerem e viajar pelo mundo.
Boa.
Voltando só um pouquinho atrás.
Claro.
Nós chegamos a Guerguerat. Guerguerat é a fronteira de Marrocos para a Mauritânia. E então quando chegamos a Guerguerat, um de nós disse: "Chegamos ao fim do mundo." Como é que se chamava a localidade?
É a localidade antes, chama-se Bir Gandouz, e tem um hotel até que é conhecido da malta que faz este tipo de viagens, que é o Hotel Barbas. E basicamente nós chegamos já ao fim do dia.
As estradas não são asfaltadas, é paupérrimo, não tem nada, só tem esse hotel e mais meia dúzia de casas.
E era o que meu pai ia dizer, que um colega nosso que ia conosco disse assim: "Chegamos ao fim do mundo, pessoal". Porque de facto era a sensação que dava. Já nem as estradas são alcatroadas, as casas já nem têm todas telhado, as bombas de gasolina já nem teto têm, portanto, chegamos ao fim do mundo.
De repente, vamos para a Mauritânia, percorremos toda a Mauritânia, percorremos todo o Senegal. Quando regressámos, a sensação que tivemos foi que chegámos à Europa.
A mesma pessoa que tinha dito isso 20 dias antes, ou 18 dias antes, que já nem se lembrava disso, eu é que depois o lembrei, com a mesma espontaneidade, ele disse: "Pessoal, chegamos à Europa."
Ilustra bem o que é daí para baixo.
É outro mundo.
É outro mundo.
É outro mundo, mesmo.
Muito bem. E o veículo, portou-se bem?
Sempre sem incidentes. Tivemos um, aliás.
Então.
O vidro, devido à quantidade de areia e pó, deixou de fechar.
Que é pior do que deixar de abrir, exatamente.
O vidro do condutor deixou de fechar.
Ficou caído na porta.
Abriu e já não fechou. Portanto, desmanchámos os comandos, lubrificámos, fizemos trita pomadinha e efetivamente não fechava. O que é problemático, porque a densidade populacional é de tal ordem, em algumas zonas do Senegal, nem na praça Jamaa el-Fna, em Marrocos, que é de uma densidade populacional incrível, nós já tínhamos presenciado tanta gente. Portanto, é complicado às vezes ir em localidades tão devagar e com os vidros sem fechar. E depois à noite também. Então desmanchámos a porta, fizemos uma ligação direta do motor, fizemos ali dois fios e andámos com dois fios pendurados na janela e quando queríamos abrir e fechar, ligávamos a massa e quando era para abrir, era assim, quando era para fechar, era assim e conseguimos. Foi a única avaria que o nosso veículo teve.
Ok, rajaram o vidro depois pelo caminho ou chegou assim a Alberca?
Ainda está.
Ainda está, exatamente. Por isso é que nós dissemos: então o veículo está à espera da próxima, mas ainda precisa de um bocadinho de carinho sobre esta, antes de pensar na próxima.
Muito bem.
Isto até acabou por ser giro, porque daí para a frente, este já era o nosso cartão de visita para meter conversa num posto de controlo policial.
Éramos parados por militares ou polícias regularmente.
Eu fazia questão que eles me vissem a abrir o vidro, porque eles ficavam logo: "Quem são estes gajos? Terroristas não podem ser." E era logo ali para quebrar o gelo, no fundo, eles perguntavam o que era aquilo, de onde é que vinha.
É um bom desbloqueador de conversa.
Completamente.
Vocês partilharam o volante ou só o Nuno é que conduziu?
Sempre.
Íamos alternando.
Muito bem. E deram-se bem ou não, pai e filho?
Sempre.
Não pode ser.
Sempre.
Lucas.
Devo dizer que surpreendentemente bem.
Abre o portal das queixas.
Devo dizer que até me surpreendeu pela positiva. Nós temos uma relação fantástica e até às vezes é difícil das pessoas acreditarem, porque nós já trabalhamos juntos, para além de vivermos juntos e viajarmos juntos. É uma receita para as pessoas se cansarem umas das outras. E eu aqui pensava mesmo, não só nós, mas até com o Paulo, que foi o nosso companheiro de viagem, eu pensei: é inevitável cansarmos uns dos outros, porque são tantos dias, e dias tão intensos e tão longos, e com momentos de estresse, às vezes com cansaço, eu ia preparado para isso.
Tem tudo para dar da greneira.
Exatamente. Às vezes nós próprios já não estamos com a mesma clareza de espírito para lidar até com diferenças de opinião. Uma pessoa acha que se deve ir para X sítio, o outro acha que se deve ir para Y, e basta isto para desencadear um problema. E de facto não foi o que aconteceu. Nós chegámos cá e tivemos uma ou outra questãozinha.
Somos seres humanos.
Somos seres humanos, exatamente.
Que questãozinha? Já agora.
Não me lembro.
O que é que foi? Não te lembras nem.
Não me lembro, mas tipo: "Vamos antes olhar e não sei o quê."
Sim, coisas ligeiras.
Coisas de lana caprina.
Sim.
Muito bem. Estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Então têm convosco ou possuem algum objeto que tenham trazido das vossas viagens e que seja especial? Nuno.
Na Austrália fizemos uma viagem espetacular, mil e tal quilómetros por uma estrada no meio de uma floresta, que tinha um entreposto, e tinha um posto de polícia com polícia, tinha um posto de correios com um indivíduo a trabalhar lá dentro e tinha uma loja que tem tudo. A loja de conveniência, mas ali tem embraiagens, tem luvas, tem roupas, tem inseticidas, tem lanternas, e dessa loja nós comprámos um inseticida que parecia um extintor. Um inseticida enorme, que anda sempre connosco. Nunca mais utilizámos a não ser na Austrália, mas anda sempre connosco. E uma lanterna também enorme, com uma série de funções. Também nunca a usamos porque é de uma estupidez de dimensão, mas anda sempre connosco. É o backup do backup do backup.
Ok, dá para iluminar um estádio de futebol, é isso?
Sim, e com mais umas particularidades.
Ok, disseste fizemos, tu e o Lucas, a Austrália.
Sim.
Não sabia disso. Quando é que foi essa viagem?
Em 2020.
Não foi nada.
19?
Não, é mais recente.
21.
24, por aí.
Não, 24 fomos à Suécia e Dinamarca.
Então foi 23.
Ah, já tínhamos feito essa viagem até ao norte da Europa.
Não sabia. A do norte da Europa. Vamos falar sobre ela na segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com os músicos Nuno e Lucas Ferreira. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com Lucas Ferreira e o pai, Nuno. Eles realizam desde a pandemia viagens num veículo todo o terreno em particular, porque vocês são proprietários de dois veículos. Um é um monster off-road que bebe muito. E esse é para andar por aí armado em músico americano, é isso?
Temos um Jeep Wrangler muito equipado, preparado para este tipo de viagens, imenso, espetacular, incrível, mas viajamos com o SuzukiQue tem 430 mil km, que fomos buscar com 0 km em 98 e no qual fui buscar o Lucas à maternidade ou viemos pra casa da maternidade. É com este jipe que nós fazemos estas viagens.
Muito bem, portanto o Lucas tem uma ligação a este veículo desde a nascença.
É especial. Devem ser poucas pessoas que podem dizer que já levam quase 100 mil km feitos a conduzir o carro em que vieram da maternidade. Não é muito fácil. Já tenho histórias infinitas com aquele jipe. E até é giro pra mim às vezes imaginar que da mesma forma que os meus pais andaram naquele jipe quando tinham pouco mais do que a minha idade, agora ando eu a fazer viagens semelhantes à que eles faziam na altura e até com a minha namorada. É interessante.
É interessante. Quem terá mais quilômetros, o Lucas ou o Suzuki?
O Lucas ou-
Ou o Suzuki?
Ah, o Suzuki, seguramente.
Então ainda não chegaste aos 400 mil, é isso?
Não. Com quatro anos de carta, acho que tenho bastantes, mas 400 mil é muito. Agora só uma curiosidade muito rápida, que é: de facto o Wrangler, que também já fez algumas viagens, mas serviu precisamente, porque disseste armado em músicos com um jipe americano.
Era uma provocação.
E ele apareceu num videoclipe. Gravei um videoclipe em que o carro apareceu, porque como ele tem teto de abrir, era giro, dava pra estarmos com a cabeça de fora a cantar a música, etc. Portanto, já apareceu num videoclipe.
Muito bem. Vamos recuar. Vocês realizam viagens off-road já há algum tempo, desde sobretudo ali a época da pandemia. Como dizia na introdução do programa, este jipe estava guardado há algum tempo na garagem, não era, Nuno?
Este jipe viajou muito, se calhar até um pouco mais do que o Lucas nascer, após o nascimento do Lucas em 2003. E o jipe viajava muito e sempre off-road, por Portugal, por Espanha, por Marrocos, fundamentalmente. Entretanto, a vida e o trabalho sempre em excesso, e este jipe era o carro que estava ali à porta de casa, que era o único que eu tinha a chave e que saía, mas superdescuidado.
Era o carro pira o pão, é isso?
Era um carro pra andar ali nas voltinhas, superdescuidado. E é uma relíquia que está ali, ele aguentou isso, apesar de na altura ter ficado triste conosco, mas depois quando começamos a dar-lhe carinho e a prepará-lo e a equipá-lo para fazer estas viagens, está aqui como se fosse novo.
Vocês fizeram desertos espanhóis, foram ao Gorafe e a-
E Tabernas
...Tabernas. Tabernas é por cima da Almeria.
Exatamente.
O Gorafe é depois uma diagonal para o interior de Espanha. Espetacular esse Gorafe, não é?
Fizemos Sierra Nevada também, ou seja, aquilo que foi uma sequência dos três e terminamos precisamente com um banho no mar em Almeria. Estava muito calor, porque fizemos no verão.
10 dias.
10 dias. Sempre somos nós que organizamos as viagens e os nossos companheiros basicamente vêm atrás de nós e nós é que vamos proporcionando as experiências. E então foi a cereja no topo do bolo pra todos.
Um mergulho no mar.
Exatamente, em Almeria.
Muito bem. Olha, e os desertos espanhóis, Tabernas e Gorafe.
Muito giro.
Fantástico.
Parece que estamos no Colorado. Aliás, há uma zona no Gorafe que se chama Los Colorados.
Porque tem um estúdio de televisão onde foram feitos inúmeros filmes que nós vimos todos.
Aqueles os western spaghetti.
Exatamente. Onde os carros que foram as estrelas dos filmes, estão empilhados no estúdio e tem lá os cenários todos, os saloons e aquelas coisas todas. É muito giro, vale a pena.
E outros estúdios onde foram feitos montes de filmes são em Ouarzazate, em Marrocos, onde também já estivemos.
Onde também já estivemos.
Muito bem. São apaixonados por cinema, vocês, Nuno e Lucas?
Consumidores.
Não particularmente, não.
Muito bem. Vamos falar dessa tal viagem que ficou aqui pendurada na orelha no final da primeira parte das conversas do Fim do Mundo esta semana. Tu foste buscar o Lucas à Holanda, não foi?
Posso introduzir.
Introduz.
Nós fomos levar o Lucas à Holanda, era a primeira vez que ele ia ficar longe de casa por seis meses ou sete meses a fazer Erasmus, ia acabar a sua licenciatura em Gestão. E então fomos lá levá-lo, depois eu cheguei cá, agarrei no jipe e fui lá levar-lhe coisas. Aqueles protestos idiotas que os pais galinha arranjam para ir ter com os filhos. Fui lá levar-lhe uma série de coisas com um amigo meu que também costuma fazer estas viagens conosco, fomos os dois. Voltamos. Entretanto, quando o Lucas terminou o Erasmus, isto em janeiro, estava um inverno super rigoroso, e o Lucas andava assim: "Temos que ir pra neve". Está bem, então vá. Olha, eu vou-te buscar e depois aí decidimos se vamos pra esquerda, pras ilhas, pra Grã-Bretanha, ou se vamos pra direita, vamos pra Este, ou se vamos pro norte. Então eu saí daqui, três ou quatro dias depois cheguei à Holanda por caminhos.
Por caminhos, ou seja, sempre off-road.
Quase sempre off-road e estradas muito secundárias. Entretanto, chego à Holanda e: "Bom, filho, olha, estamos aqui. Então vá, queres ir pra onde?" E o Lucas agarra no telefone e: "Deixa-me ver onde é que há mais nevões". E então estavam a acontecer nevões no norte da Europa, em Hamburgo, e na Dinamarca e na Suécia estava tudo coberto de neve. Então arrancamos pra norte, sempre debaixo de neve. Estamos a falar de janeiro, temperaturas -15, -20, -10, sempre, e fomos por aí fora os dois.
Que bela maneira de fechar o Erasmus.
Quase um mês.
Um mês durou essa viagem?
Quase, praticamente. 10 mil km.
10 mil km. Qual foi o percurso? Rapidamente, Lucas.
Basicamente para o meu pai foi até à Holanda, portanto Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda. Depois juntos passamos ali pelo norte da Alemanha rumo à Dinamarca.
Norte da Holanda, norte da Alemanha, sim.
Exatamente. Depois da Dinamarca atravessamos para a Suécia. Não conseguimos conhecer muito da Suécia, mas fizemos ali o sul, ainda estivemos nuns parques naturais, etc. Tudo coberto de neve. Depois apanhamos um ferry da Suécia para o norte da Alemanha, mas já do lado este, junto à Polônia, e descemos sempre pelo lado este da Alemanha, fomos a Berlim, depois estivemos em Dresden, fizemos todo o este da Alemanha.
Foi uma sensação incrível, peço desculpa, entrar em Berlim por aqueles caminhos, aqueles campos onde na Segunda Guerra Mundial temos a imagem. Sempre entrámos em Berlim off-road.
Portanto, tens uma memória cinematográfica da Segunda Guerra Mundial.
Incrível. Só sentindo.
E isso era uma coisa que eu até ia dizer mais pra frente, que é completamente diferente. Mesmo que uma pessoa até vá a todos os sítios que nós fomos separadamente de avião, o impacto é diferente de estar neles seguidos. Ou seja, hoje estou em Berlim, agora sigo de Berlim para o sítio seguinte, que foi, por exemplo, a República Checa. Eu sinto as diferenças com muito mais clareza, porque mesmo que eu voasse para Berlim, estou lá agora quatro dias e fico a conhecer Berlim, volto, e daqui por um mês vou para a República Checa, eu não fui de um sítio para o outro. São duas viagens diferentes. Quando as coisas acontecem na sequência, nós sentimos: "Ontem os quartéis de bombeiros eram assim e hoje estão assado, ontem os sinais de trânsito eram assim e hoje estão assado". Portanto, nós vemos as diferenças entre os sítios com muito mais clareza.
E conhece melhor os países, não é? Porque as capitais, enfim.
Atravessámos a República Checa toda, praticamente.
O que eu ia dizer era porque as capitais muitas vezes só representam as próprias capitais, não representam os países.
Muito ilusórias.
Algumas são fantásticas, mas pronto.
E ias a dizer sobre a República Checa, Nuno.
Atravessámo-la de-
Agora é Chéquia
...norte e fizemos tudo, percorremo-la praticamente toda em off-road. Andámos por pinhais imensos e temos filmagens de drones e fotografias incríveis.
Isso mudou a ideia pré-concebida, não sei se tinham uma ideia pré-concebida, sobre o que é a Europa, Nuno?
Completamente. Eu digo isso muitas vezes, a primeira vez que eu fui a Marrocos, então o Lucas não era nascido, era em 2000, e a imensidão e o que se percorre. E na Europa senti exatamente a mesma coisa, não com desertos de areia, mas com desertos a nível humano, obviamente, florestas inimagináveis, em que vamos centenas de quilómetros, às vezes queremos comprar pão e não há um sítio onde comprar pão. Portanto, a Europa é de facto imensa. Países como a França e como a Alemanha são efetivamente imensos quando se palmilha de aldeia em aldeia e não de cidades em cidades. É incrível, mudou completamente. Tenho isso incutido, absolutamente.
Porque há sempre aquela ideia, nós olhamos para a Europa sempre como, quer dizer, lá está, olhamos para a França e imaginamos Paris. Olhamos para a Alemanha e imaginamos Berlim, mas a Europa é muito rural também, não é? Diz, Lucas.
Até é mais do que isso, porque ambos, tanto o meu pai como eu, mas até mais o meu pai, nós já conhecíamos bastante para além das capitais. O meu pai conhecia se calhar todas as cidades de França ou quase. E mesmo assim é diferente, porque lá está, ele esteve nessas várias cidades, mas de rolá, de certa forma, ou foi àquela cidade. É diferente de ir percorrendo todas e o que está entre elas. Mas já agora, eu há pouco fiquei com o itinerário por terminar. Da República Checa passámos para a Áustria. Há ali uma zona que é muito gira porque ora se está na Áustria, ora se está na Alemanha. Uma pessoa já nem sabe exatamente em que país é que está, porque vamos sempre ao longo da fronteira e fizemos depois os Alpes todos. Fizemos os Alpes Austríacos, os Alpes Italianos e os Alpes Suíços. Ali a zona francesa já fizemos pouco porque já tínhamos esgotado todos os extras que tínhamos de tempo.
Eu tinha um avião para apanhar, para ir tocar fora de Portugal, no dia a seguir à nossa viagem.
E eu ia começar o semestre da faculdade e o estágio e tudo.
Esperaram até à última.
Chegámos à 01:00 da manhã da véspera de eu começar o semestre e o estágio da faculdade, não dava para esticar mais.
Foram 10 mil quilómetros, quantos países?
14.
14 países.
Incluindo Portugal.
Incluindo Portugal, muito bem.
E contando o Liechtenstein, que chamar de país talvez esteja a ser ambicioso.
Muito bem. Então os ouvintes que gostam de off-road e que estão já a planear as suas viagens para os próximos meses. Nuno, o que é que tu recomendas como, por exemplo, estrada off-road na Europa?
O que é que eu recomendo como estrada off-road?
Ou seja, o que é que te fica na memória desta viagem?
Ao norte da Europa?
Uhum.
Eu lembro-me de estarmos a fazer bosques na Dinamarca, onde havia animais selvagens e incrível. Bosques imensos que fizemos em que um estava a cozinhar no jipe, parávamos o jipe e o outro estava a vigiar. Ou na Alemanha, em França. França é um país fantástico e não há quaisquer tipo de restrições legais para se fazer off-road. Toda a Europa é maravilhosa, é querermos.
Muito bem. E tu, Lucas?
Sim, eu estava aqui a pensar numa recomendação para fazer e o meu pai tocou num ponto que é relevante, que é: em grande parte da Europa, não existe a liberdade que existe em Portugal para andar fora de estrada. Portanto, algumas das recomendações que eu poderia fazer têm que ser fora do ar. Alguns dos sítios por onde passámos, até porque principalmente mesmo onde se pode andar fora de estrada, o campismo é bastante tricky. Agora, vou recomendar uma zona que ainda não fiz, mas que estou com muita vontade, a zona dos Balcãs. Tudo isso acho que não há restrições nenhumas para acampar. A Dinamarca é capaz de ter sido os sítios mais maravilhosos onde andámos fora de estrada, as florestas e depois com tanta neve, é absolutamente incrível, mas na perspetiva de campismo, não sei se é muito recomendável.
Pois.
É fantástico, mas não sei se é recomendável.
Deixa-me lá ver. Cometeram muitas ilegalidades?
Não, só um bocadinho.
Isso também nós pensámos. Refugiámo-nos no mau tempo. Está tanta neve que ninguém nos vem aqui buscar. Nesta altura, ninguém chega.
Não incomodaram ninguém, não estragaram a paisagem.
Absolutamente.
Pelo contrário, até se pudermos contribuir em algum aspeto para a paisagem, às vezes até quando acampamos num sítio e vemos: "Epá, já tiveram aqui pessoas e está aqui algum lixo". Da forma que recolhemos o nosso, até recolhemos o lixo que já lá estava.
Muito bem. Olha, estamos a chegar ao fim. Antes de fazermos check-out, permitam-me aqui uma pergunta: vocês têm planos para viajar sempre juntos ou separados?Nuno e Lucas.
Obviamente não será possível. O meu filho está a crescer, tem a vida dele. Eu quererei viajar com ele sempre que seja possível e sempre que ele queira viajar comigo, para mim é um prazer.
Muito bem. E tu, Lucas?
Digo um bocadinho a mesma coisa, na verdade. Naturalmente, há muitos tipos de viagens e há várias pessoas com quem gostamos de partilhar este tipo de coisas. Agora, aventuras destas não há assim muitos malucos como o meu pai no mundo.
Se calhar aventuras destas só iremos fazê-las os dois, eu digo mesmo.
Sem dúvida.
Precisamente isso, às vezes há pontos que têm que ser muito escrutinados e muito discutidos. As implicações de ir por ali são estas, as de irmos por aqui são outras. Ainda agora tivemos que mudar, estávamos quase sem combustível na Mauritânia e tivemos que mudar e fazer outro trajeto, que era menos arriscado.
Quem é o mais aventureiro dos dois?
Tem momentos.
Dependendo se é de manhã ou tarde?
Não. Depende do tipo de aventura, até.
O tipo de aventura.
Depende dos critérios ou depende do que é o objetivo.
Ok.
O Lucas às vezes ainda tem a tendência: "Está ali esta picada com 200 metros, cheia de neve, quase vertical. Opa, embora aí fazer isto." "Lucas, não vás, estás a 5000 km de casa. Não vamos fazer essa picada, porque se ficarmos aqui com o carro atascados, ninguém nos vem aqui. Aliás, não é legal estarmos aqui." Esta parte já não era suposto ter dito.
Ninguém sabe onde é que foi.
Como é que eu posso dizer isto? A maturidade vai e vem em ambos. Ou seja, todos temos os nossos momentos imaturos de: "Isto era tão fixe." E esquecemos um bocadinho. Sim, mas olha, por motivos óbvios, não é uma boa ideia. Então o outro vai relembrando.
Há um adulto e um adolescente que se vai acendendo e apagando.
Exatamente.
E é espetacular.
É bom, é ótimo. Desde que ninguém saia aleijado.
Total confiança e cumplicidade, mas confiança, neste tipo de coisas, é o fundamental. E em quem é que eu vou confiar mais do que confio no meu filho? Aliás, ele poderá dizer o mesmo.
Sem dúvida, isto liga-se com a questão anterior, que é: por que eu disse que aventuras destas não faria com outra pessoa? É porque para podermos estar nesse estado de espírito tranquilo e para fazer essas "irresponsabilidades", vou pôr aqui entre aspas, é preciso estarmos com uma pessoa ao nosso lado em quem confiamos inteiramente e no seu judgment.
Atenção, estas viagens são muito preparadas e nas nossas cabeças e temos coisas nas nossas viagens, se calhar as outras pessoas têm uma máquina de fazer café elétrica, nós não. Nós temos coisas de suporte básico de vida, tudo o que é de emergência médica, dependendo do sítio para onde vamos, levamos tudo.
Vão preparados.
Que permita chegar mais longe e, sobretudo, voltar a casa da mesma forma que fomos.
Muito bem, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout?
Bora.
Vamos a isso. Vou pedir-vos para completarem as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...
Um kit de emergência médica com suporte básico de vida.
Ok. E Lucas?
Um canivete, que é uma curiosidade, porque até em aeroportos, em inúmeros aeroportos, já passei com o meu canivete.
Certeza. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?
No meu caso-- fala tu primeiro.
Lucas.
No meu caso, foi uma viagem aos Estados Unidos, que não foi assim em overland, mas em que perdemos passaportes, perdemos aviões, aconteceram inúmeras peripécias. Ia gravar um videoclipe com uma pessoa que ferrencialmente inviabilizou um dos dias, apanhei uma febre de 40 graus, portanto, ficava aqui o resto do dia.
Muito bem, temos que gravar um programa então, só contigo. Qual é a viagem com mais peripécias, Nuno?
Uma viagem a Marrocos em que entrámos por um rio, tinha sido após o terramoto, portanto, os caminhos que saíam do rio estavam destruídos, ou seja, fomos obrigados a fazer mais 70, 80 km dentro desse rio, em que havia gargantas que o carro não cabia. Então tivemos que estar a partir a picareta paredes com marroquinos para conseguir passar com os veículos. Foi duro, era suposto ser três ou quatro horas e foi um dia inteiro, e foi com sangue, suor e lágrimas.
Isto com o pequeno disclaimer de que o meu pai no primeiro dia de viagem queimou as mãos todas. Tivemos um pequeno incêndio num grelhador.
Onde?
No jipe.
Em Marrocos.
No primeiro dia de viagem. E o que é que uma pessoa boa da cabeça faria? "Eu tenho que voltar para casa porque magoei-me à séria." Só que o meu pai, como é um maluco saudável, e eu digo isto a falar a sério, é maluco como eu e digo isto numa perspetiva altamente positiva. Fez a viagem toda, foi um guerreiro. Obviamente, nesse ano conduziu muito pouco, mas foi uma peripécia muito grande. Demorou quase um ano a recuperar, quase na totalidade dessa peripécia.
Bolas. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
Aqui acho que posso responder pelos dois. Foi do Senegal para a Mauritânia, agora vindo para cima, porque nós passámos da Mauritânia para o Senegal sem ter visto para a Mauritânia segunda vez. Portanto, tínhamos visto para a primeira entrada no país, a vez que passámos para baixo. Quando íamos passar para cima, nós saímos do país para o Senegal sem ainda ter o visto do Senegal para a Mauritânia novamente.
Como é que fizeram isso? À velha maneira de toma lá e esquece.
Não, tivemos que tratar do visto, mas é tudo complicado nestas fronteiras. Muito léx, diria eu.
A recordação de viagem mais cara?
Para mim foi o Carnet de Passages da Mauritânia para o Senegal, que é um imposto que, apesar de ser do Estado, já negociámos e a próxima vez que lá formos já vai ser mais barato. Mas custou-me imenso dar aqueles 250 € do Carnet de Passages, que é para garantir que nós, como são veículos com mais X anos, para que não os vendamos lá. Na prática, é isso.
Que é uma chatice, porque os carros lá são todos velhérrimos.
Pois claro.
A minha recordação mais cara, vou ter que voltar a essa viagem dos Estados Unidos. Cinco voos. Perdemos o avião, éramos cinco pessoas, portanto, foram cinco voos dentro dos Estados Unidos, comprados do dia para o dia.
Muito bem. A refeição mais estranha, qual foi, Nuno?
Para mim foi na Austrália, um caranguejo panado, feito à maneira-- eram aranhas e eu não gostei.
Lucas.
Eu diria nessa viagem à Europa, portanto, foi um dia que nós estávamos com muito pouco tempo, mas eu disse: "Opa, eu não quero comer uma sandes, eu tenho fome, eu preciso fazer qualquer coisa." E então fizemos assim.
Estava a escurecer, eram 15h.
E eram 15h, estava quase de noite, porque era janeiro. E então decidimos fazer assim um frango no tacho, fizemos muito rápido. E o que aconteceu? Para ser rápido, não abrimos mesa nem cadeiras, eu estava com o prato de metal na mão, só que o prato estava muito quente, o prato queimava-me porque era de metal. Então eu tinha que pousar o prato, pousei-o na neve, só que depois a neve derretia com o calor do prato e o prato deslizava e ia a fugir. Então foi uma refeição gira, porque eu alternava entre queimar as mãos e ter que ir a correr atrás do prato.
Gostava de viajar com? Lucas.
Gostava muito de viajar com o Mário Pinto numa das suas viagens de reconhecimento. Não na viagem com o grupo todo, mas aquelas que ele fará sozinho, ao seu ritmo, de explorar um sítio para depois trazer cá um grupo. Adoraria um dia poder fazer com ele uma viagem dessa.
O Mário Pinto é líder de viagem, é isso?
Sim, tem a maior empresa em Portugal desse tipo de viagens. É lá do norte. É uma pessoa com quem nunca tive a oportunidade de privar, mas se um dia tivesse, e/ou de viajar neste contexto, gostaria imenso.
Nuno, gostava de viajar com?
Adoraria viajar com o José Megre, que há muitos anos atrás fez aqui até à África do Sul. Não havia GPS, não havia rádios, não havia nada dessas coisas. Hoje temos tecnologia.
Exatamente. Olha, chegamos ao fim. Qual foi a música que trouxeram para fechar a conversa do fim do mundo esta semana?
Num dos meus álbuns de originais, no qual o Lucas toca bateria e percussões e nos concertos ao vivo toca guitarra, essa música foi pensada e composta em Marrocos. Aliás, como a própria capa evidencia.
Essa música que se chama?
"Longe de Mim".
"Longe de Mim". Muito bem. Nuno e Lucas, foi um gosto. Muito obrigado por terem vindo às conversas do fim do mundo.
Muito obrigado, João.
Continuem assim, loucos.
Saudavelmente loucos.
Exatamente.
E que daqui por um ano estejamos aqui a contar novas histórias. É sinal que fizemos novas viagens.
Irei ao Turcomenistão. Agora também, em breve.
Muito bem. Nuno e Lucas, obrigado uma vez mais. Boa sorte. Muito obrigado.
Muito obrigado.
Obrigado.
"Longe de Mim", música original de Nuno Ferreira e de Lucas Ferreira a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Estamos de regresso de oito em oito dias, já sabem. Sejam bons e boas viagens.